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Eros e Tânatos: nossas porções de vida e morte por Samara Megume


Amor e ódio, sexualidade e agressividade, vida e morte, são forças que habitam o ser humano e estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos mais banais quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade. Tais pares de opostos estão misturados, amalgamados em tudo que o ser humano faz, pensa e sente. Por exemplo, onde há amor deve haver ódio, toda sexualidade necessita de um grau de agressividade, em proporções variadas. Essas polaridades são os cernes dos conflitos psíquicos. Em psicanálise, elas podem ser nomeadas pelos conceitos de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos).
A mitologia apresenta uma bela metáfora para compreendermos a amálgama entre as pulsões. No mito grego, Eros (cupido na mitogia romana) é o deus do amor e Tânatos, deus da morte. Eros, o mais belo dos deuses, possui arco e flecha com os quais costuma enlaçar de amor homens, mulheres e deuses. Segundo consta na mitologia, certo dia Eros adormeceu numa caverna, embriagado por Hipno (deus do sono, irmão de Tânatos). Ao sonhar e relaxar suas flechas se espalharam pela caverna, misturando-se às flechas da morte. Ao acordar, Eros sabia quantas flechas possuía. Recolheu-as, e sem querer levou algumas que pertenciam a Tânatos. (Esopo, Grécia Antiga in Meltzer, 1984). Sendo assim, Eros passou a portar flechas de amor e morte (Tanatos).
Na psicanálise o conceito de pulsão não é nada simples, visto que é uma abstração teórica necessária, que busca romper com a dicotomia mente e corpo. A pulsão seria um conceito limítrofe entre o somático e o psíquico. Algo que impele o organismo a agir em determinada direção. Diferentemente do instinto animal, a pulsão possui uma plasticidade em relação ao seu objeto. Além de um objeto (Objekt), a pulsão se caracterizaria por possui uma pressão (Drang),  uma meta (Ziel) e uma fonte (Quelle) (Freud, 1915), sendo uma representação psíquica complexa. Posteriormente Freud (1920) irá ampliar tal compreensão, passando a definir a pulsão como algo anterior a representação psíquica das estimulações somáticas, que visa o rebaixamento completo das tensões e por isso, algo que conduziria o organismo ao estado anterior à vida, ao inorgânico.
Ao longo de sua obra Freud constrói dois dualismos pulsionais. O primeiro, introduzido e desenvolvido a partir de 1910, refere-se aos pares: pulsões do eu (autoconservação, que tem a fome e a sede como protótipos) e as pulsões sexuais (não apenas as de meta sexual, mas as inibidas, derivadas e sublimadas).  Esse primeiro dualismo foi resumido por Freud (1920, 1930) pela fórmula Eros e Ananke(necessidade). O amor e a fome seriam o motor da existência humana e da humanidade.
A partir de 1920 Freud constrói um novo dualismo pulsional. As pulsões do eu (autoconservação) e sexuais passam a integrar o mesmo grupo pulsional, sendo representadas por Eros – a Pulsão de vida. Eros teria a função de amalgamar partículas fragmentadas da substância viva e criar unidades cada vez mais complexas, buscando preservar o organismo vivo e a espécie.
Fundamentado em estudos da biologia Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte (Todestrieb), que teria como representante o sadismo. Ela anuncia a tendência fundamental de todo ser vivo de retornar ao estado inorgânico, a busca pela   redução completa das tensões. Segundo Freud (1920) o “objetivo da vida é a morte, e remontando ao passado: o inanimado já existia antes do vivo” (p.161). Voltada para o interior à pulsão de morte se expressa na autodestruição, e para o exterior se manifesta como pulsão de destruição.

Freud (1923) escreve que cada grupo de pulsões corresponderia a um processo fisiológico específico. A pulsão de vida teria processos de construção e a pulsão de morte, de demolição, sendo que em toda matéria viva esses dois processos estariam atuantes. Em outras palavras, a pulsão de vida teria um funcionamento conjuntivo, agregando as substâncias vivas e criando unidades cada vez maiores, ela seria ligação. Já a pulsão de morte teria um funcionamento disjuntivo, desfazendo o que foi construído, desligando. (Freud, 1925). Nesse sentido, Garcia-Roza (1995) irá afirmar que tal dualismo não se refere à natureza da pulsão, mas a um dualismo de modos de pulsão: “se a pulsão se faz presente no aparato anímico promovendo uniões, conjunções, ela é tida como de “vida”; se ela se presentifica no aparato anímico disjuntivamente, “fazendo furo”, então é tida como de morte” (Garcia-Roza,1995, p.162).

Eros promove a ligação entre o sujeito com os elementos necessários a sua preservação. Também liga esse sujeito a suas vivências. Ligação entre seu passado e seu  futuro.  Ele possibilita a criação de sentidos. Cria, enfim, os laços entre os sujeitos e desses com o mundo. No entanto, a pulsão de vida não atua de forma isolada. Por isso a existência no ser humano de uma ambivalência em tudo que ele pensa, faz e sente. Amalgamada a Eros a pulsão de morte age de forma silenciosa. É o que Freud (1930) define como o mal-estar intrínseco a cultura: a destrutividade do ser humano, voltada para si mesmo ou para os outros -  esse algo que existe e que foge a norma e a criação de sentidos.  Como escreve Dostoiévski(1971), tememos o fato de que secretamente sabemos da existência de um demônio oculto, que habita todo homem. 

A vida é o conflito, se mostra, faz barulho. Já a morte é taciturna, quase invisível. Quando Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte ele amplia conceito de pulsão, que passa a ser compreendido como um impulso inerente à vida, algo anterior à sexualidade, anterior a representação psíquica, algo que não é visível, nem dizível.

A pulsão de morte está para além do princípio do prazer, além do aparelho psíquico e só se mostra quando amalgada a pulsão de vida. Tânatos entendido como pulsão de destruição é pura dispersão, potência dispersa. Por isso Freud (1920) irá afirmar que ela é uma pulsão por excelência. A pulsão de vida seria algo já capturado pelo psíquico, cujo objetivo também seria conduzir o organismo a morte, mas a própria morte – preservando a vida para que ela morra ao seu próprio modo. (Freud, 1920)

Trabalhando para Eros, a pulsão de morte pode ser intensamente criativa. Como escreve Garcia-Roza (1995) a partir do desarranjo causado pela pulsão de morte é que se pode ir em busca do diferente, do novo. A nossa agressividade pode e deve ser utilizada em prol da vida. Nossos desligamentos podem nos fazer crescer. É preciso que conheçamos esse “demônio oculto” e que o coloquemos para trabalhar a nosso favor.

As definições do conceito de pulsão e das teorias pulsionais que apresentei estão muito longe de fazerem juz à complexidade do conceito e suas implicações. O próprio Freud (1920) escreve que ainda há muito a que se descobrir sobre as vicissitudes do que está para além do princípio do prazer. Mas é sempre preciso colocar um ponto final, cessar algumas ligações, pois os desligamentos são importantes e necessários. Eles dão espaço a novas formações.... Talvez seja por isso que Rubem Alves (1990) escreveu certa vez que o ser humano possui um ar de despedida em tudo que faz. Como ele escreve, “as pequenas despedidas apenas acordam em nós a consciência de que a vida é uma despedida”. Saber da nossa finitude, bem como da finitude de todas as coisas nos enlaça aquilo que realmente interessa. Flechas de Tânatos e flechas de Eros nos atravessam a todo instante e como também escreve Rubem Alves (1990), ter consciência desses instantes nos possibilita fruir “da beleza única do momento que nunca mais será...” (p.11). 


*Samara Megume Rodrigues 

Samara é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas 

  Alves, R. Tempus Fugit. São Paulo: Paulus,  1990.
  Dostoievski, F. Os Irmãos Karamázov. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1971. 
  Esopo, Grécia Antiga. In: Kovács, M, J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
  Freud, S. (1910). A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão.Edição Standart das Obras Completas.  Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  Freud, S. (1915). Pulsões e destinos da pulsão. In. Escritos sobre psicologia do inconsciente: obras psicológicas de Sigmund Freud, vol.I. Luiz Alberto Hanns, trás. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
  Freud, S. (1920). Além do princípio de prazer. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.II. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  Freud, S. (1923) O Eu e o Id. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1925). A Negativa. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1930) O Mal estar na Cultura. (Renato Zwick, trad). Porto Alegre: L&PM, 2011.
  Garcia-Roza. Artigos de metapsicologia, 1914-1917: narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

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