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Pode ocorrer delírio e alucinação na neurose?


Nada impede que, logo após o surgimento de uma alucinação, se instale um sintoma neurótico e vice-versa. É isso precisamente que Freud diz: “As três formas de defesa e, por conseguinte, as três formas de doença a que essas defesas levam, podem estar reunidas numa mesma pessoa.” E ainda: “Não é raro que uma psicose de defesa venha episodicamente interromper o curso de uma neurose.”É espantoso que essa constatação clínica, banal no fim das contas, frequentemente assinalada por Freud e corroborada incessantemente em nossa prática, ainda não tenha conseguido extirpar definitivamente o erro de generalizar um episódio psicótico para o conjunto das realidades do sujeito. Um paciente alucina ou delira e, irremediavelmente, sem qualquer discriminação, é qualificado de psicótico; como se fosse um tique mental do clínico, determinado pela imensa importância dada à psicose. Importância enceguecedora que não nos deixa matizar nem pensar uma compatibilidade de acontecimento, em uma mesma pessoa, de realidades mistas, produzidas por recalcamento e por foraclusão. Apesar de alguns textos freudianos e lacanianos apontarem nessa direção, carecemos de uma teoria da localidade dos distúrbios e da pluralidade das realidades que tenha “pego” em nossa comunidade psicanalítica. Não é que esteja ausente, prova disso é que estamos tentando propô-la; mas essa teoria da localidade não transpôs o limiar que transforma um conceito teórico no que eu chamaria de automatismo conceitual fecundo. E não o fará enquanto outro automatismo conceitual, infecundo dessa vez, prevalecer entre os psicanalistas, aquele que consiste em apreender a castração como única e, consequentemente, prejulgar que sua foraclusão determinaria a desarticulação, não de uma realidade, insisto, mas de todas as realidades do sujeito.

(Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams)

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