domingo, 15 de outubro de 2017

Psicanálises

Além da pulsão, da psicologia do ego, das relações de objeto, das orientações relacionais e do self, há diversas outras teorias dentro do esquema psicanalítico que afetaram nossas conceitualizações do caráter. Elas incluem (mas não se resumem a) ideias de Jung, Adler e Rank; a “personalogia” de Murray (1938); a “psicanálise moderna” de Spotnitz (1976, 1985); a “teoria do script” de Tomkins (1995); a teoria do “melhoramento do controle” de Sampson e Weiss (Weiss, 1993); os modelos biológicos evolucionistas (p. ex., Slavin e Kriegman, 1990), a teoria contemporânea de gêneros (p. ex., A. Harris, 2008) e a obra de Jacques Lacan (Fink, 1999, 2007).... Não resisto a ressaltar minha previsão, na primeira edição deste livro, de que os psicanalistas logo iriam aplicar a teoria do caos (teoria do sistema geral não linear) às questões clínicas, uma profecia que tem se cumprido (Seligman, 2005).
 Nancy McWilliams

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Medo de Viver

"Lowen (1980) estabelece uma relação entre o medo de viver e o de morrer. Se a vida é ser, por que temos tanto medo dela? No relato dos casos que menciona em seu livro, observamos um paradoxo, ou seja, quando o indivíduo está mais cheio de vida, fica mais consciente da morte e do desejo de morrer. Viver plenamente com as emoções é se arriscar. Para não sofrer, a pessoa pode se "amortecer", não sentir mais, mas também não conseguirá viver. Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo decorre de um medo da vida, um medo de se soltar, um medo de ser. Quando o sujeito vai recuperando a sua vitalidade no processo psicoterápico, abre o caminho para o estado de dor que havia suprimido. Ativa-se o caminho da sensação de morte, mas também se está a caminho da vida."

(Morte E Desenvolvimento Humano,  Maria Júlia Kovács. Casa do psicologo, São paulo, 1992, p.26.)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Diagnostico: de inconsciente a inconsciente

Crédito: Manuel Roberto/Divulgação
Crédito: Manuel Roberto/DivulgaçãoCrédito: Manuel Roberto/Divulgação
 "Na medida mesmo em que a formação do sintoma é tributária da palavra e da linguagem, o diagnóstico não pode deixar de se ver aí concernido. As referências diagnosticas estruturais advêm, então, num só registro. Não constituem, todavia, elementos confiáveis nesta avaliação diagnostica, senão à condição de se os poder desligar da identificação dos sintomas. A identidade de um sintoma nunca é senão um artefato a ser colocado por conta dos efeitos do inconsciente. A investigação diagnostica precisa, então, se prolongar aquém do sintoma, isto é, num espaço intersubjetivo, aquele que Freud definia como comunicação de inconsciente a inconsciente, com sua célebre metáfora telefônica."
(Joel Dor)

segunda-feira, 24 de abril de 2017

RESUMO AULA: NEUROSE, PSICOSE E PERVERSÃO


Abaixo Resumo aula: Estruturas Clínicas para estudantes da área de saúde

A Psiquiatria Clássica considera que a doença mental tem origem dentro do organismo. Busca a explicação dos distúrbios do comportamento em uma possível disfunção ou anomalia da estrutura ou funcionamento cerebral. Nesse sentido, existem mapas cerebrais que localizam em cada área cerebral funções sensoriais, motoras, afetivas, de intelecção.  Nessa abordagem da doença, os quadros patológicos são exaustivamente descritos no sentido de quais distúrbios podem apresentar.

Para a Psicanálise, o que distingue o normal do anormal é uma questão de grau e não de natureza.
Todos nos humanos mediante a passagem pelo Complexo de Édipo e conforme somos atravessados pela falta e castração nos situamos dentro de uma determinada estrutura psíquica.

Estrutura psíquica é um modo de funcionamento diante da vida, de lidar com o próprio desejo e o desejo do outro, se relacionar com o mundo, com o que nos faz falta e o que nos motiva.

De uma forma simplificada, castração é um corte pelo qual todos nos humanos passamos ao nos defrontar com nosso desamparo fundamental, somos mortais, passiveis de adoecer, não podemos ser tudo ou ter tudo. Nem ser tudo para um outro nem ter um outro todo nosso. Nem jamais formamos UM.

Mas, o bebê quando nasceu não sabia disso, ele e a mãe-ambiente era um todo. Não havia barreiras entre ele e este grande Outro. Na verdade, não havia um EU. Este EU irá se constituir a partir desta relação primeira com a mãe-ambiente.
A mãe certamente não pode viver exclusivamente para seu bebê, este bebê não é um todo com a mãe e isso é fundamental.

Denominamos função materna a função de acolher e interpretar o bebê, a criança, o paciente, ela é exercida geralmente pela mãe no início da vida do bebê, mas é independe de sexo da pessoa que cuida e é uma função ligado ao cuidado-acolhedor.
Denominamos de função paterna a função da LEI, do NÃO, não se pode ser tudo, ter tudo. Esta função assim como a função materna dão contornos a nossa experiência psíquica.

A psique é estruturada de determinado modo. Cada estrutura exclui a possibilidade de outra.  A partir do Complexo de Édipo e da forma que a Função Materna e Função Paterna deram contorno a cada sujeito temos três grandes estruturas: Neurose, Psicose e Perversão. (ficou confuso isso).

NEUROSE: Origem da palavra: Neuron (grego): Nervos -  Osis : Anormalidade

Nas neuroses “os sintomas” (distúrbios do comportamento, das idéias ou dos sentimentos) são a expressão simbólica de um conflito psíquico. O principal mecanismo de defesa na neurose é o RECALQUE ou repressão.
As neuroses podem ser subdivididas em:

NEUROSE OBSESSIVA Na neurose obsessiva o que notamos mais frequentemente é a tentativa de organização, de organizar as coisas ao redor como evitar o contato com o que foi recalcado. O contato com a verdade seu desejo e da sua falta.
O sujeito que se estrutura na neurose obsessiva tende a atender as demandas do outro, da escola, do trabalho, do parceiro de vida, de forma a não ter que entrar em contato com seu próprio desejo, suas angustias e dificuldades mais profundas na relação consigo e com os demais.
Pode ocorrer sintomas como: comportamentos compulsivos, como por exemplo, lavar a mão com frequência não usual ou mania extrema com ordem/limpeza; ter ideias obsedantes, por exemplo, de que alguém pode estar perseguindo-o e, ao mesmo tempo, ocorre uma luta contra esses pensamentos e dúvidas quanto ao que faz ou fez.

NEUROSE HISTÉRICA— Notamos na pessoa que se estrutura dentro da neurose histérica uma queixa e busca incessante concomitante a um desejo constantemente. O desejo tem como referencial sempre o desejo do outro, estar na mira do desejo do outro.
Quando há sintomatologia mais frequentemente o conflito psíquico aparece nos sintomas corporais. Por exemplo, crise de choro com teatralidade, ou sintomas que se apresentam de modo duradouro, como a paralisia de um membro, a úlcera etc.
Compreendendo a neurose como uma estrutura podemos compreender os diferentes graus e manifestações dos comportamentos que trazem mais ou menos sofrimento para o individuo e aqueles que o cercam dependendo da historia infantil de cada um, os fatores de vida atual e o contexto cultural que perpassa cada pessoa. 
Quadros clínicos comuns à Neurose: Transtorno Obsessivo Compulsivo; Histeria; Transtornos Ansiosos; Transtornos Fóbicos; Pânico; Quadros Depressivos

PSICOSE- Na Psicose o mecanismo principal de defesa é a foraclusão (algo retorna de fora). Como vimos no inicio da vida bebê e o ambiente são indiferenciados, na psicose temos a formação o eu, mas em alguma medida um grau de indiferenciação permanece, ou seja, uma não separação eu-outro. Por exemplo, no autismo temos o horror do contato com o outro. Na paranóia o outro é um perseguidor por excelência, na esquizofrenia o ego e a realidade mais evidentemente aparecem borrados.
No surto psicótico a ruptura entre o ego e a realidade fica evidente e o ego fica sob domínio do dos impulsos, o que não foi recalcado volta desde fora (alucinações, delírios, criações de oura realidade paralela).

As psicoses subdividem-se em:

Paranóia — é uma psicose que se caracteriza por um delírio mais ou menos sistematizado, articulado sobre um ou vários temas. Não existe deterioração da capacidade intelectual. Aqui se incluem os delírios de perseguição, de grandeza.
Esquizofrenia — caracteriza-se por: afastamento da realidade —o indivíduo entra num processo de centramento em si mesmo, no seu mundo interior, ficando, progressivamente, entregue às próprias fantasias.
Mania e melancolia ou psicose maníaco-depressiva — caracteriza-se pela oscilação entre o estado de extrema euforia (mania) e estados depressivos (melancolia). Nos estados de depressão, o indivíduo pode negar-se ao contato com o outro, não se preocupa com cuidados pessoais (higiene, apresentação pessoal) e pode mesmo, em casos mais graves, buscar o suicídio. Na mania ocorre mania de grandeza e pode ocorrer delírios de ser uma pessoa de sucesso.

PERVERSÃO:  "O Negativo da Neurose!"

Filmes: Hannibal; O silencio dos inocentes; Temos que falar sobre Kevin

Na Psicanálise, a partir de 1896, o termo perversão foi adotado como conceito, que assim conservou a idéia de desvio sexual em relação a uma norma. 
Não obstante, nesta nova acepção, o novo conceito é desprovido de qualquer conotação pejorativa ou valorizadora e se inscreve, juntamente com a psicose e a neurose, numa estrutura clínica diagnóstica.

As pessoas estruturalmente perversas não se relacionam com o outro como uma pessoa inteira, percebendo a realidade psíquica desta outra pessoa. O perverso toma o outro como um objeto ou parte deste torna-se objeto fetiche. A finalidade do perverso é sempre sua satisfação sem considerar o outro.
Importante dizer que um perverso não tortura necessariamente sua vítima de forma física, mas pode subjugar sua visão de mundo.  Em diferentes graus cometem abusos de poder, coerção moral, chantagens e extorsões com muita facilidade.

Abaixo algumas características comuns:
·        Traços impulsivos, agressivos, hostis, extrovertidos;
·        São extremamente confiantes em si mesmos;
·        Baixos teores de ansiedade;
·        Ausência de sentimento de culpa ou remorso;
·        Narcísicos e vaidosos;
·        Atos e comportamentos antissociais;
·        Criadores de intrigas e conflito no meio em que se encontram;
·        Sexualmente ativos e pervertidos;
·        Indiferentes ao afeto ou reação do outro (dificuldade marcada na capacidade de empatia).

Infelizmente na contemporaneidade traços perversos têm sido “valorizados” – onde o esperto e o malandro que se dá bem é valorizado em detrimento do “certinho”, numa verdadeira inversão de valores e queda do que chamamos função paterna de LEI.
A falta de compromisso com o outro, a ausência de empatia e culpa são erroneamente e romanticamente confundidos como capacidade de liderança, pulso firme, poder  e influencia pessoal.

Filmes sugeridos:

Cisne negro / Uma Mente Brilhante / O número 23 / Um Estranho no Ninho  / Temos que falar sobre Kevin / Silêncio dos Inocentes / Melhor é impossível / O Aviador/ Bicho de Sete Cabeças

Séries:

Bates Motel


domingo, 9 de abril de 2017

Podemos mudar : Plasticidade do cérebro



No aspecto da filogenia há diversos estudos sendo desenvolvidos e que mostram o surgimento de um novo paradigma no campo genético: a interação entre o ambiente e os efeitos genéticos. Logo, o indivíduo pode, dependendo de adequada estimulação, ativar ou desativar genes específicos que facultam influências sobre o organismo para o desenvolvimento ou não de algum tipo de característica específica, positiva ou negativa para o sujeito.

Por essa perspectiva,

[...] a verdadeira estrutura genética das células pode mudar como resultado da aprendizagem se os genes que estiverem inativos ou dormentes interagirem com o ambiente de tal maneira que se tornam ativos. [...] o ambiente pode ativar certos genes. É possível que esse tipo de mecanismo leve a mudanças no número de receptores na extremidade de um neurônio, que, por sua vez, afetaria o funcionamento bioquímico do cérebro (BARLOW; DURAND, 2008).

TRANSTORNOS ALIMENTARES SOB A PERSPECTIVA DA ANÁLISE DO COMPORTAMENTO, Bueno, Noleto Lohanna, Nascimento, Alves Nelson, Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 24, especial, p. 49-59, out. 2014.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O que desperta o desejo sexual feminino?

Ida Bauer aparece nos textos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, sob o nome fictício de Dora. É uma moça bonita, de 15 anos, perturbada por tosses nervosas e incapacidade ocasional de falar. Chegou ao divã do médico vienense queixando-se de duas coisas: assédio sexual de um amigo da família e indisposição do pai em protegê-la. Freud aceitou os fatos, mas desenvolveu uma interpretação própria sobre eles. O nervosismo e as doenças se explicavam porque a moça se sentia sexualmente atraída pelo molestador, mas reprimia a sensação prazerosa e a transformava, histericamente, em incômodo físico. Como Ida se recusou a aceitar essa versão sobre seus sentimentos, largou o tratamento. Peter Kramer, biógrafo de Freud, diz que os sintomas só diminuíram quando ela enfrentou o pai e o molestador, tempos depois. Freud estava errado; ela, certa. Anos mais tarde, refletindo sobre a experiência, Freud escreveu uma passagem famosa: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que querem as mulheres?”.

Meredith Chivers, uma jovem pesquisadora da Universidade Queen, no Canadá, acredita que pode finalmente responder à pergunta. Sem os preconceitos e a ortodoxia de Freud, e com recursos experimentais que ele não tinha, reuniu 47 mulheres e 44 homens em laboratório e aplicou o mesmo teste a todos eles: viram oito filmes curtos sobre sexo, com temas variados, enquanto seus órgãos genitais eram monitorados por sensores capazes de medir a ereção masculina e a lubrificação feminina. Ao mesmo tempo, Meredith pediu que indicassem, num sensor eletrônico, quanto estavam excitados com cada cena projetada. Essa era a parte subjetiva do teste.

Os resultados foram sensacionais. Meredith descobriu, primeiro, que as mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais, se estimulam com uma gama muito variada de cenas. Homem e mulher transando, mulheres transando, homens transando, quase tudo foi capaz de produzir excitação física nas mulheres. Até cenas de coito entre bonobos (os parentes menores e mais dóceis dos chimpanzés) causaram alterações genitais nas voluntárias, embora tenham deixado os homens indiferentes. Qualquer que seja a sua orientação sexual, eles parecem ser mais focados em suas preferências. Homossexuais se excitam predominantemente com cenas de sexo entre homens ou com cenas de masturbação masculina. Heterossexuais se interessam por sexo entre mulheres, sexo entre homens e mulheres e atividades que envolvam o corpo feminino, mesmo as não-sexuais. O estudo sugere que as mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico.

A outra surpresa da pesquisa de Meredith, talvez sua descoberta mais importante, foi a constatação de que existe uma distância entre o que as mulheres manifestam fisicamente e o que elas declaram sentir. As cenas de sexo entre mulheres, por exemplo, foram as que causaram maior excitação física entre as mulheres heterossexuais – mas aparecem em segundo na lista de respostas sobre as imagens mais excitantes. Ocorre o mesmo com sexo entre dois homens. Os sensores vaginais mostram ser esse o terceiro tipo de cena que mais excita as mulheres, mas ele aparece na quinta posição nas declarações. O fenômeno de divergência entre corpo e mente não poupa os macacos. Meredith diz que o relato subjetivo das mulheres sobre os bonobos não é coerente com a excitação física que elas demonstram. “O que eu descobri foi que as mulheres ficaram fisicamente excitadas (com os macacos), mas não declararam se sentir dessa forma”, ela disse em entrevista a ÉPOCA. Os homens demonstram um grau de coerência mais elevado entre as medidas objetivas e subjetivas. Eles declaram gostar daquilo que fisicamente os comove, embora também se confundam com escolhas, por assim dizer, difíceis. No instrumento em que registram suas preferências, os homens heterossexuais marcaram as cenas de masturbação femininas como as mais excitantes, vencendo por pouco o sexo entre duas mulheres. Mas os sensores genitais mostraram coisa diferente: a vitória pertence claramente às cenas de sexo entre mulheres. A conclusão é que também entre os homens há uma diferença entre excitação mental e excitação física, mas ela parece ser muito menor do que entre as mulheres.

Se for excluída a hipótese de que as mulheres mentem a respeito de seus sentimentos (por que fariam isso em laboratório, protegidas pelo anonimato?), estamos de volta à perplexidade registrada por Freud no texto de 1900, com um sério agravante: não é apenas que um homem não entende as mulheres, mas elas mesmas que não sabem o que sentem. Ou não seria nada disso? “As mulheres mentem, de forma consciente e inconsciente”, diz a escritora e roteirista Fernanda Young, de 38 anos. “Elas mentem para sobreviver porque, historicamente, não têm liberdade para dizer o que pensam. Acho que a maioria das mulheres se constrange diante de alguns objetos de excitação e diz que não se excita. É uma questão de sobrevivência cultural”.

A revista dominical do jornal The New York Times publicou dias atrás uma longa reportagem em que a sexóloga Meredith, de 36 anos, discutia a sua pesquisa, publicada em 2007. O texto apresentava várias teorias e pesquisas empíricas que tentam explicar o universo sexual feminino. Curiosamente, quando combinados, os dados obtidos em laboratório parecem confirmar aquilo que Fernanda Young afirma sem amparo estatístico: por razões ainda misteriosas (históricas e culturais, provavelmente; físicas, quem sabe) as mulheres escondem (até de si mesmas) as suas preferências sexuais e operam com um nível elevado (e contraditório) de fantasias, nem todas politicamente corretas. “A sexualidade é um quarto escuro”, diz a escritora.

Desde os relatórios pioneiros de Alfred Kinsey, escritos nos anos 1940 e 1950 do século XX, o meio médico acreditava que mulheres e homens eram sexualmente assemelhados. Foi apenas em 2005 que a pesquisadora canadense Rosemary Basson sugeriu que o desejo das mulheres não segue a cronologia masculina, na qual desejo, excitação e orgasmo se sucedem, nesta ordem. De lá para cá, a ênfase dos estudos sobre sexualidade tem estado nas diferenças entre homens e mulheres. Um dos resultados práticos dessa tendência é a percepção crescente de que o sexo nas mulheres é muito mais subjetivo do que se imaginava. Nelas, os mecanismos de excitação psicológicos parecem estar em ampla medida descolados do que ocorre no corpo. Ao contrário dos homens, para quem ereção é sinônimo de disposição, a lubrificação feminina não significa prontidão para o sexo.

Se for excluída a hipótese de que as mulheres mentem a respeito de seus sentimentos (por que fariam isso em laboratório, protegidas pelo anonimato?), estamos de volta à perplexidade registrada por Freud no texto de 1900, com um sério agravante: não é apenas que um homem não entende as mulheres, mas elas mesmas que não sabem o que sentem. Ou não seria nada disso? “As mulheres mentem, de forma consciente e inconsciente”, diz a escritora e roteirista Fernanda Young, de 38 anos. “Elas mentem para sobreviver porque, historicamente, não têm liberdade para dizer o que pensam. Acho que a maioria das mulheres se constrange diante de alguns objetos de excitação e diz que não se excita. É uma questão de sobrevivência cultural”.

A revista dominical do jornal The New York Times publicou dias atrás uma longa reportagem em que a sexóloga Meredith, de 36 anos, discutia a sua pesquisa, publicada em 2007. O texto apresentava várias teorias e pesquisas empíricas que tentam explicar o universo sexual feminino. Curiosamente, quando combinados, os dados obtidos em laboratório parecem confirmar aquilo que Fernanda Young afirma sem amparo estatístico: por razões ainda misteriosas (históricas e culturais, provavelmente; físicas, quem sabe) as mulheres escondem (até de si mesmas) as suas preferências sexuais e operam com um nível elevado (e contraditório) de fantasias, nem todas politicamente corretas. “A sexualidade é um quarto escuro”, diz a escritora.

Desde os relatórios pioneiros de Alfred Kinsey, escritos nos anos 1940 e 1950 do século XX, o meio médico acreditava que mulheres e homens eram sexualmente assemelhados. Foi apenas em 2005 que a pesquisadora canadense Rosemary Basson sugeriu que o desejo das mulheres não segue a cronologia masculina, na qual desejo, excitação e orgasmo se sucedem, nesta ordem. De lá para cá, a ênfase dos estudos sobre sexualidade tem estado nas diferenças entre homens e mulheres. Um dos resultados práticos dessa tendência é a percepção crescente de que o sexo nas mulheres é muito mais subjetivo do que se imaginava. Nelas, os mecanismos de excitação psicológicos parecem estar em ampla medida descolados do que ocorre no corpo. Ao contrário dos homens, para quem ereção é sinônimo de disposição, a lubrificação feminina não significa prontidão para o sexo.

Isso explica por que ainda não existe um Viagra feminino: ele seria inútil, já que a libido das mulheres não é vascular. Meredith vai mais longe. Ela especula que a lubrificação vaginal talvez seja apenas um artefato evolutivo “para reduzir o desconforto e a possibilidade de ferimentos” durante a penetração. Não teria nada a ver com prazer e satisfação sexual, muito menos seria sinônimo de sinal verde. “Eu vivo repetindo a meus alunos que estar molhada não significa ter consentido em fazer sexo”, diz ela.

A lubrificação vaginal talvez seja um artifício evolutivo para impedir que a mulher se machuque. Esse tipo de generalização extraída do laboratório reflete a realidade das mulheres? Eis uma pergunta que o psicólogo Ítor Finotelli Júnior, terapeuta sexual na cidade de Campinas, em São Paulo, acha difícil responder. Ele examinou o estudo de Meredith a pedido de ÉPOCA e faz uma ressalva: a amostragem limitada. “O número de voluntários não é razoável. Você precisa de umas 200 ou 300 pessoas para extrair conclusões confiá­veis”, diz ele. Meredith trabalhou com 47 mulheres. Outra complicação é a ausência de informação sobre as voluntárias. Qual a idade, qual a classe social, qual a etnia ou a cultura das mulheres estudadas por Meredith? Ele dá um exemplo prático da limitação dessas investigações. Seu grupo de trabalho acaba de concluir um estudo de 200 pacientes (homens e mulheres) sobre fantasias autoeróticas. Descobriu que as mulheres se excitam recordando cenas de sexo com os parceiros, enquanto os homens recorrem a fantasias com “mulheres atraentes”. “Mas isso é válido apenas para pessoas de classe média alta, com curso universitário, que moram em São Paulo e procuram auxílio psicológico”, diz ele.

Um dos indicadores de que a pesquisa de Meredith chegou perto do alvo é que a sua conclusão mais espetacular – a separação entre o corpo e a mente sexual das mulheres – não surpreende tanto assim os especialistas, sobretudo as mulheres que conhecem a intimidade das outras mulheres. “Os homens sabem o que têm de sentir; as mulheres, não”, diz a psicanalista Diana Corso, de Porto Alegre.

“As mulheres querem ser queridas, desejadas, aceitas. Elas se confundem quando têm de explicar o seu próprio desejo.” Essa percepção sobre a relativa passividade do desejo feminino, da sua dependência, está cada vez mais presente na literatura sobre sexualidade. Meredith Chivers fala do “poder de ser desejada” como um dos componentes mais fortes do desejo das mulheres, uma área que ela deseja estudar no futuro. Outra pesquisadora citada na reportagem do New York Times, Marta Meana, da Universidade de Nevada, sustenta que o desejo feminino depende diretamente da urgência demonstrada pelo homem. “Para as mulheres, ser desejada é o orgasmo”, diz ela. É por isso, afirma, que relações estáveis, duradouras e… mornas, tendem a “esfriar” as mulheres.

O desejo feminino parece depender diretamente da urgência demonstrada pelo homem em copular. Como ocorre com muitos elementos da vasta e contraditória psique humana, há consequências perversas na opção sexual das mulheres pelo prazer do outro. Uma delas é a divergência entre o que o corpo diz e o que a mente ouve, capturada no estudo de Meredith. A outra, perturbadora, é a fantasia do estupro. Os especialistas pisam em ovos ao falar sobre isso, mas o fato é que as mulheres têm fantasias recorrentes de serem submetidas pela força. Por trás disso, encontra-se, aparentemente, a ilusão narcisista (e excitante) de ser tão atraente, tão irresistível, que os homens seriam incapazes de conter sua luxúria. “As fantasias de estupro são muito mais recorrentes do que as pessoas imaginam”, diz o terapeuta Finotelli. Isso quer dizer que essas mulheres gostariam de ser estupradas? Não. Não. E, mais uma vez, não. Trata-se de uma fantasia íntima que dispara desejos sexuais. Ela não esconde a vontade oculta de sofrer a violência sórdida de um estupro. “As mulheres querem ser encostadas no muro, mas não colocadas em perigo”, diz Marta Meana. “Elas querem um homem das cavernas atencioso”. Quem seria capaz de cumprir tal papel? “Denzel Washington”, responde a pesquisadora. “Ele transmite esse tipo de poder e é um bom homem”. O.k., vai.

Ao preconizar a divisão radical da libido das mulheres entre mente e corpo, os novos estudos de sexualidade criam um dilema. Se essa divisão expressa a natureza profunda das mulheres, então há nas fêmeas da espécie humana um duplo comando sexual. De um lado, o corpo, capaz de demonstrar excitação até mesmo durante um estupro, como forma de proteção. Do outro, a mente, dividida entre fantasias de prazer arriscado e a necessidade emocional de intimidade e proteção. Se essa duplicidade corpo-mente for de fato a realidade feminina, há simplesmente de entendê-la e adaptar-se a ela. Uma tarefa para homens e mulheres. Mas existe a possibilidade de que essas constatações reflitam apenas o passivo cultural e psicológico das fêmeas da linhagem humana. Elas são submetidas ao controle sexual dos machos desde o Paleolítico (há dois milhões de anos) e apenas nas últimas três ou quatro décadas foram emancipadas, parcialmente. “A terrível realidade dos estudos psicológicos é que você não consegue separar o que é cultural do que é biológico”, diz Meredith. Ainda bem, já que a nossa vida se passa simultaneamente nas esferas biológica e cultural.

Mas, o que fazer diante do dilema? Carmita Abdo, professora da Universidade de São Paulo e médica do Hospital das Clínicas de São Paulo, uma das mais respeitadas especialistas brasileiras em sexualidade humana, prefere trabalhar com a hipótese terapêutica. Ela sugere, por exemplo, que a mulher fique atenta aos sinais genitais, como uma forma de intensificar seu próprio desejo. As pesquisas mostram que as mulheres têm muito mais dificuldade que os homens em perceber as próprias alterações. Finotelli exemplifica com um fato singelo: diz  que é muito comum que as mulheres mais inibidas expliquem o eventual intumescimento dos mamilos como “frio”, mesmo quando a temperatura ambiental e subjetiva está muito elevada. É apenas natural que essas mulheres não reconheçam os sinais de excitação genital e nem se deixem carregar por eles, como fazem os homens. Esse é o terreno em que a informação pode ter uso terapêutico, no qual as pesquisas podem servir como guia. Essa é a especialidade de pessoas como Carmita. Quanto à atávica dificuldade em explicar o que querem, afinal, as mulheres, ela dá de ombros. “A quem interessa responder essa pergunta?”, diz a médica. “A dúvida é que mantém o interesse por elas”. Touché.

Título: O que desperta o desejo sexual feminino
Autores: Ivan Martins e Francine Lima
Palavras-Chave: desejo sexual; feminino; pesquisa científica; lubrificação; fantasias sexuais; libido; prazer sexual; sexo; sexualidade humana
Categoria: Trabalhos técnicos: Entrevista para Revista Época