sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Às vezes ouço passar o vento






"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."

A realidade é uma descoberta permanente.
Acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa
7-11-1915

Escuta do analista



Forclusão Voluntária do psicanalista

"É uma expressão que designa a operação mental necessária para criar no analista o estado mais propício para a escuta do inconsciente de seu analisando. O que é a foraclusão voluntária? É uma intensa concentração voluntária do psi-canalista até esvaziar seu eu de todos os ruí- dos e preocupações cotidianas que o agitam e instalar o silêncio em si. É então que, nesse silêncio interior, ele percebe em si o que habitualmente fica imperceptível, a emoção in-consciente do outro, ou seja, a emoção que habita o outro no mais profundo de si e que ele ignora. Assim, ele capta a emoção em estado puro, destacada daquele que a vive e… que não sabe que a vive. Em suma, o psicanalista afasta (foraclui) as produções afetivas e ideativas de seu eu para criar um vazio em si e deixar surgir no espaço de seu silêncio interior as produções inconscientes de seu analisando."

(Os olhos de Laura -Somos todos loucos em algum recanto de nossas vidas, Nasio, J.-D. Zahar, Rio de Janeiro, 2009. p.86)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Medo

"Ao se percorrer o constructo teórico de Winnicott, é possível perceber que existe uma lógica etiológica na formação dos distintos medos que incide no diferencial em seu teor e intensidade. Essa configuração diferencial confere ao medo o status daquele que porta uma mensagem e que, portanto, deve ser considerado na formulação diagnóstica. À sua manifestação, subjaz uma ansiedade que, de forma geral, faz parte da normalidade. Mesmo na doença, aponta uma possibilidade, pois é passível de cuidado. Nesse entendimento, é a ausência de medo que indica adoecimento (cf. 1938b/1982, p. 242). Essa condição confere ao medo o caráter de conquista. No entanto, mesmo sob uma observação ainda superficial, é possível diferenciar o significado do afeto naquele indivíduo que convive com medo daquele que sente alguns medos. Nesse sentido, é imperativo compreender que o sentido de segurança é construído nas fases iniciais através do padrão de confiabilidade no qual os cuidados ambientais maternos foram dados. Compreende-se o sentido de segurança como aquele que abrange tanto a crença em si mesmo como a crença nos outros. Sem essa conquista, não se pode falar em segurança e, por consequência, nem em medo como um recurso de alerta diante de uma ameaça à segurança. Após a aquisição de segurança, os próprios movimentos rumo à liberdade de ser e de se expressar em sua pessoalidade se inscrevem numa linha temporal de batalha contra a segurança total, provida inicialmente apenas pelo ambiente (cf. 1993a/1999, pp. 101-107)."

Pondé, Danit Zeava Falbel. (2011). O conceito de medo em Winnicott. Winnicott e-prints, 6(2), 82-131.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Evoluções da Psicanálise (trecho)


"Com as teorias de estágio pós-freudianas, os novos analistas tinham novos caminhos para compreender como seus pacientes ficaram “emperrados” e para perceber de maneira diferente as mudanças confusas nos estados do self. Podiam então oferecer interpretações e hipóteses para seus clientes auto-críticos que iam além de especulações sobre eles terem sido desmamados muito cedo ou muito tarde, ou treinados para ir ao banheiro com muito rigor ou de maneira muito relapsa, ou então por terem sido seduzidos ou rejeitados durante a fase edipiana. Em vez disso, podiam agora investigar com os pacientes se suas características refletiam processos familiares que tornaram mais difícil para eles o acesso a um sentimento de segurança, autonomia ou prazer em suas identificações (Erikson), ou sugerir que o destino os privou da crucial importância de um “melhor amigo” na pré-adolescência (Sullivan), ou comentar que a hospitalização de sua mãe quando eles tinham 2 anos sobrecarregou o processo de adaptação normal para tal idade e necessariamente para uma separação ideal (Mahler), ou ainda observar que, naquele momento, eles estão sentindo um terror primitivo porque o terapeuta interrompeu os processos de pensamento deles (Ogden)."

Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a estrutura da personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams