terça-feira, 11 de agosto de 2015

Vida e obra de Simone de Beauvoir

Vida e obra de Simone de Beauvoir serviram de base para o movimento de conscientização das mulheres no século XX
Jornal Mulier – Dezembro de 2006, Nº 35
Ela nasceu em 09/01/1908, em Paris, e sua vida nada teve de convencional e monótona. Simone de Beauvoir é considerada a mulher mais intelectualizada da França no século XX. Sua vida confunde-se com sua obra, e é através desta última que ela deixou um legado de questionamentos e apelo à resistência das mulheres na luta por um lugar no mundo, reconhecendo sua importância e função na História.
A inquietação intelectual de Simone veio da infância. Filha de mãe católica e pai ateu, ela e a irmã tiveram educação católica e tradicional, mas sempre estiveram rodeadas de livros. O pai não possuía grandes posses e estimulava a educação das meninas porque dizia não ter dote para as mesmas fazerem um bom casamento. Dessa forma, elas teriam que trabalhar para se sustentarem no futuro. Esta realidade agradava Simone. Ela agarrou com afinco os estudos, dizendo que enquanto houvesse livros no mundo sua felicidade estaria assegurada. Foi também com os livros que chegou a conclusões que iriam influenciar sua vida: queria conhecer o mundo, dedicar-se a aprender e a ensinar, seria uma escritora. Quanto ao casamento, fim último ao qual uma moça de sua época deveria aspirar, Simone o desprezava por completo. Estava interessada no futuro, no seu futuro enquanto mulher emancipada. Sabia que pelo talento as mulheres haviam conquistado um lugar no universo dos homens. Sabia que o “sábio, o artista, o pensador criavam um mundo diferente, luminoso e alegre em que tudo tinha razão de ser. Nele é que eu iria viver, estava resolvida a conquistar meu lugar”, escreveu em seu livro “Memórias de uma moça bem-comportada”. Segundo ela, apenas amaria um homem que a subjugasse por sua inteligência, sua cultura e autoridade.
Na adolescência, como qualquer adolescente típico, passou por crises existenciais. Achava-se feia, acreditava que sua inteligência e teimosia a distanciavam do pai, a quem adorava, e viu-se prestes a repetir um casamento burguês com um primo que nem mesmo tinha certeza se amava. Também passou a questionar a existência de Deus, sentimento escondido de todos por muitos anos. Na verdade, Simone era ingênua e inocente, conhecia o mundo pelos livros, principalmente por romances e novelas. A realidade estava longe dos seus olhos, contava poucas amigas e não era autorizada a sair de casa pelos pais. Conhecia pouco das necessidades e angústias dos seres reais, fora da ficção, e se torturava por isso. Sua vida mudou quando foi aprovada para o curso de Filosofia na Sorbonne, tradicional universidade francesa.
Em Paris, na Sorbonne, passou a conhecer a realidade como ela era de fato. Com amigos começou a sair e conhecer o submundo da cidade. Sua inteligência e conhecimento impressionavam a todos, tornou-se amiga de grandes intelectuais, entre eles Jean-Paul Sartre, com quem dividiria seu amor pelo resto da vida. Sartre era baixo, tinha o rosto marcado por acne e era estrábico, ou seja, não tinha qualquer atributo de beleza, mas encantou Simone pela inteligência e sedução. Para ela, havia encontrado nele a pessoa que a estimulava e não a faria estagnar intelectualmente. Assim começou um dos romances mais rumorosos, e mesmo invejado, da História recente.
Simone de Beauvoir acreditava que a vida em comum deveria favorecer e não contrariar seu principal objetivo: tomar posse do mundo. Foi o que aconteceu com Sartre. Recusaram-se a casar, a ter filhos e delimitar a liberdade um do outro. Pactuaram poder fazer o que quisessem cada qual de sua vida, inclusive ter envolvimentos amorosos com outras pessoas, mas nada deveria ser escondido, o ciúme não poderia existir. A relação era baseada na sinceridade e na lealdade. Por mais que pudessem chatear ou chocar eles mesmos e os outros, seriam sempre um do outro, na verdade achavam que eram um só. Simone seria o tudo de Sartre e Sartre, o tudo de Simone.
Para quem estava de fora, a relação deles parecia algo fascinante e poderosa. Depois da morte de ambos, foram publicadas cartas trocadas entre eles. Viu-se que realmente contavam em detalhes suas aventuras amorosas, existindo uma grande necessidade de um opinar sobre os casos do outro. Se por um lado mostrava a sinceridade dos mesmos, as cartas chocaram pela forma como expunham intimidades das pessoas com quem se relacionavam, a verdade, honestidade e sinceridade que tinham entre si não valiam para seus amantes. Na verdade, pouco mais de dez anos após conhecerem-se, já não tinham qualquer tipo de relação sexual, era mais uma amizade profunda que amor.
Assim viveram por muitos anos. Conheceram o mundo, buscaram incessantemente o prazer, pareciam tentar aprender e entender mais a si mesmos do que o mundo e a realidade ao redor, embora ambos fossem excelentes professores e encantassem os alunos com seus conhecimentos. Só começaram a compreender melhor a História e a sociedade, começando a pensar o que poderiam fazer como intelectuais, a partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939.
Simone de Beauvoir começou a entender cada vez mais que era uma intelectual cujas armas eram as palavras. Em 1949, escreveu o livro “O segundo sexo”, considerado a obra de referência para o movimento feminista moderno. A frase mais famosa da obra é: “a pessoa não nasce mulher, mas antes torna-se mulher”, ou seja, a feminilidade é uma construção sociais. As condições vividas pelas mulheres e o que se espera delas são estabelecidos culturalmente pela sociedade. No livro, Simone fala da necessidade da mulher conquistar o seu lugar no mundo e tomar o seu destino nas mãos. Segundo ela, “as restrições que a educação e os costumes impõem à mulher restringem seu domínio sobre o universo”. Ela criticou veementemente o casamento e a ideia da mulher necessariamente ter que ser mãe. Casar e ser mãe limitariam a vida da mulher, não deixando espaço para que estudassem ou tivessem interesse pela política, cultura e tecnologia. Dessa forma, a mulher nunca iria se equiparar ao homem economicamente, intelectualmente e socialmente. Uma das saídas era o trabalho feminino, podendo assegurar uma certa liberdade, ao menos econômica. A liberdade concreta viria com o socialismo. “O segundo sexo” também causou escândalo por tratar do corpo de mulher e da sexualidade feminina.
Apesar das ideias defendidas, até a década de 1970, Simone de Beauvoir não se considerava uma feminista, até porque as feministas também não se simpatizavam com ela, principalmente por sua relação com Sartre, que achavam subjugar e dominar Simone. Beauvoir acreditava serem os homens tão vítimas como as mulheres, devendo o movimento feminista dar espaço para os homens ajudarem na luta pela equidade. Na última frase do livro “O segundo sexo”, Simone exprime a intenção de um dia homens e mulheres se encontrarem e afirmarem sem equívocos sua fraternidade. Mesmo assim, nos últimos anos de vida, Simone trabalhou com o movimento de mulheres e lutou pela legalização do aborto na França, que aconteceu em 1975.
Simone de Beauvoir escreveu inúmeros livros, peças, ensaios e era colaboradora da revista “Los Temps Modernes”, criada por Sartre. Sua vasta obra mostra a paixão pela escrita, e muito do que hoje sabemos sobre ela vem de sua própria literatura, seja em seus inúmeros livros de memória, seja por seus livros de ficção, no qual retratava muitos dos acontecimentos de sua vida na pele dos personagens. Em suas obras, explorava os dilemas existenciais da liberdade, da ação e da responsabilidade individual, temas recorrentes na obra de Sartre. A influência de Sartre era evidente, assim como ele também dependia totalmente das observações de Beauvoir sobre seus escritos. As obras de ambos parecem um meio que se utilizaram para se entender, deixar seu legado para a humanidade e não permitir que a solidão os atormentasse. Aliás, a solidão era terrível para Simone, mesmo quando estava lendo ou escrevendo, gostava de estar com Sartre ou rodeada de amigos e alunos. Mas sentiu-se muito solitária em 1980, quando Sartre morreu. Escreveu um livro contando o sofrimento do companheiro com quem viveu 50 anos, “A cerimônia do adeus”. Ela ainda viveu mais seis anos. Morreu em 14/04/1986 e alcançou seu objetivo de infância: conquistar o mundo com suas ideias, ser uma grande escritora e não se submeter às convenções da sociedade.
Fontes
BEAUVOIR, Simone. “O segundo sexo”. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BEAUVOIR, Simone. “Memórias de uma moça bem-comportada”. São Paulo: Círculo do Livro, sem data.
ROWLEY, Hazel. “Tête-à-Tête, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
SCHWARZER, Alice. “Simone de Beauvoir hoje”. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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