domingo, 30 de agosto de 2015

A forclusão como um conceito negativo

Jackson Pollock
Vocês conhecem certamente o texto de Lacan, que está nos Escritos,e se chama "Questão preliminar a todo tratamento possível da psicose". O texto dos Escritos é um concentrado do seminário Estruturas freudianas das psicoses. E sabem que a questão preliminar é, às vezes, resumida assim:que o próprio da psicose seria a forclusão do nome do pai.

Esta afirmação é imprópria, pela razão seguinte: que o próprio da psicose seja a forclusão do nome do pai, é uma afirmação negativa, segundo a qual a psicose não é a neurose, e só. Deste ponto de vista é um conceito preliminar,que permite uma abordagem da psicose, mas poderia dificilmente ser tomado
como constituindo o "próprio", ou seja, a definição própria da psicose. Por outro lado, este conceito parece ser o único jeito de se chegar a algum universal da psicose, porque permite falar da psicose como um conjunto. De fato haveria então um universal da psicose, a forclusão do nome do pai, mas por que poderia haver um universal da psicose? Porque justamente é um universal negativo. O que permite este universal é a neurose, não é a psicose enquanto tal. O que funda este universal é o que há de universal na neurose (a referência paterna), enquanto faltando.

Por que Lacan fundou assim um universal da psicose? Acho que ele se interessava muito por um ponto particular e decisivo da clínica, que é a questão do desencadeamento da crise psicótica.  A partir da evidência clínica do desencadeamento da crise, está certo que a psicose aparece como um efeito deforclusão. No desencadeamento da crise existe sempre alguma coisa como uma injunção feita ao sujeito psicótico de referir-se a uma amarragem central, paterna. Ele não tem possibilidade de referir-se a esta amarragem, que não foi simbolizada por ele, e a partir daí começa uma crise, com os fenômenos que a psiquiatria clássica descreveu, a saber, estado crepuscular, alucinação auditiva, tentativa de constituição de um delírio, alucinações cenestésicas,não auditivas,
e assim por diante.

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989)


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