segunda-feira, 31 de agosto de 2015

(In)Finitudes

era o ciclo
finitudes e recomeços
o tempo fazendo verso na pele
a vida perecível

seria  reciclável   
o poema?

Própria autoria, 02/2014

domingo, 30 de agosto de 2015

A forclusão como um conceito negativo

Jackson Pollock
Vocês conhecem certamente o texto de Lacan, que está nos Escritos,e se chama "Questão preliminar a todo tratamento possível da psicose". O texto dos Escritos é um concentrado do seminário Estruturas freudianas das psicoses. E sabem que a questão preliminar é, às vezes, resumida assim:que o próprio da psicose seria a forclusão do nome do pai.

Esta afirmação é imprópria, pela razão seguinte: que o próprio da psicose seja a forclusão do nome do pai, é uma afirmação negativa, segundo a qual a psicose não é a neurose, e só. Deste ponto de vista é um conceito preliminar,que permite uma abordagem da psicose, mas poderia dificilmente ser tomado
como constituindo o "próprio", ou seja, a definição própria da psicose. Por outro lado, este conceito parece ser o único jeito de se chegar a algum universal da psicose, porque permite falar da psicose como um conjunto. De fato haveria então um universal da psicose, a forclusão do nome do pai, mas por que poderia haver um universal da psicose? Porque justamente é um universal negativo. O que permite este universal é a neurose, não é a psicose enquanto tal. O que funda este universal é o que há de universal na neurose (a referência paterna), enquanto faltando.

Por que Lacan fundou assim um universal da psicose? Acho que ele se interessava muito por um ponto particular e decisivo da clínica, que é a questão do desencadeamento da crise psicótica.  A partir da evidência clínica do desencadeamento da crise, está certo que a psicose aparece como um efeito deforclusão. No desencadeamento da crise existe sempre alguma coisa como uma injunção feita ao sujeito psicótico de referir-se a uma amarragem central, paterna. Ele não tem possibilidade de referir-se a esta amarragem, que não foi simbolizada por ele, e a partir daí começa uma crise, com os fenômenos que a psiquiatria clássica descreveu, a saber, estado crepuscular, alucinação auditiva, tentativa de constituição de um delírio, alucinações cenestésicas,não auditivas,
e assim por diante.

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989)


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Filme: Mommy

Xavier Dolan. O q dizer do diretor da obra-prima “Eu Matei Minha Mãe”, realizado no alto de seus 20 anos de idade?

“Amores Imaginários”, “Laurence Anyways”, todos imperdíveis, filmados antes de completar 23 anos…

“Mommy”, vencedor de Cannes deste ano (com Godard), segue o nível dos 2 últimos, excelente.

Filmado com a câmera em close full time, extrai interpretações brilhantes de seus 3 protagonistas. Um filho no auge da delinquência é forçado a ficar com sua mãe, após ser expulso de inúmeras instituições. A relação amorosa de ambos flerta com o limite da violência, até q sua obsessiva vizinha, gaga, entra no jogo para apartar, meio sem saber seus porquês. Esta acaba encontrando uma oportunidade de libertação de suas amarras e leis.
Esta trama entre os personagens – vizinha obsessiva sem vida, e filho/mãe histéricos pândegos – fez-me lembrar do clássico “Aquele que Sabe Viver”, de Dino Risi.

Quanto à semi-incestuosa relação mãe e filho, com a típica dificuldade daquela em conter as explosões deste, cito um comentário do psicanalista Joel Birman, comentando o texto freudiano “Uma Criança é Espancada”, onde um pai espanca seu filho. Birman propõe que Freud poderia ter dado outro título ao texto: “Um Pai é Humilhado”. Diz q se um pai (ou mãe), com todo o conhecimento a mais do q uma criança, com todo a força física a mais, com todo o direito constitucional sobre o filho, com toda a experiência de vida a mais, ainda assim espanca uma criança, isto ocorre por conta deste pai não conseguir sustentar o distintivo paterno. Ou seja, o pai, rebaixado diante da própria incapacidade de exercer sua função, é humilhado ao espancar, assumindo assim sua condição maior de fracassado e impotente.

Em “Mommy”, a personagem da mãe encarna plenamente esta trágica condição proposta por Freud e Birman.

Enfim, o único senão do filme é um quê “novelesco” de sobe-e-desce, um tanto previsível.
Não percam mais este ótimo trabalho de Xavier Dolan, um dos melhores diretores da atualidade, de potência artística precocemente madura e consistente

domingo, 23 de agosto de 2015

A Liberdade trazida pela perda

A perda de um grande sonho nos liberta para dançar em qualquer direção, no nosso ritmo, sem culpas. Não devemos mais nada ao universo
Fala-se muito de sucesso, prosperidade, conseguir o que se quer, vencer desafios, dobrar o destino por meio de uma inesgotável força de vontade associada a talentos, habilidades e estratégias aprendidas no decorrer da vida.

Porém, nada ou quase nada se fala sobre a liberdade que conquistamos quando perdemos um sonho, quando lutamos bravamente e mesmo assim não conseguimos. A perda rouba um pouco da nossa prepotência, nos humaniza, nos faz perceber que perder é ingrediente essencial da vida sim e que isso não é o fim do mundo.

Quando perdemos, precisamos recorrer a um plano B. Precisamos nos reinventar, sobreviver. Quando perdemos um grande sonho, perdemos muito do nosso medo da vida. Paramos de encarar a vida como uma gincana maluca em que precisamos acumular pontos. Viver é uma experiência misteriosa e aprendemos a aceitar o que nunca poderemos ver ou conhecer a duras penas. Ninguém mergulha realmente no mistério realizando cada um de seus desejos. Não é sorrindo e recebendo que aprendemos realmente algo que vá além das habilidades meramente humanas.

A consciência e a aceitação de que não teremos tudo o que queremos por mais que queiramos e lutemos nos liberta da necessidade de capturarmos certezas. Nos centramos em regras e fórmulas fechadas quando prosperamos. Nos agarramos a verdades absolutas como se elas fossem um receituário para a felicidade, um caminho garantido para conseguir o que se quer. Já busquei muito por este receituário sem jamais encontrá-lo. Mergulhei em minha própria impotência diante da vida e foi a partir deste momento que comecei timidamente a encontrar a minha força.

Não sou próspera nem bem resolvida. E provavelmente nunca terei o que mais quero ou ainda posso deixar de querer se eu conseguir. Quantas vezes não realizamos um sonho quando ele perde o brilho para nós? Quantas vezes não recebemos uma oferta de trabalho quando já temos outros planos? Quantas vezes não temos a oportunidade de viver um romance quando o desejo já passou?

Mas não sou uma covarde porque flerto com minha própria finitude. Sim, a perda de um grande sonho nos liberta da obrigação de sermos felizes. Nos faz entender que nem tudo depende de nós. Que nem sempre podemos tudo mesmo lutando muito para isso. A busca incessante e desesperada da felicidade é o melhor atalho para a infelicidade. Às vezes é preciso deixar-se abraçar pela dúvida e ser conduzida por ela na caótica dança do destino.

Sílvia Marques

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Invista em você

Como a psicoterapia pode te fazer um empreendedor melhor
Empreender é uma missão às vezes bastante solitária. Você já considerou a psicoterapia para te ajudar a tomar suas decisões?
Da Endeavor Brasil - 13/08/2015

No mundo do empreendedorismo, o tempo todo estamos preocupados com a gestão do nosso negócio: plano estratégico, fluxo de caixa, plano de marketing, retorno sobre investimento, metas, benchmarking, receita, análise de mercado e por aí em diante. Sim, esses tópicos são importantes para o sucesso da empresa, mas igualmente importante é que sejamos felizes como empreendedores. E nesta jornada, sempre aparecem os dilemas.

“Não me sinto seguro para assumir a empresa da minha família”; “Penso em romper com meu sócio”; ou até mesmo “Será que está na hora de perseguir algo novo?”. Todos os que passaram por esses, ou inúmeros outros dilemas, e depois tiveram êxito em suas escolhas, sem dúvida tiveram de encarar tomadas de decisões difíceis e ousadas para levarem seu sonho adiante.

Mas àqueles que estão no meio desse caminho, com seus dilemas ativos, ainda não resolvidos, faço uma indagação: você já considerou fazer psicoterapia?
 


O que psicoterapia tem a ver com minha empresa?

Pode ser que você considere um equívoco o fato de se inserir a psicoterapia num processo decisório que está fundamentalmente calcado em indicadores de desempenho do negócio, prospecções de mercado, empreendimentos futuristas, etc. Mas explico. Sempre que nos deparamos com algum dilema significativo, em que a decisão terá um impacto marcante no futuro das nossas vidas, é natural que sejamos tomados pelas emoções.

Acordamos no meio da noite pensando nele, conversamos diariamente sobre o tema com pessoas próximas (mesmo que eles já tenham escutado a mesma história 17 vezes nas últimas duas semanas) – num dia temos certeza de uma decisão e no outro, por alguma razão, a certeza se vai e o dilema volta. E assim segue.

A boa notícia é que, quase sempre, esses dilemas significativos são também as grandes oportunidades da virada que esperávamos, de colocar nosso empreendimento num caminho próspero, de sentirmos o sabor de uma vida que vale a pena ser vivida.

E por que a psicoterapia?

A Psicologia é uma ciência com mais de 100 anos de existência e em constante evolução. Ela busca analisar, das mais variadas maneiras, a formação da personalidade das pessoas, identificar e entender padrões de comportamentos, assim como explorar um aspecto mental dos seres humanos que não é muito claro, o chamado inconsciente – um extrato de nossas mentes constituído por conteúdos que não necessariamente passam por nossa percepção.

Psicoterapeutas ajudam a refletir e buscar soluções

Dentre suas diversas possibilidades de contribuição para a saúde das pessoas, a Psicologia tem uma prática típica de atendimento individual (ou em grupos) chamadapsicoterapia, que busca acima de tudo e principalmente, o bem-estar das pessoas. É um espaço onde todos aqueles dilemas que inundam sua cabeça podem ser compartilhados com um profissional apto a acolher essas questões e apoiá-lo através de técnicas cientificamente reconhecidas, a refletir sobre esses impasses e buscar alternativas de resolvê-los.

Mas meus dilemas são sobre negócios!

“O que um psicólogo conhece sobre o retorno sobre investimento no ramo de sorvetes, ou sobre as implicações jurídicas de se abrir um Pet Shop?” – você pergunta. Respondo: provavelmente nada ou muito pouco. Mas ainda que saiba, o propósito do psicólogo é ajudar você a decidir quais são suas melhores alternativas, fazer com que você busque dentro de si, em suas vivências e experiências, respostas que supram suas questões.

É como se você estivesse num mar à deriva e pudesse enxergar algumas ilhas ao seu redor, mas ficasse em dúvida sobre qual direção remar, por não conseguir perceber a distância de cada uma delas.

Nesse momento, o Psicólogo seria aquele que te traria os instrumentos de navegação, para que você mesmo identificasse para qual direção seguir. No processo de psicoterapia, você se observa, se conhece, ouve a “voz” que vem de dentro e que diz algo positivo e benéfico para sua vida.

Cabe ressaltar que a psicoterapia não é coaching. A prática de coaching é reconhecidamente benéfica às pessoas quando praticada por profissionais sérios (vale para a Psicologia também). Podemos afirmar que, assim como a psicoterapia, de maneira geral, o coaching também visa o bem-estar. Mas são caminhos e modelos teórico-científicos bastante diferentes, assim como a formação acadêmica.

Mas psicoterapia é para mim?

É normal sentir-se indeciso.
Vamos aproveitar e quebrar alguns tabus: fazer psicoterapia não significa necessariamente que você é uma pessoa cheia de traumas ou com problemas mal resolvi
dos, deprimida ou ansiosa.
Sem dúvida a psicologia pode apoiar nisto também. Mas como qualquer pessoa, situações de indecisão podem aparecer em nossas vidas, e neste momento, talvez nos sintamos fragilizados por não conseguir decidir. Isto pode acontecer a um empreendedor de muito sucesso, ou a alguém que está na formação de seu novo negócio, sem qualquer relação direta com traumas e afins.
Também é importante de desmistificar é que fazer psicoterapia não é somente deitar num divã e falar a alguém. Existem inúmeras abordagens e técnicas psicoterápicas onde a conversa e a troca de informações são amplamente exploradas.

Aqui não há certo ou errado, nem melhor nem pior: a melhor é aquela que você se sente bem! Por fim, a psicoterapia tende a ser naturalmente um processo longo, mas não precisa ser obrigatoriamente algo interminável. Ela pode ter abordagens breves que variam de 08 a 12 sessões ou até mesmo encontros pontuais à medida que você combine as regras com seu psicólogo

Está em um grande dilema? Empreenda em si mesmo! Que tal fazer psicoterapia?!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Vida e obra de Simone de Beauvoir

Vida e obra de Simone de Beauvoir serviram de base para o movimento de conscientização das mulheres no século XX
Jornal Mulier – Dezembro de 2006, Nº 35
Ela nasceu em 09/01/1908, em Paris, e sua vida nada teve de convencional e monótona. Simone de Beauvoir é considerada a mulher mais intelectualizada da França no século XX. Sua vida confunde-se com sua obra, e é através desta última que ela deixou um legado de questionamentos e apelo à resistência das mulheres na luta por um lugar no mundo, reconhecendo sua importância e função na História.
A inquietação intelectual de Simone veio da infância. Filha de mãe católica e pai ateu, ela e a irmã tiveram educação católica e tradicional, mas sempre estiveram rodeadas de livros. O pai não possuía grandes posses e estimulava a educação das meninas porque dizia não ter dote para as mesmas fazerem um bom casamento. Dessa forma, elas teriam que trabalhar para se sustentarem no futuro. Esta realidade agradava Simone. Ela agarrou com afinco os estudos, dizendo que enquanto houvesse livros no mundo sua felicidade estaria assegurada. Foi também com os livros que chegou a conclusões que iriam influenciar sua vida: queria conhecer o mundo, dedicar-se a aprender e a ensinar, seria uma escritora. Quanto ao casamento, fim último ao qual uma moça de sua época deveria aspirar, Simone o desprezava por completo. Estava interessada no futuro, no seu futuro enquanto mulher emancipada. Sabia que pelo talento as mulheres haviam conquistado um lugar no universo dos homens. Sabia que o “sábio, o artista, o pensador criavam um mundo diferente, luminoso e alegre em que tudo tinha razão de ser. Nele é que eu iria viver, estava resolvida a conquistar meu lugar”, escreveu em seu livro “Memórias de uma moça bem-comportada”. Segundo ela, apenas amaria um homem que a subjugasse por sua inteligência, sua cultura e autoridade.
Na adolescência, como qualquer adolescente típico, passou por crises existenciais. Achava-se feia, acreditava que sua inteligência e teimosia a distanciavam do pai, a quem adorava, e viu-se prestes a repetir um casamento burguês com um primo que nem mesmo tinha certeza se amava. Também passou a questionar a existência de Deus, sentimento escondido de todos por muitos anos. Na verdade, Simone era ingênua e inocente, conhecia o mundo pelos livros, principalmente por romances e novelas. A realidade estava longe dos seus olhos, contava poucas amigas e não era autorizada a sair de casa pelos pais. Conhecia pouco das necessidades e angústias dos seres reais, fora da ficção, e se torturava por isso. Sua vida mudou quando foi aprovada para o curso de Filosofia na Sorbonne, tradicional universidade francesa.
Em Paris, na Sorbonne, passou a conhecer a realidade como ela era de fato. Com amigos começou a sair e conhecer o submundo da cidade. Sua inteligência e conhecimento impressionavam a todos, tornou-se amiga de grandes intelectuais, entre eles Jean-Paul Sartre, com quem dividiria seu amor pelo resto da vida. Sartre era baixo, tinha o rosto marcado por acne e era estrábico, ou seja, não tinha qualquer atributo de beleza, mas encantou Simone pela inteligência e sedução. Para ela, havia encontrado nele a pessoa que a estimulava e não a faria estagnar intelectualmente. Assim começou um dos romances mais rumorosos, e mesmo invejado, da História recente.
Simone de Beauvoir acreditava que a vida em comum deveria favorecer e não contrariar seu principal objetivo: tomar posse do mundo. Foi o que aconteceu com Sartre. Recusaram-se a casar, a ter filhos e delimitar a liberdade um do outro. Pactuaram poder fazer o que quisessem cada qual de sua vida, inclusive ter envolvimentos amorosos com outras pessoas, mas nada deveria ser escondido, o ciúme não poderia existir. A relação era baseada na sinceridade e na lealdade. Por mais que pudessem chatear ou chocar eles mesmos e os outros, seriam sempre um do outro, na verdade achavam que eram um só. Simone seria o tudo de Sartre e Sartre, o tudo de Simone.
Para quem estava de fora, a relação deles parecia algo fascinante e poderosa. Depois da morte de ambos, foram publicadas cartas trocadas entre eles. Viu-se que realmente contavam em detalhes suas aventuras amorosas, existindo uma grande necessidade de um opinar sobre os casos do outro. Se por um lado mostrava a sinceridade dos mesmos, as cartas chocaram pela forma como expunham intimidades das pessoas com quem se relacionavam, a verdade, honestidade e sinceridade que tinham entre si não valiam para seus amantes. Na verdade, pouco mais de dez anos após conhecerem-se, já não tinham qualquer tipo de relação sexual, era mais uma amizade profunda que amor.
Assim viveram por muitos anos. Conheceram o mundo, buscaram incessantemente o prazer, pareciam tentar aprender e entender mais a si mesmos do que o mundo e a realidade ao redor, embora ambos fossem excelentes professores e encantassem os alunos com seus conhecimentos. Só começaram a compreender melhor a História e a sociedade, começando a pensar o que poderiam fazer como intelectuais, a partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939.
Simone de Beauvoir começou a entender cada vez mais que era uma intelectual cujas armas eram as palavras. Em 1949, escreveu o livro “O segundo sexo”, considerado a obra de referência para o movimento feminista moderno. A frase mais famosa da obra é: “a pessoa não nasce mulher, mas antes torna-se mulher”, ou seja, a feminilidade é uma construção sociais. As condições vividas pelas mulheres e o que se espera delas são estabelecidos culturalmente pela sociedade. No livro, Simone fala da necessidade da mulher conquistar o seu lugar no mundo e tomar o seu destino nas mãos. Segundo ela, “as restrições que a educação e os costumes impõem à mulher restringem seu domínio sobre o universo”. Ela criticou veementemente o casamento e a ideia da mulher necessariamente ter que ser mãe. Casar e ser mãe limitariam a vida da mulher, não deixando espaço para que estudassem ou tivessem interesse pela política, cultura e tecnologia. Dessa forma, a mulher nunca iria se equiparar ao homem economicamente, intelectualmente e socialmente. Uma das saídas era o trabalho feminino, podendo assegurar uma certa liberdade, ao menos econômica. A liberdade concreta viria com o socialismo. “O segundo sexo” também causou escândalo por tratar do corpo de mulher e da sexualidade feminina.
Apesar das ideias defendidas, até a década de 1970, Simone de Beauvoir não se considerava uma feminista, até porque as feministas também não se simpatizavam com ela, principalmente por sua relação com Sartre, que achavam subjugar e dominar Simone. Beauvoir acreditava serem os homens tão vítimas como as mulheres, devendo o movimento feminista dar espaço para os homens ajudarem na luta pela equidade. Na última frase do livro “O segundo sexo”, Simone exprime a intenção de um dia homens e mulheres se encontrarem e afirmarem sem equívocos sua fraternidade. Mesmo assim, nos últimos anos de vida, Simone trabalhou com o movimento de mulheres e lutou pela legalização do aborto na França, que aconteceu em 1975.
Simone de Beauvoir escreveu inúmeros livros, peças, ensaios e era colaboradora da revista “Los Temps Modernes”, criada por Sartre. Sua vasta obra mostra a paixão pela escrita, e muito do que hoje sabemos sobre ela vem de sua própria literatura, seja em seus inúmeros livros de memória, seja por seus livros de ficção, no qual retratava muitos dos acontecimentos de sua vida na pele dos personagens. Em suas obras, explorava os dilemas existenciais da liberdade, da ação e da responsabilidade individual, temas recorrentes na obra de Sartre. A influência de Sartre era evidente, assim como ele também dependia totalmente das observações de Beauvoir sobre seus escritos. As obras de ambos parecem um meio que se utilizaram para se entender, deixar seu legado para a humanidade e não permitir que a solidão os atormentasse. Aliás, a solidão era terrível para Simone, mesmo quando estava lendo ou escrevendo, gostava de estar com Sartre ou rodeada de amigos e alunos. Mas sentiu-se muito solitária em 1980, quando Sartre morreu. Escreveu um livro contando o sofrimento do companheiro com quem viveu 50 anos, “A cerimônia do adeus”. Ela ainda viveu mais seis anos. Morreu em 14/04/1986 e alcançou seu objetivo de infância: conquistar o mundo com suas ideias, ser uma grande escritora e não se submeter às convenções da sociedade.
Fontes
BEAUVOIR, Simone. “O segundo sexo”. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BEAUVOIR, Simone. “Memórias de uma moça bem-comportada”. São Paulo: Círculo do Livro, sem data.
ROWLEY, Hazel. “Tête-à-Tête, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
SCHWARZER, Alice. “Simone de Beauvoir hoje”. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Envelhecer

Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinqüenta anos”.
Tenho cinqüenta anos e não estou vendo nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.”

Albert Camus