sábado, 25 de julho de 2015

Resiliência e Trauma



Um dos mais graves traumas que uma criança pode sofrer na primeira infância é a negligência afetiva, os maus tratos, o abandono e a falta de vínculos familiares ou seus substitutos, adquirindo distúrbios duradouros da emoção. Essa é a afirmação do neuropsiquiatra, psicanalista e etólogo francês Boris Cyrulnik, conferencista convidado no I Seminário sobre Resiliência e Trauma, em março deste ano, promovido pela Sociedade de Psicanálise Brasileira, CEINP e Instituto Rukha, com apresentação do Projeto Virada Social, objetivando transformar crianças de rua em donas de seu próprio destino.
Com a cifra alarmante de 120 milhões de crianças de rua no mundo, segundo dados da UNICEF, e a atrofia e encolhimento de lares com pais e mães cada vez mais ausentes e imersos em seus trabalhos, Cyrulnik acredita que há um crescimento mundial de crianças traumatizadas pela falta de afeto, que se tornam adultos despreparados, frágeis o suficiente para não desenvolverem relacionamentos sociais e ou atividades profissionais, muitas vezes ingressando no submundo das drogas e do crime, acrescentando que na América Latina violência e delinqüência entre os jovens não é uma opção de vida, mas sobrevivência.
Segundo o etólogo, a falta de afeto na idade pré-verbal é um dos entraves para uma pessoa se tornar resiliente. Ao contrário do que se pensa, as crianças têm memória sobre experiências que as fizeram sair da rotina, e que antes do advento da fala, alojam-se no seu mundo íntimo. Lembranças de maus tratos, abandono e falta de afeto são ocorrências que não se apagam nessa fase de desenvolvimento, podendo provocar modificações cerebrais, como o atrofiamento do sistema límbico, tornando-as confusas e sem controle emocional.
Trazendo narrativas e histórias de seus pacientes, bem como de andanças em missões na Bósnia e Camboja, Cyrulnik descreve essas crianças negligenciadas pela falta de afeto como constantemente sobressaltadas e amedrontadas frente a eventuais novidades, exprimindo desespero descontrolado de qualquer separação. As agressões recebidas na primeira infância são as que modelam a criança de forma mais traumatizante, porque inexiste a ferramenta da fala para fazer as representações e confidências. Ao se detestar uma criança há um envelope de significantes que é perceptível sensorialmente a ela, são esses os fantasmas que recepciona no seu mundo íntimo, diz Cyrulnik. Nesse estágio, quando existe a possibilidade da intervenção da terapia, deve haver uma remodelação do ambiente em que a criança habita, havendo casos em que há necessidade de filmar o cotidiano para que pais ou cuidadores conscientizem-se de seus gestos de desamor.
No entanto, crianças protegidas por vínculos afetivos nos seus primeiros anos de vida estariam mais propensas à resiliência, um conceito contemporâneo em construção para designar a capacidade singular de superar traumas psíquicos e as mais graves feridas emocionais. Mas a melhor definição de resiliência para Cyrulnik é: “A arte de navegar nas torrentes”, lembrando que resiliência faz parte de um processo relacional, entre mundo íntimo e mundo aparente, onde cada indivíduo recepciona de forma subjetiva um golpe, podendo ou não transformá-lo num transtorno patogênico duradouro.
Cyrulnik considera muito valiosos todos os recursos, métodos e técnicas terapêuticas utilizados atualmente no tratamento dos traumas (embora particularmente não goste muito da técnica de “regressão”), lembrando que falar com alguém faz parte da resiliência, é aprender a remanejar o afeto, quando a estrutura semântica do discurso funciona como construímos o nosso mundo psíquico. Mas a abordagem no tratamento, segundo suas experiências, deve ser pluridisciplinar, uma equipe de investigação que reúna áreas como psicanálise, lingüística e neurobiologia, por exemplo, que aplicadas conjuntamente no processo terapêutico trazem resultados surpreendentemente positivos na superação de traumas que mulheres, homens, crianças, estão expostos no mundo de hoje. Sem esquecer que socialmente os vínculos familiares e institucionais, como possíveis tutores, vizinhos, professores podem ajudar na produção da resiliência. Às vezes, um pequeno sopro pode dar sentido à existência do traumatizado, fazendo-o retornar ao convívio social.
Nascido em Bourdeaux, em 1937, Boris Cyrulnik abriu o campo de pesquisa na França à Etologia, ciência que estuda o comportamento tanto dos animais como dos homens, além de ser reconhecido por desenvolver o conceito de resiliência. Atualmente é responsável pelo grupo de pesquisa em Etologia Clínica no Hospital de Toulon, e professor de Etologia Humana na “Université du Sud-Toulon-Var”. Possui cerca de duzentos artigos publicados sobre o assunto e é autor de 28 livros, entre eles alguns traduzidos para o português, como “Murmúrio dos Fantasmas”, “Patinhos Feitos” e “Resiliência”.

Resiliência é um conceito contemporâneo em construção para designar a capacidade subjetiva de superação de traumas, como uma metáfora retirada da física, onde os corpos, com propriedade elástica, retornam ao estado natural quando cessa a tensão causadora da deformação.

CYRULNIK, Boris. Murmúrio dos Fantasmas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
“Resiliência e Trauma”. In: I Seminário de Boris Cyrulnik no Brasil, realizado na sede da SBP-SP, Av. Dr. Cardoso de Melo, Vila Olímpia, 1450. Promoção: SBP-SP, CEINP e Insituto Rukha.
Biografia. In: Consulado da França em São Paulo.
CEINP – Centro de Estudos e Investigação em Neuro-psicanálise

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