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Amor e objeto a

cena filme Frequencies (2015)



A teoria psicanalítica (lacaniana) dá conta de um sujeito que se constitui a partir de uma falta. Algo se perde para que o nascimento do sujeito do inconsciente venha à tona. A partir dessa concepção concluímos que o sujeito, objeto da psicanálise, é furado, barrado; possui uma perda na sua origem. Uma perda fundamental. Todavia, a própria psicanálise procura descrever esse “nada” que ficou no lugar do objeto perdido, esse vazio. A esse vazio, Lacan denomina Objeto a.

O conceito de objeto a trata daquilo que o próprio Lacan toma por uma construção sua. Lacan considera ter construído e inventado o objeto a. Ele é um objeto que se reveste da característica de ser escrito com um símbolo, a letra “a”. Esse símbolo “a” não representa a primeira letra do alfabeto, mas a primeira letra da palavra “outro” [autre]. Na teoria lacaniana, existe o outro com “a” minúsculo e o Outro com “A” maiúsculo. Este, o Outro maiúsculo, é uma das imagens antropomórficas do poder de sobredeterminação da cadeia significante. Já o outro minúsculo, com que a letra a qualifica nosso objeto, designa nosso semelhante, o alter ego. Pois bem, a invenção do objeto pequeno a responde a diversos problemas, mas, sobretudo, a esta pergunta, exatamente: “Quem é o outro?” “Quem é meu semelhante?”

Em seu artigo “Luto e melancolia”, ao se referir à pessoa que foi perdida e de quem se faz o luto, Freud escreve a palavra “objeto”, e não “pessoa”. Freud já fornece a Lacan uma base para responder à pergunta “quem é o outro?” e construir seu conceito deobjeto a. Quem é esse outro amado e agora desaparecido, de quem faço luto? Freud o chama de objeto, e Lacan, de objeto a. “Li luto e melancolia” – confidencia Lacan, “e bastou eu me deixar guiar por esse texto para encontrar o objeto a”. Isso não significa que o outro desaparecido se chame objeto a, mas que o objeto a responde à pergunta “quem é o outro?”. Por quê? Para melhor nos fazermos compreender, desdobremos a pergunta sobre o outro e perguntemo-nos: “Quem é esse diante de mim? Quem é ele? É um corpo? É uma imagem? É uma representação simbólica?” Coloquemo-nos no lugar do analisando, que, deitado no divã, pergunta a si mesmo: “Quem é essa presença atrás de mim? É uma voz? Uma respiração? Um sonho? Um produto do pensamento? Quem é o outro?” A psicanálise não responderá que “o outro é...”, mas se limitará a dizer: “para responder a essa pergunta, construamos o objeto a.” A letra a é uma maneira de nomear a dificuldade; ela surge no lugar de uma não-resposta.

Lembrem-se do espírito do procedimento lacaniano, que, em vez de resolver um problema, dá-lhe um nome. O melhor exemplo desse procedimento é, precisamente, o objeto a. De fato, o objeto a é, com certeza, um dos mais notáveis exemplos da álgebra lacaniana; eu diria até que é o paradigma de todos os algoritmos psicanalíticos. Que é o objeto a? O objeto a é apenas uma letra, nada além da letra a, uma letra que tem a função central de nomear um problema não resolvido, ou melhor ainda, de expressar uma ausência. Que ausência? A ausência de resposta a uma pergunta que insiste sem parar. Já que não encontramos a solução esperada e necessária, marcamos então, com uma notação escrita – uma simples letra –, o furo opaco da nossa ignorância, colocamos uma letra no lugar de uma resposta não fornecida. O objeto a designa, pois, uma impossibilidade, um ponto de resistência ao desenvolvimento teórico. Graças a essa notação, podemos – apesar de nossos tropeços – continuar a pesquisa, sem que a cadeia do saber seja rompida. Como vocês podem ver, o objeto a é, enfim um artifício do pensamento analítico para contornar a rocha do impossível: transpomos o real ao representá-lo por uma letra. Ora, qual é a pergunta cuja resposta é a, ou seja, uma simples letra, vazia de sentido? Essa pergunta poderia formular-se de maneiras diferentes, segundo os contextos teóricos, mas a que se abre imediatamente para o objeto a é: “Quem é o outro, meu parceiro, a pessoa amada?”

(A Dor de Amar, J-D,Nasio, 2007, Zahar)

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