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Por que fazer análise?

A ciência tem feito muito para a humanidade, pesquisas tem trazido soluções cada vez mais eficazes tanto para o tratamento de patologias diversas como em técnicas sofisticada de diagnóstico. Não se questiona o fato de a ciência ter feito descobertas importantes. Mas e quanto à dores que não são de ordem física? O que se faz com as dores da alma? Como amenizar a dor de existir? Como aceitar a vida como ela é? Como se aceitar?

A felicidade, a maneira como o indivíduo lida com a vida não está inscrita nos genes nem nos neurônios. Cada pessoa tem uma história singular e o trabalho analítico se propõe a escutar o discurso do sujeito, ajudando-o a descobrir por que sofre e auxiliando-o num processo de re-significação. Digo re-significação porque o quantum de sofrimento relacionado a determinado fato está intimamente ligado ao significado que o fato tem para o indivíduo, ou seja, a interpretação, a tradução dos acontecimentos pode torná-los mais ou menos, penoso, e isto é absolutamente pessoal -foi construído na história de cada sujeito. Freud abandona a teoria traumática e produz o conceito de realidade psíquica, exatamente quando descobre, em sua prática clínica, que suas pacientes histéricas não sofriam por traumas infantis reais, como pensava inicialmente, e sim, que elas sofriam de fantasias traumáticas infantis. Surge assim o conceito de realidade psíquica.

Dessa forma, o trauma cede lugar à fantasia inscrita em um universo simbólico que situa e valoriza cada acontecimento, isto é a realidade externa, pois esta é contaminada pelas vivências de cada um. O que traumatiza é a interpretação subjetiva do factual.

Para a psicanálise, os sintomas, os traços de caráter, as inibições, os afetos, as relações objetais são efeitos de uma história. Não existe acaso, tudo tem um sentido. Um sintoma sempre diz algo. O termo sintoma engloba desde febre até todas e quaisquer formas de expressão do sujeito, por exemplo: dificuldade nos relacionamentos, dificuldade para ganhar dinheiro, dificuldade com o sucesso, etc.

A análise possibilita ao sujeito descobrir por que faz o que faz. Não somos simplesmente vítimas de um destino. É preciso se incluir, descobrir de que forma se participa das situações da vida. O trabalho analítico colabora para o sujeito se apropriar de sua história e não mais ficar vivendo como vítima.
Em um tempo no qual se vive uma incessante cobrança em relação à produtividade, a prazos; no qual se é exigido sem qualquer respeito à suas singularidades, ao seu momento de vida; no qual a violência invade seu dia-a-dia rotineiramente e a mídia vende uma “felicidade” que só pode ser encontrada na aquisição de bens materiais, nas grandes “baladas”, nas substâncias químicas, ou seja, no excesso e no imediatismo, fica muito difícil viver sem que nosso corpo – físico e psíquico- “reclame”.

Não é sem razão que surgiram patologias modernas, tais como, estresse, síndrome do pânico, transtornos alimentares, transtornos de ansiedade, dependência química, entre outras.

As pessoas estão se perdendo, se desvalorizando e se desrespeitando na tentativa de se encontrar. Poucos se dão conta de que só se encontrarão efetivamente dentro de si mesmo, no seu íntimo. O que não dá é pra continuar submetido ao apelo da mídia e acreditar que a felicidade está no carro “eleito melhor do ano”, na mulher sexy da propaganda, nas “baladas”, ou seja, no externo. Ora, o que vai sobrar quando o carro for roubado, a mulher o trair e a droga tirar todas as suas ilusões?

Em 1905, Freud faz uma analogia interessante ao mencionar um comentário de Leonardo da Vinci em que diz que a pintura trabalha em uma tela branca, aplicando sobre elas cores que antes não estavam, enquanto a escultura tira da pedra tudo o que recobre as formas da estátua nela contida. A psicanálise trabalha como a escultura, não deseja acrescentar, nem introduzir nada novo; no lugar disso, procura fazer o sujeito viver bem com os recursos (internos) que tem, com a quilo que é.

Ricardo R. Costa Pinto, Psicanalista - Matéria retirada da revista Saúde Ativa – Revista Informativa sobre medicina e saúde – São José dos Campos – São Paulo, Ano 4, no 16/2009

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