domingo, 7 de junho de 2015

Estruturação do sujeito - Contardo Calligaris



Qualquer tipo de estruturação do sujeito, seja neurótica ou psicótica, é uma estruturação de defesa, no sentido freudiano, no sentido em que Freud fala de psiconeurose de defesa. É uma estruturação de defesa na medida em que se subjetivar, existir como sujeito (barrado pela castração, como na neurose, ou não, como na psicose), obter algum estatuto simbólico, alguma significação é necessário para que o sujeito seja algo distinto do Real do seu corpo, algo Outro e mais do que alguns quilos de carne. Por isso o
sujeito se estrutura em uma operação de defesa.
De defesa contra que? Contra o que seria, imaginariamente, o seu destino se ele não se defendesse se estruturando: ser — reduzido ao seu corpo — o objeto de uma Demanda imaginária do Outro, se perder como objeto do gozo do Outro. A operação de defesa implica um certo tipo de metáfora, ou seja, implica — é o próprio da metáfora — que a significação possa prevalecer, possa substituir ao pedaço de carne uma significação subjetiva. Como a metáfora permite isso? Precisa que algo prevaleça sobre a Demanda imaginária da qual seríamos objeto e de preferência um saber sobre esta Demanda mesma. Assim, referidos à Demanda somos objetos do gozo, referidos ao saber sobre a Demanda temos uma significação que nos mantém defendidos, como sujeitos.

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989 )

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