segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Vida Secreta das Palavras

Hanna: “Vou começar a chorar tanto, que nada nem ninguém vai me fazer parar. 
As lágrimas vão encher o quarto, não vou conseguir respirar... 
Vou levar você para o fundo comigo, e nós dois vamos nos afogar". 
Josef: "Eu vou aprender a nadar...Eu juro que vou aprender a nadar..."
A Força das Palavras

Hannah é a personagem do filme "A vida secreta das palavras", da cineasta catalã Isabel Coixet. É uma sobrevivente da guerra dos Bálcãs. Mas Hannah poderia também ter acontecido no Iraque, no Afeganistão ou mesmo em qualquer lugar da América do Sul em seus anos de chumbo. Vítima e sobrevivente dos desastres que um regime de força ou ditadura de um país pode exercer sobre seus filhos, Hannah traz no corpo as marcas de cruel tortura exercida por seus irmãos compatriotas. Viu sua amiga morrer a seu lado, aos poucos, também estuprada e torturada (Por que ela, não eu?). Hannah sobreviveu... mas morreu um pouco. Silenciou-se.

Trabalha numa fábrica em uma tarefa que nada lhe exige, a não ser movimentos de um autômato, por anos a fio, sem férias, nem atraso, nem faltas. Suas refeições são sempre exatamente as mesmas. Hannah sobreviveu, mas perdeu sua graça, seu gosto pela vida, pelo contato, pelo convívio. Mataram sua fala. Mataram sua audição. Hannah usa um aparelho auditivo que liga somente quando quer ouvir e desliga o resto do tempo. De vez em quando telefona para uma mulher e nada diz. Apenas ouve. Como se o outro sinalizasse a ela que está viva, que olha por ela.

O que faz a tortura exitosa é conseguir matar um ser por dentro. Calar as entranhas, deixar de ser alguém. Abolir sua palavra, aniquilar seu desejo, destituir-se como sujeito. Abolir sua história e impor esquecimento a força. Buracos de memória forçados. Estas são suas piores cicatrizes.

O fenômeno do sadismo sem freio é o que carregamos de avesso do humano em nós mesmos e que se revela como o pior, quando o funcionamento social falha por falta de lei ou por imposição ou obediência cega e sem crítica a algum tipo de liderança perversa. É este funcionamento grupal perverso que atinge a todos, e esta é a verdadeira guerra fratricida.

Um fato novo na vida de Hannah, porém, acontece, e há que sair da rotina que apazigua, que é morte em vida. É obrigada a tirar férias, sua presença calada angustia seus colegas. Afinal, ela é mistério. Vai para um lugar qualquer que em nada lembra o lazer de um período de férias.

Lá encontra casualmente alguém à procura de uma enfermeira. Enfim, vai para uma plataforma de petróleo a ser desativada por conta do estrago de um incêndio. Para cuidar de um homem, Josef - ele também sobrevivente, vítima de queimaduras graves, temporariamente cego, e em risco de vida. Escolha nada casual para efetivamente matar o tempo das férias...

Aí começa a se estabelecer uma terna relação, em que Hannah trata das feridas do corpo do paciente. Uma troca sem palavras. Resgate do corpo, em seu mais fundamental erotismo: cicatrizar. Inicialmente, uma troca surda, muda e cega. Apenas as escaras do corpo a se fazer entender e comunicar. Apesar disso, Josef insiste em falar; Hannah, apesar de não querer, acaba por escutá-lo. E, nesta experiência de profunda com-paixão, ela acaba, aos poucos, por despertar um mínimo de gosto pelas pequenas coisas da vida.

A vida na plataforma de petróleo é árida. Entretanto, os poucos tripulantes inventam formas de não deixar a vida fugir. Cozinham, cantam, contam ondas, convivem. Hannah olha, observa de fora (ou de dentro?)...

E é neste compasso que consegue dizer a Josef sobre si. É a partir das palavras de Josef - ou um olhar-palavra - de profundo interesse, de busca (quem é você?), que se acende uma faísca de vida. Poder dizer de si: quem é, o que aconteceu em sua vida, mostrar suas inscrições - verdadeiras tatuagens, cicatrizes -, e re-descobrir que há vida e erotismo, sexualidade e feminilidade naquela que se julgara (ou decretara) morta.

O conteúdo do resto do filme não vem ao caso. O que nos interessa aqui é lembrar que a paixão e/ou padecimento compartilhado é a única esperança: pode salvar. A mulher que a ouve no telefone tem o registro em seus arquivos de toda a vida de Hannah, sua história, suas imagens. Ela é testemunha "para contar, para que não se deixe esquecer" - uma escuta genuína; o homem que recebeu seus cuidados, que a quer e vai procurá-la onde estiver. São as marcas da experiência humana a mais profunda, e que faz com que se saiba vivo. Pessoa.

Às vezes isso lembra a experiência analítica... Abre a possibilidade de criação de uma outra narrativa, uma poética da dor.

Falar é preciso. Sobreviver não é preciso.

E finalmente, é preciso lembrar que este filme foi dedicado à Dra. Inge K. Genefke, psiquiatra militante que dirige o Centro de Pesquisas de Vítimas de Tortura da Anistia Internacional em Copenhague, onde desenvolve um maravilhoso trabalho. Eu a conheci em 1984 em um Simpósio sobre Vítimas da Tortura, e lá pude testemunhar o fôlego, o investimento e a qualidade de seu trabalho, que desde então vem sendo implantado em muitos países, como Rússia, Turquia, Grécia, Kenya, e inclusive na América do Sul, como na Argentina, Chile, Uruguai. Eis uma de suas citações:

"O objetivo da tortura é destruir uma pessoa enquanto ser humano, destruir sua identidade e sua alma. É mais maligno que assassinato... Hoje sabemos que podemos ajudar os sobreviventes a recuperar sua saúde e sua força, e, com isso, desarmarmos seus torturadores. Eles buscavam a destruição de outros seres humanos. E nós provamos que não conseguiram". (Tradução livre da autora).

A Dra. Genefke é a personagem do filme que ouve o silêncio de Hannah e faz com que se mantenha viva...

(1) Lilian Quintão, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Nenhum comentário:

Postar um comentário