terça-feira, 30 de junho de 2015

Tabela Referencial de Honorários CRP ( Atualizada em 2013)


Diagnóstico PsicológicoLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Avaliação Psicológica128,30160,37210,08
Entrevista inicial112,25162,55192,45
Elaboração de perfil profissiográfico69,97120,51163,28
Avaliação de desempenho escolar e aprendizagem96,23165,42192,45
Avaliação de aspectos cognitivos96,23170,51192,45
Avaliação Psicomotora96,23167,32192,45
Avaliação da personalidade112,25187,78211,69
Observação de campo 118,66160,37192,45
Exames psicotécnicos70,58131,63192,45
Avaliação psicológica para concessão de registro e/ou porte de arma de fogo128,30160,37210,08
Perícia - Avaliação Psicológica128,30160,37210,08
Avaliação neuropsicológica128,30160,37210,08
Elaboração de instrumentos psicológicos96,23144,35192,45
Orientação e Seleção ProfissionalLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Orientação Vocacional81,62116,61163,28
Recrutamento e seleção de pessoal62,97116,61163,28
Elaboração de instrumentos psicológicos58,31137,67186,58
Desenvolvimento de projetos relativos ao trabalho48,97165,14204,09
Identificação de necessidades humanas46,64142,15165,59
Partic. em prog. Educacionais, culturais, recretativos46,64134,48186,58
Orientação e acompanhamento64,15115,58152,75
Orientação e encaminhamento de empregados46,64111,82142,27
Avaliação de programa de treinamento69,97162,08193,57
Orientação e Treinamento/ Desenvolvimento58,31166,97186,58
Desligamento de empregados58,31110,41151,59
Preparação para aposentadoria93,29139,93209,90
Orientação e PsicopedagógicaLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Realização de pesquisas69,97104,96139,93
Planejamento psicopedagógico46,64127,18139,93
Orientação psicopedagógico69,97106,42128,25
Preparação para aposentadoria93,29139,93209,90
Solução de Problemas PsicológicosLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Psicomotricidade individual69,97100,88116,61
Psicomotricidade em grupo58,3187,32116,61
Problemas de aprendizagem individual69,9799,60116,61
Problemas de aprendizagem em grupo68,7992,65116,61
Psicoterapia individual81,62118,18139,93
Psicoterapia em casal93,29127,29186,58
Psicoterapia familiar93,29149,03186,58
Psicoterapia em grupo67,64108,45139,93
Ludoterapia individual69,97105,91139,93
Ludoterapia em grupo64,15100,55128,25
Terapia psicomotora individual69,9799,54117,76
Terapia psicomotora em grupo58,3187,61116,61
Acompanhamento e Orientação PsicológicaLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Acompanhamento psicológico da gravidez, parto e puerperio93,29126,99151,59
Acompanhamento psicológico da gravidez em grupo69,97121,47134,10
Acompanhamento psicoterapêutico104,96167,65198,26
Acompanhamento psicológico de deficientes69,97100,73116,61
Acompanhamento psicológico de idosos81,62115,44139,93
Acompanhamento e reabilitação profissional46,64116,61163,28
Assessoria em PsicologiaLimite InferiorLimite MédiaSuperior
Consultoria empresarial110,76228,52256,57
Realização de pesquisa69,97116,61186,58
Movimentação de pessoal99,12183,23233,24
Supervisão de atividades psicológicas97,96153,05186,58
Assessorias a instituições escolares69,97134,13171,43
Fonte - CFP/FENAPSI

50 livros clássicos em português para download grátis


Livros clássicos da literatura brasileira e portuguesa estão disponíveis para download gratuito através da biblioteca Domínio Público, do Ministério da Educação. Entre os autores disponíveis estão Machado de Assis, José de Alencar, Saramago, Fernando Pessoa e Camões, entre outros.

50 livros clássicos em português para download grátis

segunda-feira, 15 de junho de 2015

A Vida Secreta das Palavras

Hanna: “Vou começar a chorar tanto, que nada nem ninguém vai me fazer parar. 
As lágrimas vão encher o quarto, não vou conseguir respirar... 
Vou levar você para o fundo comigo, e nós dois vamos nos afogar". 
Josef: "Eu vou aprender a nadar...Eu juro que vou aprender a nadar..."
A Força das Palavras

Hannah é a personagem do filme "A vida secreta das palavras", da cineasta catalã Isabel Coixet. É uma sobrevivente da guerra dos Bálcãs. Mas Hannah poderia também ter acontecido no Iraque, no Afeganistão ou mesmo em qualquer lugar da América do Sul em seus anos de chumbo. Vítima e sobrevivente dos desastres que um regime de força ou ditadura de um país pode exercer sobre seus filhos, Hannah traz no corpo as marcas de cruel tortura exercida por seus irmãos compatriotas. Viu sua amiga morrer a seu lado, aos poucos, também estuprada e torturada (Por que ela, não eu?). Hannah sobreviveu... mas morreu um pouco. Silenciou-se.

Trabalha numa fábrica em uma tarefa que nada lhe exige, a não ser movimentos de um autômato, por anos a fio, sem férias, nem atraso, nem faltas. Suas refeições são sempre exatamente as mesmas. Hannah sobreviveu, mas perdeu sua graça, seu gosto pela vida, pelo contato, pelo convívio. Mataram sua fala. Mataram sua audição. Hannah usa um aparelho auditivo que liga somente quando quer ouvir e desliga o resto do tempo. De vez em quando telefona para uma mulher e nada diz. Apenas ouve. Como se o outro sinalizasse a ela que está viva, que olha por ela.

O que faz a tortura exitosa é conseguir matar um ser por dentro. Calar as entranhas, deixar de ser alguém. Abolir sua palavra, aniquilar seu desejo, destituir-se como sujeito. Abolir sua história e impor esquecimento a força. Buracos de memória forçados. Estas são suas piores cicatrizes.

O fenômeno do sadismo sem freio é o que carregamos de avesso do humano em nós mesmos e que se revela como o pior, quando o funcionamento social falha por falta de lei ou por imposição ou obediência cega e sem crítica a algum tipo de liderança perversa. É este funcionamento grupal perverso que atinge a todos, e esta é a verdadeira guerra fratricida.

Um fato novo na vida de Hannah, porém, acontece, e há que sair da rotina que apazigua, que é morte em vida. É obrigada a tirar férias, sua presença calada angustia seus colegas. Afinal, ela é mistério. Vai para um lugar qualquer que em nada lembra o lazer de um período de férias.

Lá encontra casualmente alguém à procura de uma enfermeira. Enfim, vai para uma plataforma de petróleo a ser desativada por conta do estrago de um incêndio. Para cuidar de um homem, Josef - ele também sobrevivente, vítima de queimaduras graves, temporariamente cego, e em risco de vida. Escolha nada casual para efetivamente matar o tempo das férias...

Aí começa a se estabelecer uma terna relação, em que Hannah trata das feridas do corpo do paciente. Uma troca sem palavras. Resgate do corpo, em seu mais fundamental erotismo: cicatrizar. Inicialmente, uma troca surda, muda e cega. Apenas as escaras do corpo a se fazer entender e comunicar. Apesar disso, Josef insiste em falar; Hannah, apesar de não querer, acaba por escutá-lo. E, nesta experiência de profunda com-paixão, ela acaba, aos poucos, por despertar um mínimo de gosto pelas pequenas coisas da vida.

A vida na plataforma de petróleo é árida. Entretanto, os poucos tripulantes inventam formas de não deixar a vida fugir. Cozinham, cantam, contam ondas, convivem. Hannah olha, observa de fora (ou de dentro?)...

E é neste compasso que consegue dizer a Josef sobre si. É a partir das palavras de Josef - ou um olhar-palavra - de profundo interesse, de busca (quem é você?), que se acende uma faísca de vida. Poder dizer de si: quem é, o que aconteceu em sua vida, mostrar suas inscrições - verdadeiras tatuagens, cicatrizes -, e re-descobrir que há vida e erotismo, sexualidade e feminilidade naquela que se julgara (ou decretara) morta.

O conteúdo do resto do filme não vem ao caso. O que nos interessa aqui é lembrar que a paixão e/ou padecimento compartilhado é a única esperança: pode salvar. A mulher que a ouve no telefone tem o registro em seus arquivos de toda a vida de Hannah, sua história, suas imagens. Ela é testemunha "para contar, para que não se deixe esquecer" - uma escuta genuína; o homem que recebeu seus cuidados, que a quer e vai procurá-la onde estiver. São as marcas da experiência humana a mais profunda, e que faz com que se saiba vivo. Pessoa.

Às vezes isso lembra a experiência analítica... Abre a possibilidade de criação de uma outra narrativa, uma poética da dor.

Falar é preciso. Sobreviver não é preciso.

E finalmente, é preciso lembrar que este filme foi dedicado à Dra. Inge K. Genefke, psiquiatra militante que dirige o Centro de Pesquisas de Vítimas de Tortura da Anistia Internacional em Copenhague, onde desenvolve um maravilhoso trabalho. Eu a conheci em 1984 em um Simpósio sobre Vítimas da Tortura, e lá pude testemunhar o fôlego, o investimento e a qualidade de seu trabalho, que desde então vem sendo implantado em muitos países, como Rússia, Turquia, Grécia, Kenya, e inclusive na América do Sul, como na Argentina, Chile, Uruguai. Eis uma de suas citações:

"O objetivo da tortura é destruir uma pessoa enquanto ser humano, destruir sua identidade e sua alma. É mais maligno que assassinato... Hoje sabemos que podemos ajudar os sobreviventes a recuperar sua saúde e sua força, e, com isso, desarmarmos seus torturadores. Eles buscavam a destruição de outros seres humanos. E nós provamos que não conseguiram". (Tradução livre da autora).

A Dra. Genefke é a personagem do filme que ouve o silêncio de Hannah e faz com que se mantenha viva...

(1) Lilian Quintão, psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

domingo, 14 de junho de 2015

The Lighthouse sobre a Relação pai-filho e Ciclo da vida

Você está em análise? - Jorge Forbes

Você está em análise? Etâ perguntinha difícil de responder; vejamos. Primeiro, não basta você dizer que vai a um psicanalista bem titulado, tantas vezes por semana. O carteiro do analista também vai lá com frequência e nem por isso está em análise. Ficou conhecida a história de um paciente que após um bom tempo diz a "seu analista" que está chegando ao fim de seu trabalho. Este lhe responde: - "Engano seu, penso que o senhor está prestes a começar". Entrar em análise é mudar de posição subjetiva: a pessoa para de referir suas queixas às cenas atuais de seu cotidiano e passa a se entender em uma "Outra Cena", como dizia Freud. Isso é difícil de conseguir, pois a realidade sempre alivia o comprometimento de cada um em seu mal-estar, razão pela qual muitas pessoas adoram viver um inferno de vida. Se quisermos traduzir em conceito, entrar em análise é sair de uma moral dos costumes e se instalar na ética do desejo.

Segundo, há que se conhecer a diferença entre Psicanálise e o mar de psicoterapias que são oferecidas. Se até para o profissional, nem sempre é clara, imagine para o leigo. O termo "Psicanálise" adquiriu certo valor de mercado e acaba sendo o cobertor genérico de corpos disciplinares muito diferentes, o mais das vezes, opostos. Em síntese, praticamente todas as psicoterapias seguem o modelo da ética médica: um se queixa, o outro trata; um não sabe, o outro sabe; um é paciente, o outro é atuante. Arrisquemos uma definição: no fundamento do que se chama Psicanálise está sempre - sim - sempre responsabilizar o sofredor em seu sofrimento. Não culpar, atenção, responsabilizar e de uma responsabilidade muito diferente da responsabilidade jurídica, que se baseia na consciência dos fatos. Seria até engraçado que a prática do inconsciente exigisse a responsabilidade consciente. A responsabilidade em Psicanálise, contrariamente à jurídica, é a responsabilidade frente ao acaso e à surpresa. Não dá para ninguém se safar de uma situação dizendo: - "Ah, só se foi o meu inconsciente", como se ele fosse 'um moleque irresponsável que não tem nada a ver comigo'. A Psicanálise se define por sua ética, como queria Lacan, e a ética da Psicanálise é o avesso da ética médica, por conseguinte, das psicoterapias. Isso não quer dizer que uma coisa seja melhor que a outra, mas que é fundamental reconhecer as diferenças para que haja uma colaboração efetiva entre os campos clínicos e não mútuo borrão, como soe acontecer.

Terceiro, finalmente, fazer análise hoje é igual aos tempos de Freud? Sim e não. Sim, no que tange ao fundamento do inconsciente; não, na diferença de sua expressão. Desde Freud até muito recentemente, digamos há uns trinta anos, fazer análise era se conhecer melhor e, por isso, agir de maneira menos infestada de comprometimentos psicopatológicos. O se "conhecer melhor" se obtinha na análise do Complexo de Édipo, matriz da significação do comportamento humano, verdadeiro software genial que Freud invene - tou para entender como uma pessoa pode operar o hardware mundo, que não lhe é em nada natural. Por quase cem anos acreditamos que o mundo era edípico, e era mesmo, se edípico é um mundo que institui um padrão de significação vertical e superior, no caso, o Pai. O paciente de ontem, por viver em um mundo padronizado, sabia onde queria chegar e se perguntava sobre o que lhe amarrava a sua vida, daí o foco no passado. Entramos, agora, em uma nova configuração do laço social: a globalização privilegia a horizontalidade sobre a verticalidade constituindo uma sociedade em rede, muito distinta da piramidal da qual nos afastamos no bonde da História. Se hoje o Édipo ainda funciona, sua abrangência de leitura do fenômeno humano é mais restrita e, em decorrência, uma clínica nele centrado também o é. Necessitamos de uma clínica além do Édipo. O paciente de hoje, mais que do passado, quer saber do seu futuro. Ele não se pergunta o que o impede de chegar a um objetivo, pois o problema, quando se quebram os padrões, é saber qual é o seu objetivo entre as inúmeras possibilidades, fato que o angustia. Paradoxalmente, uma análise vai lhe mostrar que há um limite ao conhecimento e que fazer uma análise não é conhecer mais, mas se defrontar com o impossível de tudo saber, frente ao qual só resta uma possibilidade: a de inventar uma solução e a de publicá-la, suportando o risco de seu desejo. Uma análise hoje, pós-edípica, deverá ser capaz de transformar a angústia imobilizadora em criativa; a rigidez em flexibilidade; a moral da necessidade em ética do desejo.

(artigo publicado na Revista Psique - número 51, março 2010)



No início


por certo
teus pequeninos olhos seguiam
casas, vielas e ruas
o habitar sem rosto das cidades 

nos fundo deles
um cor indefinível
uma lembrança de queda

fixava rachadura cimentais,
fileira de formigas o carregar das folhas
mãos grandes sobre a mesa
mastigar e engolir á seco palavras

quando tudo era vertigem e medo

Autoria própria, 16/10/2014

domingo, 7 de junho de 2015

Em busca da sagrada singularidade do ser-humano - Gilberto Safra




Produzido em 2000.
Ligado ao grupo independente de Psicanálise, Gilberto Safra é um dos mais inquietos pensadores em sua área. 
Fortemente influenciado por D. W. Winiicott, publicou, em 1990, “Momentos Mutativos em Psicanálise, Uma visão Winicottiana” e, mais recentemente, “A Face Estética do Self”, no qual desenvolve idéias próprias e inovadoras. 

Entrevistadores
Kleber Duarte Barreto – Psicólogo;
Elsa Oliveira Dias – Psicóloga;
Melany Schvartz Copit – Psicóloga.
Tânia Vaisberg – Psicóloga.

Por que fazer análise?

A ciência tem feito muito para a humanidade, pesquisas tem trazido soluções cada vez mais eficazes tanto para o tratamento de patologias diversas como em técnicas sofisticada de diagnóstico. Não se questiona o fato de a ciência ter feito descobertas importantes. Mas e quanto à dores que não são de ordem física? O que se faz com as dores da alma? Como amenizar a dor de existir? Como aceitar a vida como ela é? Como se aceitar?

A felicidade, a maneira como o indivíduo lida com a vida não está inscrita nos genes nem nos neurônios. Cada pessoa tem uma história singular e o trabalho analítico se propõe a escutar o discurso do sujeito, ajudando-o a descobrir por que sofre e auxiliando-o num processo de re-significação. Digo re-significação porque o quantum de sofrimento relacionado a determinado fato está intimamente ligado ao significado que o fato tem para o indivíduo, ou seja, a interpretação, a tradução dos acontecimentos pode torná-los mais ou menos, penoso, e isto é absolutamente pessoal -foi construído na história de cada sujeito. Freud abandona a teoria traumática e produz o conceito de realidade psíquica, exatamente quando descobre, em sua prática clínica, que suas pacientes histéricas não sofriam por traumas infantis reais, como pensava inicialmente, e sim, que elas sofriam de fantasias traumáticas infantis. Surge assim o conceito de realidade psíquica.

Dessa forma, o trauma cede lugar à fantasia inscrita em um universo simbólico que situa e valoriza cada acontecimento, isto é a realidade externa, pois esta é contaminada pelas vivências de cada um. O que traumatiza é a interpretação subjetiva do factual.

Para a psicanálise, os sintomas, os traços de caráter, as inibições, os afetos, as relações objetais são efeitos de uma história. Não existe acaso, tudo tem um sentido. Um sintoma sempre diz algo. O termo sintoma engloba desde febre até todas e quaisquer formas de expressão do sujeito, por exemplo: dificuldade nos relacionamentos, dificuldade para ganhar dinheiro, dificuldade com o sucesso, etc.

A análise possibilita ao sujeito descobrir por que faz o que faz. Não somos simplesmente vítimas de um destino. É preciso se incluir, descobrir de que forma se participa das situações da vida. O trabalho analítico colabora para o sujeito se apropriar de sua história e não mais ficar vivendo como vítima.
Em um tempo no qual se vive uma incessante cobrança em relação à produtividade, a prazos; no qual se é exigido sem qualquer respeito à suas singularidades, ao seu momento de vida; no qual a violência invade seu dia-a-dia rotineiramente e a mídia vende uma “felicidade” que só pode ser encontrada na aquisição de bens materiais, nas grandes “baladas”, nas substâncias químicas, ou seja, no excesso e no imediatismo, fica muito difícil viver sem que nosso corpo – físico e psíquico- “reclame”.

Não é sem razão que surgiram patologias modernas, tais como, estresse, síndrome do pânico, transtornos alimentares, transtornos de ansiedade, dependência química, entre outras.

As pessoas estão se perdendo, se desvalorizando e se desrespeitando na tentativa de se encontrar. Poucos se dão conta de que só se encontrarão efetivamente dentro de si mesmo, no seu íntimo. O que não dá é pra continuar submetido ao apelo da mídia e acreditar que a felicidade está no carro “eleito melhor do ano”, na mulher sexy da propaganda, nas “baladas”, ou seja, no externo. Ora, o que vai sobrar quando o carro for roubado, a mulher o trair e a droga tirar todas as suas ilusões?

Em 1905, Freud faz uma analogia interessante ao mencionar um comentário de Leonardo da Vinci em que diz que a pintura trabalha em uma tela branca, aplicando sobre elas cores que antes não estavam, enquanto a escultura tira da pedra tudo o que recobre as formas da estátua nela contida. A psicanálise trabalha como a escultura, não deseja acrescentar, nem introduzir nada novo; no lugar disso, procura fazer o sujeito viver bem com os recursos (internos) que tem, com a quilo que é.

Ricardo R. Costa Pinto, Psicanalista - Matéria retirada da revista Saúde Ativa – Revista Informativa sobre medicina e saúde – São José dos Campos – São Paulo, Ano 4, no 16/2009

Estruturação do sujeito - Contardo Calligaris



Qualquer tipo de estruturação do sujeito, seja neurótica ou psicótica, é uma estruturação de defesa, no sentido freudiano, no sentido em que Freud fala de psiconeurose de defesa. É uma estruturação de defesa na medida em que se subjetivar, existir como sujeito (barrado pela castração, como na neurose, ou não, como na psicose), obter algum estatuto simbólico, alguma significação é necessário para que o sujeito seja algo distinto do Real do seu corpo, algo Outro e mais do que alguns quilos de carne. Por isso o
sujeito se estrutura em uma operação de defesa.
De defesa contra que? Contra o que seria, imaginariamente, o seu destino se ele não se defendesse se estruturando: ser — reduzido ao seu corpo — o objeto de uma Demanda imaginária do Outro, se perder como objeto do gozo do Outro. A operação de defesa implica um certo tipo de metáfora, ou seja, implica — é o próprio da metáfora — que a significação possa prevalecer, possa substituir ao pedaço de carne uma significação subjetiva. Como a metáfora permite isso? Precisa que algo prevaleça sobre a Demanda imaginária da qual seríamos objeto e de preferência um saber sobre esta Demanda mesma. Assim, referidos à Demanda somos objetos do gozo, referidos ao saber sobre a Demanda temos uma significação que nos mantém defendidos, como sujeitos.

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989 )