sexta-feira, 29 de maio de 2015

Retornos - Wislawa Szymborska


Voltou. Não disse nada.
Mas estava claro que teve algum desgosto.
Deitou-se vestido.
Cobriu a cabeça com o cobertor.
Encolheu as pernas.
Tem uns quarenta anos, mas não agora.
Existe --mas só como na barriga da mãe
na escuridão protetora, debaixo de sete peles.
Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase
na cosmonáutica metagaláctica.
Por ora dorme, todo enroscado.

Wislawa Szymborska, é polonosa, ganhou o Nobel de Literatura em 1996. Teve uma antologia publicada com tradução de Regina Przybycien pela Companhia das Letras.

sábado, 23 de maio de 2015

A mínima diferença - Maria Rita Kehl


Há cem anos não se fala em outra coisa. O falatório surpreenderia o próprio Freud. Se ele criou um espaço e uma escuta para que a histérica pudesse fazer falar seu sexo, num tempo cuja norma era o silêncio, o que restaria ainda por dizer ao psicanalista, quando a sexualidade circula freneticamente em palavras e imagens, como a mais universal das mercadorias?

Ainda assim, parece que nada mudou muito. O escândalo e o enigma do sexo permanecem, deslocados – já não se trata da interdição dos corpos e dos atos – avisando que a psicanálise ainda não acabou de cumprir o seu papel. Mulheres e homens vão aos consultórios dos analistas (e, como há cem anos, mais mulheres do que homens), procurando, no mínimo, restabelecer um lugar fora de cena para uma fala que, despojada de seu papel de lata de lixo do inconsciente (no que reside justamente sua obscenidade), vem sendo exposta à exaustão, ocupando lugar de destaque na cena social, até a produção de uma aparência de total normalidade.

Parece que nada mudou muito: mulheres e homens continuam procurando a psicanálise para falar da sexualidade e suas ressonâncias; mas o que se diz ali já não é a mesma coisa. “O que devo fazer para ser amada e desejada?”, perguntam as mulheres, com algum ressentimento: não era de se esperar que o amor se tornasse tão difícil já nos primeiros degraus do paraíso da emancipação sexual feminina. “O que faço para ser capaz de amar aquela que afinal me revelou o seu desejo?”, perguntam os homens, perplexos diante da inversão da antiga observação freudiana, segundo a qual é próprio do feminino fazer-se amar e desejar o próprio do homem, narciso ferido eternamente em busca de restauração, amar sem descanso aquela que parece deter os segredos da sua cura. Mulheres que já não sabem se fazer amar, homens que já não amam como antigamente. Como se pedissem aos psicanalistas: “o que faço para (voltar a) ser mulher?”, “como posso (voltar a) ser homem?” – questões que me remetem à observação de Arnaldo Jabor em artigo de para a Folha de São Paulo, sobre o choro (arrependido?) de algumas mulheres da cena política e da mídia brasileiras: “O que é isso? A feminilidade como retorno?”.

Incapaz de formular uma interpretação satisfatória para o que ouço no consultório e na vida, dou voltas em torno desse mal-estar. Tento cercar com perguntas aquilo para o que não encontro resposta. É possível que a relação consciente/inconsciente se modifique à medida que mudam as normas, os costumes, a superfície dos comportamentos, os discursos dominantes? A questão remete, sim, à relação entre recalque e repressão. Se mudam as normas, mudam os ideais e o campo das identificações – e, com eles, uma parte das exigências do superego, uma parte das representações submetidas pelo menos ao recalque secundário –, mudam também as chamadas soluções de compromisso, os sintomas que tentam dar conta simultaneamente da interdição e do desejo recalcado… Dito de outra forma – os “novos tempos” nos trazem novos sujeitos? Novos homens e mulheres colocam outras questões à observação psicanalítica? E aqui vai a ressalva: não há nenhuma euforia, nenhum otimismo no emprego da palavra “novo”. A própria psicanálise já nos ensinou que a cada barreira removida, a cada véu levantado, deparamos não com um paraíso de conflitos resolvidos e sim com um campo minado ainda desconhecido.

Avancemos mais alguns passos nesse campo minado. O lugar reservado às mulheres na cena social (e sexual) desde o surgimento da psicanálise foi sendo alterado (por obra, entre outras coisas, das próprias contribuições freudianas) e ampliado; as insígnias da feminilidade se modificaram, se confundiram, as diferenças entre os sexos foram sendo borradas até o ponto em que a revistaTime americana publica em 1992, como artigo de capa, a seguinte pesquisa: “Homens e Mulheres: Nascem Diferentes?”. Na dinâmica de encontro e desencontro entre os sexos, a intensa movimentação das tropas femininas nos últimos trinta anos parece ter deslocado os significantes do masculino e do feminino a tal ponto que vemos caber aos homens o papel de narcisos frígidos e às mulheres o de desejantes sempre insatisfeitas. Não cabe hoje aos homens dizer: “devagar com a louça!” – aterrados diante da audácia dessas que até uma ou duas gerações atrás pareciam aceitar as investidas do desejo masculino como homenagem à sua perfeição ou como o mal necessário da vida conjugal?

Já sabemos que o homem odeia o que o aterroriza. Se a verdade do sexo vazio da mulher sempre tem que ser dissimulada com os engodos fálicos da beleza e da indiferença, tal a angústia que é capaz de provocar em quem ainda sente que tem “algo a perder”, essa angústia parece redobrar diante da evidência de que esse sexo vazio também é faminto, voraz. “O que elas querem de nós?”, indagam entre si os varões, tentando se assegurar de que ainda é possível entrar e sair da relação com a mulher, sem deixar por isso de ser homens – mas como, se a mulher que expõe seu desejo sexual age “como um homem” e com isso os feminiza? Os artistas da virada do século já previam a sorte dessas novas-ricas da conquista amorosa. Ana Karênina pagou por sua ousadia debaixo das rodas de um trem, como “a mais desgraçada das mulheres”, enlouquecida ao descobrir que o. amor não é meio de vida., o amor não garante nada – o casamento, sim. Emma Bovary queimou as entranhas com arsênico por não ter sido capaz de tomar a aventura amorosa do mesmo modo que seu amante Rodolfo – apenas como uma aventura. Na virada do século XX, já não havia Werther que destruísse sua vida pela utopia do amor de uma mulher. O amor da mulher foi deixando de ser utopia para se tornar fato corriqueiro: são as grandes amorosas que se matam, então ao descobrir que seu dom mais precioso perde parte do valor, justamente na medida em que é dado.

O destino da Nora, de Ibsen, nos parece mais promissor, porque a peça termina quando tudo ainda está por começar. Ela abandona a “casa de bonecas” ao descobrir que sua alienação (termo que Ibsen nunca usou) era condição de felicidade conjugal. Depois de entender que no código do marido o amor mais apaixonado só iria até onde fossem as conveniências, Nora recusa o retorno à condição feminina-infantil de seu tempo e sai em busca de… mas aqui cai o pano e agora, mais de um século depois, fazemos o balanço do que ela encontrou. Independência econômica, algum poder, cultura e possibilidades de sublimação impensáveis para a mulher restrita ao espaço doméstico. Também a possibilidade da escolha sexual, e uma segunda (e a terceira e a quarta…) chance de um casamento feliz. E a possibilidade de conhecer vários homens, e compará-los. De ser parceira do homem, reduzindo a distância entre os sexos até o limite da mínima diferença. Mas teria Nora, melhor que as contemporâneas literárias, conquistado alguma garantia de corresponder às paixões masculinas sem “se desgraçar”?


No Brasil, onde historicamente todas as diferenças são menos acentuadas, a história de amor mais marcante já neste século é a história de um engano. É por engano que o jagunço Riobaldo se apaixona por seu companheiro Diadorim, ou Maria Deodorina, que acaba perdendo a vida em conseqüência de sua mascarada viril. É por engano – ou não é ? – que Diadorim desperta a paixão de um homem, travestida de homem, por sua feminilidade diabólica que se insinua e se inscreve justo onde deveriam estar os traços mais fortes de sua masculinidade – a audácia, a coragem física, o silêncio taciturno. Como se Guimarães Rosa tivesse dado a entender, lacanianamente: se uma mulher quer ser homem, isso não faz a menor diferença, desde que continue sendo uma mulher. Ou mais: se uma mulher quer ser homem e se esconde nisso, daí sim é que ela é mesmo uma mulher.

O fato é que não se trata só de esconder ou disfarçar, como no caso de Diadorim. O avanço das Noras do século XX sobre espaços tradicionalmente masculinos, as novas identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em relação a atributos que até então caracterizavam os homens, não são meros disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade (s) feminina(s) mais rica(s) e mais complexa(s). O que teve, é claro, seu preço em intolerância e desentendimento – de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud empregou no “Mal-Estar…”, sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” tentando, explicar as grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais – sobretudo a que pesava sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da diferença começam a desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam muito ameaçadas.

No caso das pequenas diferenças entre homens e mulheres, parecem ser os homens os mais afetados pela recente interpenetração de territórios – e não só porque isso implica possíveis perdas de poder, como argumentaria um feminismo mais belicoso, e sim porque coloca a própria identidade masculina em questão. Sabemos que a mulher encara a conquista de atributos “masculinos” como direito seu, reapropriação de algo que de fato lhe pertence e há muito lhe foi tomado. Por outro lado, a uma mulher é impossível se roubar a feminilidade: se a feminilidade é máscara sobre um vazio, todo atributo fálico virá sempre incrementar essa função. Já para o homem toda feminização é sentida como perda – ou como antiga ameaça que afinal se cumpre. Ao homem, interessa manter a mulher à distância, tentando garantir que este “a mais” inscrito em seu corpo lhe confira de fato alguma imunidade. A aproximação entre as aparências, as ações, os atributos masculinos e femininos são para o homem mais do que angustiantes. É de terror e de fascínio que se trata, quando um homem se vê diante da pretensão feminina de ser também homem, sem deixar de ser mulher. Bruxas, feiticeiras, possuídas do demônio, assim se designavam na antiguidade essas aberrações do mundo feminino que levavam a mascarada da sua feminilidade até um limite intolerável. Só a morte, a fogueira ou a guilhotina seriam capazes de por fim à onipotência dessas que já nasceram “sem nada a perder”.

E quem duvida de que Ana Karênina, Emma Bovary, Nora, Deodorina tenham se tornado aquilo que se costuma chamar de “mulheres de verdade” a partir do momento em que abandonaram seus postos na conquista deste a mais que, tão logo conquistado, parece lhes cair como uma luva? Mas quem duvida também de que o preço dessas conquistas continue sendo altíssimo? Quando não a morte do corpo (pois não é no corpo que se situa o tal a mais da mulher!), a morte de um reconhecimento por parte do outro, na falta do que a mulher cai num vazio intolerável. Pois se a mulher se faz também homem, é ainda por amor que ela o faz – para ser ainda mais digna do amor.

Quando o amor e o desejo da mulher se libertam de seu aprisionamento narcísico e repressivo para corresponder aos do homem, parece que alguma coisa se esvazia no próprio ser da mulher. Os suicídios de Ana e Emma são nesse caso, exemplares. Teriam suas vidas perdido o sentido depois que elas se entregaram sem restrições ao conde Vronsky, ou a Rodolphe Boulanger? Não; diria que a perda de sentido se dá nelas próprias. Ao desejarem e amarem tanto quanto foram amadas e desejadas, elas deixaram de fazer sentido como mulheres – primeiro para os amantes, depois para si mesmas.

Na defesa do narcisismo das pequenas diferenças, é do reconhecimento amoroso que o homem ainda pode privar a mulher, esta que parece não se privar de mais nada, não se deter mais no gozo de suas recentes conquistas. Mas não se imagine que o homem o faz (apenas) por cálculo vingativo. É que ele já não consegue reconhecer esta mulher tão parecida consigo mesmo, na qual também odiaria ter que se reconhecer.


Vale ainda dizer que não é só da falta de reconhecimento masculino que tratam o abandono e a solidão da mulher. Já nos primórdios dessa movimentação toda, Melanie Klein e Joan Rivière escreviam que, muito mais do que a vingança masculina, o que uma mulher teme em represália por suas conquistas é o ódio de outra mulher, aquela a quem se tentou suplantar, etc., etc. Ódio que frequentemente se confirma “no real”, para além das fantasias persecutórias.

E aqui abandono o campo minado das “novas sexualidades” sem nada além de hipóteses e questões a respeito do nosso mal-estar, antes que esse texto se torne paranóico; mas como não ser paranóico um texto escrito por mulher, sobre a ambiguidade, os impasses e as pretensões da sexualidade feminina? 

* Texto escrito originalmente em 1992, e recuperado pela autora especialmente para o especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“, no Blog da Boitempo.

domingo, 17 de maio de 2015

Entrevista - Ainda queremos amar como a Cinderela? com o Psicanalista Christian Dunker

10 frases de Motivação: Agir a partir do seu desejo


Abaixo 10 frases de Motivação, onde a marca de ter  um desejo próprio e poder se afirmar a partir do próprio desejo comparecem. 


1. O ponto de partida de qualquer conquista é o desejo.” – Napoleon Hill

2. “O primeiro passo em direção ao sucesso é dado quando você se recusa a ser um prisioneiro do ambiente em que estava inicialmente.” – Mark Caine

3. “Todo progresso acontece fora da zona de conforto.” – Michael John Bobak

4. “Daqui a vinte anos, você não terá arrependimento das coisas que fez, mas das que deixou de fazer. Por isso, veleje longe do seu porto seguro. Pegue os ventos. Explore. Sonhe. Descubra.” – Mark Twain

5. “Nosso maior medo não deve ser o fracasso, mas ser bem-sucedidos em algo que não importa.” – Francis Chan
6. “Eu não sei a chave para o sucesso, mas a chave para o fracasso é tentar agradar a todos.” – Bill Cosby
7. “Se você não tiver seu próprio plano de vida, é provável que caia no plano de alguma outra pessoa. E adivinha o que eles planejaram para você? Não muito.” – Jim Rohn

8. “Todos nós recebemos relatórios de muitas maneiras diferentes, mas a verdadeira emoção do que você está fazendo está em fazê-lo. Não é o que você vai conseguir no final, é realmente em fazer, e amar o que você está fazendo.” – Ralph Lauren

9. “A verdadeira felicidade não é alcançada através da auto-gratificação, mas através da fidelidade a um propósito digno.” – Helen Keller

10. “Faça algo que ame e você nunca mais precisará trabalhar na vida.” – Willie Hill

A falta do significante mestre na psicose

“....começar a pensar num sujeito cujo horizonte de significações não estaria organizado ao redor de uma unidade possível.
Um sujeito que estaria num mundo no qual existe significação. Mas, no final das contas, todas as significações são significações em si mesmas, não se medem a uma significação que distribui as significações do mundo.
E um sujeito eminentemente errante, errante no sentido da errância, não do erro.”








(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989, p.12 )



quarta-feira, 6 de maio de 2015

06 DE MAIO, DIA DO PSICANALISTA


HOMENAGEM AO PAI DA PSICANÁLISE
“Dia do Psicanalista”
6 DE MAIO
Dr.Wagner Paulon

Sigismund Schlomo Freud nasceu em 6 de maio de 1856, em Freiberg, Moravia (atualmente Pribor, Checoslovaquia), filho de Jacob Freud e sua terceira esposa, Amália . Sigi, como era chamado por seus parentes, teve sete irmãos mais jovens.
O pai de Freud, um comerciante judeu de posses modestas, levou a família para Leipzig, Alemanha (1859), seguindo para Viena (1860), onde Freud viveu até 1938.
Aos 8 anos de idade, Freud lia Shakespeare e, na adolescência, ouviu uma conferência, cujo tema era o ensaio de Goethe sobre a natureza, ficando profundamente impressionado.
Abreviou seu nome para Sigmund Freud em 1877.
Pretendia estudar Direito, mas decidiu seguir Medicina, interessado na área de pesquisas. Ingressou na Universidade de Viena em 1873. Como aluno, Freud iniciou um trabalho de pesquisa sobre o sistema nervoso central, orientado por Ernst Von Brücke (1876), e formou-se médico em 1881. Trabalhou na Clínica Psiquiátrica de Theodor Meynert (1882-83), estudando posteriormente com Charcot (Salpetrière), em Paris (1885).

ESTADO DE SÃO PAULO
“Dia do Psicanalista”
6 DE MAIO
LEI Nº 12.933

(Projeto de lei nº 700, de 2004 da Deputada Beth Sahão - PT)
Institui o “Dia do Psicanalista”
O PRESIDENTE DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA:
Faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu promulgo, nos termos do artigo 28, § 4º, da Constituição do Estado,
a seguinte lei:
Artigo 1º - Fica instituído o Dia do Psicanalista, a ser comemorado, anualmente, no dia 6 de maio.
Artigo 2º - Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo,
aos 23 de abril de 2008.
a) WALDIR AGNELLO - 1ºVice-Presidente no exercício da Presidência
Publicada na Secretaria da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, aos 23 de abril de 2008.
a) Auro Augusto Calimam, - Secretário Geral Parlamentar
Atenção dignos Membros da Ordem Nacional dos Psicanalistas e ilustres Psicanalistas de todo o Brasil, para os que ainda não sabem, foi criado em 2008 através da Lei n.º 12.933, de 23/04/2008, o "DIA DO PSICANALISTA", à ser comemorado todo dia 06 DE MAIO.
Isso é mais um ganho para a categoria dos Psicanalistas que, assim como os demais profissionais passa a ter o dia de comemoração da Profissão.
Parabéns à todos vocês e vamos seguir em frente, lutando por mais reconhecimento e solidificação de nossa classe.

Abaixo encontra-se disponível o texto da referida lei na íntegra:

LEI Nº 12.933, DE 23 DE ABRIL DE 2008.
(Projeto de lei nº 700, de 2004 da Deputada Beth Sahão - PT)
Institui o “Dia do Psicanalista”
O PRESIDENTE DA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA:
Faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu promulgo, nos termos do artigo 28, § 4º, da Constituição do Estado, a seguinte lei:
Artigo 1º - Fica instituído o “Dia do Psicanalista”, a ser comemorado, anualmente, no dia 6 de maio.
Artigo 2º - Esta lei entra em vigor na data de sua publicação.
Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, aos 23 de abril de 2008.
a) WALDIR AGNELLO - 1ºVice-Presidente no exercício da Presidência
Publicada na Secretaria da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo, aos 23 de abril de 2008.

a) Auro Augusto Calimam, - Secretário Geral Parlamenta

terça-feira, 5 de maio de 2015

Ternura


“Storge”, em grego, é ternura, e “Stergo”significa que amo ternamente. Esse verbo, “Stergo”, constrói-se a partir do“Stereos”, que quer dizer, em grego, o real, aquilo que é firme e sólido. A ternura, isto é, o amor dos pais, representa para os gregos aquilo que torna firme, que dá firmeza e segurança.

domingo, 3 de maio de 2015

Clínica diferencial da neurode e psicose - Contardo Calligaris



"Para o neurótico é um saber suposto ao pai, para o psicótico não pode ser suposto (pois a quem?) e deve ser produzido (pelo menos pelas trilhas da sua errância), mas também só pode ser produzido na superfície da coisa mesma, como um casulo ao redor da coisa mesma. Com efeito, de onde pode se originar um saber que não seja suposto a um sujeito, que então não possa ser transmitido, se não na coisa mesma que este saber tenta simbolizar? Para entender melhor, consideremos que a errância psicótica não é necessariamente uma operação motora. Pode ser uma errância intelectual. Falar de errância intelectual nos levaria a pensar em um tipo de pensamento sem organização, mas não é disso que se trata. Trata-se de um pensamento que tem um horizonte de totalidade, que não se autoriza a partir de uma filiação, ou seja, de uma transmissão, mas se sustenta nos seus próprios percursos, e por isso só pode emanar da coisa mesma, como se aflorasse na superfície dela.
Se tomarmos um exemplo clássico, o caso de Jean Jacques Rousseau, concluir num diagnóstico habitual de psicose não necessitaria passar por duvidosas deduções a partir da sua vida. Considerar O Emílio, por exemplo, seria mais indicado, pois se trata de uma pedagogia idealmente sem mestre,
onde a natureza revelaria ela mesma os rumos do saber que a simboliza, para quem se dispusesse a percorrê-los.
Mas, também, o Contrato Social poderia servir, considerando que a questão central é conceber uma origem da autoridade que não seja um efeito de transmissão, como autoengendrada. Poderíamos multiplicar os exemplos, desde a poética de uma autorevelação da natureza em Hólderlin, até a equivalência do mundo ao casulo das proposições no primeiro Wittgenstein. Só importa notar, com estas alusões (cujo alcance diagnóstico é, aliás, problemático), que a psicose deu contribuições
essenciais e talvez se entenda porque freqüentemente inovadoras no campo da cultura.
Mas, voltemos ao que parece ser o essencial da diferença entre psicose e neurose, ou seja, o fato de que a metáfora neurótica é paterna e a problemática "metáfora psicótica" seria sem agente suposto."

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989 )

Excertos da obra de Ferenczi




Da fantasia ao trauma

Depois de haver dedicado toda a atenção cabível à atividade fantasística enquanto fator patogênico, fui levado, com freqüência cada vez maior, a me ocupar do próprio trauma patogênico.

A amizade tácita entre o analista e o analisando

Esse pacto de amizade tácita permitiu, então, que o analista e o “analisando” [primeira ocorrência do termo analisando, em 1928] colaborassem no desvendamento do inconsciente.

O papel do psicanalista

A presença de alguém com quem se possa compartilhar e comunicar alegria e sofrimento (amor e compreensão) cura o trauma.

O tato

Trata-se, antes de mais nada, de uma questão de tato psicológico (...). Mas, que é o tato? (...) O tato é a faculdade de “sentir com”.


O psicanalista aprende com as crianças

Quanto a saber como traduzir os símbolos para as crianças, eu diria que, em geral, as crianças têm mais a nos ensinar nesse campo do que o inverso. Os símbolos são a própria língua das crianças, só temos que ensiná-las a se servirem deles.


Sándor Ferenczi (Miskolc, 16 de julho de 1873 — Budapeste, 22 de maio de 1933) foi um psicanalista húngaro. Foi um dos mais íntimos colaboradores de Freud, tornou-se famoso pelas experiências psicanalíticas.

Sándor Ferenczi

Psiquiatra e psicanalista, nasceu a 7 de julho de 1873, em Miskolc, na Hungria. Sándor (diminutivo de Alexandre) era médico psiquiatra e psicanalista, originário de uma família de judeus imigrantes. Foi o clínico mais talentoso da história do freudismo e um dos seguidores da psicanálise de Freud. Tinha uma amizade íntima com Freud e foi o seu discípulo favorito e um dos seus raros amigos. 

Em 1894, Sándor obtém o seu diploma de medicina em Viena na Áustria e começa a interessar-se pelos fenómenos psíquicos e pela hipnose. Em 1897, Sándor opta pela carreira médica e começa a trabalhar no Hospital Saint Roch, em Budapeste, onde logo se mostrou adepto da medicina social e se tornou médico assistente no asilo de pobres e prostitutas. Em 1899, publica inúmeros artigos pré-analíticos até 1908, entre eles Espiritismo, dedicado à transmissão de pensamento, mas é em 1900 que se estabelece como neurologista, sendo chefe do serviço de Neurologia em 1904. 

Em 1907, entusiasmou-se pela obra de Freud, e depois de ler A Interpretação dos Sonhos, visitou Freud em 1908, acompanhado de seu colega e amigo Fulop Stein. Iniciou assim a longa relação com aquele que se tornaria seu analista, mestre e amigo. 

Em 1908, Ferenczi participou do I Congresso de Psicanálise em Salzburgo e fez uma conferência sobre "Psicanálise e pedagogia". Ao mesmo tempo em que prosseguia a sua análise com Freud, Ferenczi devotava-se de corpo e alma à "causa" freudiana. Um ano mais tarde, acompanhou Freud na sua célebre viagem aos Estados Unidos, juntamente com Jung, e publicou seu primeiro grande trabalho teórico Transferência e Introjeção. 

Em 1909, fundou a International Psychoanalytical Association (IPA). 

Em 1913, criou com Sándor Rado, Istvan Hollos, Lajos Levy e Hugo Ignotus a Sociedade Psicanalítica de Budapeste. Membro do Comité Secreto de Psicanálise, a partir de 1913 participou de todas as atividades da Direção do movimento freudiano. 

Em 1914, Ferenczi analisou duas grandes figuras do movimento psicanalítico: Geza Roheim e Melanie Klein, e em 1918 é eleito presidente da Associação Internacional de Psicanálise. 

Em 1919, é criada pela primeira vez no Mundo uma cátedra de ensino (a primeira cadeira de Psicanálise), na Universidade de Budapeste. Em agosto de 1921, Ferenczi vai a Baden-Baden conhecer Groddeck, que seria seu amigo por toda a vida. Aos 60 anos de idade, em 24 de maio, morre em Budapeste, subitamente, em consequência de problemas respiratórios provocados por uma anemia perniciosa. 

A originalidade do seu pensamento e o papel que desempenhou no nascimento do movimento psicanalítico húngaro e internacional faz de Sándor Ferenczi uma das figuras mais eminentes e mais originais da psicanálise. Foi através dele que a escola húngara de psicanálise, da qual foi o primeiro professor, produziu uma prestigiosa filiação de ilustres nomes do movimento, entre os quais Melanie Klein, Geza Roheim e Michael Balint. Até o fim da sua vida, não cessou de tentar criar novas técnicas mais eficazes que o tratamento clássico, a fim de proporcionar uma melhor ajuda aos pacientes. A sua experiência e reflexão levaram-no a inventar uma técnica dita ativa, que convida o paciente, por injunções e proibições, a uma "atividade" destinada a arrancá-lo da repetição. Inventou a técnica ativa, que consiste em intervir diretamente no tratamento, através de gestos de ternura e afeto, e depois a análise mútua, durante a qual o analisando é convidado a "dirigir" o tratamento ao mesmo tempo que o terapeuta. 

As experiências técnicas de Ferenczi não foram aceitas por Freud e culminaram na rutura entre os dois homens em 1933, ano da morte de Ferenczi. 

Publicou vários livros, de onde se pode destacar Transferência e Introjeção, O Conceito de Introjeção, O Pequeno Homem-Galo, e em 1919 publicou A Técnica Psicanalítica, ponto de partida de uma reflexão aventurosa, original e que conduziu a uma rutura com Freud e com o seu movimento psicanalítico Em 1924, publica Thalassa: Ensaio sobre a Teoria da Genitalidade, obra sobre o trauma do nascimento. 



Fonte: Infopédia

Conhece-te a ti mesmo!

"O que mais me impressiona em Freud, aquilo em sua obra que me remete a mim mesmo e que, portanto, assim transmite à obra sua atualidade viva, não é a teoria dele, embora eu lhes vá falar sobre isso, nem tampouco seu método, que aplico em minha prática. Não. O que me encanta quando leio Freud, quando penso nele e lhe dou vida, é sua força,sua loucura, sua força louca e genial de querer captar no outro as causas de seus atos, de querer descobrir a fonte que anima um ser. Sem dúvida, Freud é, antes de mais nada, uma vontade, um desejo ferrenho de saber; mas sua genialidade está em outro lugar. A genialidade é uma coisa diferente do querer ou do desejo. A genialidade de Freud está em ele haver compreendido que, para apreender as causas secretas que movem um ser, que movem esse outro que sofre e a quem escutamos, é preciso, primeiro e acima de tudo, descobrir essas causas em si mesmo, refazer em si — enquanto se mantém o contato com o outro que está diante de nós — o caminho que vai de nossos próprios atos a suas causas. A genialidade não reside, pois, no desejo de desvendar um enigma, mas em emprestar o próprio eu a esse desejo; em fazer de nosso eu o instrumento capaz de se aproximar da origem velada do sofrimento daquele que fala. A vontade de descobrir, tão tenaz em Freud, conjugada com essa modéstia excepcional de comprometer seu eu para consegui-lo, isso é o que mais admiro, e do que jamais lhes poderei prestar contas plenamente através de palavras e conceitos. A genialidade freudiana não se explica nem se transmite e, no entanto, não pode persistir como uma
graça inaudita do fundador. Não, a genialidade freudiana é o salto que todo analista é conclamado a realizar em si mesmo, todas as vezes que escuta verdadeiramente seu analisando."

(J.-D. Nasio. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan . Rio de Janeiro: Zahar.1995. p. 15)