terça-feira, 21 de abril de 2015

A ação terapêutica da psicanalise e a neurociência

"Algumas das revelações fantásticas da neurociências deram a impressão de que segredos guardados a sete chaves por todos os mágicos do mundo começaram a ser exibidos a um publico embevecido, ávido por conhece-los. entretanto, dados fornecidos por ela própria afastam a possibilidade de substancias exógenas artificiais substituírem processos   endógenos naturais induzidos por estados afetivos experimentados ao longo de uma vida de relações interpessoais. A neurociência não é capaz, por exemplo, de substituir a relação mãe-bebe, responsável pela formação da mente a partir de sua ação direta sobre neurotransmissores e circuitos neurais envolvidos na interação afetiva."
(...)
"A consubstancialidade de mente e cérebro se afirma de modo tão peremptório que qualquer estudo psicológico mais profundo, se quiser ser cientifico, não pode desconhecer os resultados das investigações neurocientíficas. Por isso, quando se expõem os aspectos subjetivos da ação terapêutica da psicanalise, é inevitável mostrar alguns concomitantes cerebrais, até mesmo porque a ação endógena produzida pela psicanalise se refere a um efeito sobre o cérebro".

(Andrade, Vitor Manoel. A Ação Terapêutica da psicanálise e a neurociência - O mundo freudiano como afeto e representação. São Paulo. Casa do Psicólogo, 2013. págs, 17-18)

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Depressão - A Epidemia do Desencanto por Henrique Senhorini



Primeiro quero agradecer pelo convite o pessoal do Instituto Latino americano de Psicanálise Contemporânea, através dos colegas Olivan Liger e Tiago Oliveira e a um agradecimento especial à Ana Gueiros – uma jornalista contaminada pela Peste. É uma honra e um prazer estar aqui com todos vocês.

Bom.... para iniciarmos este Pensar Psicanálise 2ª edição, nada melhor que algumas questões para nos provocar:
O que é depressão para psicanálise?
Seria o baixo nível de serotonina em certas áreas do cérebro?
Uma doença do corpo?  Uma doença da alma?
Uma nova estrutura clínica?
Uma nova patologia que surgiu agora na contemporaneidade?
Uma doença do tempo, pois está relacionada com ele com o tempo?
Ou, como já ouvi por aí, uma doença dos ricos, pois pobre não tem tempo para isso?
E agora, para exercitar um pouco mais o pensamento, vem o pessoal do ILPC com esse tema “Depressão: a epidemia do desencanto”.
Como assim?

Bem, podemos pensar a depressão de várias maneiras dependendo do lugar que se fala, com os conceitos que a colocam como uma patologia, um estado do ser, uma doença na qual a pessoa se encontra com suas atividades mentais e psicológicas, afetivas, de humor, assim como as motoras entre outras, niveladas por baixo. Mas, também, como um dos sofrimentos da alma, ao lado da dor e da angústia.
A depressão como uma pathos do humano, Pathos, paixão, afeto. Enfim, uma doença do humano.
Pierre Fédida a chamou de “doença humana do tempo”:
 Uma doença humana do tempo que afeta a representação e a ação, as potencialidades da linguagem, assim como a comunicação com os outros.

Tempo no sentido amplo: objetivo e subjetivo, cronológico e psíquico.

Bem... Para psicanálise, trata-se de uma posição, pois a depressão se manifesta de modo e maneiras diferentes e em todos os quadros clínicos - a neurose, a psicose, a perversão – do mesmo jeito que a dor e a angústia se manifesta.
Lembro de Mauro Mendes que faz uma colocação que eu acho uma das melhores para se entender a Depressão em Psicanálise. Ele diz que a depressão “refere-se a uma posição do sujeito. É um determinado tipo de resposta que o sujeito dá e diz respeito fundamentalmente ao tipo de relação que o sujeito estabelece com o Outro".
E em relação com o tempo, a depressão tem sim essa associação, assim como a angústia também. Porém de lugares diferentes: “a angústia se endereça ao futuro, enquanto a depressão se refere ao passado”.
Mas, se eu tivesse a capacidade de escrever como eu entendo a depressão, seria algo tipo assim:
Uma doença de ser humano submetido, desde o nascimento,
à necessidade de se dotar de uma vida psíquica graças às interações com a mãe e o ambiente; e, por esta razão, doença de ser humano capaz de ser psíquica e corporalmente, afetada pelo excesso de violência vinda do
interior e/ou exterior.” (Fédida)

E quando se diz violência do interior, entende-se fúria pulsional e quando se diz do exterior, está relacionada ao Outro, ao ambiente. Também acrescentaria nessa citação ao lado da mãe, o pai.

Então... neste exercício de pensamento, vamos transformar a afirmação do tema “Depressão: a epidemia do desencanto”, em questão, para que possamos suscitar uma hipótese que esse desencanto está diretamente ligado ao Outro, ficando desta forma: Depressão: a epidemia do desencanto?
E desta maneira ficaria mais fácil afirmamos que o Outro que é o responsável pelo nosso desencanto e, portanto, o responsável direto por nossa depressão, simples assim? É bom lembrar que viemos ao mundo através desse Outro e habitar esse mesmo mundo já habitado pelos Outros... E aí, como ficamos? Já seríamos pré determinados para ser e ter isto ou aquilo?
Se correr o Outro pega e se ficar o Outro come ???
É isso mesmo ??? 
Mas se seguirmos esse raciocínio por outra ponta perceberemos que para haver desencanto é preciso, primeiro e necessariamente, que haja o encanto. Correto? Bem e agora?
Continuando por essa via...
Então, o desencanto passaria a ser a consequência, uma resposta para o encantamento. Sairia deste lugar de causa – que a princípio dá mesmo esta impressão – cedendo-o para o encanto, ok?
Sendo assim, então estamos aqui para falarmos sobre a epidemia do encanto, pois só “pode” haver desencanto após sermos encantados. Como dizia um professor meu... “d'accord ?” Ainda bem que existe o “pode” e o “quase” para nos salvar, não é mesmo Arnaldo Domínguez?
Tá dando para acompanhar esse meu “quase” devaneio ou está muito confuso?
Seguindo...  Bem, aí a epidemia passaria a ser a do encanto e a depressão assumiria o lugar de resposta, diria, uma resposta ao “fracasso” desse encantamento.
Então, para deixar mais ou menos claro, estamos presenciando e vivenciando uma epidemia do encanto. E como sugere o tema a depressão viria daí, certo?
E o que não mudaria seria a posição do Outro como agente. O responsável pelo nosso sofrimento. É isso mesmo?
Bem, desenvolvendo essa linha e como não existimos sem o Outro, pois, como já disse, nascemos e nos constituímos como sujeito através desse Outro, ele seria facilmente apontado como o responsável sim por nossas desgraças. Pois antes de nos desencantar, ele nos encantou com um canto próprio das sereias.. Como?
Já falei que esse Outro (organizador do nosso eu) primeiro é a mãe, depois o pai, depois aparece o professor, o padre, o pastor, o chefe, o patrão, a empresa, o capital, o capitalismo com seu produza e consuma... e por aí a fora. Ao longo de nossas vidas muitos vão ocupando esse lugar de grande Outro para nós,  ...qualquer um que toma um lugar de importância para nós... também falei do marido, esposa, filhos, etc?

Bom, então a questão agora é outra: qual o canto que nos encanta tanto ???
Vejamos: seria a promessa ingênua de vivermos felizes para sempre?
De encontrarmos a paz, o sentimento oceânico, a plenitude, o amor incondicional?
De acharmos a outra metade da laranja, ou a tampa da panela ou sei lá mais o quê que nos complete e nos traga o que desejamos, o nosso objeto a, nosso objeto de desejo? É isso ?
Bem... o que escuto na minha clínica - e vem de várias maneiras - é mais o menos o que o Titãs diz no seu rock:
“Todo mundo quer amor / Todo mundo quer amor de verdade
Uma pessoa boa quer amor / Uma pessoa má quer amor, / Quer amor de verdade
Quem tem medo quer amor, / Quem tem fome quer amor, / Quem tem frio quer amor, / Quer amor de verdade
Ele quer / Ela quer / Ele quer / Todo mundo quer amor de verdade”
Seja feita de ilusão

Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver

É por isso que escutamos o canto das sereias? Por amor? Para sermos amados?
E essa pergunta me remete à Colette Soler que cita, no seu livro “O inconsciente: que é isso?”, uma passagem na qual Lacan pergunta: “por que amamos?” Resposta: “Amamos para sermos amados.”
Se eu invisto, libidinalmente falando, o objeto de amor tenho o direito da compensação, de receber do objeto o mesmo quantum da libido investida, de preferência com juros. Legítimo, né? Bem, isso é que gostaríamos, pois amamos para sermos amados, no mínimo, com igualdade.
Acontece que, generalizando, essa promessa de amor, de recompensa do amor investido vem acompanhada, ou melhor, vem atrelada num...  “só se você fizer isso ou se você fizer aquilo que ganharás meu respeito, minha consideração, meu reconhecimento e gratidão, por fim, ganharás o meu amor de volta!”
Mas, que amor é este que buscamos desesperadamente que para consegui-lo fazemos qualquer negócio?
Seria, na nossa fantasia, o da alma gêmea? Aquele que nos deixaria completo? Que nos faria ser um?
A tampa da panela que me falta para atingir o nirvana, a felicidade?
E aí... o capitalismo, que nunca foi bobo nem nada, sabendo dessa nossa enorme disposição de tamponar a nossa falta faz seu jogo. E joga pesado atingindo em cheio, com suas falsas promessas a nossa fantasia original de completude. Ou seja, de eu voltar a ser aquilo que eu era, quando eu dizia na alienação simbiótica com a mãe, “sou o seio que sou”.
Bom...  voltando ao capital, ao sistema que elegemos para comandar nossas vidas na sociedade contemporânea... Sim e é importante não nos esquecermos: nós o elegemos! Escolha nossa !!!
Bem.. e ele, o capitalismo, com seus encantos e com suas promessas constantes de felicidade nos seduz oferecendo suas bugigangas envolvendo-nos numa espécie de pacto a la Fausto de Goethe e a la Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa. Seria um pacto com o demônio disfarçado de anjo do pote da felicidade?

Corra, corra, corra – produza, produza, produza – consuma, consuma, consuma é o que dita a voz imperativa do Outro, do Capital para adquirirmos os gadgets que nos farão sentir poderosos, admirados e, como consequência, reconhecidos e amados.
É esse o modelo do eu ideal e do ideal do eu imposto na contemporaneidade.
Imposto e aceito pelo “coro dos contentes”, como lembrou M.R.Kehl. É a padronização deste modelo como único para sermos e ou demostrarmos como somos bem-sucedidos, portanto felizes e aceito pelo clube dos normais (modelo NEXTEL de mundo?). E se não seguir o modelo de sucesso, que aqui é bem diferente de realização, OUT !!!  Você está fora, à margem. E nesta marginalidade você será acusado de fracassado, mesmo alegando que quase chegou lá. O quase não entra neste coro, tem um clube próprio na periferia da vida, o clube dos deprimidos, o triste e escuro Clubes dos Quase. No máximo, vá tomar umas pílulas de felicidade e tente voltar depois que fizer efeito.
Obs.: não parece que o sujeito, na depressão, se demitiu da vida?

Uma pausa para reflexão...
Dá para perceber que na contemporaneidade não há muito espaço (lugar e tempo) para você ser você mesmo? Afinal, se fugir do padrão, se “desafinar o coro dos contentes” (Torquatto Neto) o que poderão pensar de ti? Parece que hoje em dia, na contemporaneidade, não se permite ficar triste, pois a tristeza é vista - quase - como um defeito moral, como uma deformidade do humano cuja estabilização química é confiada aos psicofármacos para sermos “devolvidos”, o mais rápido possível – tempo é dinheiro – para o circuito midiaticamente imposto.
Só para lembrar: Ao patologizar a tristeza, perde-se um importante saber sobre a dor de viver.
O pior que aceitamos tudo isso para não sermos excluídos do clube dos “normais” e será - por temor a isto - que insistimos em ser o que o Outro gostaria que eu fosse? Tentamos ser e fazer o que o Outro deseja somente para satisfazê-lo e consequentemente reconhecidos e amados? Será por isto?

Voltando para a sociedade...
Acontece que na nossa sociedade contemporânea, a do capital, somos “programados” pela voz imperativa que diz a todo instante: consuma !!!
E este sistema não tolera quem sai do mundo de Matrix, não permite que você seja você mesmo principalmente se não coincidir com o modelo padrão imposto pela mídia. Está - interruptamente - nos bombardeando para sermos o que interessa a ele: consumidores.
E qual o modelo padrão? É o modelo que aparece na mídia como o “bem- sucedido”.
Você “tem que” ser o cara. Tem que ser aquele que produz mais para ser aquele que compra mais, que gaste mais, que possua mais, que sorria mais, que demonstre mais prazer, mais feliz, etc... Também ser o mais esperto, o mais divertido, o mais articulado, o mais viajado, o mais bem relacionado, o possuidor do maior números de seguidores nas redes sociais, ter maior números de amigos e ser o mais “curtido” no facebook (sim, pessoas se deprimem por falta disso), ser o mais convidado paras festas, eventos, etc...  Enfim, você tem que ser o cara!
E aí de nós se não lutarmos para ser o que o capitalismo espera de nós, parece que não seremos mais nada. Numa visão eclipsada, não teremos o sonhado reconhecimento dos pais, o respeito dos filhos (pai sem dinheiro é pai fraco?), o amor do cônjuge, a admiração dos amigos, dos colegas, dos vizinhos (olha o carro velho dele, que horror)...  é por aí .
E foi em busca deste modelo impostor (imposto pela dor) de sucesso, ou no mínimo, para fugir do famigerado rótulo de fracassado fixado pela sociedade contemporânea que abrimos mão, muitas vezes, de nossos sonhos, de nossos desejos. Para quê?

Somente para satisfazer as demandas do Outro em troca do amor que supomos que somos merecedores e que este nos fará completos? Santa ilusão? Santa ingenuidade?
É nítido que na vida contemporânea saímos “do direito à saúde e à alegria [e] passamos à obrigação de ser felizes”. (Danièle Silvestre)

Gente... o Outro não pode nos completar, visto que ele também é incompleto. É aí que, mesmo alcançado o Olimpo do capitalismo ou quase, percebemos que o ideal está num outro patamar, no patamar do inacessível. Por isso é ideal. E, juntamente, com esta descoberta vem a frustração, a decepção. Esquecemos ou não quisermos acreditar em Freud que disse que a felicidade plena não estava nos planos da criação. E aí damos conta que abrimos mão dos nossos sonhos, dos nossos desejos à toa. Desde os aparentemente mais simples como tirar um dia de folga para brincar com os filhos, de nos autorizarmos em ter um dia de ócio, de passear num parque, de jogar conversa fora com os amigos...  aos mais difíceis, como o modo que escolhermos a nossa própria profissão, por exemplo. Também abrimos mão de chorarmos as nossas perdas, os nossos amores até de fazermos o luto necessário de nossos entes queridos como deveria, pois tempo é dinheiro.

E em muitos casos virá a culpa como questão: O que eu fiz da minha vida? Fiz o que quiseram que eu fizesse e, pior, com minha permissão, com a minha submissão em troca do que não veio... Sou culpado de abrir mão de meu desejo. Sou culpado por acreditar na promessa fantasística de completude.
Culpa que, oriunda da cultura judaica/cristã, precisa ser reparada via sofrimento, via expiação.
Para Lacan, a legítima culpa neurótica é a de ter cedido ao seu desejo.
Bom... crime e castigo?
Será que é aí, por esta via, que entramos na depressão?
Depressão como forma de nos punir por nossa entrega cega na promessa do Outro, do capitalismo, de nos fazermos felizes?
Como autopunição por nos deixarmos encantar?
E autoflagelar-se seria a via de acesso para a redenção?
Ou, como muitas vezes acontece, o ato de se flagelar se transformaria em mais um lugar de gozo, agora de um gozo masoquista moral? Então, somos também o nosso próprio sádico?
E o “coitadinho de mim” pode se fixar por este gozo?
Bem...  o prende uma pessoa fixando-a numa posição é o gozo.
Porém, nem todos tem o mesmo tipo de resposta.

Um lembrete tá gente:
Freud nos ensina que o tipo da resposta de nossas escolhas depende da especificidade de cada sujeito e da singularidade da interação entre constituição psíquica, circunstâncias do ambiente, da história de cada um e mais o acidental. Sem esquecer a biologia. Hoje a última definição de Ser Humano da OMS (Organização Mundial de Saúde) diz que o Humano é um ser bio-psico-social religioso/espiritual.

E como trabalhamos a depressão na clínica psicanalítica?
Supondo que seria esta a pergunta que vocês gostariam de me fazer...  

Bem, primeiro é escutar quem nos procura como nosso primeiro e único paciente... 
É... muitos chegam até nós por não conseguirem mais subjetivar suas experiências e vivências, não conseguirem mais transformar em matéria simbólica, as pancadas, os choques da vida contemporânea e acabam experienciando uma espécie de vazio existencial, da dor de viver, de tédio e alguns por não conseguirem lidar com o que se mostrou insuportável sucumbiram e foram para debaixo da cama ou no mínimo das cobertas mesmo, literalmente falando.
Muitos também procuram porque não aguentam mais a pobreza da vida interior, que se empobreceu justamente pelo uso prolongado dos psicofármacos. Outros, porque acham que os antidepressivos não proporcionaram os efeitos esperados, ou deixaram de fazer efeito depois de um longo tempo de uso. Ou porque o tratamento somente por essa via dos remédios, não os deixaram totalmente inapetentes, sem vontade, sem desejo para falar.
Interessante é que o depressivo é – e ou está -  mais acessível ao seu saber inconsciente do que os neuróticos “normais”.
Há todo um trabalho de desconstrução e reconstrução, de ressignificação de vivências, experiências, de valores para que um novo possa ser construído, possa surgir na experiência analítica.
“É preciso convidar o depressivo a ter coragem de apostar em alguma construção de sentido para contrapor ao vazio de sentido que o abate” (Kehl pensando com Soler)
E convidá-lo “...a construir uma via que o represente como um sujeito desejante”, sem esquecer que é o paciente quem deve colocar, pôr, significantes ali nessa construção e não a sugestão do analista, pois sobre o analisando nada sabemos, que somos doutos porém ignorantes. O que fazemos é auxiliá-lo nessa construção, muitas vezes ampliando-lhe o leque de opções e de suas consequências. Porém, já com os recursos adquiridos, a escolha será dele assim como a responsabilidade por ela. E, muito importante, sempre respeitando o tempo do sujeito, o tempo psíquico e não o cronológico.

E para finalizar este Pensar Psicanálise, vou de Titãs novamente:
Quem espera que a vida

Toda pedra do caminho
Saber viver, saber viver!

É isso !!!

Bibliografia utilizada e não mencionada:

Sobre Ética e Psicanálise - Maria Rita Kehl
O Tempo e o Cão - Maria Rita Kehl
Dos Benefícios da Depressão - Pierre Fédida
Depressão - Pierre Fédida
Depressão –  Clíninc Psicanalítica - Daniel Delouya

Apresentado em março/2013 no Pensar Psicanálise do ILPC - Instituto Latino-americano de Psicanálise Contempôranea

domingo, 12 de abril de 2015

Todo mundo tem que fazer análise? Contardo Calligaris


Quem faz análise geralmente fala que todo mundo tem que fazer. E quem não faz, fala que não é assim. Como é, na verdade? 

Acho que não é verdade que todo mundo tem que fazer. Acho que é um equilíbrio complicado, uma alquimia complexa. Não sei nem se a gente pode dizer que todo mundo pode fazer. “Poder”, do ponto de vista de ter, sei lá, isso a grande maioria pode, tem a possibilidade de fazer uma análise, mas é preciso uma predisposição subjetiva. É um equilíbrio curioso, porque é tempo, é uma complexidade na vida. Não é necessariamente penoso. Pode ser extremamente interessante; e deveria ser. Teve uma época em que estava na moda pensar que uma análise deveria ser necessariamente um processo penoso e angustiante. Que, aliás, se você não se angustiasse, isso demonstraria que você não estava tocando nas questões importantes. Pode ser um processo divertido – divertido, além de interessante, no sentido de que um paciente e um analista podem tranquilamente rir em uma série de circunstâncias. E não é raro que seja um processo em que o cara espera o dia da sua sessão ansiosamente.

sábado, 11 de abril de 2015

A escuta como instrumento de trabalho do psicólogo



"O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: "Se eu fosse você". A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. É na não escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção."
O que geralmente queremos quando vamos ao psicólogo? Rubem Alves (1999) de forma simples e doce nos respondeu. Queremos alguém que nos escute silenciosamente, sem julgamentos, sem opinar. É na dor da angústia, do sofrimento que surge a necessidade de falar, compartilhar com alguém algo que é só nosso, não diz respeito a ninguém, mas que precisa de um outro para servir de amparo. Pois, se o sofrimento é adquirido através da comunicação, ele pode ser aliviado pela mesma via.
Amatuzzi (1999), citando clássicos como Carl Rogers, Paulo Freire, dentre outros, falou sobre a importância do ouvir, entendo que esse texto servirá para qualquer ser humano que se preocupa com o outro, que preza pela empatia, por um diálogo inteligível, dotado de significado pleno, em especial para o psicólogo, que tem como principal instrumento de trabalho os próprios ouvidos. Ouvir é realmente compreender, é o que nos coloca em contato com o discurso e os sentimentos.
Venho discutindo há um tempo com alguns colegas que, ser psicólogo não é ler um amontoado de livros, estar munido de uma série de técnicas, ou adotar uma teoria e segui-la como uma religião. É prezar pela saúde humana, ter sensibilidade diante das mazelas, não fazer julgamentos, não dar opiniões pessoais, saber avaliar com calma, é usar toda a informação oferecida em benefício daquele que investe no psicólogo suas últimas esperanças de bem viver, bem como dispõe de recursos financeiros para isso. O desafio de ser psicólogo é trabalhar com o amor citado por Rubem Alves (1999), onde a escuta vem antes de tudo, pois quando não se escuta, não há ajuda.
Bibliografia: Amatuzzi, Mauro Martins. O que é ouvir. Estudos de Psicologia. N 2. Puccamp, 1990 
Alves, Rubem. O amor que acende a lua. Papirus, 1999

Quando é hora de procurar uma psicoterapia? Christian Ingo Lenz Dunker


A vida não vem sem sofrimento e miséria. Se isso fosse suficiente para determinar a procura de ajuda seria simples: psicoterapia para todos. Não penso que seja este o caso.  Há situações como dependências químicas, disposições de personalidade e sintomas específicos para os quais a maior dificuldade é procurar tratamento. Se o sintoma deixasse o sujeito pedir ajuda, “meio caminho já teria sido andado”. Nesta linha a psicoterapia só seria possível para aqueles para quem ela já não é mais necessária.

Pedir ajuda é um grande sinal de salubridade psíquica. Indica que você foi capaz de perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento. Sugere também que você entende que isto não é apenas uma deficiência moral, uma insuficiência de sua educação ou uma ofensa ao seu sistema de crenças. O autodiagnóstico é parte do processo de cura. O clínico tenderá a interpretar este movimento crítico como parte de seu desejo de transformação.  Antigos filósofos já diziam que era difícil suportar a ideia de ser “libertado pelo outro”, tanto porque isso indica passividade e fraqueza, quanto porque seria uma liberdade falsa, obtida por meios que não são próprios. Esta oposição entre resolver-se por si, “aceitando-se como você é”, ou pedir ajuda e ficar dependente nas “mãos do outro” deve ser superada. Como em tudo mais na vida, atravessamos problemas e nos tornamos autônomos com os outros e não sem eles. Contudo, isso não explica quando um sintoma se torna insuportável a ponto de demandar tratamento.

Os verdadeiros sintomas não se definem pelo código social de condutas desejáveis, mas por duas formas específicas de relação que mantemos com o que fazemos. Há os sintomas baseados na forma “ter que”, definidos pela coer-citividade. Exemplo. Trabalho, como todo mundo, todo dia, e me queixo ou me felicito nele. Isso pode ser um sofrimento “suportável”. No entanto outra pessoa dirá: “eu tenho que” ir trabalhar, porque se não for “algo acontecerá”, sentirei angústia extrema, serei criticado impiedosamente pelo chefe, e assim por diante. Há aqui o recobrimento de um “comportamento aceitável” (trabalho) por uma disposição patológica (coerção subjetiva a).

A segunda família de sintomas obedecem à gramática do “não posso com”. São situações que podem parecer irrelevantes, ou plenamente aceitas socialmente, mas que são vividas com sofrimento adicional. Exemplo: “não posso com baratas, com ratos, com pessoas deste ‘tipo’, com mulheres desta ‘forma’, com perdas, com ganhos” e assim por diante. O diagnóstico que autoriza um tratamento psicoterápico está mais atento a esta incidência “subjetiva” do “ter que” ou do “não posso com” do que com a norma de vida esperada para alguém ou época.

Ainda que únicos os sofrimentos são igualmente trágicos e cômicos. Eles são o que as pessoas têm de melhor e também de pior. São como obras de arte que se tornam o bem mais precioso e inarredável de alguém, são também sua religião particular, feita de ritos, mitos, orações e devoções. Quando temos um nome para o mal-estar, uma história para nosso sofrimento, os sintomas revelam-se uma maneira de dizer o que não pode ser dito por outras vias. Talvez a função do psicoterapeuta ou do psicanalista seja parecida com a de um carteiro que pega cartas embaralhadas, as cartas de nosso destino, e ajuda a entregar as que podem ser entregues, reenviar as que estão sem destinatário e cuidar daquelas que ainda não foram escritas.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sonhos do Avesso - Maria Rita Kehl



















"Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?" "Como promover a otimização de meus finais de semana?" "Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes"

A psicanalista Maria Rita Kehl afirma que a clínica tem sido "contaminada" por critérios de mercado e que o universo familiar gerador de valores está "totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial"

"O aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo."

Dizem que Karl Marx descobriu o inconsciente três décadas antes de Freud. Se a afirmação não é rigorosamente exata, não deixa de fazer sentido desde que Marx, no capítulo de “O Capital” sobre o fetiche da mercadoria, estabeleceu dois parâmetros conceituais imprescindíveis para explicar a transformação que o capitalismo produziu na subjetividade. São eles os conceitos de fetichismo e alienação, ambos tributários da descoberta da mais-valia ou do inconsciente, como queiram.

A rigor, não há grande diferença entre o emprego dessas duas palavras na psicanálise e no materialismo histórico. Em Freud, o fetiche organiza a gestão perversa do desejo sexual e, de forma menos evidente, de todo o desejo humano; já a alienação não passa de efeito da divisão do sujeito, ou seja, da existência do inconsciente. Em Marx, o fetiche da mercadoria, fruto da expropriação alienada do trabalho, tem um papel decisivo na produção “inconsciente” da mais-valia.

O sujeito das duas teorias é um só: aquele que sofre e se indaga sobre a origem inconsciente de seus sintomas é o mesmo que desconhece, por efeito dessa mesma inconsciência, que o poder encantatório das mercadorias é condição não de sua riqueza, mas de sua miséria material e espiritual. Se a sociedade em que vivemos se diz “de mercado” é porque a mercadoria é o grande organizador do laço social,

Não seria necessário recorrer a Marx e Freud para defender o caráter político das formações do inconsciente. Bastaria citar a frase “o inconsciente é a política”, proferida por Lacan, que convocou os psicanalistas a se empenharem por “alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”. Mas insisto em recorrer aos clássicos para lembrar aos lacanianos extremados que a verdade não nasceu por geração espontânea da cabeça de Lacan.

Crise do sujeito

Se Freud fundou a psicanálise ao vislumbrar; no horizonte de sua época, as razões da insatisfação histérica, é nossa vez de tentar escutar o que mudou desde então, à medida que a norma produtiva/repressiva foi sendo substituída pela norma do gozo e do consumo.

Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões graves desafiam os analistas a repensar a subjetividade. Isso não implica necessariamente que as antigas estruturas clínicas tenham se tornado obsoletas.

O que encontramos hoje nos consultórios psicanalíticos é um novo sujeito? Ou são novas expressões sintomáticas que buscam responder ao velho conflito entre as pulsões e o supereu este representante das interdições e das moções de gozo, no psiquismo? O sujeito contemporâneo está mais próximo do perverso, que sabe driblar a falta pelo uso do fetiche? Ou é ainda o neurótico comum que, em vez de tentar seguir à risca a norma repressiva, tenta obedecer a um mestre fetichista que lhe ordena a transgredir e gozar além da medida?

Por enquanto, tenho escutado, em média, neuróticos mais ou menos estruturados tentando corresponder à suposta normalidade vigente, a qual - esta sim - já não é mais a mesma nem do tempo de Freud, nem do de Lacan.

A “crise do sujeito”, outra face da chamada “crise da referência paterna”, corresponde, a meu ver, ao deslocamento e à pulverização das referências que sustentavam, até meados do século passado, a transmissão da lei. Não se trata da ausência da lei na atualidade, mas da fragilidade das formações imaginárias que davam sentido e consistência à interdição do incesto - a qual, desde Freud, é considerada condição universal de inclusão dos sujeitos na chamada vida civilizada, seja ela qual for.

Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais - Deus, pátria, família, trabalho, pai – pulverizaram-se em milhares de referências optativas para uso privado do freguês.

Culpa e frustração 

O “self-made man” dos primórdios do capitalismo deixou de ser o trabalhador esforçado e econômico para se tornar o gestor de seu próprio “perfil do consumidor” a partir de modelos em oferta no mercado.

Cada um tem o direito e o dever de compor a seu gosto um campo próprio de referências, de estilo, de ideais. Aparentemente, não devemos mais nada ao pai e ao grupo social a que pertencemos, dos quais imaginamos prescindir para saber quem somos.

Este aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo. Não citarei, em hipótese alguma, falas dos que se analisam comigo: daí o caráter ligeiramente caricato dos exemplos que se seguem, como expressões genéricas da transformação que o mercado produziu nos discursos.

A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida - lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar; no início do século 20 - hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das drogas e do “rock and funk” quanto deveria. O obsessivo escrupuloso, acossado por fantasias perversas, agora se queixa de seu bom comportamento: queria ser um predador sem escrúpulos, eliminar os rivais, abusar sem pudor das mulheres.

As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise - culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros.

Sem recurso à referência a autoridades repressivas que faziam obstáculo aos prazeres, as pessoas têm dificuldades em justificar seus sintomas. Não encontram a quem endereçar suas queixas ou apoiar seus ideais.

“Meus pais são amigos, meus professores são legais, ninguém me impõe ou me impede nada: eu sou um otário porque não consigo ser feliz”. O sentimento de culpa, como escreve [o sociólogo francês Alain] Ehrenberg, tomou a forma de sentimento de insuficiência.

Assim, a resposta à dor psíquica não é buscada pela via da palavra, mas pelo consumo abusivo dos psicofármacos que prometem adicionar a substância faltante ao psiquismo deficitário. O remédio age em lugar do sujeito, que não se vê responsável por seu desejo e por suas escolhas.

Não se concebe a vida como um percurso de risco que inclui altos e baixos, incertezas, acertos, dúvida, sorte, acaso. A vida é um empreendimento cujos resultados devem ser garantidos desde os primeiros anos - daí o surgimento de uma geração de crianças de agenda cheia de atividades preparatórias para a Mura competição por uma vaga promissora no mercado de trabalho.

Não por acaso, essas mesmas crianças estarão mais predispostas à depressão na adolescência, esvaziadas de imaginação, de vida interior, de capacidade criativa.

O universo amoroso ou familiar que substitui o espaço público como gerador de valores está totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial. “Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?” “Como promover a otimização de meus finais de semana?” “Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes” (nesse caso, o analista sente-se tentado a sugerir que, de fato, ficaria mais em conta trocar de filho).

Vale ainda mencionar o estranho silêncio, nos consultórios dos analistas, em torno do eterno mistério do desejo e dá diferença sexual. A falta de objeto que caracteriza a atração erótica parece ter sido ofuscada pela onipresença de imagens sexuais nos outdoors, na televisão, nas lojas, nas revistas - por onde olhe, o sujeito se depara com o sexual desvelado que se oferece e o convida.

As fantasias sexuais são todas prêt-à-porter. Seria ok, se o suposto desvelamento do mistério não produzisse sintomas paradoxais. O tédio, em primeiro lugar, entre jovens que se esforçam desde cedo para dar mostras de grande eficiência e voracidade sexuais. As intervenções cirúrgicas no corpo, de consequências por vezes bizarras, em rapazes e moças que pensam que a imagem corporal perfeita seja a solução para o mistério que mobiliza o desejo.

A reificação do sujeito identificado como mais uma mercadoria se revela no medo generalizado de não agradar. O mistério do desejo persiste, assim como não deixa de existir o inconsciente: mas é como se suas manifestações não interrogassem mais os sujeitos.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de “O Tempo e o Cão” (ed Boitempo)



Ver a si, encontro com a verdade, re-nascer

"O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (...)“ 

Marguerite Yourcenar

Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise


A ação do sujeito no fort-da é exemplar para nomear o vazio da ausência da mãe com a alternância presença/ausência do carretel. O sujeito “eleva seu desejo à segunda potência...”. “O símbolo se manifesta, inicialmente, como assassinato da Coisa, e essa morte constitui no sujeito a eternização de seu desejo.” 

(Escritos, p.320) 

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Filme: Anna (2014)


"A coisa engraçada sobre a memoria é que não pode ser totalmente confiável...
E, no entanto, no final, é a única verdade que temos.
E não importa o quão doloroso é, você tem que olhar para a verdade porque às vezes é a única coisa que pode salvar você. É a única coisa que pode libertá-lo."