domingo, 29 de março de 2015

Novas configurações Familiares na contemporaneidade - Maria rita Kehl

Assistir acima

Palestra que a psicanalista Maria Rita Kehl proferiu no Colégio Osvald Andrade sobre as novas configurações familiares. tece considerações sobre a desestruturação da família na ausência da conservação de um adulto que ocupe o lugar daquele que sustenta a Lei (o interdito) para a criança (pode-não/pode) regulando sua pulsionalidade. A questão da modernidade cultuar a felicidade como principal dádiva e finalidade da vida em si mesmanão apenas um valor, mas obrigação máxima conseguida através dos bens de consumo que se tem a mostrar ao outro, interferindo na possibilidade dos pais lidarem com a educação das crianças na medida que entendem erroneamente que não podem frustrar os filhos, cedendo a demandas e desejos que deveriam ser barrados. Discute ainda a diferença entre autoridade e autoritarismo. Pertinente e atual temática para pais, professores e profissionais da saúde.

Chega mais perto e contempla as palavras...

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Carlos Drummond de Andrade.

sábado, 21 de março de 2015

Deletando sentimentos - o apagamento das relações


As relações afetivas são enriquecedoras e geram prazer. A troca com o outro é desejada e temida, pois implica responsabilidade e riscos! Romper laços é difícil e doloroso. O humano se vê facilmente fascinado pela relações virtuais, uma vez que pode desviar da responsabilidade e dos riscos que as relações oferecem (perda, separação, suportar decepções dentro da relação e superá-las) ao mesmo tempo que mantém a ilusão de estar se relacionando, numa gama infinita sempre suprindo (ao mesmo tempo que ironicamente suprimindo) sua necessidade de estar conectado ao outro.

Ana A. Farias CRP 06/39859-9

A história de Kafka e a menininha da boneca perdida em Berlim: para onde vai o amor que se perde?

kafka-boneca-52618_186x186Há uma história do escritor Franz Kafka (1883-1924), famoso por “A Metamorfose“, “O Processo” e “Carta ao Pai“, que mostra um singelo e doce lado do autor que já foi descrito como esquizóide, depressivo e anoréxico nervoso: uma história de amor em que ele ajuda uma menina desolada pela perda de uma boneca em uma praça de Berlim. A história tem algumas versões e abaixo seguem duas delas (traduzidas para o português): a primeira da terapeuta americana May Benatar, que ouviu da psicóloga e instrutora de meditação budista Tara Brach, publicada no site The Huffington Post, e a segunda do renomado tradutor de Kafka, Mark Harman, como foi publicado no site The Kafka Project. “Para mim essa história traz duas sábias lições: a primeira que tristeza e a perda são presentes mesmo para uma pequena criança, e a outra que o caminho para a cura é ver como o amor volta em outra forma”, diz May Benatar, cuja narrativa segue abaixo.
A história de Kafka e a menina que perdeu sua boneca em Berlim, segundo May Benatar:
“Franz Kafka, conta a história, certa vez encontrou uma menininha no parque onde ele caminhava diariamente. Ela estava chorando. Tinha perdido sua boneca e estava desolada. Kafka ofereceu ajuda para procurar pela boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu para a garotinha quando se encontraram. “Por favor, não se lamente por mim, parti numa viagem para ver o mundo. Escreveu para você das minhas aventuras”. Esse foi o início de muitas cartas. Quando ele e a garotinha se encontravam ele lia essas cartas compostas cuidadosamente com as aventuras imaginadas da amada boneca. A garotinha se confortava. Quando os encontros chegaram ao fim, Kafka presenteou a menina com uma boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original. Uma carta anexa explicava: “minhas viagens me transformaram…”. Muitos anos depois, a garota agora crescida encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da querida boneca substituta. Em resumo, dizia: “Tudo que você ama, você eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará em uma forma diferente”.
~ May Benatar, no artigo “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)
65.2

E a versão da história de Kafka e a menina que perdeu sua boneca em Berlim, segundo Mark Harman, que acrescenta detalhes como o tempo que durou a troca de cartas e os detalhes do desfecho:
A estada de Kafka na cidade (Berlin) não foi totalmente sombria; daí o primeiro dos meus dois pequenos enigmas – uma história sobre Kafka e uma menina em Steglitz. Dora Diamant conta-a ao crítico francês e tradutor Marthe Robert, e, em uma versão um pouco diferente, a Max Brod. Enquanto caminhava certo dia em Steglitz, Kafka e Dora conheceram uma menina em um parque que chorava porque havia perdido sua boneca. Kafka disse a ela para não se preocupar porque a boneca tinha partido em uma viagem e lhe enviara uma carta. Quando a menina perguntou desconfiada pela carta, ele disse que não estava com ele, mas que se ela voltasse no dia seguinte ele iria trazê-la. Fiel à sua palavra, todos os dias durante as próximas três semanas, ele foi ao parque com uma nova carta da boneca. Dora Diamant enfatiza o cuidado que ele dedicou a esta tarefa auto-imposta, que era do mesmo grau que o que ele dedicava à sua outra obra literária. Ela também comenta a dificuldade de Kafka em chegar a um final que iria deixá-lo livre e ao mesmo tempo com uma conclusão razoavelmente satisfatória, para a menina. Na versão que Dora contou a Marthe Robert, Kafka conseguiu isso fazendo a boneca ficar noiva: “Ele (Kafka) pesquisou por um longo tempo e, finalmente, decidiu que a boneca ia se casar. Primeiro ele descreveu o jovem, o noivado.. .., os preparativos para o casamento, em seguida, em grande detalhe, a casa dos recém-casados”. Por causa desses “preparativos do casamento” em andamento, uma palavra que lembra o título de uma de suas primeiras histórias e sugere o grau de autobiografia fictícia que se engendrou neste envolvente conto – a boneca não poderia mais, compreensivelmente, visitar sua ex-dona. Max Brod não menciona esse final, mas escreve que antes de sair de Berlim para Praga, Kafka se certificou que a menina recebera o presente de uma nova boneca. Esta é, naturalmente, apenas uma discrepância menor e não diminui a credibilidade desta história, que revela um Kifka gentil, atencioso e compreensivo, que não é tão amplamente conhecido como o introvertido e auto-atormentando de “A Metamorfose” e “Um Artista da Fome”.
~ Mark Harman, em “Missing Persons: Two Little Riddles About Kafka and Berlin” (publicado no The Kafka Project)
PS: Essa história da boneca certamente deve ter servido de inspiração para a sequência do filme “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” (Jean-Pierre Jeunet, 2001), em que a protagonista Amélie Poulain (Audrey Tatou) pega uma estátua de anão de seu pai e faz ela viajar o mundo e enviar cartões postais para o pai, que não sai de casa e se sente atraído pelas aventuras da estátua.

domingo, 15 de março de 2015

Depressão

Sintonia by Betth Ripoli,"Medo e Pânico - Síndromes da Modernidade"!



Esclarecedora entrevista sobre as diferenças entre a Psicanálise, Psicologia e Psiquiatria. Quais as raízes dos sintomas? Como a Psicanálise pode ajudar a resolver os conflitos e o sofrimento das pessoas? A Psicanálise pode ajudar em algumas patologias atuais, como Stress, Depressão, Síndrome do Pânico, fibromialgia, entre outras.
Araceli divulga a Clinica Ana Joaquina, mantida pelo Sindicato dos Psicanalistas que atende pessoas com menor poder aquisitivo. Contribuição para a sociedade e para os cidadãos que o Sindicato oferece de segunda a sexta das 9h às 17h. Marcar consultas pelo (11) 5575 2063

Araceli Albino - Doutoranda em Psicologia pela Universidad Del Salvador (Buenos Aires, Argentina). Presidente do Sindicato dos Psicanalistas do Estado de São Paulo – SINPESP. Psicóloga (Faculdades Integradas de Uberaba). Psicanalista Didata; atividade clínica desde 1982. Pós-graduação na PUC – “Psicanálise e linguagem”. Especializações em: Psicoterapia/Psicodinâmica de adultos e adolescentes; Especialização em: Psicopatologia Psicanalítica e Clínica Contemporânea; Professora e Coordenadora do curso de Formação em Psicanálise do Núcleo Brasileiro de Pesquisas Psicanalíticas.

terça-feira, 10 de março de 2015

FRANÇOISE DOLTO - BIOGRAFIAS

Françoise Dolto (Françoise Marette) (1908 – 1988) nasceu em Paris, em 1908, quarta filha de sete irmãos, numa família parisiense, de cultura cristã, de boa posição econômica. A irmã mais velha faleceu com 18, quando Dolto tinha 12 anos. Casou-se com Boris Dolto. Tiveram dois filhos, Yvan-Chrisostome Dolto e Catherine Dolto.

Foi marcada, na infância, pela reação daqueles que ficavam inquietos, irritados ou angustiados com o que chamavam de sua “loucura”: sua originalidade, sua imaginação, suas idéias.

Destacam-se em Dolto a originalidade pela condição de pensar sob diferentes vértices, e a espontaneidade de manifestar-se de maneira inovadora sobre questões arraigadas no conservadorismo de sua época. Foi uma mulher de vanguarda. Enfrentou, com coragem, dificuldades importantes desde a infância, a partir do âmbito familiar onde não foi compreendida. Queria ser “médica de educação”. Preocupou-se com a ética nas relações humanas valorizando a comunicação. Afirmava que a criança, antes mesmo de usar uma linguagem verdadeira, já se comunica, à sua maneira, com o corpo. Aprende a se locomover engatinhando e começa a querer libertar-se de seus pais, exprimindo desejo de autonomia.

Preocupou-se com a possível prevenção de problemas em relação aos pais e à cura dos filhos, por meio da compreensão dos afetos.

Em análise com René Laforgue, descobriu como se relacionar com sua mãe, o que até então a deixava infeliz. Compreendeu que submeter-se aos seus maus tratos por respeito filial não ajudava a diminuir o sofrimento neurótico de sua mãe e nem o seu. Vivenciou uma transformação que lhe deu condição para enfrentá-la e desfrutar os últimos anos de sua vida com ela “realmente encantadora”. Valeu-se desta experiência, com sucesso, na análise de um paciente que vinha sendo mau tratado pelo pai e se tornara gago. Anos depois, na rua Le Goff¹, ficou muito contente quando encontrou-se com o ex-paciente, livre do problema, estudante da Sorbonne.

Dolto foi especialista, uma das pioneiras, em psicanálise de criança. Desenvolveu importante experiência clínica e foi reconhecida pela eficácia do seu trabalho. Popularizou o conhecimento teórico, sobretudo por meio do rádio, acerca de vários temas dentre os quais a separação dos pais. Chamou a atenção para o sofrimento da criança ligado ao “não dito” e à falta de verdade, ainda que justificados como sendo para o bem da criança.

Em 1953, em meio a uma crise na Sociedade Psicanalítica de Paris (SPP), Jacques Marie Émile Lacan deixa a SPP junto com um grupo de estudiosos de grande densidade intelectual, dentre os quais Françoise Dolto, Daniel Lagache, Donald Woods Winnicott e outros cerca de 40 analistas. Fundam a Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP), anos mais tarde, em 1963, admitida pela Associação Internacional de Psicanálise (IPA).

Dolto faleceu com 79 anos, deixando ampla obra de alcance internacional por sua originalidade de pensamento e compreensão de questões psicanalíticas na época em que viveu e na contemporaneidade.

Referências bibliográficas:

MANIER, A. E MANIER C. Auto-Retrato de Uma Psicanalista 1934 –1988. Tradução: Dulce Duque Estrada. Jorge Zahar Editor Ltda, RJ, 1990.
DOLTO, F. Quando os Pais se Separam, 1988. Tradução: Vera Ribeiro, Jorge Zahar Editor Ltda. RJ, 1989.
DOLTO, F. Solidão, 1998. Tradução: Ivone Castilho Benedetti, Edit. Martins Fontes, São Paulo, SP, 1998.
DOLTO, F. Tudo é Linguagem, 1999. Tradução: Luciano Machado, Edit. Martins Fontes. São Paulo, SP, 2002.
http://www.monsieur-biographie.com/celebrite/biographie/francoise_dolto-5388.php
http://br.geocities.com/jacqueslacan19011981/cronologia.htm
Resenha elaborada por Helena Lúcia Alves de Lima Furtado, psicanalista em formação no Instituto da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto.

Françoise Dolto sobre a Solidão

Sobre Depressão, fala Françoise Dolto num diálogo do Livro “Solidão”:Desconhecido: Quando estamos sós e deprimidos, não conseguimos ir em direção aos outros. Nós mesmos precisamos ser reconfortados”.
Françoise Dolto.: Não é verdade. Se a pessoa que disse isso passou pela experiência da depressão, que da próxima vez em que ficar deprimida estabeleça previamente um programinha:’ no dia em que eu ficar deprimido, sei que posso ir a tal instituição onde sempre precisam de pessoas de boa vontade’. Então ela precisa levantar-se e ir até lá. Vai constatar que nunca mais cairá numa crise de depressão.

Também é preciso se dizer que as crises de depressão são cíclicas. E uma espécie de encontro marcado consigo mesmo. Há pessoas que são ritmadas assim. E nesses casos, em particular, que a psicanálise pode ser muito útil. Num momento de depressão desse tipo, não se deve hesitar  em procurar um psicanalista. Nem por isso se estará começando uma uma psicanálise de dez anos. nos momentos em que não estamos deprimidos, depois de trocarmos duas ou três palavras com alguém, já estaremos menos deprimidos. O fato de dar a alguém algo que não temos permite sobreviver; damos sempre o que não sabemos ter, o que acreditamos não ter. Em cada um de nós existe alguém que quer conversar com outra pessoa. Não se sabe quem. Se conversarmos com outra pessoa, reencontramos essa pessoa em nós”. (Solidão, p.442 – Ed. Martins Fontes, SP; 1998)

Para Françoise Dolto, a solidão só acaba quando se descobre uma forma de se expressar. Escrever (mesmo que sejam diários) é um caminho para transformar a solidão numa experiência construtiva, de busca de comunicação.



Conflitos - Rosely Sayão


A mãe de um garoto de cinco anos, arrumando a mala escolar dele, encontrou um brinquedo. Perguntou de quem era, e ele respondeu que havia encontrado na escola. A mãe decidiu devolver o brinquedo à escola sem nada dizer ao filho. Levou o brinquedo e, num momento em que ninguém estava olhando, colocou o objeto no espaço escolar.

Outra mãe, de uma garota de pouco mais de dez anos, vasculhou o celular da filha depois que ela foi dormir e viu conversas com conteúdo muito erotizado para a idade dela. Ficou sem saber que atitude tomar, já que havia descoberto isso mexendo no aparelho sem permissão.

O pai de um adolescente, desconfiado de que o filho estava usando maconha, desmontou o quarto dele em busca de vestígios da droga, num final de semana em que o jovem viajou. Encontrou. Quando o filho retornou, perguntou diretamente se ele usava a erva e –claro!– recebeu uma resposta negativa e indignada. O pai aceitou a resposta do filho, que o fez ficar sem ação.

Tomei esses três exemplo da vida real, entre tantos outros que conheço, para apontar que tem havido certo constrangimento de muitos pais na educação e na tutela dos filhos.

As reações comuns dos genitores dessas situações mostram que eles têm dificuldade de enfrentar os erros, os equívocos e as transgressões dos filhos. Por que será? Tenho algumas hipóteses.

Primeiramente, temos tido dificuldade de enfrentar conflitos. Conflito deveria ser positivo: diferenças de ideias, opiniões e comportamentos podem gerar novas alternativas, se o diálogo for a estratégia para administrar a situação. Mas temos confundido conflito com confronto. Confronto não admite diálogo, porque é a busca da supremacia de uma posição, ou seja: no confronto é preciso anular a opinião, ideia ou comportamento diferente.

Não existe família sem conflitos, sejam eles reconhecidos ou não. Não é possível educar sem conflitos, porque educar supõe desagradar aos filhos, e isso gera conflitos.

Há outra questão importante: hoje, os pais precisam mais do amor dos filhos do que estes deles. Em tempos em que o prefixo "ex" impera, os adultos precisam da garantia de uma relação afetiva até que a morte os separe, e a ligação entre pais e filhos é essa possibilidade.

Não é possível forjar o caráter dos filhos sem reconhecer os erros que eles cometem –muitas vezes sem saber– e trabalhá-los. Não é possível educar uma criança se ela constata que é mais esperta que seus pais e outros adultos.

Alguém acha que as crianças dos exemplos não perceberam e avaliaram a posição de seus pais em relação ao que fizeram? No mínimo, concluíram que podem fazer seus pais de bobos. Como, então, se deixar educar por eles?

Ser mãe e pai exige coragem, potência, credibilidade, firmeza. Os filhos precisam saber, de antemão, que seus pais estão atentos a tudo o que fazem. Nenhum filho merece que a mãe ou o pai tente descobrir, às escondidas, o que eles fazem, onde vão, o que falam, escutam e veem. Também não é possível respeitar a privacidade de um mais novo que ainda não soube conquistá-la.

Para transmitir aos filhos a moral, a ética e as virtudes priorizadas, é preciso ter autoridade, que é construída no dia a dia. O comportamento dos pais dos exemplos que citei os desautoriza perante os filhos. Aí, fica bem mais difícil educar. 




rosely sayão
Rosely Sayão, psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia-a-dia dessa relação. Escreve às terças.

sábado, 7 de março de 2015

A Ação Terapêutica - da Psicanálise e a Neurociência - Victor Manoel Andrade

Por muito tempo, a Psicanálise atribuiu sua ação terapêutica ao método cognitivo de tornar consciente o inconsciente mediante interpretações. Como essa fórmula clássica não dá conta das patologias narcísicas agora predominantes, a tendência atual é privilegiar a reprodução no setting analítico das primeiras relações objetais significativas, de modo a estabelecer um novo modelo de relação objetal. Acredita-se que as patologias narcísicas derivam de falhas estruturais causadas pela internalização de objetos que desempenharam a função materna inadequadamente. A transferência enseja a replicação das primeiras relações afetivas, permitindo ao analista empático emular a função materna de modo a estabelecer um novo modelo de relação objetal. A internalização desse modelo modifica o anterior, responsável por falhas estruturais. Essa ação afetiva primordial é completada e consolidada secundariamente pelas interpretações. A alteração psíquica assim concebida é compatível com a experiência neurocientífica, segundo a qual relações afetivas modificam circuitos neurais.


SUMÁRIO DA OBRA

Parte 1. O mundo freudiano como afeto e representação

Capítulo 1. Quota de afeto e representação – Manifestações psíquicas do impulso instintual (Trieb)
Capítulo 2. Onde a psicanálise atua – O objeto de mudança
Capítulo 3. Como a psicanálise atua – Fundamentos da ação terapêutica
Capítulo 4. A evolução da maneira de ver a ação terapêutica
Capítulo 5. O narcisismo e a chamada personalidade borderline – Um exame de obscuridades conceituais à luz da metapsicologia freudiana

Parte 2. A ação terapêutica da psicanálise

Capítulo 6. O afeto e a ação terapêutica – Novas perspectivas para a teoria da técnica
Capítulo 7. O sonho como estado primordial da mente – A conduta analítica em face do narcisismo primário revelado no sonho
Capítulo 8. Sonho e psicose – Aspectos metapsicológicos e clínicos

Parte 3. Metapsicologia científica e o ser humano como unidade sociobiológica

Capítulo 9. Metapsicologia e consiliência
Capítulo 10. O ego, o inconsciente e a consciência
Capítulo 11. Esclarecimentos finais.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Oito sinais de que você precisa fazer terapia




A sensação de ser regularmente dominado pela tristeza ou pela raiva pode indicar algo mais profundo



Todo mundo passa por períodos de stress, tristeza, luto e conflito, então quando você não se sente muito bem pode ser difícil saber se é hora de procurar um profissional para lidar com o problema.
A prioridade da comunidade psiquiátrica é identificar e atender aqueles que tem doenças mentais diagnosticáveis, mas a ajuda psicológica para quem tem algum problema que não seja tão óbvio pode ser igualmente importante. Além de sofrer sem necessidade, quem está nessa situação pode ter o quadro agravado justamente por falta de tratamento profissional. “Quanto mais cedo se procura ajuda, mais fácil é resolver o problema”, diz o psicólogo Daniel J. Reidenber. “O tratamento vai ser mais curto e menos estressante.”
Os psicólogos atribuem a baixa procura por ajuda médica ao estigma e aos mitos ligados à terapia: a ideia de que seja algo para gente louca, que a ajuda de um profissional seja um sinal de fraqueza ou tome tempo e custe caro demais. Nada disso é verdade, diz a psicóloga Mary Alvord.
“Um tratamento não precisa envolver análise quatro vezes por semana; tenho pacientes que vêm para apenas duas sessões ou para terapia comportamental durante um ano”, diz Alvord. “As pessoas acham que vão se tornar prisioneiras do tratamento, mas isso simplesmente não é verdade.”
“Existe um estigma injustificado ligado às doenças mentais, e olhe que nem estamos falando de uma doença mental”, diz Reidenberg. “Estamos falando apenas da vida e das dificuldades dela. Os benefícios da psicoterapia [podem ser vistos] mais como formas de aliviar o estresse, como exercícios físicos ou uma alimentação correta – estratégias que podem ajudar no dia-a-dia e ajudar a aliviar tensões.”
Então quais são os sinais de que pode ser a hora de marcar uma consulta? Pedimos que Reidenberg, Alvord e psicóloga Dorothea Lack indicassem a que sintomas devemos estar atentos quando não nos sentimos muito bem.
A principal conclusão? É apenas uma questão de avaliar sua capacidade de tolerância – tudo o que lhe faz sentir oprimido ou te impede de funcionar direito merece a atenção de um terapeuta, assistente social ou psicólogo.

1- Todas as suas emoções são intensas
“Todo mundo fica nervoso e triste, mas e a intensidade? E a frequência? Isso te atrapalha ou prejudica a sua vida?”, pergunta Alvord.
A sensação de ser regularmente dominado pela tristeza ou pela raiva pode indicar algo mais profundo, mas é preciso prestar atenção a uma outra coisa: o catastrofismo.
Quando um desafio aparece de repente, você imediatamente se prepara para o pior? Esse tipo de ansiedade extrema, em que as preocupações são desproporcionais e os cenários pessimistas passam a se tornar cenários realistas, pode ser profundamente debilitante.
“Pode ser paralisante, levar a ataques de pânico e até mesmo a evitar as coisas”, diz Alvord. “Se sua vida começa a se contrair porque você está se omitindo é provavelmente a hora de procurar alguém.”

2- Você passou por um trauma e não consegue parar de pensar no assunto
A dor de uma morte na família, uma separação ou a perda do emprego podem ser suficientes para exigir algum tipo de aconselhamento. “A tendência é achar que esse tipo de sensação vai embora sozinha”, diz Alvord, lembrando que nem sempre este é o caso. O luto pode nos atrapalhar no dia a dia e nos afastar dos amigos. Se você perceber que está se distanciando, ou se seus amigos notarem o mesmo, talvez seja a hora de procurar alguém para tentar entender como o evento ainda está te afetando. Por outro lado, algumas pessoas reagem às perdas com uma reação mais maníaca -- buscam os amigos incessantemente e têm problemas para dormir. Estes também são sinais de alerta.

3- Você tem dores de cabeça recorrentes e inexplicáveis, dores de estômago ou baixa resistência
"Se estamos emocionalmente abalados, o corpo pode ser afetado", diz Alvord. Pesquisas confirmam que o estresse pode se manifestar de diversas formas, de problemas estomacais crônicos a dores de cabeças, resfriados e redução do apetite sexual. Reidenberg afirma que há outros indícios menos frequentes, como dores musculares repentinas (ou seja, não aquelas que aparecem depois da academia) ou dores no pescoço.

4-Você está usando alguma substância para aguentar o dia a dia
Se você percebe que está bebendo ou usando drogas em maiores quantidades ou com maior frequência -- ou até mesmo pensando mais em bebidas ou drogas --, pode ser um sinal de que você queira anestesiar algum tipo de sensação. Mas essa substância pode não ser o álcool ou droga: pode ser comida. Reidenberg nota que mudanças no apetite podem ser um sinal de que nem tudo está bem. Comer demais, ou de menos, pode indicar estresse ou sinalizar que você não está querendo cuidar de si mesmo.

5-Você não está rendendo no trabalho
Mudanças na performance no trabalho são comuns entre aqueles que enfrentam questões emocionais ou psicológicas. Você pode se sentir desconectado do trabalho, segundo Reidenberg, mesmo que antes gostasse do que faz. Além de afetar a concentração e a atenção, você pode começar a receber críticas dos seus chefes ou colegas. Pode ser um sinal de que é hora de buscar um profissional.
"Adultos passam a maior parte do tempo no trabalho", diz Reidenberg. "Então as pessoas que reparam são aquelas que têm de compensar, como em uma família."

6-Você se sente desconectado daquilo que gostava de fazer
Se seus clubes, encontros de amigos e família estão perdendo a graça, pode ser um sintoma de que algo está errado, explica Reidenberg. "Se você está desiludido, achando que nada faz sentido, buscar terapia pode ajudar a clarear o ar ou procurar uma nova direção."

7-Seus relacionamentos estão desgastados
Você tem dificuldades para explicar como realmente está se sentindo – ou mesmo para identificar suas emoções? Se você se sente infeliz durante as interações com aqueles que ama pode ser um candidato para uma terapia de casal ou de família, diz Alvord.
“Podemos ajudar as pessoas a escolher melhor as palavras – e ensinamos que não é só o que você está dizendo que importa, mas também sua linguagem corporal e sua atitude”, diz Alvord.

8-Seus amigos dizem que estão preocupados com você
Amigos podem perceber padrões que não conseguimos identificar nós mesmos, portanto é importante considerar a perspectiva daqueles que estão à sua volta.
“Se alguém que faz parte da sua vida diz algo como: ‘Você falou com alguém sobre isso?’ ou ‘Você está bem? Estou preocupado com você’ – é um sinal de que você provavelmente deveria ouvir o conselho”, diz Reidenberg.



quarta-feira, 4 de março de 2015

Spinoza, Deleuze e a Função da Tristeza na Dominação - Hugo Albuquerque


Quando eu passo da idéia de Pedro à idéia de Paulo, eu digo que minha potência de agir é aumentada; quando eu passo da idéia de Paulo à idéia de Pedro, eu digo que minha potência de agir é diminuída. Isso equivale a dizer que quando eu vejo Pedro, sou afetado de tristeza; quando eu vejo Paulo, sou afetado de alegria. E sobre essa linha melódica de variação contínua constituída pelo afeto, Spinoza irá determinar dois pólos, alegria-tristeza, que serão para ele as paixões fundamentais: a tristeza será toda paixão, não importa qual, que envolva uma diminuição de minha potência de agir, e a alegria será toda paixão envolvendo um aumento de minha potência de agir.Isso permitirá que Spinoza, por exemplo, realize uma abertura em direção a um problema moral e político muito fundamental, que será sua própria maneira de estabelecer o problema político: como acontece que as pessoas que têm o poder, não importa em que domínio, tenham necessidade de afetar-nos de uma maneira triste? As paixões tristes como necessárias: inspirar paixões tristes é necessário ao exercício do poder. E Spinoza diz, no “Tratado teológico-político”, que esse é o laço profundo entre o déspota e o sacerdote: eles têm necessidade da tristeza de seus súditos. Aqui, vocês compreenderão com facilidade que ele não toma "tristeza" num sentido vago, ele toma "tristeza" no sentido rigoroso que ele soube lhe dar: a tristeza é o afeto considerado como envolvendo a diminuição da potência de agir.
(Trecho de uma aula de Deleuze sobre as ideias, os afetos e afeccções em Spinoza)

Recentemente, em uma conversa por e-mail sobre Spinoza, a minha amiga Flávia Cera - dona da excepcional Mundo-Abrigo -, me deu uma excelente dica sobre o pensador luso-holandês: O Webdeleuze, site onde está publicado uma quantidade interessante de cursos que ninguém mais, ninguém menos do que Gilles Deleuze deu sobre pensadores como Kant, Leibniz e, claro, o próprio Spinoza, além de manuscritos, imagens e aúdios. Ontem, estava lendo um desses cursos, datado de Janeiro de 78 - onde o pensador francês trata das ideias, dos afetos e das afecções em Spinoza - e topei com esse trecho, absolutamente genial que me provocou um estalo.

Resumindo um pouco do que se trata o texto, encontramos que, embora Spinoza adote, a princípio, a definição clássica de ideia como um símbolo representantivo de alguma coisa, ele afirma que as ideias, em si, são uma coisa própria e se diferem dos seus ideados - a coisa representada -; mais do que isso, nossa relação com o mundo não se resume às ideias que temos sobre ele, mas também aos afetos - no sentido de sentimento mesmo - que temos sobre as coisas que conhecemos - quando você, meu caro leitor, entra neste blog, você não apenas tem certa ideia do que ele significa, mas também sente alguma coisa, portanto, sua compreensão sobre ele não se limita a como você o representa mentalmente, mas também como você o sente. Além disso, há outra espécie, que são as afecções, grosso modo, o resultado da interferência de uma corpo sobre o outro, mas não vou entrar nessa parte em específico.

O que me chamou a atenção mesmo foi esse parágrafo em especial que eu transcrevi. Uma sacada de Deleuze sobre uma das muitas ideias que Spinoza levantou no Tratado Teológico-Político (mas também tem algo da Ética aí): A dominação política tendo por fundamento a tristeza. O trecho fala por si próprio. Spinoza, que era um intelectual profundamente atuante em seu tempo, lutou tanto contra as superstições que fundamentavam a dominação religiosa quanto contra o despostismo esclarecido da Casa de Orange - que era esclarecido, mas não deixava de ser despotismo -, portanto, ele sabia muito bem sobre o que falava.

Exemplos históricos não nos faltam. Desde a forma de dominação realizada pelo bolchevismo na União Soviética, responsável por arruinar a Revolução com o maior potencial emancipatório da história humana - bem como os seus regimes derivados pelo mundo -, até a esquizofrenia do nosso mundinho globalizado e pós-modernoso se sustentam na necessidade de ter pessoas frustradas, apáticas e, portanto, incapazes de exercer seu potencial criativo, estando, assim, submetidas à sujeição.

No nosso tempo, as pessoas estão submetidas a um sistema que lhe rouba o significado na vida e as condiciona a guiarem suas ações para um enriquecimento meramente material, elemento que lhes permitirá adquirir coisas de todos os tipos de coisas, vendidas sob as promessas de servirem como o bálsamo definitivo para essa lacuna nas suas existências, mas esse vazio nunca fecha; quanto mais consumimos, mais nos sentimos frustrados por não termos mais. Estamos tristes o tempo inteiro. Quanto mais a sociedade de consumo avança, mais estamos consumidos enquanto os donos do poder, aqueles que ganham o que gastam, estão incólumes. 

Para fechar o quadro, os setores que se prestam a promover o discurso e a ação contra-hegemônica, nos mais variados espaços, não raro, trazem em seu interior uma lógica de dominação; quantos partidos de esquerda não se organizam numa estrutura profundamente hierarquizada, que barra a ação criativa e criadora de seus membros de modo decisivo, repetindo internamente a mesma lógica de dominação que dizem combater? O bolshevismo russo é um belo exemplo disso, seja enquanto organização contra-hegemônica ou, depois, enquanto corporação total - e totalizante - da União Soviética - bebendo na frustração aguda de uma sociedade que não podia se expressar, onde o exercício da política, assim como de todas as outras artes, era monopólio exclusivamente seu.

Em suma, tudo isso faz um enorme sentido. A verdadeira ação política libertadora deve ser norteada pela alegria, pela superação do binarismo e representar, assim, uma subversão da prática da dominação, não a sua substituição - onde entraria em cena um leviatã escarlate, demiurgo social, cujo lider, revolucionário e herói, estará destinado a ser ser déspota e sumo-sacerdote do credo oficial.


Divã



"Qual o sentido do uso do divã na análise? O que ele representa no método psicanalítico? É bem comum as pessoas se perguntarem por que os psicanalistas consideram seu uso tão importante, mas nem todos entendem o sentido dessa prática. De forma simplificada, pode-se dizer que o divã ajuda o paciente a tirar o foco do mundo externo e voltar-se ao seu universo interno: sentimentos, fantasias, sonhos e devaneios. Quando nos deitamos, nossa perspectiva do mundo muda, com redução do foco nos objetos ao redor e maior atenção em imagens e pensamentos que nos vêm à mente. Do lado do analista, o divã torna o trabalho mais produtivo: liberado do contato visual, pode se manter mais atento ao seu próprio mundo interno e àquilo que é comunicado pelo paciente."

Fonte: SOCIEDADE BRASILEIRA DE PSICANÁLISE