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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

Restos de Carnaval - Clarice Lispector

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava en…

Depressão, luto e melancolia (Parte II) - Lambotte e o Discurso Melancólico

LAMBOTTE E O DISCURSO MELANCÓLICO
Outra autora que pensa a melancolia de maneira aprofundada é Marie-Claude Lambotte. Na obra O discurso melancólico, Lambotte (1997) oferece um rico universo de reflexão sobre as complexidades melancólicas relacionadas ao campo do narcisismo. A autora aponta para uma relação peculiar na formação da imagem de si do melancólico, o qual seria incapaz de aceder a um estatuto de preenchimento ideacional narcísico, característico dos pacientes neuróticos.
Em outras palavras, Lambotte demonstra que o trauma, situado num momento pré-especular, introduz uma condição a partir da qual não ocorre um sentimento de existência de si. Para Lambotte, esta configuração caracteriza-se como um "desmentido de existência" no campo do sujeito. A mãe fracassa em seu investimento, e não mantém para o mesmo a subjetivação de sua própria existência. Segundo a autora, o olhar da mãe não atingiu o sujeito ao ponto de este forjar para si uma autoimagem capaz de desfrutar de…

A escrita do medo - José Castello

“O medo talvez seja o motor da escrita. Está, de qualquer modo, em seu coração.”No número 47 da Revista Brasileira de Psicanálise, recém lançado pela Federação Brasileira de Psicanálise em uma edição dedicada ao tema do medo, leio (com medo) um breve ensaio do escritor moçambicano Mia Couto que me empurra de volta a meu passado. A meu passado? A meu presente, já que o presente não passa do que fizemos, do que passou. A literatura mexe todo o tempo com a experiência do medo. Ela o enfrenta. O texto de Mia me conduz de volta a um impasse — o que fazer do medo? — que nunca solucionamos. E que, penso, marca não só nossa experiência com a escrita, mas a existência humana. O medo está aqui ao meu lado, eu apenas o suporto. Mais ainda: luto para tirar dele, em vez de paralisia, energia.
Murar o medo chama-se o ensaio breve de Mia Couto, que ele apresentou, originalmente, nas Conferências do Estoril, Portugal, no ano de 2011. “O medo foi um dos meus primeiros mestres”, começa. “Antes de ganha…

A Trama do Olhar

Somos seres olhados no espetáculo do mundo, observa Merleau-Ponty. O olhar persecutório do paranoico nos ensina que somos olhados por todos os lados. Sem o olhar do outro, não existimos, mas a maneira como somos olhados define um destino. (...) Para o paranoico, como já mencionamos, há um olhar persecutório; o voyeur interroga, pelo olhar, o que falta no Outro; o exibicionista espreita no olhar do Outro o sinal de cumplicidade de seu gozo; (...) a histérica demanda insistentemente ser olhada, mas para confirmar que nela não há falta; já o psicótico como vê com o olhar do Outro que o invade; a cena se passa fora dele.
(A Trama do Olha, Edilene Freire de Queiroz. Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, V, 1, 89-100)

Distinção teórico-clínica entre depressão, luto e melancolia (Parte I)

                                                                 Edouard-Hamman-Desilusión


Na obra de Freud, o luto aparece tanto na sua exposição sobre a melancolia, como no estudo das sociedades primitivas ligado aos tabus que as organizam (Freud, [1913] 1996). Segundo Freud ([1917] 1996), o enlutado mantém-se temporariamente num estado de rebaixamento libidinal e sofrimento ante a morte ou a perda cujos efeitos se fazem valer pela possibilidade de dotar a dor de um término factível. O luto é evocado pelo sujeito no sentido de fazer com que a dor não se eternize, o que o define efetivamente como um "trabalho psíquico". Ratifica-se na obra de Freud que o trabalho do luto tem a função de elaboração e assimilação psíquica da perda, bem como de possibilitar a separação com relação ao objeto perdido e o reinvestimento num substituto. O enlutado martiriza-se pela perda, recorda-se constantemente do morto. Ele trabalha no sentido de dar um estatuto afirmativo a algo que se perdeu,…

Angústia - Graciliano Ramos

“Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. (…) Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. (…) A multidão é hostil e terrível.”
 Angústia -Graciliano Ramos -

Infantolatria: as consequências de deixar a criança ser o centro da família

As atividades da família são definidas em função dos filhos, assim como o cardápio de qualquer refeição. As músicas ouvidas no carro e os programas assistidos na televisão precisam acompanhar o gosto dos pequenos, nunca dos adultos. Em resumo, são as crianças que comandam o que acontece e o que deixa de acontecer em casa. Quando isso acontece e elas já têm mais de dois anos de idade, é hora de acender uma luz de alerta. Eis aí um caso de infantolatria.  “O processo de mudança nos conceitos de família iniciado no século 18 por Jean-Jacques Rousseau [filósofo suíço, um dos principais nomes do Iluminismo] chegou ao século 20 com a ‘religião da maternidade’, em que o bebê é um deus e a mãe, uma santa. Instituiu-se o que é uma boa mãe sob a crença de que ela é responsável e culpada por tudo que acontece na vida do filho, tudo que ele faz e fará. Muitos afirmam que a mulher venceu, pois emancipou-se e foi para o mercado de trabalho, mas não: é a criança que entra no século 21 como a vitorios…