domingo, 15 de fevereiro de 2015

Restos de Carnaval - Clarice Lispector

Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.

No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.

E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.

Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.

in "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Depressão, luto e melancolia (Parte II) - Lambotte e o Discurso Melancólico




LAMBOTTE E O DISCURSO MELANCÓLICO

Outra autora que pensa a melancolia de maneira aprofundada é Marie-Claude Lambotte. Na obra O discurso melancólico, Lambotte (1997) oferece um rico universo de reflexão sobre as complexidades melancólicas relacionadas ao campo do narcisismo. A autora aponta para uma relação peculiar na formação da imagem de si do melancólico, o qual seria incapaz de aceder a um estatuto de preenchimento ideacional narcísico, característico dos pacientes neuróticos.

Em outras palavras, Lambotte demonstra que o trauma, situado num momento pré-especular, introduz uma condição a partir da qual não ocorre um sentimento de existência de si. Para Lambotte, esta configuração caracteriza-se como um "desmentido de existência" no campo do sujeito. A mãe fracassa em seu investimento, e não mantém para o mesmo a subjetivação de sua própria existência. Segundo a autora, o olhar da mãe não atingiu o sujeito ao ponto de este forjar para si uma autoimagem capaz de desfrutar de um amor de si de tipo jubilatório.

Nesses termos, se a autodepreciação parece ser uma das mais importantes características do discurso melancólico, Lambotte dirá que esta se apresenta apenas como problema secundário. A autora aponta que a incerteza de si só poderá ser ultrapassada se for substituída por um desvelamento absoluto do enigma da morte; elemento utilizado constantemente pelo melancólico para sustentar sua própria referência discursiva.

A morte é uma referência central do discurso melancólico, o qual passa a girar em torno da crueza das coisas e da crueldade da finitude. Esses sujeitos postulam a si mesmos como detentores fiéis da verdade trágica da morte, tornando-se dela seus maiores aliados. Atiram-se vertiginosamente em direção a ela como que numa apropriação radical da verdade, da qual os outros seres humanos tentam desviar-se em suas "inúteis ilusões".

A certeza de sua miserabilidade, revestida de autotirania e culpabilidade, aponta em última instância - e esta é uma das mais importantes constatações de Lambotte - para uma busca das origens de si mesmo jamais encontrada. Nessa circunstância, o sujeito, atirado ao limbo de sua própria existência, não se reconhece nem atribui a si algo de consistente. Nesses casos, Lambotte (1997: 157) afirma que: "[...] aquém da autodepreciação tão frequentemente designada como uma das características essenciais da atitude melancólica, é a questão das origens que a acossa permanentemente, como o desconhecido de uma equação para a qual se tentaria achar as variáveis pertinentes".

A autora trabalha com a hipótese de que a aniquilação de si está diretamente relacionada a problemas na própria constituição do narcisismo em função de o olhar do outro (mãe) não ter preenchido a circunscrição imaginária do corpo. A mãe aparece no discurso melancólico quase sempre como toda-potente, objeto absoluto que, com seu olhar, circunscreve a silhueta corporal da criança, emprestando a ela a possibilidade de formação de um esquema corporal. Este esquema, contudo, é desinvestido da libido que lhe poderia garantir um preenchimento narcísico e um sentimento positivado de existência no discurso do outro. Nessa perspectiva, a mãe, toda-potente, lançaria sobre a criança um discurso sem atribuições ou investimentos, asseverando apenas uma existência pontual e descontínua, o que constitui o cerne do trauma e da ambivalência melancólica.
O olhar materno não circunscreve o que viria a ser um futuro sujeito, produzindo, por outro lado, uma deserção de desejo (Lambotte, 2001). Desejo do Outro que, desertado, não inclui o sujeito na dinâmica da pluralidade identificatória, isto o levando a um vazio sem precedentes, que caracteriza precisamente uma identificação ao nada (cf. Lambotte, 2001).

Com efeito, na melancolia o eu não se precipita mediante a ilusão de sua própria onipotência. Se há onipotência na melancolia, esta se configura por um discurso enquistado, clivado. O discurso onipotente do outro assume uma configuração negativizada, produzindo um sujeito identificado ao nada. O sentido da onipotência fica enquistado, isolado de qualquer referência narcísica ou representação de si mesmo. O discurso melancólico apela para uma existência no nada e revela uma única saída no simbólico - "eu não sou nada", frase que caracteriza a construção narrativa por excelência desses sujeitos (cf. Lambotte, 2001).
Aqui, delineiam-se os primeiros passos para uma distinção entre a constituição melancólica e a formação ideal dos pacientes deprimidos não-melancólicos. Nessa linha, o enfoque para uma análise dessas questões encontra sua principal referência na dimensão narcísica, cuja crença aparece como balizador.


Maria Teresa da Silveira Pinheiro Psicanalista; Pesquisadora da UFRJ, Coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ) 
Rogerio Robbe Quintella Psicólogo (UFF), Doutor (UFRJ); Membro do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ) 
Julio Sergio Verztman Psicanalista; Psiquiatra do IPUB-UFRJ, Doutor (UFRJ), Coordenador do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A escrita do medo - José Castello

“O medo talvez seja o motor da escrita. Está, de qualquer modo, em seu coração.”

No número 47 da Revista Brasileira de Psicanálise, recém lançado pela Federação Brasileira de Psicanálise em uma edição dedicada ao tema do medo, leio (com medo) um breve ensaio do escritor moçambicano Mia Couto que me empurra de volta a meu passado. A meu passado? A meu presente, já que o presente não passa do que fizemos, do que passou. A literatura mexe todo o tempo com a experiência do medo. Ela o enfrenta. O texto de Mia me conduz de volta a um impasse — o que fazer do medo? — que nunca solucionamos. E que, penso, marca não só nossa experiência com a escrita, mas a existência humana. O medo está aqui ao meu lado, eu apenas o suporto. Mais ainda: luto para tirar dele, em vez de paralisia, energia.

Murar o medo chama-se o ensaio breve de Mia Couto, que ele apresentou, originalmente, nas Conferências do Estoril, Portugal, no ano de 2011. “O medo foi um dos meus primeiros mestres”, começa. “Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios.” Estes fantasmas, relembra ele ainda, serviram para reproduzir o velho engano “de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos”. Também em nossa própria casa somos invadidos pelo medo. Pior: o medo habita nosso interior. Nunca o exterminamos, nos limitamos apenas a murar o medo, Mia Couto me leva a pensar. Isto é: nós o delimitamos — quando conseguimos. Mas ele, o medo, continua ali.

Já repeti muitas vezes — parece inevitável repetir aqui mais uma vez — o relato de uma experiência que considero decisiva em minha formação. Aos vinte anos de idade, escrevi alguns contos. Ciente de que não prestavam, mais tarde eu os destruí. Com exceção de um. Chama-se Carta a um observador romano. Eu o publiquei, em 1976, na antologia de inéditos Folha de rosto, editada por Claudius Hermann Portugal. Último vestígio de um aprendizado. Um aprendizado cheio de medo — tanto que não suportei o que escrevi e, destruindo-os, decretei meu próprio fracasso. Ou, ao contrário, e pela primeira vez, terei divisado, enfim, meus próprios limites?

Antes de publicá-lo, tomei coragem e despachei uma cópia pelo correio para Clarice Lispector. Buscava — como todo jovem escritor — uma palavra de esperança. Uma sentença de aprovação. Alguma luz, pois mais fosca que fosse. Passaram-se os dias, nenhuma resposta. O silêncio de Clarice me silenciava. Até que, certa tarde, o telefone toca. É Clarice Lispector. “Queria falar com o José.” Identifiquei-me. Mulher acostumada (medo?) a não ceder às formalidades, Clarice não perdeu tempo. “Liguei para dizer que recebi seu conto”, prosseguiu. E, com aquela pronúncia cheia de erres, que muitos atribuíam a sua origem ucraniana, completou: “Só tenho uma coisa para lhe dizerrrr: você é um homem muito medrrrroso e com medo ninguém escrrreve. Boa tarrrrde”. E simplesmente desligou.

Com suas sofisticadas teses e dissertações, muitos professores de literatura não alcançam a concisão e a contundência que Clarice me dedicou. Foi a crítica literária mais precisa que já recebi. Uma espécie de relâmpago — um despertar súbito, mas também um soco e, logo depois, um longo torpor. Em poucas palavras, o desvelamento das apreensões que me sufocavam, sentimentos que meu precário conto ilustra, enfim, com alguma (fosca) nitidez. Eu mesmo não conseguia ver isso. Mas Clarice viu.

Ainda hoje penso em sua sentença: “Com medo ninguém escreve”. Há quatro décadas esta frase — terrível, mas potente — não me abandona. Não chega a ser uma resposta ou uma solução: é mais um enigma. Foi isso: com sua crítica fulminante, Clarice me colocou diante do enigma que a literatura carrega. Penso agora: não é que não seja possível escrever com medo. É pior ainda: não é possível escrever sem enfrentá-lo. Sem incluí-lo. O medo talvez seja o motor da escrita. Está, de qualquer modo, em seu coração.

Volto ao artigo de Mia Couto. Ele nos diz: “O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos — como cidadãos e como espécie — em permanente situação de emergência”. No dia-a-dia isso é desumano, ninguém suporta viver assim — Mia está certo. Sei por mim que, cada vez mais, busco e valorizo a serenidade. Creio, porém, que Mia nos fala mais como homem do que como escritor. A literatura nos conduz justamente aos aspectos mais perigosos e instáveis da realidade. Toda ficção é traiçoeira: você quer dizer uma coisa e diz outra. Toda ficção é imprevisível: um escritor nunca sabe aonde a escrita o levará. O escritor trabalha em estado de emergência. Escreve, sempre, sob uma tempestade. As palavras o inundam. Na maior parte do tempo, ele se afoga. Em quê? Em si mesmo.

Na mesma Revista Brasileira de Psicanálise, algumas páginas antes, encontro uma estimulante entrevista concedida pelo professor de literatura Jaime Ginzburg, da USP, a um grupo seleto de psicanalistas. Detenho-me, em particular, no trecho em que Ginzburg fala da relação entre a escrita literária e as situações de catástrofe. Refere-se, em particular, aos relatos em que ficcionistas lutam para reconstruir experiências de horror. Diz então: “Temos a expectativa de que, por serem escritores, consigam dizer algo completo e harmonioso sobre o que viveram”. É verdade: supomos, erroneamente, que escritores estão no comando de suas palavras. Não estão. Estão, mais, a reboque. Constata Ginzburg: “Eles, porém, caem na fragmentação formal, na fragmentação temporal, as partes da narrativa não se encaixam entre si. As lacunas passam a ser mais eloquentes”. Para um escritor, o silêncio é tão precioso quanto a palavra.

A precisa descrição de Jaime Ginzburg aponta o pântano em que os escritores se debatem. E essa situação inevitável — a palavra é mesmo esta, só pode ser esta — produz “medo”. Produz ou o desmascara e o enfrenta? Escritores cheios de si, escritores “que sabem o que dizem”, não costumam dizer grande coisa. A retórica os devora. O “bem escrito” os adormece. Escritores — sigo a pista deixada por Ginzburg — trabalham em estado de emergência e de catástrofe. Ele nos diz ainda: “Na catástrofe, a tensão em relação ao passado é tão grande que naufraga no colapso da linguagem”. Não há linguagem que dê conta da experiência — uma grande mancha negra fica sempre de fora. A linguagem é uma rede cheia de furos: o que ela consegue reter do real, no fim das contas, é muito pouco. Mas — humanos que somos — ela é tudo o que temos. Ou viveremos completamente apáticos e isolados. Paralisados. Mortos.

E isso — Clarice estava certa ao me entregar a palavra — gera o “medo”. Gera? Ou o medo é o próprio pântano no qual os escritores tentam nadar, na esperança de, enfim, dizer alguma coisa? A literatura mexe em feridas que, na vida cotidiana, preferimos evitar. Ela nos transporta para as bordas da existência, de onde se divisam o abismo e o vazio. Não há, portanto, literatura sem medo. Quarenta anos depois, ouso reescrever a frase que Clarice me deu: “Sem medo ninguém escreve”. Para que vocês vejam como a linguagem transporta, por um longo tempo, aquilo que dela menos esperamos.

NOTA O texto A reescrita do medo foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A Trama do Olhar


Somos seres olhados no espetáculo do mundo, observa Merleau-Ponty. O olhar persecutório do paranoico nos ensina que somos olhados por todos os lados. Sem o olhar do outro, não existimos, mas a maneira como somos olhados define um destino. (...) Para o paranoico, como já mencionamos, há um olhar persecutório; o voyeur interroga, pelo olhar, o que falta no Outro; o exibicionista espreita no olhar do Outro o sinal de cumplicidade de seu gozo; (...) a histérica demanda insistentemente ser olhada, mas para confirmar que nela não há falta; já o psicótico como vê com o olhar do Outro que o invade; a cena se passa fora dele.

(A Trama do Olha, Edilene Freire de Queiroz. Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, V, 1, 89-100)

Distinção teórico-clínica entre depressão, luto e melancolia (Parte I)

                                                                 Edouard-Hamman-Desilusión     


Na obra de Freud, o luto aparece tanto na sua exposição sobre a melancolia, como no estudo das sociedades primitivas ligado aos tabus que as organizam (Freud, [1913] 1996). Segundo Freud ([1917] 1996), o enlutado mantém-se temporariamente num estado de rebaixamento libidinal e sofrimento ante a morte ou a perda cujos efeitos se fazem valer pela possibilidade de dotar a dor de um término factível. O luto é evocado pelo sujeito no sentido de fazer com que a dor não se eternize, o que o define efetivamente como um "trabalho psíquico". Ratifica-se na obra de Freud que o trabalho do luto tem a função de elaboração e assimilação psíquica da perda, bem como de possibilitar a separação com relação ao objeto perdido e o reinvestimento num substituto. O enlutado martiriza-se pela perda, recorda-se constantemente do morto. Ele trabalha no sentido de dar um estatuto afirmativo a algo que se perdeu, bem como dotar este fato de um arcabouço simbólico.

Em "Luto e melancolia" ([1917] 1996), Freud descreve de maneira mais detida as características do processo de luto, visando distingui-lo da manifestação melancólica. Ali, ele considera que no luto prevalece uma inibição da atividade e do eu, uma "perda 'temporária' da capacidade de adotar um novo objeto de amor" (Freud, [1917] 1996: 250).

Na melancolia, a perda do objeto toma outro destino, distinto do luto. Ali, o objeto perdido é o próprio motivo da condição trágica do sujeito, na medida em que a ambivalência passa a assumir seu caráter violento na relação com o objeto. A ambivalência retrata uma forma de reação à perda cujo destino é o empobrecimento subjetivo. Identificado, paradoxalmente, ao objeto perdido (identificação narcísica), o sujeito entra num movimento deassassinato de si mesmo, deflagrando um jogo de forças que reveste de uma moral aviltante o ódio ao objeto (Freud, [1917] 1996: 250). Como resultado desse jogo de forças aparece a autoflagelação subjetiva, característica de um senso crítico sempre pronto a massacrar o próprio eu do melancólico.

Com efeito, o melancólico vê-se inteiramente absorvido pela perda e afirma de maneira violenta sua condição ante o próprio sofrimento. O melancólico despe-se ao extremo em seu discurso, referindo-se a si mesmo com a violência de quem odeia, rejeita ou deseja vingança. O eu do melancólico acede a um estatuto de vazio absoluto, no qual é desvelada a condição mesma da mortalidade, da fraqueza, da desvalia, do desprezo. "Ele se repreende" - diz Freud -, "se envilece, esperando ser expulso e punido. Degrada-se perante todos, e sente comiseração por seus próprios parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível" (Freud, [1917] 1996: 252).

A autoacusação, a autoflagelação e o movimento mortífero do melancólico em direção ao seu próprio eu revelam, para Freud, uma circunstância psicopatológica específica: o melancólico não faz o luto da perda objetal. Ele se identifica ao objeto perdido, numa situação que sinaliza um quadro narcísico peculiar. Isto coloca Freud na direção de uma abordagem metapsicológica diferenciada acerca desta disposição subjetiva.

A identificação melancólica caracteriza-se, a partir disso, não como uma identificação aos traços (identificação histérica), que tem como efeito a constituição de um precipitado de identificações (cf. Freud, [1923] 1996). Verifica-se que na melancolia a perda é recusada, e, através da identificação narcísica, o melancólico mantém o objeto dentro de si. Pinheiro (1993) assevera que: "Neste caso é como se a identificação trouxesse o objeto in toto, em bloco. Na ausência da dialética identificatória feita por traços, o objeto torna-se, por assim dizer, um posseiro que ocupa o espaço egoico, num projeto mimético e metonímico levado ao extremo" (Pinheiro, 1993: 53).

O estudo da melancolia na psicanálise conta com a contribuição de importantes autores. Discutiremos os trabalhos de Abraham e Torok ([1972] 1995), que procuraram esclarecer essa questão sob o ponto de vista do conceito de incorporação, além das proposições de Lambotte (2001) sobre o discurso melancólico. A especificidade do problema concernente à identificação na melancolia revela precisamente que nesta o objeto não foi introjetado, mas foi incorporado. A noção de incorporação, presente nas teorias de Abraham e Torok, tem como referência fundamental o pensamento de Ferenczi, do qual se extrai o conceito de clivagem articulado à teoria do trauma (Ferenczi, [1933] 1992).

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE FERENCZI, ABRAHAM E TOROK

A obra de Ferenczi é uma importante referência para o avanço desses temas, à medida que oferece um rico universo de reflexão sobre determinadas modalidades de sofrimento não circunscritas ao paradigma da histeria. O trauma ferencziano retrata um modo peculiar de subjetivação cujo enfoque abriu importante campo de investigação sobre a melancolia na obra de Torok.

Torok dá uma dimensão teoricamente mais abrangente e clinicamente mais específica à teoria do trauma de Ferenczi, principalmente no que tange à temática da identificação. A autora articula o universo conceitual da identificação com o agressor e da clivagem, descritas pelo mestre húngaro, com seu próprio conceito de incorporação. Segundo Torok, a incorporação, ao contrário da noção ferencziana de introjeção, está na base da experiência melancólica. A incorporação se apresenta na subjetividade como algo que, ligado à experiência traumática, fica impossibilitado de se incluir, de se articular psiquicamente, manifestando-se de forma maciça, sem inscrição numa cadeia associativa. A fantasia da incorporação é, segundo Abraham e Torok ([1972] 1995), uma recusa da introjeção. Ao invés de introjetar o objeto perdido, através da atribuição de sentido com consequente metaforização (característica do universo polissêmico), há uma incorporação maciça desse objeto (hostil), por fantasia. Ocorre algo análogo a um enquistamento do objeto no psiquismo.

Este é o caso apenas para as perdas [narcísicas] que não podem - por alguma razão - se confessar enquanto perdas. [...] Todas as palavras que não puderam ser ditas, todas as cenas que não puderam ser rememoradas, todas as lágrimas que não puderam ser vertidas serão engolidas, assim como, ao mesmo tempo, o traumatismo, causa da perda. Engolidos e postos em conserva. O luto indizível instaura no interior do sujeito uma sepultura secreta (Abraham & Torok, [1972] 1995: 249; grifo nosso).

A ideia de incorporação em Torok é extremamente relevante para se pensar a subjetividade melancólica. Na melancolia pode-se perceber uma dificuldade profunda na subjetivação da própria existência. O sentimento de existência de si mesmo torna-se extremamente frágil perante a onipotência do outro incorporado na identificação narcísica. No mesmo traçado teórico do conceito de clivagem em Ferenczi, e de incorporação em Torok, pode-se conceber na melancolia a ideia de uma não-inscrição psíquica da perda do objeto perante a fragilidade narcísica do melancólico, permanecendo o objeto clivado dentro do próprio eu (cf. Verztman, 2002).

Maria Teresa da Silveira Pinheiro Psicanalista; Pesquisadora da UFRJ, Coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ) 
Rogerio Robbe Quintella Psicólogo (UFF), Doutor (UFRJ); Membro do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ) 
Julio Sergio Verztman Psicanalista; Psiquiatra do IPUB-UFRJ, Doutor (UFRJ), Coordenador do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade (UFRJ)


Angústia - Graciliano Ramos


“Como certos acontecimentos insignificantes tomam vulto, perturbam a gente! Vamos andando sem nada ver. O mundo é empastado e nevoento. Súbito uma coisa entre mil nos desperta a atenção e nos acompanha. (…) Quanto mais me vejo rodeado mais me isolo e entristeço. (…) A multidão é hostil e terrível.”

 Angústia -Graciliano Ramos -

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Infantolatria: as consequências de deixar a criança ser o centro da família

As atividades da família são definidas em função dos filhos, assim como o cardápio de qualquer refeição. As músicas ouvidas no carro e os programas assistidos na televisão precisam acompanhar o gosto dos pequenos, nunca dos adultos. Em resumo, são as crianças que comandam o que acontece e o que deixa de acontecer em casa. Quando isso acontece e elas já têm mais de dois anos de idade, é hora de acender uma luz de alerta. Eis aí um caso de infantolatria. 
“O processo de mudança nos conceitos de família iniciado no século 18 por Jean-Jacques Rousseau [filósofo suíço, um dos principais nomes do Iluminismo] chegou ao século 20 com a ‘religião da maternidade’, em que o bebê é um deus e a mãe, uma santa. Instituiu-se o que é uma boa mãe sob a crença de que ela é responsável e culpada por tudo que acontece na vida do filho, tudo que ele faz e fará. Muitos afirmam que a mulher venceu, pois emancipou-se e foi para o mercado de trabalho, mas não: é a criança que entra no século 21 como a vitoriosa. Esta é a semente da infantolatria”, explica a psicanalista Marcia Neder, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Psicanálise e Educação da Universidade de São Paulo (Nuppe-USP) e autora do livro “Déspotas Mirins – O Poder nas Novas Famílias”, da editora Zagodoni. 

Em poucas palavras, Marcia define infantolatria como “a instituição da mãe como súdita do filho e o adulto se colocando absolutamente disponível para a criança”. E exime os pequenos de qualquer responsabilidade sobre o quadro: “Um bebê não tem poder para determinar como será a dinâmica familiar. Se isso acontece, é porque os pais promovem”.

Reinado curto

A verdade é que existe um período em que os filhos podem reinar na família, mas ele é curto. “Quando o bebê nasce e chega em casa, precisa ser colocado no centro das ações, pois precisa ser decifrado, entendido. Ele deve perder o trono no final do primeiro, no máximo ao longo do segundo ano de vida, para entender que existe o outro, com necessidades e vontades diferentes das dele”, esclarece Vera Blondina Zimmermann, psicóloga do Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A infantolatria ganha espaço quando os pais não sabem ou não conseguem fazer essa adequação da criança à realidade que a cerca e a mantêm no centro das atenções por tempo indefinido. “Em uma família com relacionamento saudável, o filho entra e tem que ser adaptado à dinâmica da casa, à rotina dos adultos”, afirma a psicóloga.

Segurança ou insegurança?

Na casa da analista contábil Paula Torres, é ao redor de Luigi, de cinco anos, que tudo acontece. Entre os privilégios do garoto estão definir o canal em que a TV fica ligada e o dia do fim de semana em que será servida pizza no jantar. “Acho importante a criança se sentir amada e saber que suas vontades são relevantes para a família”, opina.

Ela conta que seu marido, o também analista contábil Luiz André Torres, não gosta muito disso e constantemente reclama que o filho é mimado demais. “Mas bato o pé e defendo essa proteção. Quando o Luigi crescer, será mais seguro para lidar com os adultos, já que suas opiniões são levadas em consideração pelos adultos com quem ele convive desde já”, acredita.

Não é o que as especialistas dizem. “Se o filho fica no nível dos pais, acaba criando para si uma falsa sensação de poder e autonomia que, em um momento mais adiante, se traduzirá em uma profunda insegurança. Ele sentirá a falta de uma referência forte de segurança de um adulto em sua formação”, explica Vera.

Marcia diz ainda que, ao chegar à idade adulta, esse filho cobrará os pais. “Ele olhará ao redor e verá outras pessoas se realizando independentemente dele. A criança que acha que o mundo tem que parar para ela passar não consegue imaginar isso acontecendo e não está preparada para lidar com a mínima das frustrações. Em algum ponto, acusará os pais de terem sido omissos”.

Para Vera, supervalorizar os pequenos e nivelá-los aos adultos “é o resultado de uma projeção narcísica dos pais nos filhos, que se veem nas qualidades que enxergam em suas crianças”. Marcia concorda: “Isso tudo tem a ver com a vaidade da mãe, que considera aquele filho uma parte melhorada dela própria e, por isso, a criatura mais importante do mundo”.

Os alertas do dia a dia

Muitas vezes, os pais não se dão conta de que estão tratando os filhos como reis ou rainhas, então precisam levar uns chacoalhões da realidade fora de suas casas. “Eles geralmente caem em si quando começa a sociabilização. A escola reclama porque o aluno não respeita as regras, a criança tem dificuldade para fazer amiguinhos porque as outras, com autoestima positiva, não querem ficar perto de alguém que ache que manda em todos”, aponta Vera.

“Em um futuro bem imediato, as reações dos colegas podem fazer a criança perceber que precisa mudar. Ela se comportará com eles como faz com a família e receberá a não-aceitação como resposta. Terá de lidar com isso para ter amigos”, afirma Marcia.

Mesmo assim, ela ainda correrá o risco de não conseguir rever seus comportamentos devido a uma superproteção parental, adverte Vera: “Em alguns casos dá para ela se salvar, mas muitos pais preferem culpar o ‘mundo injusto com seu filho perfeito’, o que impede que ela entenda as necessidades dos outros e reforça seus problemas de inadequação para a adaptação social”.

E como fica o casal?

Além de todas as complicações causadas pela infantolatria na vida dos filhos, ela prejudica – e muito – o casal que a promove. “Na relação saudável, o casal continua sendo o mais importante na família mesmo com a chegada da criança. Se os pais mantêm o filho no centro por mais tempo do que o necessário, acabarão se afastando”, alerta Vera.

“Some o casal. O ‘marido’ e a ‘mulher’ passam a ser o ‘pai’ e a ‘mãe’. E se em uma casa a mãe é a santa e o filho é o deus, onde fica o espaço do pai?”, questiona Marcia. “Muitos tentam entrar, reconquistar seu espaço, mas outros simplesmente caem fora”, constata.

O futuro da infantolatria

Sabendo disso tudo, os pais têm condições de se preparar para evitar os estragos na criação dos filhos. Marcia conta que percebe que as pessoas têm encontrado em sua análise uma saída para a tirania infantil.

“Não sou adivinha, mas creio que o novo arranjo familiar, em que os pais também assumem funções na criação dos filhos e as mães seguem carreiras por prazer, vá ajudar a mudar o panorama, assim como os arranjos homoparentais que começam a ser mais comuns”, diz, para complementar: “Creio que todos os comportamentos continuarão existindo, mas temos a obrigação de trabalhar para reverter esse quadro. O filho não é o centro porque quer, mas porque o adulto permite”.

Vera enxerga o futuro da situação de forma um pouco diferente. “Nossa sociedade é muito apressada e, no geral, não dá espaço para a preocupação com o outro. Isso tende a potencializar esse tipo de problema, a naturalizar para a criança o fato de que ela é o que mais importa, como aprendeu em casa com o comportamento dos pais em relação a ela”, finaliza.