sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Às vezes ouço passar o vento






"Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."

A realidade é uma descoberta permanente.
Acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa
7-11-1915

Escuta do analista



Forclusão Voluntária do psicanalista

"É uma expressão que designa a operação mental necessária para criar no analista o estado mais propício para a escuta do inconsciente de seu analisando. O que é a foraclusão voluntária? É uma intensa concentração voluntária do psi-canalista até esvaziar seu eu de todos os ruí- dos e preocupações cotidianas que o agitam e instalar o silêncio em si. É então que, nesse silêncio interior, ele percebe em si o que habitualmente fica imperceptível, a emoção in-consciente do outro, ou seja, a emoção que habita o outro no mais profundo de si e que ele ignora. Assim, ele capta a emoção em estado puro, destacada daquele que a vive e… que não sabe que a vive. Em suma, o psicanalista afasta (foraclui) as produções afetivas e ideativas de seu eu para criar um vazio em si e deixar surgir no espaço de seu silêncio interior as produções inconscientes de seu analisando."

(Os olhos de Laura -Somos todos loucos em algum recanto de nossas vidas, Nasio, J.-D. Zahar, Rio de Janeiro, 2009. p.86)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Medo

"Ao se percorrer o constructo teórico de Winnicott, é possível perceber que existe uma lógica etiológica na formação dos distintos medos que incide no diferencial em seu teor e intensidade. Essa configuração diferencial confere ao medo o status daquele que porta uma mensagem e que, portanto, deve ser considerado na formulação diagnóstica. À sua manifestação, subjaz uma ansiedade que, de forma geral, faz parte da normalidade. Mesmo na doença, aponta uma possibilidade, pois é passível de cuidado. Nesse entendimento, é a ausência de medo que indica adoecimento (cf. 1938b/1982, p. 242). Essa condição confere ao medo o caráter de conquista. No entanto, mesmo sob uma observação ainda superficial, é possível diferenciar o significado do afeto naquele indivíduo que convive com medo daquele que sente alguns medos. Nesse sentido, é imperativo compreender que o sentido de segurança é construído nas fases iniciais através do padrão de confiabilidade no qual os cuidados ambientais maternos foram dados. Compreende-se o sentido de segurança como aquele que abrange tanto a crença em si mesmo como a crença nos outros. Sem essa conquista, não se pode falar em segurança e, por consequência, nem em medo como um recurso de alerta diante de uma ameaça à segurança. Após a aquisição de segurança, os próprios movimentos rumo à liberdade de ser e de se expressar em sua pessoalidade se inscrevem numa linha temporal de batalha contra a segurança total, provida inicialmente apenas pelo ambiente (cf. 1993a/1999, pp. 101-107)."

Pondé, Danit Zeava Falbel. (2011). O conceito de medo em Winnicott. Winnicott e-prints, 6(2), 82-131.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Evoluções da Psicanálise (trecho)


"Com as teorias de estágio pós-freudianas, os novos analistas tinham novos caminhos para compreender como seus pacientes ficaram “emperrados” e para perceber de maneira diferente as mudanças confusas nos estados do self. Podiam então oferecer interpretações e hipóteses para seus clientes auto-críticos que iam além de especulações sobre eles terem sido desmamados muito cedo ou muito tarde, ou treinados para ir ao banheiro com muito rigor ou de maneira muito relapsa, ou então por terem sido seduzidos ou rejeitados durante a fase edipiana. Em vez disso, podiam agora investigar com os pacientes se suas características refletiam processos familiares que tornaram mais difícil para eles o acesso a um sentimento de segurança, autonomia ou prazer em suas identificações (Erikson), ou sugerir que o destino os privou da crucial importância de um “melhor amigo” na pré-adolescência (Sullivan), ou comentar que a hospitalização de sua mãe quando eles tinham 2 anos sobrecarregou o processo de adaptação normal para tal idade e necessariamente para uma separação ideal (Mahler), ou ainda observar que, naquele momento, eles estão sentindo um terror primitivo porque o terapeuta interrompeu os processos de pensamento deles (Ogden)."

Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a estrutura da personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams

sábado, 14 de novembro de 2015

Piramide de Maslow




Maslow (1908-1970) identificou uma hierarquia de necessidades: uma ordem de classificação das necessidades que motivam o comportamento humano (ver Figura 2-1). Segundo Maslow (1954), as pessoas só podem empenhar-se para atender necessidades superiores depois que satisfizeram necessidades básicas. A necessidade mais básica é a sobrevivência fisiológica. Pessoas famintas correm grandes riscos para obter alimento; somente depois de obtê-lo podem preocupar-se com o próximo nível de necessidades, aquelas referentes à segurança pessoal. Essas necessidades, por sua vez, precisam estar substancialmente satisfeitas para que as pessoas possam livremente buscar amor e acei-tação, estima e realização e, por fim, auto-realização, a plena realização do potencial. As pessoas auto-realizadas, disse Maslow (1968), possuem uma aguçada percep- ção da realidade, aceitam a si mesmas e aos outros e apreciam a natureza. São espontâ- neas, altamente criativas, autodirigidas e boas na resolução de problemas. Elas têm re-lacionamentos gratificantes, embora também sintam necessidade de privacidade. Pos-suem uma forte compreensão de valores e um caráter não-autoritário. Respondem à ex-periência com renovada apreciação e muita emoção.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Entrevista com Irvin D. Yalom: ‘A consciência da finitude nos ensina a viver'


Veja.com | De Maria Carolina Maia

Quando escreve, em especial quando relata casos de pacientes que atende em seu consultório, o psiquiatra americano Irvin D. Yalom, hoje professor emérito de Stanford, onde lecionou por mais de 50 anos, tem em mente como leitor ideal o estudante de psicologia. Seus livros, porém, são um sucesso que extrapola esse nicho - vide o caso de Quando Nietzsche Chorou, romance com 5 milhões de cópias vendidas pelo mundo, 500.000 só no Brasil. O apelo da obra de Yalom se deve à universalidade dos temas que explora. Em Criaturas de um Dia (tradução de Ivo Korytowski, 176 páginas, 29,90 reais), livro recém-lançado pela editora Agir, o autor de best-sellers como A Cura de Schopenhauer trata do envelhecimento e da morte, a partir dos medos de seus pacientes, mas também dos próprios.

"Odeio essas situações embaraçosas. Reconhecer rostos nunca foi meu forte, e conforme envelheci isso foi progressivamente piorando", escreve, em certo trecho do livro. "Costumo refletir melhor quando ando de bicicleta. Por isso, fiz um longo passeio pela costa sul de Kauai. Isso não significava que eu havia superado meu próprio medo da morte. Isso era um trabalho constante e diário", compartilha com o leitor em outro momento. "A ansiedade diante da morte não desaparece. Especialmente para aqueles que, como eu, continuam sondando o inconsciente."

Valer-se de exemplos da própria experiência permitem a Yalom não apenas quebrar a distância que há entre terapeuta e paciente - afinal, envelhecer e enfrentar a morte não são desafios apenas para quem procura ajuda profissional. Mas também a criar aquilo que os psicólogos chamam de vínculo, um caminho útil para a cura. E o americano, que fez terapia ao longo de toda a carreira para lidar com as próprias questões e se preparar para administrar as de outros, não tem medo de falar de si mesmo.

"Acho difícil que eu volte a escrever romances aos 84 anos, um romance exige muito da memória", diz ao site de Veja, ao comentar o próprio envelhecimento. "Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Envelhecer é esquecer."

Ao lado do envelhecimento e da morte, a maneira como lidamos com ele é outro ponto forte de Criaturas de um Dia, um novo compilado de casos colhidos em seu consultório. "Eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, 'Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver'." Então, essa é a vantagem de tomarmos logo consciência da nossa finitude."

Por que o senhor resolveu intitular seu livro com uma expressão do imperador filósofo Marco Aurélio, da Antiga Roma, "criaturas de um dia"? Não é um caminho óbvio procurar agir de maneira correta para ser uma pessoa melhor? 
Acho que Marco Aurélio é profundo em sua simplicidade. Ele nos lembra que somos criaturas de um dia - que somos transitórios e evanescentes e que a consciência da nossa finitude pode nos ensinar algo sobre como podemos ou devemos viver. Muito tempo atrás, eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, "Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver". Então, essa é a vantagem de tomar consciência da nossa finitude e deixar que esse saber nos guie e nos ajude a decidir como viver. Toda vez que volto a Marco Aurélio, me sinto iluminado por ele. Um dos aspectos interessantes desse livro foi que eu recomendei a leitura de Marco Aurélio para dois pacientes meus e cada um tirou algo diferente - mas útil - do autor. E, além disso, algo diferente do que eu imaginava que tirariam da leitura. 

Muitos de seus pacientes encontram sentido para a vida em seu consultório. É mesmo importante dar um sentido à vida? 
Eu posso ajudar pacientes a encontrar ou inventar um significado para as suas vidas, e isso é de fato útil. O livro Em Busca de Sentido (Vozes), do psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, é um best-seller há meio século porque ali Frankl descreve como a ideia de dar um significado à vida o fez sobreviver a um campo de concentração. Ele quis viver para sair dali e compartilhar essa experiência com outras pessoas, para que muitos soubessem e a atrocidade não se repetisse. Como disse Nietzsche: "Aquele que tem um porquê para viver pode suportar qualquer coisa".

Há pessoas que, depois do nascimento de um filho, passam a pensar menos na morte. Temos filhos para espantar o medo da morte? 
Sim, essa é uma observação interessante. Crianças são, como disse, o nosso projeto de imortalidade, mesmo que não tenhamos consciência disso. Em um livro que escrevi um bom tempo atrás, De Frente para o Sol - Como Superar o Terror da Morte (Agir), eu mencionei que a transmissão (de genes, de nós mesmos) era uma das formas potentes para dissipar a angústia da morte - a ideia de transmissão para o futuro, de passar algo de si mesmo aos outros como a ondulação provocada por uma pedra jogada na água.

No capítulo sobre a enfermeira que conforta os outros, mas não a si mesma, o senhor cita o poeta irlandês William Butler Yeats para dizer que o luto pela morte de uma criança é a "tragédia levada ao paroxismo". Isso lembra a comoção mundial causada pela recente morte, por afogamento, de um menininho sírio. Por que é mais difícil aceitar a morte de uma criança? 
Acredito que a morte de uma criança seja a mais difícil de todas de suportarmos. Pais que perderam filhos enfrentam uma angústia extraordinariamente dura. Por um lado, essa perda é também a morte do nosso projeto de imortalidade - a inviabilidade de projetarmos a nós mesmos ou parte de nós mesmos no futuro. É uma catástrofe poderosa que não raramente acaba com casamentos. Cada um, pai e mãe, sente a perda à sua maneira, o que resulta na quebra do vínculo conjugal. Um dos pais, por exemplo, pode viver seu luto mantendo um memorial do filho morto em casa, deixando seu quarto, com as roupas e os móveis, intacto, e querer falar sobre a morte com frequência. Já o outro pode escolher negar a perda e mergulhar no trabalho para não pensar a respeito.

Também no capítulo sobre a enfermeira, o senhor diz à sua paciente que as ações são mais importantes que os pensamentos. Isso é sempre verdade? Fantasiar uma relação com outra pessoa, portanto, não é trair o parceiro? 
Se fantasiar uma relação com outra pessoa é uma forma de traição, então, temo que não haja inocentes entre nós.

É mesmo mais digno, como o senhor escreve, manter a compostura diante da morte e não demonstrar desespero? 
É difícil imaginar alguém que não sinta ou demonstre desespero em algum ponto do processo de morrer, mas ao mesmo tempo eu penso que há como transcendê-lo. Lembro que o meu grupo de pacientes com câncer, que deixei algum tempo atrás, tinha uma mulher que caía frequentemente em desespero, até que um dia ela apareceu muito mais vigorosa, muito mais viva e, quando eu perguntei o que havia acontecido, ela disse que havia decidido ser, para seus filhos, um modelo de como encarar a morte com elegância. Em outras palavras, encontrar um sentido no processo, mesmo que seja o processo de deixar a vida, pode nos ajudar a superar o desespero.

O envelhecimento parece um tema difícil para o senhor, mas, como ele surge bastate no livro, é preciso perguntar: como lida com ele hoje?
Eu tenho 84 anos e todos os dias testemunho o que é envelhecer. Sou abençoado por ter saúde física, mas poucos de nós escapam à perda da memória. Estou escrevendo um livro de memórias agora - algo apropriado para se fazer na minha idade - e sinto que deveria escrever rápido, enquanto ainda consigo lembrar tudo de que me lembro agora. Tenho sorte de ter uma parceira de vida, a minha mulher, que eu conheci aos 15 anos. Ela está ao meu lado e pode me ajudar com coisas que eu tenha esquecido. Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Não acho que exista alguém com 80 anos que não tenha tido a experiência de entrar em um quarto sem saber por quê, por exemplo. Envelhecer é esquecer.

O senhor tem romances sobre Nietzsche, Espinoza e Schopenhauer. Vê muitas semelhanças entre a filosofia e a psicanálise? 
Anos atrás, quando era um estudante de psiquiatria, me vi descontente com os principais quadros de referência disponíveis - um esquema formal de psicanálise e um referencial médico-biológico. Foi quando me ocorreu que a psiquiatria não teria começado de fato no século XIX, com as descobertas de Freud e Jung, e sim remontaria aos textos dos grandes filósofos da antiguidade. Tem sido o trabalho da minha vida tentar tirar lições de grandes pensadores e escritores, como Epicuro, Platão, Camus, Kierkegaard, Spinoza, Schopenhauer e muitos outros e aplicar seus pensamentos à psicoterapia.

No epílogo de Criaturas de um Dia, o senhor diz esperar que o livro aumente a sensibilidade dos terapeutas para temas existenciais, que são muito presentes em toda a obra. Com um assunto tão premente e o gosto claro por filosofia, por que o senhor nunca escreveu um romance sobre Sartre ou outro grande nome do Existencialismo? 

É tudo uma questão de mortalidade. Se pudesse viver mais e continuar a escrever romances, eu com certeza consideraria escrever sobre Camus e Sartre, porque eles fizeram descobertas extraordinárias. Contudo, se a gente olhar de perto, vai ver que poucos romancistas continuam a escrever depois dos 80 anos de idade. Escrever um romance é uma façanha da memória. Quando faz um capítulo, você tem de ter em mente tudo o que aconteceu nos anteriores, desde a trama desenhada para o livro. Escrever é difícil, e por isso pode ter vida mais curta.

Em que medida um terapeuta precisa ser maduro e bem resolvido para atender com eficiência os seus pacientes? 

Sempre que meus alunos me perguntavam sobre a necessidade de treinar para atender, em um consultório, eu enfatizava que eles deviam fazer terapia, como pacientes. E sublinhava que deviam fazer isso várias vezes ao longo da vida, para lidar com questões que surgem com o tempo, como a angústia que vem com o envelhecimento. Eu fiz terapia durante toda a minha carreira. E, cerca de 30 anos atrás, comecei um grupo com outros nove psiquiatras - um grupo sem líder em que nos encontrávamos para trocar ideias e experiências, e que foi uma importante fonte de apoio e formação. Recomendo a todos os terapeutas.


Pulsações


"As forças naturais que se encontram dentro de nós são as que realmente curam nossas doenças."
(Hipócrates)

“O que é de grande valor humano é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no humano é ele ser uma passagem e não um acabamento.” 
(Nietzsche)

sábado, 24 de outubro de 2015

Palavra em ação


Não tenho nada a dizer. As nuvens insistem sobre meus olhos. A  rispidez da voz ou o falso cuidado.
Larvas fazem paisagens,  mas elas queimaram antes  todo regaço. Não há evidência de vida dentro do oco sonoro da tua voz.  Este céu é um engodo. Há pura maldade no coração dos homens . E amanhã? O amanhã será deserto. A menos que advenha o verbo.

No côncavo da boca que espera. Na avidez pela vida. No olhar que procura compreender os sons.

Ana A. Farias, 2015

sábado, 10 de outubro de 2015

10 frases memoráveis do pai da Psicanálise - Sigmund Freud



1-“Não somos apenas o que pensamos ser. Somos mais; somos também o que lembramos e aquilo de que nos esquecemos; somos as palavras que trocamos, os enganos que cometemos, os impulsos a que cedemos, sem querer”

2-“Aonde estava o Id (Isso) deve advir o Eu (ego) – Em alemão – Wo Es war, soll Ich werden”.

3-“A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas”


4- “Nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons”

5- “Em última análise, precisamos amar para não adoecer”

6- “A psicanálise é, em essência, uma cura pelo amor”

7- “O pensamento é o ensaio da ação".

8- “Podemos nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio”

9- “Um dia, quando olhares para trás, verás que os dias mais belos foram aqueles em que lutaste”

10- “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”

Sigmund Freud

sábado, 26 de setembro de 2015

Conheça 11 razões intrigantes para experimentar fazer Psicoterapia


Já vai caindo completamente por terra a antiga crença de que somente as pessoas loucas ou fracas procuram ajuda psicológica. Nos dias de hoje, fazer psicoterapia é visto como uma ferramenta no auxílio do Eu, como uma forma de crescimento e melhoramento pessoal.
“Não só as pessoas bem-sucedidas não temem a psicoterapia, elas abraçam-na …. A psicoterapia é uma ferramenta que cria o sucesso. Pessoas inteligentes usam-na. E a Psicoterapia não é apenas algo que as pessoas inteligentes utilizam, é algo que quase todas as pessoas provavelmente deveriam tentar, pelo menos durante algum momento de suas vidas”. (Richard Taite)
Vejamos algumas vantagens que a psicoterapia proporciona, mas que só quem a experiencia sabe:

1 – Os efeitos da Psicoterapia persistem ao longo prazo
Um dos grandes benefícios de fazer Psicoterapia é que os seus efeitos são duradouros. Isso acontece porque não se está apenas a trabalhar para erradicar um problema específico, também se desenvolvem ferramentas que ajudam a lidar com possíveis problemas futuros. Assim, adquire-se uma espécie de lente reflexiva que permite pensar, falar e expressar sentimentos sobre a nossa vida interior, mesmo depois de terminar o tratamento. Embora a medicação possa ser essencial para alguns casos, corre-se o risco de recaída após ter sido interrompida. A forma como a psicoterapia vai à origem do problema é a razão pela qual os antidepressivos funcionam melhor quando administrados em conjunto com um psicoterapia.

2 – Os sintomas físicos também são tratados
O trauma psicológico, a depressão e a ansiedade são bem conhecidos por apresentarem significativos e debilitantes sintomas físicos. Muitas vezes, quando as pessoas não expressam os seus sentimentos, mantendo-os enterrados e fora da consciência, o corpo reage via dores de estômago, dores de cabeça, problemas de sono e úlceras. Através de uma psicoterapia, assumindo que é bem sucedida, os sintomas físicos começam a desaparecer.

3 – As emoções reprimidas vão voltar para assombrar
A maior desvantagem de não falar sobre as coisas é que os sentimentos e traumas não expressos podem acumular-se, podendo vir à tona quando menos se espera e fora de contexto. Criam-se, assim, padrões negativos de pensamento que podem contagiar todas as áreas da sua vida: relacionamento amoroso, pais, crianças e colegas de trabalho. Por isso, aprender a processá-los pode mudar a forma como se move em várias áreas da sua vida.

4 – Faz desaparecer a passivo-agressividade em si
Os sentimentos de raiva são muitas vezes expressos de uma forma passivo-agressiva, em vez de uma forma mais directa e menos agressiva. Quando se trabalha sobre essa raiva antiga (ou recente), ela é realmente processada, não havendo mais a necessidade de a escoar de forma passivo-agressiva.

5 – Ter também uma nova perspectiva sobre as outras pessoas 
A psicoterapia não só ajuda a própria pessoa a compreender-se melhor, como ajuda a entender as outras pessoas também. Por vezes, quando temos pensamentos negativos e não os conseguimos processar sozinhos, eles enraizam-se de tal maneira que vemos o mundo todo através de uma lente escura, levando a fazer muitas suposições que podem ou não ser verdadeiras. Sem a confusão dos seus próprios (muitas vezes errados) pressupostos, é muito mais fácil de entender as intenções e motivações dos outros.

6 – Ajuda a lidar com futuros problemas
Ao longo da vida vão sempre surgindo problemas de maior ou menos dimensão, saber lidar com eles de uma forma saudável e adaptativa é uma capacidade essencial. O conflito faz parte da vida quotidiana, pelo que é útil estar ciente dos sentimentos que eles provocam em si.  Ao reflectir sobre o que está acontecendo do lado de fora, está-se em melhor posição para resolver o conflito. Falando sobre as coisas com alguém e reflectindo sobre que sentimentos são evocados, e o por quê, leva a uma maior compreensão de si mesmo. Assim, está-se mais livre para pensar em maneiras de responder de uma forma mais pró-ativa, não se deixando engolir pelos acontecimentos e encontrando melhores formas de lidar com eles.

7 – Falar sobre as coisas dá-lhes forma
Muitas vezes ficar a pensar em círculos num problema não nos faz chegar a conclusão nenhuma. Falar sobre o problema com alguém dá-lhe um início, meio e fim, torna-o mais consciente do mesmo e do que está a provocar os sentimentos de ansiedade, tristeza, irritação ou frustração. Assim, assume-se o controlo, sendo mais fácil decidir a melhor forma de lidar com esses sentimentos ou de tomar medidas para aliviá-los.

8 – Saber que não se está sozinho 
Consultar um psicoterapeuta pode ser um grande alívio por si só, pois já se inicia a tomada de medidas para ajudar a resolver o que o está a perturbar. É também bastante reconfortante saber que se tem uma estrutura de apoio interno, onde se vai uma ou duas vezes por semana.

9 – Uma forma de reprogramar o cérebro
Estamos habituados a pensar que somente a medicação consegue levar a mudanças cerebrais, no entanto, começam a existir provas bastante convincentes de que também a Psicoterapia leva a estas mudanças. Com os métodos de imagiologia cerebral, a Psicoterapia tem demonstrado provocar alterações na actividade do córtex pré-frontal medial, o córtex cingulado anterior, hipocampo e da amígdala. Essas áreas estão envolvidas em pensamentos auto-referenciais (pensamentos de preocupação consigo próprio), controle executivo, emoção e medo. 

10 – Deixar de ter de se auto-medicar
Usar a auto-medicação para “lidar” com pensamentos ou sentimentos dolorosos é muito comum. Contudo, não só não resolve o problema, como o mascara, podendo levar a um ciclo vicioso que vai agravar o problema inicial. No decorrer de uma Psicoterapia vai poder chegar à raiz dos problemas, que transporta do passado e, à medida que os for resolvendo dentro de si, vai deixar de ter a necessidade de usar a auto-medicação como forma de aliviar o sofrimento.

11 – Permite fazer melhor com a próxima geração
Uma das melhores coisas acerca de fazer Psicoterapia é que, se tem filhos, poderá ensinar-lhes uma forma melhor de lidar com os seus próprios sentimentos e emoções. Para as crianças, falar sobre sentimentos permite-lhes expressar-se de uma forma saudável através de todas as cores das suas emoções. Isto é importante para expressar, por exemplo, a raiva quando se sentem ignorados ou tratados injustamente ou quando alguém diz algo doloroso. A alternativa é reprimir o sentimento, sentir-se ressentido, e talvez agir para fora a raiva através de um comportamento desafiador. O Deve-se começar a falar sobre sentimentos com as crianças o mais cedo possível.


FONTE: Forbes 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Amor Patológico


Amor a primeira vista, amor de verão e amor de infância. Quase todo mundo já teve um ou todos eles. E o amor patológico? Você já viveu algum?

O amor patológico é uma doença que causa dependência como se fosse uma droga, só que nesse caso, a droga não é um produto químico ou álcool, é o parceiro ou parceira. 

De acordo com a psicóloga Sílvia Rezende Azevedo, o amor patológico atinge com mais freqüência as mulheres, mas os homens também podem sofrer desse mal. Para saber se alguém tem amor doentio é só analisar o relacionamento. 

"Chega a um ponto que o amor fica obcecado e a pessoa deixa a sua vida para viver a do outro ou não permite que o parceiro tenha vida própria".Segundo Sílvia, quando a pessoa deixa os amigos, o parceiro passa a ocupar mais espaço do que a família, o trabalho e outros afazeres, ou o medo da relação acabar é incontrolável e se começa a seguir e vigiar o outro, é certo que o amor deixou de ser algo saudável e se transformou num vício. 

"Pesquisas mostram que as áreas do cérebro que são ativadas quando se está interessado por alguém são as mesmas da obsessão. É uma sensação química e quando o amor passa a ser doentio a pessoa tem crises se está longe ou sem o parceiro, tem sentimentos de culpa. É como se fosse uma droga que não se pode ficar sem", explica Sílvia.

A psicóloga afirma que é difícil perceber que o limite saudável de uma relação está sendo ultrapassado devido a uma questão cultural de que em um relacionamento amoroso, principalmente no início, é normal amar exageradamente, demonstrar que ama e fazer uma série de coisas pelo outro. "É como o consumo de álcool que é uma droga aceitável e consumida socialmente. No começo você bebe e não percebe nada porque está dentro do normal, com o passar do tempo sua vida começa a girar em torno disso e você não percebe que está passando do limite", compara.A pessoa doente se torna impulsiva e compulsiva devido ao vício. 

O amor se transforma em um sentimento destrutivo para o casal e que em alguns casos pode ocasionar tragédias como crimes e suicídios. O amor patológico pode atingir, principalmente as mulheres com mais de 30 anos e que não têm um relacionamento estável. "As mulheres estão mais seletivas e depois de determinada idade, quando encontram um parceiro, ficam doentes por ele e são capazes de fazer tudo para não perder essa relação", diz Sílvia.Esse amor doentio não fica restrito a relação homem-mulher. Pode atingir também pais, irmãos, filhos e amigos. "Algumas mães gostam tanto dos filhos que acabam com o relacionamento amoroso deles e alguns amigos têm ciúme doentio pelo outro", exemplifica. 

Características do amor patológico 
A psicoterapeuta e pesquisadora do Ambulatório do Amor em Excesso (Amore) da USP, Eglacy Sophia, destaca alguns sintomas dos 'doentes de amor': - Sintomas de abstinência (como angústia, taquicardia e suor) na ausência ou no distanciamento (mesmo afetivo) do amado - O indivíduo se preocupa excessivamente com o outro - Atitudes para reduzir ou controlar o comportamento de cuidar do parceiro são mal-sucedidas - É despendido muito tempo para controlar as atividades do parceiro - Abandono de interesses e atividades antes valorizadas - O quadro é mantido, apesar dos problemas pessoais e familiares Serviço 

O Ambulatório do Amor em Excesso da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) aceita voluntários para tratamento e pesquisa do amor patológico. As triagens são agendadas pelo telefone (11) 3069-7805, somente às quartas-feiras, das 10h às 17h. Os participantes passam por 16 sessões de psicoterapia e psicodrama em grupo.


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Livro de Cabeceira 01: Marcelino Freire





O BICHO

Vi ontem um bicho 
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

MANUEL BANDEIRA

Marcelino Freire é pernambucano da cidade de Sertânia. Viveu também no Recife antes de se mudar para São Paulo em 1991. Ele ganhou o Prêmio Jabuti de 2004, com o livro "Contos negreiros", e o Prêmio Machado de Assis de 2014, com o romance "Nossos ossos". Além de poeta, contista e romancista, Marcelino Freire também ministra oficinas literárias e é o criador do evento "Balada Literária", que desde 2006 mistura festa e livros no bairro paulistano da Vila Madalena.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Terapia, a mudança que você promove


“De dificuldade nos relacionamentos amorosos, depressão, baixa auto-estima até síndrome do pânico, estas têm sido as principais queixas que levam as pessoas aos consultórios”, revela a psicóloga clínica dra. Mariuza Pregnolato.


Aí, vem a pergunta: é possível reverter esses quadros? De acordo com a psicóloga a resposta é positiva. Pois as pessoas vêm mobilizadas pela dor e acabam descobrindo-se. A partir disso, percebem um universo de possibilidades. Quando começa a fazer terapia, a pessoa passa a acessar recursos antes inimagináveis, que estão, na realidade, dentro dela mesma.

Aprende a livrar-se de sofrimentos desnecessários e a lidar com as dificuldades que surgem ao longo da vida.

Uma área bastante recente da Psicologia habilita terapeutas para o trabalho com bebês, mas, tradicionalmente, a terapia é indicada para crianças a partir dos quatro ou cinco anos de idade. Os resultados da terapia são sentidos a curto prazo com a eliminação dos sintomas desagradáveis. Já a médio e longo prazos, o indivíduo sente o prazer de se conhecer melhor, investe no próprio autodesenvolvimento, aumenta sua capacidade de reflexão e auto-análise, para citar apenas alguns dos benefícios.

Em torno do assunto sobre as vantagens/benefícios de fazer terapia pairam, ainda, algumas dúvidas e uma das mais freqüentes diz respeito ao que pode ou não ser falado em consultório. “Na realidade tudo pode e deveria ser trazido para a terapia. Espera-se que o terapeuta esteja devidamente preparado e seja suficientemente aberto para lidar com qualquer tipo de tema, conteúdo, fantasia ou patologia que faça parte da vida da pessoa que o procura”, esclarece a dra. Mariuza.

Vale lembrar que o processo terapêutico só será bem-sucedido com a participação espontânea e ativa do próprio paciente, pois, sem sua cooperação o terapeuta torna-se impotente. Os resultados da terapia são proporcionais à capacidade da pessoa permitir-se ser ajudada pelo profissional.

Muitas pessoas julgam que precisar de um psicólogo para resolver seus problemas mais íntimos é um sinal de fraqueza. "Ao contrário, eu diria que esta atitude demonstra coragem pois é preciso ter humildade suficiente para procurar ajuda. Sendo que ao longo da vida há momentos em que não somos capazes de enxergar amplamente as armadilhas e os nós em que estamos envolvidos. Nessa hora, a ajuda de um profissional habilitado poderá ser o melhor atalho na recuperação de nosso equilíbrio e bem-estar”, afirma a psicóloga.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

(In)Finitudes

era o ciclo
finitudes e recomeços
o tempo fazendo verso na pele
a vida perecível

seria  reciclável   
o poema?

Própria autoria, 02/2014

domingo, 30 de agosto de 2015

A forclusão como um conceito negativo

Jackson Pollock
Vocês conhecem certamente o texto de Lacan, que está nos Escritos,e se chama "Questão preliminar a todo tratamento possível da psicose". O texto dos Escritos é um concentrado do seminário Estruturas freudianas das psicoses. E sabem que a questão preliminar é, às vezes, resumida assim:que o próprio da psicose seria a forclusão do nome do pai.

Esta afirmação é imprópria, pela razão seguinte: que o próprio da psicose seja a forclusão do nome do pai, é uma afirmação negativa, segundo a qual a psicose não é a neurose, e só. Deste ponto de vista é um conceito preliminar,que permite uma abordagem da psicose, mas poderia dificilmente ser tomado
como constituindo o "próprio", ou seja, a definição própria da psicose. Por outro lado, este conceito parece ser o único jeito de se chegar a algum universal da psicose, porque permite falar da psicose como um conjunto. De fato haveria então um universal da psicose, a forclusão do nome do pai, mas por que poderia haver um universal da psicose? Porque justamente é um universal negativo. O que permite este universal é a neurose, não é a psicose enquanto tal. O que funda este universal é o que há de universal na neurose (a referência paterna), enquanto faltando.

Por que Lacan fundou assim um universal da psicose? Acho que ele se interessava muito por um ponto particular e decisivo da clínica, que é a questão do desencadeamento da crise psicótica.  A partir da evidência clínica do desencadeamento da crise, está certo que a psicose aparece como um efeito deforclusão. No desencadeamento da crise existe sempre alguma coisa como uma injunção feita ao sujeito psicótico de referir-se a uma amarragem central, paterna. Ele não tem possibilidade de referir-se a esta amarragem, que não foi simbolizada por ele, e a partir daí começa uma crise, com os fenômenos que a psiquiatria clássica descreveu, a saber, estado crepuscular, alucinação auditiva, tentativa de constituição de um delírio, alucinações cenestésicas,não auditivas,
e assim por diante.

(Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Calligaris, Contardo. Artes Médicas. Porto Alegre. 1989)


segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Filme: Mommy

Xavier Dolan. O q dizer do diretor da obra-prima “Eu Matei Minha Mãe”, realizado no alto de seus 20 anos de idade?

“Amores Imaginários”, “Laurence Anyways”, todos imperdíveis, filmados antes de completar 23 anos…

“Mommy”, vencedor de Cannes deste ano (com Godard), segue o nível dos 2 últimos, excelente.

Filmado com a câmera em close full time, extrai interpretações brilhantes de seus 3 protagonistas. Um filho no auge da delinquência é forçado a ficar com sua mãe, após ser expulso de inúmeras instituições. A relação amorosa de ambos flerta com o limite da violência, até q sua obsessiva vizinha, gaga, entra no jogo para apartar, meio sem saber seus porquês. Esta acaba encontrando uma oportunidade de libertação de suas amarras e leis.
Esta trama entre os personagens – vizinha obsessiva sem vida, e filho/mãe histéricos pândegos – fez-me lembrar do clássico “Aquele que Sabe Viver”, de Dino Risi.

Quanto à semi-incestuosa relação mãe e filho, com a típica dificuldade daquela em conter as explosões deste, cito um comentário do psicanalista Joel Birman, comentando o texto freudiano “Uma Criança é Espancada”, onde um pai espanca seu filho. Birman propõe que Freud poderia ter dado outro título ao texto: “Um Pai é Humilhado”. Diz q se um pai (ou mãe), com todo o conhecimento a mais do q uma criança, com todo a força física a mais, com todo o direito constitucional sobre o filho, com toda a experiência de vida a mais, ainda assim espanca uma criança, isto ocorre por conta deste pai não conseguir sustentar o distintivo paterno. Ou seja, o pai, rebaixado diante da própria incapacidade de exercer sua função, é humilhado ao espancar, assumindo assim sua condição maior de fracassado e impotente.

Em “Mommy”, a personagem da mãe encarna plenamente esta trágica condição proposta por Freud e Birman.

Enfim, o único senão do filme é um quê “novelesco” de sobe-e-desce, um tanto previsível.
Não percam mais este ótimo trabalho de Xavier Dolan, um dos melhores diretores da atualidade, de potência artística precocemente madura e consistente

domingo, 23 de agosto de 2015

A Liberdade trazida pela perda

A perda de um grande sonho nos liberta para dançar em qualquer direção, no nosso ritmo, sem culpas. Não devemos mais nada ao universo
Fala-se muito de sucesso, prosperidade, conseguir o que se quer, vencer desafios, dobrar o destino por meio de uma inesgotável força de vontade associada a talentos, habilidades e estratégias aprendidas no decorrer da vida.

Porém, nada ou quase nada se fala sobre a liberdade que conquistamos quando perdemos um sonho, quando lutamos bravamente e mesmo assim não conseguimos. A perda rouba um pouco da nossa prepotência, nos humaniza, nos faz perceber que perder é ingrediente essencial da vida sim e que isso não é o fim do mundo.

Quando perdemos, precisamos recorrer a um plano B. Precisamos nos reinventar, sobreviver. Quando perdemos um grande sonho, perdemos muito do nosso medo da vida. Paramos de encarar a vida como uma gincana maluca em que precisamos acumular pontos. Viver é uma experiência misteriosa e aprendemos a aceitar o que nunca poderemos ver ou conhecer a duras penas. Ninguém mergulha realmente no mistério realizando cada um de seus desejos. Não é sorrindo e recebendo que aprendemos realmente algo que vá além das habilidades meramente humanas.

A consciência e a aceitação de que não teremos tudo o que queremos por mais que queiramos e lutemos nos liberta da necessidade de capturarmos certezas. Nos centramos em regras e fórmulas fechadas quando prosperamos. Nos agarramos a verdades absolutas como se elas fossem um receituário para a felicidade, um caminho garantido para conseguir o que se quer. Já busquei muito por este receituário sem jamais encontrá-lo. Mergulhei em minha própria impotência diante da vida e foi a partir deste momento que comecei timidamente a encontrar a minha força.

Não sou próspera nem bem resolvida. E provavelmente nunca terei o que mais quero ou ainda posso deixar de querer se eu conseguir. Quantas vezes não realizamos um sonho quando ele perde o brilho para nós? Quantas vezes não recebemos uma oferta de trabalho quando já temos outros planos? Quantas vezes não temos a oportunidade de viver um romance quando o desejo já passou?

Mas não sou uma covarde porque flerto com minha própria finitude. Sim, a perda de um grande sonho nos liberta da obrigação de sermos felizes. Nos faz entender que nem tudo depende de nós. Que nem sempre podemos tudo mesmo lutando muito para isso. A busca incessante e desesperada da felicidade é o melhor atalho para a infelicidade. Às vezes é preciso deixar-se abraçar pela dúvida e ser conduzida por ela na caótica dança do destino.

Sílvia Marques

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Invista em você

Como a psicoterapia pode te fazer um empreendedor melhor
Empreender é uma missão às vezes bastante solitária. Você já considerou a psicoterapia para te ajudar a tomar suas decisões?
Da Endeavor Brasil - 13/08/2015

No mundo do empreendedorismo, o tempo todo estamos preocupados com a gestão do nosso negócio: plano estratégico, fluxo de caixa, plano de marketing, retorno sobre investimento, metas, benchmarking, receita, análise de mercado e por aí em diante. Sim, esses tópicos são importantes para o sucesso da empresa, mas igualmente importante é que sejamos felizes como empreendedores. E nesta jornada, sempre aparecem os dilemas.

“Não me sinto seguro para assumir a empresa da minha família”; “Penso em romper com meu sócio”; ou até mesmo “Será que está na hora de perseguir algo novo?”. Todos os que passaram por esses, ou inúmeros outros dilemas, e depois tiveram êxito em suas escolhas, sem dúvida tiveram de encarar tomadas de decisões difíceis e ousadas para levarem seu sonho adiante.

Mas àqueles que estão no meio desse caminho, com seus dilemas ativos, ainda não resolvidos, faço uma indagação: você já considerou fazer psicoterapia?
 


O que psicoterapia tem a ver com minha empresa?

Pode ser que você considere um equívoco o fato de se inserir a psicoterapia num processo decisório que está fundamentalmente calcado em indicadores de desempenho do negócio, prospecções de mercado, empreendimentos futuristas, etc. Mas explico. Sempre que nos deparamos com algum dilema significativo, em que a decisão terá um impacto marcante no futuro das nossas vidas, é natural que sejamos tomados pelas emoções.

Acordamos no meio da noite pensando nele, conversamos diariamente sobre o tema com pessoas próximas (mesmo que eles já tenham escutado a mesma história 17 vezes nas últimas duas semanas) – num dia temos certeza de uma decisão e no outro, por alguma razão, a certeza se vai e o dilema volta. E assim segue.

A boa notícia é que, quase sempre, esses dilemas significativos são também as grandes oportunidades da virada que esperávamos, de colocar nosso empreendimento num caminho próspero, de sentirmos o sabor de uma vida que vale a pena ser vivida.

E por que a psicoterapia?

A Psicologia é uma ciência com mais de 100 anos de existência e em constante evolução. Ela busca analisar, das mais variadas maneiras, a formação da personalidade das pessoas, identificar e entender padrões de comportamentos, assim como explorar um aspecto mental dos seres humanos que não é muito claro, o chamado inconsciente – um extrato de nossas mentes constituído por conteúdos que não necessariamente passam por nossa percepção.

Psicoterapeutas ajudam a refletir e buscar soluções

Dentre suas diversas possibilidades de contribuição para a saúde das pessoas, a Psicologia tem uma prática típica de atendimento individual (ou em grupos) chamadapsicoterapia, que busca acima de tudo e principalmente, o bem-estar das pessoas. É um espaço onde todos aqueles dilemas que inundam sua cabeça podem ser compartilhados com um profissional apto a acolher essas questões e apoiá-lo através de técnicas cientificamente reconhecidas, a refletir sobre esses impasses e buscar alternativas de resolvê-los.

Mas meus dilemas são sobre negócios!

“O que um psicólogo conhece sobre o retorno sobre investimento no ramo de sorvetes, ou sobre as implicações jurídicas de se abrir um Pet Shop?” – você pergunta. Respondo: provavelmente nada ou muito pouco. Mas ainda que saiba, o propósito do psicólogo é ajudar você a decidir quais são suas melhores alternativas, fazer com que você busque dentro de si, em suas vivências e experiências, respostas que supram suas questões.

É como se você estivesse num mar à deriva e pudesse enxergar algumas ilhas ao seu redor, mas ficasse em dúvida sobre qual direção remar, por não conseguir perceber a distância de cada uma delas.

Nesse momento, o Psicólogo seria aquele que te traria os instrumentos de navegação, para que você mesmo identificasse para qual direção seguir. No processo de psicoterapia, você se observa, se conhece, ouve a “voz” que vem de dentro e que diz algo positivo e benéfico para sua vida.

Cabe ressaltar que a psicoterapia não é coaching. A prática de coaching é reconhecidamente benéfica às pessoas quando praticada por profissionais sérios (vale para a Psicologia também). Podemos afirmar que, assim como a psicoterapia, de maneira geral, o coaching também visa o bem-estar. Mas são caminhos e modelos teórico-científicos bastante diferentes, assim como a formação acadêmica.

Mas psicoterapia é para mim?

É normal sentir-se indeciso.
Vamos aproveitar e quebrar alguns tabus: fazer psicoterapia não significa necessariamente que você é uma pessoa cheia de traumas ou com problemas mal resolvi
dos, deprimida ou ansiosa.
Sem dúvida a psicologia pode apoiar nisto também. Mas como qualquer pessoa, situações de indecisão podem aparecer em nossas vidas, e neste momento, talvez nos sintamos fragilizados por não conseguir decidir. Isto pode acontecer a um empreendedor de muito sucesso, ou a alguém que está na formação de seu novo negócio, sem qualquer relação direta com traumas e afins.
Também é importante de desmistificar é que fazer psicoterapia não é somente deitar num divã e falar a alguém. Existem inúmeras abordagens e técnicas psicoterápicas onde a conversa e a troca de informações são amplamente exploradas.

Aqui não há certo ou errado, nem melhor nem pior: a melhor é aquela que você se sente bem! Por fim, a psicoterapia tende a ser naturalmente um processo longo, mas não precisa ser obrigatoriamente algo interminável. Ela pode ter abordagens breves que variam de 08 a 12 sessões ou até mesmo encontros pontuais à medida que você combine as regras com seu psicólogo

Está em um grande dilema? Empreenda em si mesmo! Que tal fazer psicoterapia?!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Vida e obra de Simone de Beauvoir

Vida e obra de Simone de Beauvoir serviram de base para o movimento de conscientização das mulheres no século XX
Jornal Mulier – Dezembro de 2006, Nº 35
Ela nasceu em 09/01/1908, em Paris, e sua vida nada teve de convencional e monótona. Simone de Beauvoir é considerada a mulher mais intelectualizada da França no século XX. Sua vida confunde-se com sua obra, e é através desta última que ela deixou um legado de questionamentos e apelo à resistência das mulheres na luta por um lugar no mundo, reconhecendo sua importância e função na História.
A inquietação intelectual de Simone veio da infância. Filha de mãe católica e pai ateu, ela e a irmã tiveram educação católica e tradicional, mas sempre estiveram rodeadas de livros. O pai não possuía grandes posses e estimulava a educação das meninas porque dizia não ter dote para as mesmas fazerem um bom casamento. Dessa forma, elas teriam que trabalhar para se sustentarem no futuro. Esta realidade agradava Simone. Ela agarrou com afinco os estudos, dizendo que enquanto houvesse livros no mundo sua felicidade estaria assegurada. Foi também com os livros que chegou a conclusões que iriam influenciar sua vida: queria conhecer o mundo, dedicar-se a aprender e a ensinar, seria uma escritora. Quanto ao casamento, fim último ao qual uma moça de sua época deveria aspirar, Simone o desprezava por completo. Estava interessada no futuro, no seu futuro enquanto mulher emancipada. Sabia que pelo talento as mulheres haviam conquistado um lugar no universo dos homens. Sabia que o “sábio, o artista, o pensador criavam um mundo diferente, luminoso e alegre em que tudo tinha razão de ser. Nele é que eu iria viver, estava resolvida a conquistar meu lugar”, escreveu em seu livro “Memórias de uma moça bem-comportada”. Segundo ela, apenas amaria um homem que a subjugasse por sua inteligência, sua cultura e autoridade.
Na adolescência, como qualquer adolescente típico, passou por crises existenciais. Achava-se feia, acreditava que sua inteligência e teimosia a distanciavam do pai, a quem adorava, e viu-se prestes a repetir um casamento burguês com um primo que nem mesmo tinha certeza se amava. Também passou a questionar a existência de Deus, sentimento escondido de todos por muitos anos. Na verdade, Simone era ingênua e inocente, conhecia o mundo pelos livros, principalmente por romances e novelas. A realidade estava longe dos seus olhos, contava poucas amigas e não era autorizada a sair de casa pelos pais. Conhecia pouco das necessidades e angústias dos seres reais, fora da ficção, e se torturava por isso. Sua vida mudou quando foi aprovada para o curso de Filosofia na Sorbonne, tradicional universidade francesa.
Em Paris, na Sorbonne, passou a conhecer a realidade como ela era de fato. Com amigos começou a sair e conhecer o submundo da cidade. Sua inteligência e conhecimento impressionavam a todos, tornou-se amiga de grandes intelectuais, entre eles Jean-Paul Sartre, com quem dividiria seu amor pelo resto da vida. Sartre era baixo, tinha o rosto marcado por acne e era estrábico, ou seja, não tinha qualquer atributo de beleza, mas encantou Simone pela inteligência e sedução. Para ela, havia encontrado nele a pessoa que a estimulava e não a faria estagnar intelectualmente. Assim começou um dos romances mais rumorosos, e mesmo invejado, da História recente.
Simone de Beauvoir acreditava que a vida em comum deveria favorecer e não contrariar seu principal objetivo: tomar posse do mundo. Foi o que aconteceu com Sartre. Recusaram-se a casar, a ter filhos e delimitar a liberdade um do outro. Pactuaram poder fazer o que quisessem cada qual de sua vida, inclusive ter envolvimentos amorosos com outras pessoas, mas nada deveria ser escondido, o ciúme não poderia existir. A relação era baseada na sinceridade e na lealdade. Por mais que pudessem chatear ou chocar eles mesmos e os outros, seriam sempre um do outro, na verdade achavam que eram um só. Simone seria o tudo de Sartre e Sartre, o tudo de Simone.
Para quem estava de fora, a relação deles parecia algo fascinante e poderosa. Depois da morte de ambos, foram publicadas cartas trocadas entre eles. Viu-se que realmente contavam em detalhes suas aventuras amorosas, existindo uma grande necessidade de um opinar sobre os casos do outro. Se por um lado mostrava a sinceridade dos mesmos, as cartas chocaram pela forma como expunham intimidades das pessoas com quem se relacionavam, a verdade, honestidade e sinceridade que tinham entre si não valiam para seus amantes. Na verdade, pouco mais de dez anos após conhecerem-se, já não tinham qualquer tipo de relação sexual, era mais uma amizade profunda que amor.
Assim viveram por muitos anos. Conheceram o mundo, buscaram incessantemente o prazer, pareciam tentar aprender e entender mais a si mesmos do que o mundo e a realidade ao redor, embora ambos fossem excelentes professores e encantassem os alunos com seus conhecimentos. Só começaram a compreender melhor a História e a sociedade, começando a pensar o que poderiam fazer como intelectuais, a partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial em 1939.
Simone de Beauvoir começou a entender cada vez mais que era uma intelectual cujas armas eram as palavras. Em 1949, escreveu o livro “O segundo sexo”, considerado a obra de referência para o movimento feminista moderno. A frase mais famosa da obra é: “a pessoa não nasce mulher, mas antes torna-se mulher”, ou seja, a feminilidade é uma construção sociais. As condições vividas pelas mulheres e o que se espera delas são estabelecidos culturalmente pela sociedade. No livro, Simone fala da necessidade da mulher conquistar o seu lugar no mundo e tomar o seu destino nas mãos. Segundo ela, “as restrições que a educação e os costumes impõem à mulher restringem seu domínio sobre o universo”. Ela criticou veementemente o casamento e a ideia da mulher necessariamente ter que ser mãe. Casar e ser mãe limitariam a vida da mulher, não deixando espaço para que estudassem ou tivessem interesse pela política, cultura e tecnologia. Dessa forma, a mulher nunca iria se equiparar ao homem economicamente, intelectualmente e socialmente. Uma das saídas era o trabalho feminino, podendo assegurar uma certa liberdade, ao menos econômica. A liberdade concreta viria com o socialismo. “O segundo sexo” também causou escândalo por tratar do corpo de mulher e da sexualidade feminina.
Apesar das ideias defendidas, até a década de 1970, Simone de Beauvoir não se considerava uma feminista, até porque as feministas também não se simpatizavam com ela, principalmente por sua relação com Sartre, que achavam subjugar e dominar Simone. Beauvoir acreditava serem os homens tão vítimas como as mulheres, devendo o movimento feminista dar espaço para os homens ajudarem na luta pela equidade. Na última frase do livro “O segundo sexo”, Simone exprime a intenção de um dia homens e mulheres se encontrarem e afirmarem sem equívocos sua fraternidade. Mesmo assim, nos últimos anos de vida, Simone trabalhou com o movimento de mulheres e lutou pela legalização do aborto na França, que aconteceu em 1975.
Simone de Beauvoir escreveu inúmeros livros, peças, ensaios e era colaboradora da revista “Los Temps Modernes”, criada por Sartre. Sua vasta obra mostra a paixão pela escrita, e muito do que hoje sabemos sobre ela vem de sua própria literatura, seja em seus inúmeros livros de memória, seja por seus livros de ficção, no qual retratava muitos dos acontecimentos de sua vida na pele dos personagens. Em suas obras, explorava os dilemas existenciais da liberdade, da ação e da responsabilidade individual, temas recorrentes na obra de Sartre. A influência de Sartre era evidente, assim como ele também dependia totalmente das observações de Beauvoir sobre seus escritos. As obras de ambos parecem um meio que se utilizaram para se entender, deixar seu legado para a humanidade e não permitir que a solidão os atormentasse. Aliás, a solidão era terrível para Simone, mesmo quando estava lendo ou escrevendo, gostava de estar com Sartre ou rodeada de amigos e alunos. Mas sentiu-se muito solitária em 1980, quando Sartre morreu. Escreveu um livro contando o sofrimento do companheiro com quem viveu 50 anos, “A cerimônia do adeus”. Ela ainda viveu mais seis anos. Morreu em 14/04/1986 e alcançou seu objetivo de infância: conquistar o mundo com suas ideias, ser uma grande escritora e não se submeter às convenções da sociedade.
Fontes
BEAUVOIR, Simone. “O segundo sexo”. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BEAUVOIR, Simone. “Memórias de uma moça bem-comportada”. São Paulo: Círculo do Livro, sem data.
ROWLEY, Hazel. “Tête-à-Tête, Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
SCHWARZER, Alice. “Simone de Beauvoir hoje”. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Envelhecer

Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.
A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.
O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude, não é havê-las cometido…é sim não poder voltar a cometê-las.
Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.
Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.
Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.
O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…
Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.
Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.
A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.
Nada passa mais depressa que os anos.
Quando era jovem dizia:
“verás quando tiver cinqüenta anos”.
Tenho cinqüenta anos e não estou vendo nada.
Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.
A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.
Sempre há um menino em todos os homens.
A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.
Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.
Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.
Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.
Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.”

Albert Camus

sábado, 25 de julho de 2015

Resiliência e Trauma



Um dos mais graves traumas que uma criança pode sofrer na primeira infância é a negligência afetiva, os maus tratos, o abandono e a falta de vínculos familiares ou seus substitutos, adquirindo distúrbios duradouros da emoção. Essa é a afirmação do neuropsiquiatra, psicanalista e etólogo francês Boris Cyrulnik, conferencista convidado no I Seminário sobre Resiliência e Trauma, em março deste ano, promovido pela Sociedade de Psicanálise Brasileira, CEINP e Instituto Rukha, com apresentação do Projeto Virada Social, objetivando transformar crianças de rua em donas de seu próprio destino.
Com a cifra alarmante de 120 milhões de crianças de rua no mundo, segundo dados da UNICEF, e a atrofia e encolhimento de lares com pais e mães cada vez mais ausentes e imersos em seus trabalhos, Cyrulnik acredita que há um crescimento mundial de crianças traumatizadas pela falta de afeto, que se tornam adultos despreparados, frágeis o suficiente para não desenvolverem relacionamentos sociais e ou atividades profissionais, muitas vezes ingressando no submundo das drogas e do crime, acrescentando que na América Latina violência e delinqüência entre os jovens não é uma opção de vida, mas sobrevivência.
Segundo o etólogo, a falta de afeto na idade pré-verbal é um dos entraves para uma pessoa se tornar resiliente. Ao contrário do que se pensa, as crianças têm memória sobre experiências que as fizeram sair da rotina, e que antes do advento da fala, alojam-se no seu mundo íntimo. Lembranças de maus tratos, abandono e falta de afeto são ocorrências que não se apagam nessa fase de desenvolvimento, podendo provocar modificações cerebrais, como o atrofiamento do sistema límbico, tornando-as confusas e sem controle emocional.
Trazendo narrativas e histórias de seus pacientes, bem como de andanças em missões na Bósnia e Camboja, Cyrulnik descreve essas crianças negligenciadas pela falta de afeto como constantemente sobressaltadas e amedrontadas frente a eventuais novidades, exprimindo desespero descontrolado de qualquer separação. As agressões recebidas na primeira infância são as que modelam a criança de forma mais traumatizante, porque inexiste a ferramenta da fala para fazer as representações e confidências. Ao se detestar uma criança há um envelope de significantes que é perceptível sensorialmente a ela, são esses os fantasmas que recepciona no seu mundo íntimo, diz Cyrulnik. Nesse estágio, quando existe a possibilidade da intervenção da terapia, deve haver uma remodelação do ambiente em que a criança habita, havendo casos em que há necessidade de filmar o cotidiano para que pais ou cuidadores conscientizem-se de seus gestos de desamor.
No entanto, crianças protegidas por vínculos afetivos nos seus primeiros anos de vida estariam mais propensas à resiliência, um conceito contemporâneo em construção para designar a capacidade singular de superar traumas psíquicos e as mais graves feridas emocionais. Mas a melhor definição de resiliência para Cyrulnik é: “A arte de navegar nas torrentes”, lembrando que resiliência faz parte de um processo relacional, entre mundo íntimo e mundo aparente, onde cada indivíduo recepciona de forma subjetiva um golpe, podendo ou não transformá-lo num transtorno patogênico duradouro.
Cyrulnik considera muito valiosos todos os recursos, métodos e técnicas terapêuticas utilizados atualmente no tratamento dos traumas (embora particularmente não goste muito da técnica de “regressão”), lembrando que falar com alguém faz parte da resiliência, é aprender a remanejar o afeto, quando a estrutura semântica do discurso funciona como construímos o nosso mundo psíquico. Mas a abordagem no tratamento, segundo suas experiências, deve ser pluridisciplinar, uma equipe de investigação que reúna áreas como psicanálise, lingüística e neurobiologia, por exemplo, que aplicadas conjuntamente no processo terapêutico trazem resultados surpreendentemente positivos na superação de traumas que mulheres, homens, crianças, estão expostos no mundo de hoje. Sem esquecer que socialmente os vínculos familiares e institucionais, como possíveis tutores, vizinhos, professores podem ajudar na produção da resiliência. Às vezes, um pequeno sopro pode dar sentido à existência do traumatizado, fazendo-o retornar ao convívio social.
Nascido em Bourdeaux, em 1937, Boris Cyrulnik abriu o campo de pesquisa na França à Etologia, ciência que estuda o comportamento tanto dos animais como dos homens, além de ser reconhecido por desenvolver o conceito de resiliência. Atualmente é responsável pelo grupo de pesquisa em Etologia Clínica no Hospital de Toulon, e professor de Etologia Humana na “Université du Sud-Toulon-Var”. Possui cerca de duzentos artigos publicados sobre o assunto e é autor de 28 livros, entre eles alguns traduzidos para o português, como “Murmúrio dos Fantasmas”, “Patinhos Feitos” e “Resiliência”.

Resiliência é um conceito contemporâneo em construção para designar a capacidade subjetiva de superação de traumas, como uma metáfora retirada da física, onde os corpos, com propriedade elástica, retornam ao estado natural quando cessa a tensão causadora da deformação.

CYRULNIK, Boris. Murmúrio dos Fantasmas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
“Resiliência e Trauma”. In: I Seminário de Boris Cyrulnik no Brasil, realizado na sede da SBP-SP, Av. Dr. Cardoso de Melo, Vila Olímpia, 1450. Promoção: SBP-SP, CEINP e Insituto Rukha.
Biografia. In: Consulado da França em São Paulo.
CEINP – Centro de Estudos e Investigação em Neuro-psicanálise