domingo, 14 de dezembro de 2014

Eu, mamãe e os meninos



"É genial.
Acabei de perceber algo incrível. 
De fato, o que distingue as mulheres é a sua forma de respirar.  
Sim.
É mais macio.
Variável.
Menos linear, uniforme.
É isso.
A respiração de uma mulher varia o tempo todo
depende se estar emocionada ou concentrada osedutora ou charmosa..."




A origem do filme Eu, mamãe e os meninos (Les Garçons et Guillaume, à table!) é uma peça solo de Gallienne inspirada  na sua história pessoal, sendo que neste interpreta a si mesmo e sua mãe, o que é muito conveniente para expressar a alienação no desejo materno da qual parte a trajetória do personagem rumo a uma escolha alicerçada no próprio desejo. A comédia ganhou cinco categorias do César na França, incluindo melhor filme e melhor ator.
O nome do filme em francês é a frase que a mãe usava para chamar o protagonista e os irmãos à mesa. Guillaume era assim diferenciado dos irmãos, mas ao sê-lo era retirado da categoria de meninos!  
Nas suas fantasias ele era a menina desejada, a mãe, Sissi. Imitava a mãe tão bem que numa cena, a avó materna está de costas e este responde “com a voz materna” . A avó prossegue e apenas ao se virar descobre que é o neto.  Então de forma cifrada o alerta que não deve se enganar e se lamentar, mas ainda Guillaume tem um longo caminho a percorrer, terá que se deparar com medos e  descobrir alguns véus.
A mãe havia desejado uma menina, os irmãos o rotulam de homossexual, o pai rejeita seus trejeitos afeminados, percebendo que há um consentimento da mãe, mas sem se aproximar do filho, apenas o envia para o mais longe. 
O filme, nos faz pensar, antes  da posição sexuada e da escolha de objeto temos que nos constituir, simplesmente SER. Quem é Guillaume? Ele imita a mãe, seus trejeitos, sua voz, seu andar. É para se diferenciar que a imita, para ser tão grande quanto ela. Ser o falo. Não para ser mulher, se o fosse, seria transexual. Guillarme busca ser um entre muitos, ser diferente, não ser igual. Ser menina seria uma resposta ao desejo da mãe, mas também o diferenciaria, já que naquela família ser um menino não foi um lugar que ele ao nascer foi destinado como atrativo ou positivo, ele também não pode o positivar.
Numa cena temos Guilhaume Gallienne perguntando : Mamãe, dei de cara com meu primeiro amor hoje! Lembra da Ana?”, sua mãe responde: “Como ele está?”. È um lapso que diz do desejo da mãe que o filho fosse uma menina ou não amasse outra que não ela? Ambas as coisas podiam ser possíveis se ele fosse uma menina!!! Mas Guilhaume não é uma menina!!!
Guilharme sai do lugar de alienação do desejo materno e de ter raiva de parecer o que todos dizem que é e parte em na busca de saber quem é e qual é o seu desejo.
Nascemos num corpo biologicamente sexuado, mas a posição sexuada feminina/masculina e a escolha pela homossexualidade ou heterossexualidade  ocorre no caminho, entre este primeiro amor à mãe, que pode ser esta mulher que jorra igual “Cataratas do Iguaçu” (fala da personagem no filme ao ir ao banheiro), é portanto, não é exatamente uma  mulher. É necessário reconhecê-la "envergonhada" (fala do personagem, que aqui utilizarmos como similar a não-completa, fálica), não-toda...para podermos amarmos a nós mesmos e a uma outra pessoa.

Autoria própria, 14/12/2014


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