quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Tempo - Mario Quintana


A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará

Mario Quintana

domingo, 16 de novembro de 2014

Amor trago já - Isloany Machado


*Este texto é o terceiro prelúdio do XV Encontro nacional da EPFCL- Brasil, a acontecer em Campo Grande nos dias 13, 14, 15 e 16 de novembro.

Convocada a dizer sobre o amor, travei. Sim, escrevo. Mas sobre o amor? Não! Entretanto, não havia escapatória. Tinha que dizer, como psicanalista, do amor. Os dias foram se arrastando e as palavras fugiam. E de lá do fundo do meu falasser brotavam chavões: "O amor é fogo que arde sem se ver". O que é o amor, o que é o amor? "É só o amor, é só o amor". Às voltas com a convocação, espremia, espremia, e nada.
Tenho o costume de andar olhando para as coisas do chão. Até algum tempo atrás achava um jeito feio de andar, mas depois de Manoel de Barros, que dá tanto valor para as coisas desimportantes – coisas de formigas, de pedras, de rãs – achei que não tinha problema esse meu olho torto. É no chão que acho as coisas mais fundamentais. E eis que um dia, chutando pedrinhas no centro de Campo Grande, encontrei um bilhetinho roto que dizia: "AMOR TRAGO JÁ". Passei reto. Fiquei com vergonha de apanhar do chão algo que estava tão pisoteado. As palavras ficaram mordendo meu calcanhar, então na volta peguei, com um meio sorriso pra disfarçar o constrangimento. Tentei não fazer de forma furtiva para que as pessoas não pensassem que encontrara algo de valor. Era só um papel muito roto e pisoteado. Corri para o consultório a fim de ler o que dizia. Transcrevo:

"AMOR TRAGO JÁ
**ATENÇÃO** Não Sofra mais...Chega de sofrer e venha ser feliz...Eu posso e trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, em apenas 7 dias com garantia e rapidez, não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre. NÃO SOFRA MAIS! Há solução p/ todos os seus problemas e outros mais. Faço e desfaço qualquer tipo de trabalho Espiritual!!
EU GARANTO O QUE EU FAÇO!!!
TRABALHOS RÁPIDOS E GARANTIDOS
Sigilo Absoluto"

Reli umas duas vezes e fiquei sem entender por que as pessoas haviam pisoteado aquele papel, sem lhe dar importância. Fiquei comovida com aquelas palavras. Talvez não com as palavras em si, pelo que dizem, mas porque o amor estava misturado a todas as coisas desimportantes do chão. Quem teria deixado cair o papel? Algum desacreditado do amor? Ou talvez alguém que nunca o tenha conhecido. Reli o papel. Havia ali uma promessa de trazer o amor, o GRANDE AMOR de volta. Mais que uma promessa, havia uma garantia. Me senti descrente, uma mulher de pouca fé: Ora, o amor nada mais é do que amar ser amado, é demandar amor.
Olhei para o divã ao lado e fiquei lembrando dos ditos amorosos e desamorosos – principalmente estes – que ouvira naquele mesmo dia, permeados pelo silêncio das minhas intervenções. Não havia palavra que pudesse dar garantias de trazer o amor no laço, AMARRADO, GAMADO, ACORRENTADO. Encafifada com a promessa do bilhete, pensei: por que não? Por que o amor não se deixa amarrar, acorrentar, para sempre? Depois de alguns minutos a sentir o gosto dessas duas palavras, percebi que o amor não se pode acorrentar porque está como elo da corrente; não se deixa amarrar, porque faz laço; não se permite enodar, porque o amor é o que faz nó.
Antes de uma grande declaração de amor, há um nó na língua. Mas quando se perde um amor, resta um nó na garganta. Às vezes este tipo de nó é tão apertado que a vida se vai. Lenine diz: "às vezes parece até que a gente deu um nó", mas só parece, pois "hoje eu quero sair só", conta o restante da letra (1+1=1). O amor dá nó no ser: "levei um nó". Mas o nó que o amor dá não é cego, caso contrário o bilhete roto teria que dizer: "Eu posso e trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, pois trabalho com um nó cego". Ora, os termos precisam ser ditos claramente.
Acontece que há outro nó. O nó borromeano, que Lacan utiliza em sua teoria para falar, dentre outras coisas, de algo da ordem do impossível, de que não há completude. Nenhum nó é cego, "desenodável". Foi aí que minha ficha caiu e pude entender minha descrença. Esse nó tem três elos iguais em termos de consistência, pois desfeito um, qualquer um, o nó se desfaz. Misturei Lacan com a cigana do bilhete, minha cabeça deu nó. Mas entendi que o silêncio dos meus ditos diante do desamor que ouço todos os dias na clínica, tem a ver com a face real desse nó, com o impossível da relação sexual. Então, pelo lado avesso, pensei: se o amor é narcísico, pois não foge das identificações e dos espelhamentos, é, portanto, imaginário. Mas se o amor faz laço, enlaça o sujeito com seu desejo, é simbólico.
Neste momento, deixei cair o bilhete e pensei: "Dona cigana, sua desatadora de nós, não acorrente o amor, deixe-o livre para fazer nós". Reli pela última vez o bilhete e reformulei seu dito:
"AMOR TRAGO NÃO
**ATENÇÃO** Pode sofrer por amor...Continue a sofrer, pois amar não é o mesmo que ser feliz...Eu não posso e não trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, porque não se faz nó cego no amor, porque não se pode acorrentar o amor, pois ele é a corrente. No amor não há garantias, quanto menos em apenas 7 dias. Não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver, o ‘amor é bicho instruído’. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre, no espelho. SOFRA, porque ‘essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã’. Não há resposta pronta p/ nenhum de seus problemas e de ninguém mais.
EU NÃO GARANTO NADA!!!
TRABALHOS LONGOS E SEM GARANTIAS
Sigilo Absoluto!!!

A Dor de Amar (Citação I) - J.D. Nasio


Edvard Munch - Separation 1894

A dor de amar é uma lesão do laço íntimo com o outro, uma dissociação brutal daquilo que é naturalmente chamado a viver junto.

“Ao contrário da dor corporal causada por um ferimento, a dor psíquica ocorrem sem agressão aos tecidos. O motivo que a desencadeia não se localiza na carne, mas no laço entre aquele que ama e seu objeto amado. Quando a causa se localiza nessa encarnação de proteção do eu que é o corpo, qualificamos a dor de corporal; quando a causa se situa mais-além do corpo, no espaço imaterial de um poderoso laço de amor, a dor é denominada "dor de amar". Assim, podemos desde já propor a primeira definição de dor de amar, como o afeto que resulta da ruptura brutal do laço que nos liga ao ser ou à coisa amados. Essa ruptura, violenta e súbita, suscita imediatamente um sofrimento interior, vivido como um dilaceramento da alma, como um grito mudo que jorra das entranhas.
A dor está sempre ligada à subtaneidade de uma ruptura, à travessia súbita de um limite, mais-além do qual o sistema psíquico é subvertido sem ser.” 

(A Dor de Amar, J-D,Nasio, 2007, Zahar)

No Consultório de Lacan / Rendez vous chez Lacan

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O corpo fala

O resfriado escorre quando o corpo não chora.
A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
O diabetes invade quando a solidão dói.
O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
A dor de cabeça deprime quando as dúvidas aumentam.
O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
O peito aperta quando o orgulho escraviza.
O coração infarta quando chega a ingratidão.
A pressão sobe quando o medo aprisiona.
As neuroses paralisam quando a "criança interna" tiraniza.
A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
Este alerta está colocado na porta de um espaço terapêutico
Preste atenção! O plantio é livre, a colheita, obrigatória... Preste atenção no que você está plantando, pois será  a mesma coisa que irá colher!!!
                        
Assim, desejo que você se cuide, porque sua saúde e sua vida dependem de suas escolhas!!!
Escolha ser feliz!
"Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade."

Mário Quintana

domingo, 2 de novembro de 2014

O lado bom de ficar sozinho

Querer isolar-se de tudo e de todos nem sempre denuncia um problema


“Geralmente saio de circuito, desligo do mundo e procuro ficar sozinha. Gosto de ouvir o silêncio e entrar em sintonia com os meus pensamentos”, confessa a atriz e socióloga Noêmia Scaravelli, 55 anos. Optar pela solidão, em alguns momentos da vida, não é uma atitude considerada nociva. 

“Os momentos de real importância na transformação ou passagem de um momento para outro ao longo da vida são precedidos por pequenos períodos de auto-isolamento e esvaziamento de si”, explica o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, que também é professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). 

Por isso,. “A boa solidão é sentida como uma necessidade de estar só; a má solidão, como uma impossibilidade de ficar sozinho”, completa Dunker. Para a psicóloga Denise Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a solidão torna-se patológica quando vem associada a outros sentimentos, como tristeza, rejeição e sensação de abandono. “Neste caso, pode ser prejudicial ao indivíduo que, considerando que não pode ser aceito e amado, irá sofrer e até cair em depressão”, informa. 

No entanto, isso não tem a ver com escolha. “A solidão benéfica nunca se estrutura em torno de ‘eu não preciso do outro’. É justamente quando me dou conta de que preciso do outro, mas não absolutamente, que a solidão torna-se um espaço criativo”, coloca Dunker. Aqui, a ideia não é querer se afastar do mundo, mas permitir-se ficar sozinho. “E qual de nós já não teve uma crise existencial?”, questiona Denise. 

E para resolver a questão, não é preciso, necessariamente, ir para um retiro ou viajar para um lugar distante. Sabe aqueles dias em que a gente não tem vontade de conversar? “Isso deve ser respeitado. Se toda a turma está indo para a balada e você não está disposto, tudo bem! Ninguém deve se culpar por querer desfrutar de um período de isolamento”, enfatiza a psicóloga da Unifesp. 

Denise afirma que vivemos em uma sociedade voltada para a indústria do lazer. “Ficar em silêncio, pensar na vida, colocar as ideias em ordem, são atitudes saudáveis e muito normais”, diz Denise. Ela explica que tal situação tem um nome: solitude. Aqui, há uma escolha consciente em querer ficar só.

Novo rumo

Foi o que aconteceu com o jornalista Rodrigo Rainho, 33 anos, que, para dar um rumo em sua vida, apostou em uma viagem sem acompanhante. “Em 2008, decidi me isolar para refletir sobre meu futuro e tentar esquecer de vez minha ex-namorada, da qual havia me separado em 2004. Estava vivenciando uma instabilidade afetiva e profissional, pois a empresa em que trabalhava passava por uma crise. Viajei para Arraial D'Ajuda, na Bahia, e fiquei 15 dias por lá em um quarto só meu”, relata. 

Quando retornou de seu exílio, Rainho havia recuperado a energia positiva que precisava para tomar decisões importantes. “Pedi demissão e fui atrás de um emprego que me deixasse realizado. Sem contar que, na Bahia, conheci uma mulher maravilhosa que me ajudou a tocar a vida em frente e, isso me impulsionou a voltar a me relacionar e viver intensamente”, acrescenta. 

E tal atitude, segundo Dunker, é tida como uma condição para o desenvolvimento da autonomia, da independência e da emancipação. “O isolar-se é uma maneira de deixar a voz e o olhar do outro esvaziar-se, de ver nossa própria situação de longe, ou inversamente, em uma proximidade inexplorada. Isso permite reconhecer melhor o tipo de posição na qual nos encontramos em relação ao outro”, afirma. 

Quem tem medo da solidão? 

Apesar de a solidão ter o seu lado positivo, ainda há um preconceito que só a associa a momentos de profundo abandono. “A solidão é tão fortemente repudiada pelo indivíduo porque se associa aos estados de desproteção e insegurança”, analisa Dunker. Entretanto, o auto-isolamento é uma experiência simbólica e não uma exclusão física.


“O isolamento social pode ser nocivo”, diz Denise. E Dunker lembra que a solidão patológica é sentida como humilhação social, e este tipo de sensação causa temor. “Há pessoas que jamais vão a um cinema ou a um restaurante sozinhas, pois têm certeza de que todos à sua volta estão olhando e pensando: ‘Veja aquele solitário, um fracassado que não conseguiu respeito, amizade ou amor de ninguém’. Este é um exemplo da solidão patológica, ou seja, aquela que é sentida como deficitária”, exemplifica o psicanalista. 


Porém, usufruir da própria companhia pode ser reconfortante em muitos momentos. Aproveitar este auto-isolamento, colocar a ideias em dia e tomar a decisão certa, por exemplo, pode ser muito prazeroso e satisfatório. “Se alguém não é capaz de inventar uma vida interessante sozinho, se a coisa mais interessante que pode acontecer na sua vida é encontrar alguém que te diga que você é interessante, isso acontece porque você não é interessante”, atenta Dunker. 


E, pelo visto, Noêmia já aprendeu a lição. “Sempre acho positivo ficar sozinha. Se há muita balbúrdia em volta, me recolho para me encontrar”, finaliza.

Por Simone Cunha, especial para o iG