sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Fadas no Divã, de Diana L. Corso e Mario Corso


A psicanálise sente-se à vontade no terreno das narrativas, afinal, trocando em miúdos, uma vida é uma história, e o que contamos dela é sempre algum tipo de ficção. A história de uma pessoa pode ser rica em aventuras, reflexões, frustrações ou mesmo pode ser insignificante, mas sempre será uma trama, da qual parcialmente escrevemos o roteiro. Freqüentar as histórias imaginadas por outros, seja escutando, lendo, assistindo a filmes ou a televisão ou ainda indo ao teatro, ajuda a pensar a nossa existência sob pontos de vistas diferentes. Habitar essas vidas de fantasia é uma forma de refletir sobre destinos possíveis e cotejá-los com o nosso. Às vezes, uma história ilustra temores de que padecemos, outras, encarna ideais ou desejos que nutrimos, em certas ocasiões ilumina cantos obscuros do nosso ser. O certo é que escolhemos aqueles enredos que nos falam de perto, mas não necessariamente de forma direta, pode ser uma identificação tangencial, enviesada.

A paixão pela fantasia começa muito cedo, não existe infância sem ela, e a fantasia se alimenta da ficção, portanto não existe infância sem ficção. Observamos que, a partir dos quatro últimos séculos, quando a infância passou a ter importância social, as narrativas folclóricas tradicionais, os ditos contos de fadas, constituíram-se numa forma de ficção que foi progressivamente se direcionando para o público infantil. Hoje, os contos de fadas são considerados coisa de criança, mas curiosamente muitos deles continuam estruturalmente parecidos com aqueles que os camponeses medievais contavam.

Como foi que esses restos do passado vieram parar nas mãos das crianças de hoje?

O presente livro organiza-se ao redor de duas questões. A primeira é direcionada a essas narrativas folclóricas sobreviventes. Pretendemos traçar hipóteses a respeito do quê as mantêm vivas até agora, que fantasias poderiam estar animando-as. Embora muita coisa tenha mudado no reino dos homens, parece que certos assuntos permaneceram reverberando através dos tempos. Por exemplo, os temas do amor, das relações familiares e da construção das identidades masculina e feminina ainda podem se inspirar em narrativas muito antigas. Essas velhas tramas devem ter achado razões para existir em tempos tão distintos, senão teriam perecido. São problemas e soluções de outrora, mas que surpreendentemente encontraram lugar no interesse de gente novinha em folha. Por quê?

A segunda questão busca saber se os contos de fadas podem evoluir. A resposta a essa interrogação passa pela identificação daqueles que seriam os sucedâneos modernos dessas narrativas centenárias.

Se pudermos analisar histórias infantis mais recentes, mas que já se tornaram clássicas, nascidas e consagradas ao longo do século XX, buscando nelas as novas formas que a fantasia encontrou de se conjugar, talvez possamos compreender melhor algumas coisas sobre as crianças, as famílias e as pessoas do nosso tempo. Através das fantasias que embalaram os sonhos das gerações mais recentes, deve ser possível saber algo mais sobre o tipo de gente que estamos nos tornando.

A importância dos contos tradicionais para a construção e o desenvolvimento da subjetividade humana já foi estudada e demonstrada, especialmente por Bruno Bettelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas. Essa obra foi uma experiência pioneira em interpretar exaustivamente os contos de fadas a partir da teoria psicanalítica, ressaltando que seu uso pelas crianças contemporâneas visa a ajudá-las na elaboração de seus conflitos íntimos. Ele acreditou encontrar na eficácia psicológica dessas tramas o motivo de sua perenidade e, com base nessa hipótese, discorreu sobre uma série de características da infância. Inspirado nesse trabalho de Bettelheim, nosso estudo compartilha de seu campo de interesse e de suas questões, mas visa a seguir um passo adiante dessa pesquisa, ou seja, verificar se histórias infantis do século XIX e XX são usadas pelas crianças de forma similar. Além disso, novas histórias respondem a novas necessidades subjetivas, as fantasias traduzem as novidades existentes na vida dos jovens humanos, mas que modificações são essas?

Na primeira parte do livro, enfocamos contos de fadas tradicionais tal como fez Bettelheim. Dedicamos um capítulo ao re-estudo de seu livro, onde apontamos as interpretações interessantes que ele nos legou, mas também as divergências, fazemos críticas particularmente a certas idealizações com que o autor cercou o problema.

Tanto o mundo dos contos de fadas, quanto a oferta atual de ficção para crianças são universos muito extensos, e isso se reflete ao longo do livro, onde também contamos e analisamos muitas narrativas, o que basicamente se constitui no recheio de nosso trabalho. Quem não está habituado ao tema pode julgar excessivo o número de histórias examinadas para responder questões aparentemente tão simples, porém não acreditamos possível um estudo desse assunto sem essas referências múltiplas.

Certamente poderíamos ter mantido um debate basicamente teórico com o leitor, mas optamos por um caminho demonstrativo. Através de uma ampla gama de exemplos de histórias infantis, tradicionais e modernas, e da leitura psicanalítica do conteúdo inconsciente que elas podem evocar, pretendemos contribuir para elucidar as razões de sua atualidade e consagração. Em termos de linguagem, empenhamonos em desdobrar os conceitos psicanalíticos de forma que se tornem compreensíveis para os leitores não iniciados nessa teoria, mas quanto ao número de exemplos não é possível economizar, faz parte da natureza do objeto.

Como efeito secundário do presente estudo, a análise de histórias acaba sendo uma forma mais agradável de entrosamento com a teoria psicanalítica, pois aqui se pode vê-la em funcionamento. Evidentemente, personagens de contos não são pacientes, e nenhum deles recebe algum tipo de diagnóstico. Trata-se apenas de histórias que nos permitem abordar questões sobre os sonhos e pesadelos dos seres humanos.

Outro fator também estimulou esse estudo. O território da análise da ficção dirigida à infância é lugar de um paradoxo: preocupamo-nos crescente e obsessivamente com as crianças, nunca tanto investimento foi feito em seres tão pequenos e deles tanto se esperou. Além disso, cada vez mais se acredita nas influências precoces da formação no destino dos seres humanos. Por isso mesmo é intrigante que tenhamos tão pouco espaço para a crítica à ficção que lhes é oferecida. Em contraste com o volume de estudos dedicados à literatura, à mídia e às artes como um todo, parece que poucos profissionais estão empenhados em decifrar os efeitos sobre as crianças do leque de cultura que hoje lhes é ofertado. Quando esses estudos são feitos, salvo raras exceções, tendem a ganhar visibilidade pública apenas as interpretações catastrofistas que surgem sob forma de alerta, denunciando os nefastos efeitos que seriam gerados a partir de uma infância marcada pelos games e desenhos animados violentos.

Mais do que oferecer soluções para os enigmas que as tramas narradas apresentam, nosso objetivo foi incentivar esse caminho e unir esforços com aqueles críticos que já o estão trilhando. Para isso, usamos a ferramenta da qual dispomos – a psicanálise –, mas uma análise puramente psicanalítica certamente é reducionista, tentaremos sempre que possível abrir o leque. Seria uma deslealdade tratar qualquer fantasia de modo simplista, é necessária uma relação de respeito com o caráter surpreendente de cada história, assim como uma assumida humildade do quanto sua riqueza transcende nossa capacidade de análise.

Essas histórias sensibilizam quem as escuta em diversos planos, e certamente não conseguiremos dar conta de todos. Por exemplo, o conto João e Maria fala da escassez de alimentos e da expulsão do lar por essa contingência. As crianças da Velha Europa que o escutavam entendiam bem do que se tratava, pois a comida faltava mesmo. Mas a empatia com uma história se dá em vários níveis e é provável que, junto com o tema da fome real, também fossem tocadas por outras questões, para as quais todas as crianças são sensíveis, como a separação da mãe nutridora e o medo de ser abandonado pelos pais. Já uma criança moderna, de uma família abastada, quiçá nem saiba o que possa ser a falta de alimentos, não obstante se fascina com a mesma história, e provavelmente isso será devido às questões mais subjetivas.

Ainda em um outro ponto de vista, podemos supor que uma criança brasileira, habitante da periferia miserável dos centros urbanos, se escutar a história de João e Maria, vai encontrar no conto uma fonte para traduzir a angústia concreta de ser expulsa de casa por seus pais e a dúvida diária sobre a possibilidade de eles conseguirem trazer comida ou não; mas, acrescido a esse sentido direto, talvez compartilhe com a criança de vida mais abastada a questão sobre a posição da mãe nutridora, cujo seio ela também teve de deixar. É provável que a empatia com os personagens desse conto ocorra em dois níveis (social e íntimo) para todas as crianças brasileiras, afinal, há Joãos e Marias em todos os semáforos do país, então como não pensar em ser abandonado? Além disso, independentemente do quanto a realidade da pobreza se impõe para as diferentes camadas sociais, não há mãe que não faça questão de lembrar a seus rebentos, quando eles esnobam o alimento, que há outras crianças que passam fome.

Como forma de estruturar o livro, optamos por agrupar os contos tendo como eixo as fantasias que acreditamos que suscitam, disso resultou que algumas histórias e personagens clássicas fossem convocadas e outras não. Toda a escolha implica perdas, certamente os leitores encontrarão omissões que considerem imperdoáveis. A seleção de histórias é também a que nos foi possível, pois incluímos aquelas sobre as quais sentíamos que tínhamos algo a dizer, entendendo-se por isso as que tocaram em algum ponto remanescente da nossa infância e que deixou restos na vida adulta. Certamente a parentalidade ajudou a precipitar essas escolhas, já que foi quando nos descobrimos no papel de pais narradores que toda a dimensão desse pedaço da infância aflorou.

Em geral, quando contamos um conto nos apropriamos dele, o subjugamos aos nossos interesses.

Para tanto, uma parte se conserva (uma espécie de núcleo da história), mas outra é acrescentada, por isso, as histórias não permanecem exatamente iguais com o passar dos anos. É isso que torna tão instigante o porquê de determinados contos terem se celebrizado, durado, permanecido com um núcleo comum tão preservado, sendo que não são necessariamente muito melhores do que outros. Entre a variada oferta de combinatórias de fadas, bruxas, amores e aventuras, alguns contos tiveram a sorte de oferecer uma mistura adequada ao uso dos narradores de outros tempos.

Nosso trabalho busca compreender quais desses elementos estão presentes em um determinado conto, qual teria sido o acerto daquela síntese particular para que ele fosse escolhido para durar. Uma espécie de análise do produto para entender seu sucesso, às vezes secular, no mercado da ficção.

Quanto às narrativas mais recentes, o critério foi similar, pois dedicamo-nos basicamente àquelas que já mostraram sinais de consagração junto a várias gerações de crianças. Por isso, trabalhamos algumas ficções nascidas com o século XX, que ainda são populares, e analisamos também algumas histórias provenientes das últimas décadas, cujas personagens e tramas se tornaram de domínio público, sendo conhecidas muito além de sua existência escrita, desenhada ou filmada.

Este livro inclui também um apêndice, onde é contada e analisada uma história familiar criada para nossas filhas, não é um conto folclórico, nem um sucesso de público. A única tradição a que ela pertence é a da pequena família nuclear que constituímos, sua única popularidade é entre as crianças filhas dos amigos que receberam uma cópia dessa historinha, mas sua participação no livro é justificada pela possibilidade de exemplificar e explicar como determinado conto é escolhido e construído enquanto parte da mensagem (inconsciente) que os pais passam aos seus filhos.

Numa história inventada, fica mais fácil compreender e demonstrar a transparência entre os seus elementos e o inconsciente, tanto do narrador quanto de sua platéia.
Entre as heranças simbólicas que passam de pais para filhos, certamente, é de inestimável valor a importância dada à ficção no contexto de uma família.

Afinal, uma vida se faz de histórias – a que vivemos, as que contamos e as que nos contam.

Fonte: Apresentação do livro Fadas no Divã, disponível em www.marioedianacorso.com.


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