domingo, 19 de outubro de 2014

Palavras


Chega mais perto e contempla
as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela
resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

Drummond


ANDRADE, Carlos Drummond. Procura da poesia. In: A rosa do povo. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1973.

Christian Dunker - As transformações no sofrimento psíquico

sábado, 18 de outubro de 2014

Uma análise sobre a loucura que mora em todos nós


O psicanalista Juan-David Nasio, autor de “Os Olhos de Laura 
— Somos Todos Loucos em Algum Recanto de Nossas Vidas"

Em “Os Olhos de Laura”, o psicanalista Juan-David Nasio busca explicar por que pessoas mentalmente saudáveis têm seus instantes de loucura

Especial para o Jornal Opção
Uma criança segura uma pomba numa das mãos. Seus olhos são grandes e tristes, olham para quem os encara fora do quadro onde sua existência artística se encerra. O quadro fica em frente à cama da irmã de Laura e a criança a observa noite e dia com seu olhar sombrio. A empregada usa a criança para fazer com que as irmãs a obedeçam; do contrário, a criança tomará seu lugar. E o que acontece com a irmã de Laura? Comete suicídio, embora já crescida, depois de viver muitos anos sob a mira da criança angustiada, presa no quadro.

Esse breve relato, digno de um curioso drama psicológico, poderia ser retratado no cinema ou na literatura, afinal Laura é um nome sonoro e portentosamente literário; a irmã suicida não é nomeada, mas é causa e efeito de um sofrimento e de uma saudade carregados por alguns anos; e o quadro, simples objeto colocado num quarto durante uma infância, torna-se personagem ausente, porém doloroso, um símbolo incubado no inconsciente, tão terrível por seu rastejar atônico, tranquilo, demorado, que acaba destruindo o sujeito afetado por sua insidiosa incubação.

Em “Os Olhos de Laura - Somos Todos Loucos em Algum Recanto de Nossas Vidas” (Zahar, 168 páginas, tradução de Claudia Berliner), o psicanalista e psiquiatra francês J.-D. Nasio usou o caso de Laura e sua irmã para mergulhar na questão das defesas psíquicas contra fatos penosos. Após uma sessão com Laura, onde não pôde prever a desolação da paciente, Nasio viu mais do que uma mulher simplesmente em prantos, ele viu a emoção destacada em seus olhos, viu “olhos chorarem”. Na sessão seguinte, os olhos de Laura se transformam nos olhos da irmã, também triste com a imagem do quadro que ambas viam durante a infância, impregnados em suas mentes. A história do quadro acende no analista o conceito de “foraclusão local”, sobre o qual o livro se alicerça.

Fundamentado por Freud e Lacan, Nasio antes prefacia sobre a pergunta “o que é estar louco?”, imprescindível para dar seguimento aos conceitos então explorados no restante das páginas e explicar por que o subtítulo do livro estende a psicose a todas as pessoas, ainda que de forma passageira. Estar louco “é ter a certeza cega da verdade do que se pensa e do que se faz [...], é ir obstinadamente atrás da nossa ideia fixa e falsa que se repete, toma conta de nós e nos impele a agir. Estar louco é não ouvir mais nada além do que se quer ouvir”. Nasio explica que a loucura ou psicose é essa ruptura com a realidade: “A mente cega curva a realidade à sua ideia, ao invés de submeter sua ideia à realidade”. Muitas vezes essa ruptura é passageira, o que ele chama de “loucura efêmera”, lembrando que todos conhecemos pessoas — incluindo nós mesmos — que apesar de coerentes, se mostraram em algum momento transtornadas, cometendo atos desproporcionais, “movidas pela certeza de estarem com a verdade”. Para concluir a razão pela qual o autor afirma que mesmo equilibrada, uma pessoa esconde “uma fantasia virulenta prestes a explodir num acesso de loucura, como um microdelírio circunscrito e ocasional”, ele explica sua ideia de “sujeito folhado”, ou seja, cada um de nós é uma “pluralidade de pessoas psíquicas”, com uma multiplicidade de camadas extremas coexistindo, sadias e doentes. Somos “vários”, portanto temos fantasias venenosas.

Com a loucura postulada, surge a pergunta: que mecanismo faz o sujeito, tanto sadio como doente, se desligar da realidade? No prisma psicanalítico, a psicose é uma resposta tardia a um trauma infantil, sua origem não é propriamente o trauma, mas a defesa do eu contra esse trauma, o que Freud qualificou como “‘psicose de defesa’, para que ficasse claro que a causa da psicose é a defesa”. Essa defesa ruim foi denominada de foraclusão, um termo proveniente do vocabulário jurídico, e proposta por Lacan para “nomear uma grave falha psíquica na resposta do eu ao impacto violento de um trauma infantil”. Nasio ainda exemplifica o significado de foraclusão comparando-o com o recalcamento, outro tipo de defesa: “Recalcar um fato angustiante significa esquecê-lo. [...] A foraclusão é uma anestesia das sensações e, portanto, da consciência do que é percebido. Percebo o acontecimento perturbador, mas não sinto nada nem reconheço a violência que ele significa. Percebo sem saber o que percebo”. Concluindo: a foraclusão é a abolição do processo de recalcamento. A partir desse conceito, Nasio cria outro, o da foraclusão local: local porque o trauma e a foraclusão que o ignora afetam uma das folhas do eu, do sujeito folhado. Entre a multidão de eus psíquicos habitando um sujeito, algum ou alguns deles são influenciados pelas pulsões e desligados da realidade, e a isso se dá o nome de “clivagem do eu”.

Quando o sujeito deixa de imprimir a representação de um objeto no psiquismo, ainda que perceba este objeto, ele está foracluindo. Anestesiado das sensações de uma realidade que lhe é intolerável, abre-se um buraco mental, do qual brotará uma psicose, incubada por anos, seja ela na forma de um delírio, ou microdelírio, alucinação ou despersonalização. E por que acontece essa ruptura? De acordo com o psicanalista, ela é a expressão clínica de um eu desesperado por colmatar, por tapar esse buraco aberto pela brutalidade da recusa foraclusiva. “A representação rejeitada retorna ao eu, transformada em percepção alucinada”, diz a fórmula freudiana da foraclusão, e ainda mais simplificada vem a tradicional fórmula lacaniana: “o que é rejeitado do símbolo reaparece no real”.

Além desses conceitos, e justamente porque é preciso explicá-los segundo uma lógica de elos que formam a corrente psicanalítica, o autor ainda explora a transferência simbólica entre analista e analisando; o inconsciente como “realidade virtual cuja faculdade é produzir efeitos reais em nossa vida”, percebido mediante nossa consciência; a localidade e o mecanismo da foraclusão, incluindo sua forma voluntária por parte do analista; o significado mais próximo de “gozo”, quando e como um paciente goza durante uma análise e como isso interfere num diagnóstico.

É por meio de alguns poucos exemplos e ideias repetidas sob vários ângulos, que Nasio constrói sua teoria e consegue nos fazer penetrar nos olhos de Laura, no motivo de sua tristeza, no labirinto emocional que forma boa parte de nossas estruturas. Como um mil-folhas com suas camadas, ou como um muro com seus tijolos, nosso eu é composto por vários eus, e entre eles existe o psicótico — só lançado acima das camadas sadias quando potencializado. “Toda pessoa normal na verdade é apenas medianamente normal, seu eu se aproxima do eu do psicótico em maior ou menor medida”, escreveu Freud. E você, ainda se acha normal?

Alex Sens Fuziy é escritor e crítico.

Fonte: http://www.jornalopcao.com.br/

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Fadas no Divã, de Diana L. Corso e Mario Corso


A psicanálise sente-se à vontade no terreno das narrativas, afinal, trocando em miúdos, uma vida é uma história, e o que contamos dela é sempre algum tipo de ficção. A história de uma pessoa pode ser rica em aventuras, reflexões, frustrações ou mesmo pode ser insignificante, mas sempre será uma trama, da qual parcialmente escrevemos o roteiro. Freqüentar as histórias imaginadas por outros, seja escutando, lendo, assistindo a filmes ou a televisão ou ainda indo ao teatro, ajuda a pensar a nossa existência sob pontos de vistas diferentes. Habitar essas vidas de fantasia é uma forma de refletir sobre destinos possíveis e cotejá-los com o nosso. Às vezes, uma história ilustra temores de que padecemos, outras, encarna ideais ou desejos que nutrimos, em certas ocasiões ilumina cantos obscuros do nosso ser. O certo é que escolhemos aqueles enredos que nos falam de perto, mas não necessariamente de forma direta, pode ser uma identificação tangencial, enviesada.

A paixão pela fantasia começa muito cedo, não existe infância sem ela, e a fantasia se alimenta da ficção, portanto não existe infância sem ficção. Observamos que, a partir dos quatro últimos séculos, quando a infância passou a ter importância social, as narrativas folclóricas tradicionais, os ditos contos de fadas, constituíram-se numa forma de ficção que foi progressivamente se direcionando para o público infantil. Hoje, os contos de fadas são considerados coisa de criança, mas curiosamente muitos deles continuam estruturalmente parecidos com aqueles que os camponeses medievais contavam.

Como foi que esses restos do passado vieram parar nas mãos das crianças de hoje?

O presente livro organiza-se ao redor de duas questões. A primeira é direcionada a essas narrativas folclóricas sobreviventes. Pretendemos traçar hipóteses a respeito do quê as mantêm vivas até agora, que fantasias poderiam estar animando-as. Embora muita coisa tenha mudado no reino dos homens, parece que certos assuntos permaneceram reverberando através dos tempos. Por exemplo, os temas do amor, das relações familiares e da construção das identidades masculina e feminina ainda podem se inspirar em narrativas muito antigas. Essas velhas tramas devem ter achado razões para existir em tempos tão distintos, senão teriam perecido. São problemas e soluções de outrora, mas que surpreendentemente encontraram lugar no interesse de gente novinha em folha. Por quê?

A segunda questão busca saber se os contos de fadas podem evoluir. A resposta a essa interrogação passa pela identificação daqueles que seriam os sucedâneos modernos dessas narrativas centenárias.

Se pudermos analisar histórias infantis mais recentes, mas que já se tornaram clássicas, nascidas e consagradas ao longo do século XX, buscando nelas as novas formas que a fantasia encontrou de se conjugar, talvez possamos compreender melhor algumas coisas sobre as crianças, as famílias e as pessoas do nosso tempo. Através das fantasias que embalaram os sonhos das gerações mais recentes, deve ser possível saber algo mais sobre o tipo de gente que estamos nos tornando.

A importância dos contos tradicionais para a construção e o desenvolvimento da subjetividade humana já foi estudada e demonstrada, especialmente por Bruno Bettelheim em seu livro A Psicanálise dos Contos de Fadas. Essa obra foi uma experiência pioneira em interpretar exaustivamente os contos de fadas a partir da teoria psicanalítica, ressaltando que seu uso pelas crianças contemporâneas visa a ajudá-las na elaboração de seus conflitos íntimos. Ele acreditou encontrar na eficácia psicológica dessas tramas o motivo de sua perenidade e, com base nessa hipótese, discorreu sobre uma série de características da infância. Inspirado nesse trabalho de Bettelheim, nosso estudo compartilha de seu campo de interesse e de suas questões, mas visa a seguir um passo adiante dessa pesquisa, ou seja, verificar se histórias infantis do século XIX e XX são usadas pelas crianças de forma similar. Além disso, novas histórias respondem a novas necessidades subjetivas, as fantasias traduzem as novidades existentes na vida dos jovens humanos, mas que modificações são essas?

Na primeira parte do livro, enfocamos contos de fadas tradicionais tal como fez Bettelheim. Dedicamos um capítulo ao re-estudo de seu livro, onde apontamos as interpretações interessantes que ele nos legou, mas também as divergências, fazemos críticas particularmente a certas idealizações com que o autor cercou o problema.

Tanto o mundo dos contos de fadas, quanto a oferta atual de ficção para crianças são universos muito extensos, e isso se reflete ao longo do livro, onde também contamos e analisamos muitas narrativas, o que basicamente se constitui no recheio de nosso trabalho. Quem não está habituado ao tema pode julgar excessivo o número de histórias examinadas para responder questões aparentemente tão simples, porém não acreditamos possível um estudo desse assunto sem essas referências múltiplas.

Certamente poderíamos ter mantido um debate basicamente teórico com o leitor, mas optamos por um caminho demonstrativo. Através de uma ampla gama de exemplos de histórias infantis, tradicionais e modernas, e da leitura psicanalítica do conteúdo inconsciente que elas podem evocar, pretendemos contribuir para elucidar as razões de sua atualidade e consagração. Em termos de linguagem, empenhamonos em desdobrar os conceitos psicanalíticos de forma que se tornem compreensíveis para os leitores não iniciados nessa teoria, mas quanto ao número de exemplos não é possível economizar, faz parte da natureza do objeto.

Como efeito secundário do presente estudo, a análise de histórias acaba sendo uma forma mais agradável de entrosamento com a teoria psicanalítica, pois aqui se pode vê-la em funcionamento. Evidentemente, personagens de contos não são pacientes, e nenhum deles recebe algum tipo de diagnóstico. Trata-se apenas de histórias que nos permitem abordar questões sobre os sonhos e pesadelos dos seres humanos.

Outro fator também estimulou esse estudo. O território da análise da ficção dirigida à infância é lugar de um paradoxo: preocupamo-nos crescente e obsessivamente com as crianças, nunca tanto investimento foi feito em seres tão pequenos e deles tanto se esperou. Além disso, cada vez mais se acredita nas influências precoces da formação no destino dos seres humanos. Por isso mesmo é intrigante que tenhamos tão pouco espaço para a crítica à ficção que lhes é oferecida. Em contraste com o volume de estudos dedicados à literatura, à mídia e às artes como um todo, parece que poucos profissionais estão empenhados em decifrar os efeitos sobre as crianças do leque de cultura que hoje lhes é ofertado. Quando esses estudos são feitos, salvo raras exceções, tendem a ganhar visibilidade pública apenas as interpretações catastrofistas que surgem sob forma de alerta, denunciando os nefastos efeitos que seriam gerados a partir de uma infância marcada pelos games e desenhos animados violentos.

Mais do que oferecer soluções para os enigmas que as tramas narradas apresentam, nosso objetivo foi incentivar esse caminho e unir esforços com aqueles críticos que já o estão trilhando. Para isso, usamos a ferramenta da qual dispomos – a psicanálise –, mas uma análise puramente psicanalítica certamente é reducionista, tentaremos sempre que possível abrir o leque. Seria uma deslealdade tratar qualquer fantasia de modo simplista, é necessária uma relação de respeito com o caráter surpreendente de cada história, assim como uma assumida humildade do quanto sua riqueza transcende nossa capacidade de análise.

Essas histórias sensibilizam quem as escuta em diversos planos, e certamente não conseguiremos dar conta de todos. Por exemplo, o conto João e Maria fala da escassez de alimentos e da expulsão do lar por essa contingência. As crianças da Velha Europa que o escutavam entendiam bem do que se tratava, pois a comida faltava mesmo. Mas a empatia com uma história se dá em vários níveis e é provável que, junto com o tema da fome real, também fossem tocadas por outras questões, para as quais todas as crianças são sensíveis, como a separação da mãe nutridora e o medo de ser abandonado pelos pais. Já uma criança moderna, de uma família abastada, quiçá nem saiba o que possa ser a falta de alimentos, não obstante se fascina com a mesma história, e provavelmente isso será devido às questões mais subjetivas.

Ainda em um outro ponto de vista, podemos supor que uma criança brasileira, habitante da periferia miserável dos centros urbanos, se escutar a história de João e Maria, vai encontrar no conto uma fonte para traduzir a angústia concreta de ser expulsa de casa por seus pais e a dúvida diária sobre a possibilidade de eles conseguirem trazer comida ou não; mas, acrescido a esse sentido direto, talvez compartilhe com a criança de vida mais abastada a questão sobre a posição da mãe nutridora, cujo seio ela também teve de deixar. É provável que a empatia com os personagens desse conto ocorra em dois níveis (social e íntimo) para todas as crianças brasileiras, afinal, há Joãos e Marias em todos os semáforos do país, então como não pensar em ser abandonado? Além disso, independentemente do quanto a realidade da pobreza se impõe para as diferentes camadas sociais, não há mãe que não faça questão de lembrar a seus rebentos, quando eles esnobam o alimento, que há outras crianças que passam fome.

Como forma de estruturar o livro, optamos por agrupar os contos tendo como eixo as fantasias que acreditamos que suscitam, disso resultou que algumas histórias e personagens clássicas fossem convocadas e outras não. Toda a escolha implica perdas, certamente os leitores encontrarão omissões que considerem imperdoáveis. A seleção de histórias é também a que nos foi possível, pois incluímos aquelas sobre as quais sentíamos que tínhamos algo a dizer, entendendo-se por isso as que tocaram em algum ponto remanescente da nossa infância e que deixou restos na vida adulta. Certamente a parentalidade ajudou a precipitar essas escolhas, já que foi quando nos descobrimos no papel de pais narradores que toda a dimensão desse pedaço da infância aflorou.

Em geral, quando contamos um conto nos apropriamos dele, o subjugamos aos nossos interesses.

Para tanto, uma parte se conserva (uma espécie de núcleo da história), mas outra é acrescentada, por isso, as histórias não permanecem exatamente iguais com o passar dos anos. É isso que torna tão instigante o porquê de determinados contos terem se celebrizado, durado, permanecido com um núcleo comum tão preservado, sendo que não são necessariamente muito melhores do que outros. Entre a variada oferta de combinatórias de fadas, bruxas, amores e aventuras, alguns contos tiveram a sorte de oferecer uma mistura adequada ao uso dos narradores de outros tempos.

Nosso trabalho busca compreender quais desses elementos estão presentes em um determinado conto, qual teria sido o acerto daquela síntese particular para que ele fosse escolhido para durar. Uma espécie de análise do produto para entender seu sucesso, às vezes secular, no mercado da ficção.

Quanto às narrativas mais recentes, o critério foi similar, pois dedicamo-nos basicamente àquelas que já mostraram sinais de consagração junto a várias gerações de crianças. Por isso, trabalhamos algumas ficções nascidas com o século XX, que ainda são populares, e analisamos também algumas histórias provenientes das últimas décadas, cujas personagens e tramas se tornaram de domínio público, sendo conhecidas muito além de sua existência escrita, desenhada ou filmada.

Este livro inclui também um apêndice, onde é contada e analisada uma história familiar criada para nossas filhas, não é um conto folclórico, nem um sucesso de público. A única tradição a que ela pertence é a da pequena família nuclear que constituímos, sua única popularidade é entre as crianças filhas dos amigos que receberam uma cópia dessa historinha, mas sua participação no livro é justificada pela possibilidade de exemplificar e explicar como determinado conto é escolhido e construído enquanto parte da mensagem (inconsciente) que os pais passam aos seus filhos.

Numa história inventada, fica mais fácil compreender e demonstrar a transparência entre os seus elementos e o inconsciente, tanto do narrador quanto de sua platéia.
Entre as heranças simbólicas que passam de pais para filhos, certamente, é de inestimável valor a importância dada à ficção no contexto de uma família.

Afinal, uma vida se faz de histórias – a que vivemos, as que contamos e as que nos contam.

Fonte: Apresentação do livro Fadas no Divã, disponível em www.marioedianacorso.com.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Clariciando vida...(Clarice Lispector)




"... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida."

 "...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda." 

 "Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária."
 (A paixão segundo G.H)

 "Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente."

(Clarice Lispector)

Jorge Forbes: “As empresas precisam ir para o divã”



JORGE FORBES, PSICANALISTA E PSIQUIATRA: "AS PESSOAS ESTÃO CADA VEZ MAIS SUJEITAS A PASSAR POR VERDADEIROS CURTOS-CIRCUITOS" 

PARA O PSIQUIATRA E PSICANALISTA, AS EMPRESAS PRECISAM FAZER ANÁLISE PARA ENTENDEREM AS PECULIARIDADES DE UMA ÉPOCA, NA QUAL AS HIERARQUIAS RÍGIDAS E VERTICALIZADAS FAZEM POUCO SENTIDO

Como gerir equipes, reter talentos ou se comunicar com os consumidores em um mundo sem bússolas, em constante mutação? Lidar com dilemas desse quilate, óbvio, não é uma tarefa simples. Mas algumas pistas para a solução de problemas desse tipo podem ser encontradas em um lugar insólito: em um divã, por exemplo. O psiquiatra e psicanalista Jorge Forbes, um dos introdutores das teorias de Jacques Lacan no Brasil, está convicto de que as empresas precisam fazer análise. Isso para que entendam as peculiaridades de uma época, na qual as hierarquias rígidas e verticalizadas fazem pouco — ou nenhum — sentido. “As relações humanas, sob o ponto de vista psicanalítico, não são mais intermediadas por um padrão estável”, diz Forbes. “E isso torna todos mais frágeis. Por isso, as pessoas estão cada vez mais sujeitas a passar por verdadeiros curtos-circuitos”. Daí, observa o médico, a explicação para a ocorrência de tumultos variados, o que inclui desde manifestações populares ao aumento de crimes provocados por reações intempestivas.


O senhor tem observado a ocorrência frequente de crimes hediondos, envolvendo pessoas comuns. O que está acontecendo em nossa sociedade?
Temos de constatar algo óbvio. Um tipo específico de crime, até recentemente raro, está se tornando cada vez mais comum, quase habitual. Presenciamos uma verdadeira epidemia desse gênero de crimes, marcado por linchamentos, pessoas picadas (zeladores e maridos), além de pais, mães e filhos assassinados uns pelos outros. Não estou dizendo que vivemos em uma época em que acontecem mais crimes. Não é isso. Mas é inegável que há um aumento de um problema específico. Casos que antes eram raros, hoje se tornaram mais comuns.

O que distingue esses crimes?
Todos são hediondos e foram praticados por pessoas comuns, sem antecedentes criminais, sem ficha corrida.

Por isso, surpreendem?
Exato. São inusitados, no sentido específico da palavra — ou seja, parecem fora de lugar. As pessoas que os cometeram são muito semelhantes àquelas que nunca fizeram nada parecido. Esse tipo de situação coloca todos em alerta. Deixa as pessoas angustiadas. Elas dizem: “Me explique qual a diferença entre mim e esses criminosos, porque eu quero ter certeza de que nunca faria algo parecido”. O ser humano está se defrontando com um aspecto assustador da sua condição: somos bichos perigosos. E a nossa época favorece essa percepção.

Por quê? Qual a influência desta época?
O homem reage de forma diferente conforme a época em que vive. Aliás, nós chamamos de época a forma como o homem fixa a interação com os outros homens e com o ambiente em determinado espaço de tempo. Nós passamos do período moderno para o pós-moderno. As mudanças foram expressivas.

Qual a diferença entre esses dois períodos?
No moderno, sob o ponto de vista psicanalítico, as relação humanas eram intermediadas por um padrão estável. Na família, havia a lei do pai. Nas empresas, os funcionários seguiam a lei do chefe. Na sociedade civil, vigoravam as leias da pátria. A relação era piramidal. Ela estabelecia o certo e o errado e as pessoas criavam uma identidade a partir desse padrão.

O que ocorre na sociedade pós-modernidade?
O laço social muda. Ele deixa de ser único, hierarquizado. O padrão até existe, mas se torna multifacetado. Há uma multiplicidade de padrões. Na sociedade pós-moderna, que também é chamada de “rede”, as relações humanas também são mais diretas. Elas são menos intermediadas. Não passam por um elemento comum de reconhecimento, como o pai, o chefe e a pátria. Essas novas relações tendem a ter uma intensidade maior, mas sofrem rupturas de maneira muito mais rápida. O chamado “deletar”, utilizado no computador, passa a ser aplicado nas relações pessoais. As pessoas se “deletam” o tempo todo. Hoje, são próximas. Amanhã, acabou. Não estou dizendo que isso vai ficar assim. Eu defendo a ideia de que estamos vivendo um momento de passagem.

E o que a época tem a ver com os crimes inesperados?
Esse novo mundo tem uma característica importante. Ele cria uma relação afetiva sujeita a curtos-circuitos.

Como assim?
Antes, havia um circuito pactuado, com o pai, o chefe e a pátria, em que você tinha maneiras de se relacionar e até de brigar. Agora, não. Os padrões são menos evidentes. E, de repente, uma pessoa entra em curto-circuito e pode cometer uma atrocidade. O que é uma surpresa até mesmo para ela. Repito: com isso, não quero justificar e nem diminuir responsabilidade dos criminosos por seus atos. É justamente o contrário. Como vivemos em uma sociedade que passou por uma desregulamentação, que não tem mais uma norma clara, temos de aumentar o botão da responsabilidade subjetiva. É bom que nos assustemos com esses crimes, porque, sim, nós somos parecidos com os criminosos. Qualquer pessoa está fragilizada e pode ter reações intempestivas.

O senhor fala que vivemos em um mundo sem bússolas. Faltam valores?
Sim, os valores têm tudo a ver com isso. Na verdade, estamos em um período de mudança de valores. Fomos criados com base em valores externos. Nesse ponto, concordo com Luc Ferry [filósofo francês]. Ele diz que o homem ocidental não morre mais por grandes ideais, mas morre pelas pessoas que lhe são próximas. É mais sensível à família, ao amigo, à namorada. O que existe é uma responsabilidade menos heroica. A amizade toma o lugar da admiração.

Por que as pessoas estariam dispostas a morrer?
A pergunta é por que, ou por quem, eu me sacrifico. A palavra sacrifício tem a mesma base etimológica do termo sagrado. Aquilo que é sagrado para mim são as pessoas mais próximas. Aquelas que dividem um espaço tangível na minha experiência vital: meu irmão, meu filho, minha mãe, meu professor. Na época moderna, por ser vertical, nós admirávamos pessoas como Winston Churchill, John Kennedy, Juscelino Kubitschek. Admirávamos os grandes homens. Se bem que é verdade que o Brasil nunca admirou muito ninguém. O brasileiro nunca se tomou muito a sério, o que faz com que este seja um a país pós-moderno por excelência.

Essa mudança na forma de admirar também altera a atitude das pessoas?
Sim. As pessoas, principalmente com mais de 40 anos, mediam as suas atitudes para saber se elas estavam mais próximas ou distantes da pessoa admirada. Se você educar um menino do século 21 a partir desses moldes, ele vai achar graça. O mundo de hoje não tem lugar para esse tipo de admiração vertical e distante.

Como as empresas entram nesse cenário?
Mal, mal, muito mal. Elas cometem erros básicos. Ainda acham, por exemplo, que a amizade pode ser uma coisa perigosa. Na verdade, é o contrário. Como vimos, ela é um valor fundamental nesta época. Antes, quando você indicava uma pessoa para um posto no trabalho, dizia: “Ele é um cara bom e não porque é meu amigo”. Hoje, as pessoas dizem: “Ele é bom e, além do mais, é meu amigo”. Não há problema nessa relação de amizade e nem todas as empresas perceberam essa mudança como parte de uma alteração maior. Hoje, como eu disse, vivemos em período mais flexível, com menor padronização. Por isso, ele se torna incompleto. A subjetividade surge como um recurso importante para completar este mundo. Daí, a importância dada à amizade. Este momento que vivemos é muito mais da razão sensível do que da razão asséptica.

Quais os outros problemas das empresas?
Elas tentam criar uma imagem de meninas bem comportadas de uma forma equivocada. É por isso que os seus princípios — missões, valores e códigos de ética — são genéricos. Todos dizem que se trata de uma companhia sustentável, que respeita a competição ética, além dos funcionários e do meio ambiente... Esses documentos corporativos usam termos padronizados. Assim, todos parecem iguais. Mas isso dá uma impressão de falsidade. Depois, os executivos perguntam: “Por que não temos aderência? Por que perdemos tantos funcionários?”. Ora, quem acredita nesse tipo de coisa? Ninguém. Nem eles mesmos.

O que fazer? Como melhorar esses códigos de ética?
Estamos em um mundo novo, com novos sintomas, mas utilizando velhos remédios. Essa é a pior coisa a ser feita. Você vai dormir tranquilo, achando que está medicado, mas é o contrário. O problema continua lá e só está aumentando. As empresas devem falar mais ao desejo e menos à necessidade das pessoas. Elas têm de dar menos valor às histórias gloriosas e acentuar as histórias singulares. Os códigos de ética têm de ser mais parecidos com pactos, nos quais os funcionários vejam representado o mundo atual e não o mundo anterior, que era de caráter disciplinador.

As empresas precisam ir para o divã?
Sim. Eu concordo com o jornalista Zuenir Ventura. Ele disse recentemente que a sociologia não dará mais conta da nossa sociedade. A psicanálise, por sua vez, é uma teoria mais forte para entender a época atual. Nós temos uma prática bastante consistente e estabelecida conceitualmente para não nos apavorarmos diante do mundo incompleto. Inconsciente, aliás, quer dizer aquilo que eu não sei. O mundo de hoje funciona através de mecanismos incompletos.

Quais os outros erros das empresas?
Vejo que, às vezes, as empresas não entendem qual é o produto que realmente têm. O iPhone, por exemplo, não foi exposto por Steve Jobs como uma máquina. Ele foi apresentado ao mundo como uma interface. Com isso, deixou de ser um objeto de consumo. Ele se tornou uma referência cultural. Uma empresa não sobreviverá por muito tempo se não for uma editora de cultura. E não estou falando de patrocínio de cultura. Isso é outra coisa. As empresas têm de descobrir qual é a maneira que os seus produtos alteram o contexto de nossas vidas. É isso o que devem enfatizar.

O senhor disse que o software criado por Freud não dá mais conta da sociedade. Isso também tem a ver com a pós-modernidade?
Sim. Freud criou um software maravilhoso. Muito melhor do que o do Bill Gates. Pelo menos, durou cem anos. Ele precisava entender de que maneira o homem estava articulado com o mundo. Captou a estrutura da organização humana da sua época. Percebeu que ela era piramidal. Colocou a mãe, do ponto de vista metafórico, como aquilo que quero alcançar. E colocou o pai como o percurso. Tudo isso com uma simplicidade inacreditável. Ele nos convenceu de que éramos edípicos, que a verdade humana era edípica. Agora, isso mudou.

Como?
Antes, eu buscava, na minha condução analítica, interpretar a posição edípica das pessoas. Com isso, elas ficavam sabendo mais de si mesmas. Hoje, essa passagem também existe na análise, mas há algo mais importante: tentar saber agir frente aquilo que não se compreende. Não vivemos mais em uma sociedade iluminista. Está é uma sociedade que funciona por meio de monólogos articulados e não de diálogos.

O senhor pode citar um exemplo?
Nas manifestações de rua do ano passado, todos ficaram loucos para entender que diabo era aquilo. E não tem nada para entender. Aquilo era um diabo mesmo. Era tudo multifacetado. Não havia uma bandeira de luta. Não adianta tentar entender aquelas manifestações como os protestos de 1968. Aliás, hoje, as pessoas não perguntam mais se os outros estão compreendendo os seus pontos de vista. Elas perguntam se aquilo que faz sentido para mim, também faz para você. E não se trata do mesmo sentido para ambos. Daí o surgimento de termos como “tá ligado?”. Ele questiona se houve um sentido compartido. Não se existiu uma significação comum. É isso o que está na essência da chamada sociedade viral. As empresas também não sabem trabalhar nesse ambiente. Estão reagindo e insistindo com modelos do mundo anterior porque se sentem mais seguras. Ficam inseguras quando se tira o padrão. Elas adotam palavras do mundo pós-moderno e agem como antes. Precisam fazer essa passagem paradigmática.

Mas as manifestações de 2013 não mostram que as pessoas buscavam uma liderança? Não havia um anseio pela velha verticalização?
Só conseguimos entender a organização por meio da figura do líder, aquele que conduz uma série de pessoas que dão a ele esse papel. Esse é o modelo anterior. O novo modelo de líder não é esse. É de uma pessoa que cause em você mais um desejo e menos que explique para você como lidar com uma necessidade. Observe, durante os protestos, o governo tentou responder àquelas pessoas por meio do discurso da necessidade. Ele dizia: “Ah, vocês querem que o preço das passagens de ônibus diminua? Está bem”. Mas não era isso que estava em jogo.

E como o governo deveria responder?
Mas a questão é justamente essa. Não se trata de responder. É preciso interagir. Nós ainda estamos presos a modelos antigos. Observamos um problema e tentamos encontrar uma solução. Não é isso. Neste caso, é interessante observar como as mulheres agem. Elas são muito mais pós-modernas do que os homens. Quando uma mulher traz um problema, o homem já pensa em sugerir uma solução. Diz: “Ligue para o marceneiro, para o encanador, faça isso, faça aquilo”. Mas ela não quer uma solução. Ela quer expor o problema. Estamos agindo como homens que não conseguem lidar com a queixa feminina. A pós-modernidade tem um quê de queixa feminina. Ela não tem, necessariamente, um objeto definido. Com ela, muitas vezes, o mais importante é interagir. Não solucionar.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Winnicott - Conceitos

Vida (elipses) - Contardo Calligaris


"Das várias formas possíveis de infelicidade, me parece mais aflitiva não é necessariamente a que mais dói. Muito mais trágico me parece o destino de quem atravessa a vida sem se molhar, como se os efeitos (felizes ou nefastos) escorressem sobre a pele como água sobre as plumas de um pato. Com seus altos e baixos, imagine nossa vida como uma breve passagem por um circuito de montanhas- russas. Quem atravessasse a experiência anestesiado, sem gritos, pavor e risos, teria jogado fora o dinheiro do bilhete. Tenho a ambição, ao contrário, de ajudar meus pacientes a viver de tal forma que, chegando o fim, eles possam dizer-se que a corrida foi boa".
Contardo Calligaris

Casal - Flavio Giokovate


Os melhores amigos são aqueles em quem confiamos a ponto de serem depositários dos nossos segredos. Nosso par sentimental deve ser um deles.

Sem que haja confiança para que se possa partilhar os mais íntimos segredos, não cabe dizer que estamos diante de um vínculo afetivo forte.

Quando me perguntam qual a importância do sexo na vida dos casais sempre respondo que ele não tem tanta importância desde que vá muito bem!

As afinidades de caráter adequadas para que um relacionamento seja delicado e sem brigas têm a ver com competência para lidar com frustrações.

A autocrítica é pouco praticada porque ela dói. Quem não tiver coragem de enfrentar essa dor não avançará e dificilmente será feliz no amor.

Criaturas autoritárias só "combinam" com aquelas que precisam abrir mão da individualidade em favor do aconchego: são alianças entre opostos.

Se uma pessoa combinar mal com outra bem parecida com ela mesma é hora de deixar de lado as acusações, virar o dedo para si e da autocrítica.

Afinidades de temperamento e caráter também acontecem quando os 2 são autoritários e intolerantes. Nesses casos, as brigas são uma constante.

Pessoas semelhantes a nós são aquelas com as quais temos afinidade de caráter, gostos e interesses. Nesses casos, as concessões são mínimas.

Muitos querem o pleno encaixe amoroso e se dispõem a fazer mínimas concessões à sua individualidade. Deveriam buscar parceiros semelhantes.

Outros preferem o pleno exercício da individualidade e não estão dispostos a fazer nenhum tipo de concessão. O sensato seria não se casarem.[...]

Flávio Gikovati

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Conheça diferenças entre a depressão e o estado de melancolia - Marcos Munhoz


Melancolia deve ser encarada como o estágio mais extremo da depressão. 
Medicamentos não devem ser encarados como a única alternativa para o tratamento.

O cineasta dinamarquês Lars von Trier trouxe à cena a melancolia, que estava escondida num canto escuro da casa, encoberta pelo termo médico "depressão".

Seu novo filme é um retrato desse estado de ânimo em todos os aspectos: dos psiquiátricos (sintomas da depressão) aos filosóficos (a tristeza como consciência da solidão humana no universo). 

O tema está na ordem do dia, afirma o psicólogo Marco Antônio Rotta Teixeira, que faz sua tese sobre melancolia e depressão na tradição do pensamento ocidental.
"Mas a melancolia vem sendo falada com a roupa da depressão." O atual conceito médico da depressão usa dados mensuráveis para definir esse estado, como tempo de duração de sintomas. 

Para a psicanálise, a melancolia é o estágio mais extremo da depressão. A apatia do melancólico é fruto da perda de algo ou de alguém, que precisa ser compreendida e superada, em um processo semelhante ao do luto.

A diferença é que, enquanto no luto a perda é compreendida, na melancolia ela é inconsciente: não se sabe o que foi perdido. "Nada atrai o melancólico, a não ser o próprio sofrimento. Ele está absorvido nele mesmo", diz Sandra Edler, autora de "Luto e Melancolia: À Sombra do Espetáculo" (Civilização Brasileira, R$ 19). 

A cultura atual conspira contra o melancólico, diz a psicanalista. "Se a pessoa perde algo, precisa se recolher, mas a vida a chama para um eterno desempenho, se não quiser perder espaço." É o que pensa, também, a psicóloga Ana Cleide Moreira, autora de "Clínica da Melancolia" (Escuta, R$ 37). "Se não temos tempo nem de pensar, não percebemos a perda de algo importante."

Nesse caso, é mais fácil aliviar o sofrimento com remédios. "A sociedade não assimila os estados de tristeza. Precisamos eliminá-los rapidamente para continuar trabalhando", diz Teixeira. Essa crítica não significa, ressalta ele, fazer apologia da tristeza ou rejeitar as chances dadas pela ciência para lidar com ela. "As pessoas falam que há um aumento dos casos de depressão, mas o que as pesquisas mostram é um aumento na prescrição de antidepressivos", diz o psiquiatra Ricardo Moreno, do Hospital das Clínicas de São Paulo. 

Mas psiquiatras, psicanalistas e psicólogos concordam que drogas têm um papel importante. "Muitas vezes é necessário tratar a melancolia com remédios. Sem eles, alguns não conseguem nem chegar ao consultório", diz a psicanalista Sandra Edler.
Temperamento e gênios No filme de Trier, as referências aos sintomas de depressão são explícitas. Como na cena em que Justine (personagem baseada na experiência pessoal do cineasta) não consegue nem entrar no banho. Os clichês usados para abarcar a tristeza profunda também estão lá: noite, lua, sombras, noiva. É a retomada da concepção de melancolia como algo que tem uma manifestação doentia (a depressão), mas não é só isso, não pode ser explicado só pela ciência e transcende o indivíduo.

Mesmo sem dizer seu nome, as pessoas reconhecem o sentimento de melancolia. Está na hora em que você percebe não fazer parte da festa, no banzo da noite de domingo, na lembrança da morte. "A melancolia ganhou diferentes definições na história e até hoje é assim, dependendo de quem fala dela" diz Teixeira. 

Hipócrates (460-377 a.C.) a definiu como doença causada por acúmulo da bile negra, que resultaria no temperamento melancólico. O vocábulo vem do grego "melas" (negro) e "kholé" (bile). O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) levou o conceito para outro plano: a melancolia era uma característica da genialidade, associada ao conhecimento e à intelectualidade.
 O professor e crítico de arte Rodrigo Naves lembra que a associação entre genialidade e melancolia é de uma época em que o conceito de individualidade não existia. "A melancolia era uma deusa, que regia as artes liberais. Nessa noção, a pessoa é preenchida por algo que vem de fora, é regida por entidades, planetas", diz Naves. 

Na mitologia e na astrologia, é Saturno, deus do tempo, que devora seus filhos, que traz a morte. No filme de Trier, é o planeta que vem acabar com o mundo.
 "A grande ideia da melancolia é justamente a de embaralhar as fronteiras entre dois temperamentos que parecem opostos: o da pessoa deprimida e o da pessoa criativa", diz Frédéric René Guy Petitdemange, professor de História da Arte da Universidade Anhembi Morumbi.
 
Na semana passada, Petitdemange deu uma aula sobre a iconografia da melancolia na artedo Ocidente, baseada em uma exposição sobre esse tema realizada em Paris e Berlim, em 2006.

Para ele, a essência da melancolia -tristeza profunda ligada ao sentimento de vazio, à perda e à impossibilidade de encontrar sentido nos rituais sociais- não mudou. "A maneira de se discutir o tema pode mudar, mas são questões universais." 


bile negra - Edson Cruz



há manhãs quando
nem o cheiro
do café
o jornal aberto
sobre a mesa
o sorriso franco
da amada
o chamado doce
de meu filho
o latido amigo
do cachorro
o frescor florido
da jabuticabeira
o canto verde
das maritacas
o azul-celeste
de janeiro
suprem o oco
do corpo a corpo
com a vida
o sumo
desperdiçado
a dádiva
imerecida

Edson Cruz (Iheus, BA) é poeta, editor e revisor publicitário.