domingo, 27 de abril de 2014

Antropologia da pessoa - Christopher Bollas


"Talvez necessitemos de uma nova visão na psicanálise clínica, semelhante a uma antropologia da pessoa.Daríamos extrema atenção a todos os os objetos selecionados por um paciente e anotaríamos o uso que é dado a cada um deles. A literatura, os filmes e a música que a pessoa seleciona constituiriam uma parte tão valiosa do campo de trabalho quanto o sonho. Fotografias do interior da casa do analisando, álbuns narrando a historia da escolha dos objetos domésticos, histórias detalhadas de seus amores, amigos e inimigos poderiam ajudar em nosso esforço para seguir a pista do self verdadeiro."

(Bollas, Christopher, 1987. A sombra do objeto. Psicanálise do conhecido não pensando. Tradução de Rosa Maria Bergallo. Rio de Janeiro. Imago, 1992, p 31)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Mãe é quem se encarrega da sobrevivência da criança - Maria Rita Kehl


Para a psicanálise, o sentimento de “maternidade” é uma construção cultural. 

A equipe do Almanaque Brasil conversou com a ensaísta, poeta e mãe Maria Rita Kehl, doutora em Psicanálise pela PUC-SP e autora, entre outros livros, de A Mínima Diferença; Deslocamentos do Feminino; e Processos Primários (poemas). Rita diz que muitos podem ficar surpresos com a afirmação, mas do ponto de vista da criança “mãe é quem se encarrega até as últimas consequências da sobrevivência dela”. Portanto, “mãe” pode ser o pai, a avó ou qualquer um que a tenha encontrado abandonada.

O que é ser mãe?
Do ponto de vista da psicanálise, é uma construção cultural. Aquele amor puro, que vem espontaneamente, mas isso é consciente. Claro que você vai observar o macaco, o gato, seres adaptados à natureza. Os humanos são desadaptados, entre a natureza e nós, sempre tem linguagem. Cabrito, assim que nasce, sabe procurar a teta da cabra. E o bebê humano tem de ser conduzido ao seio. Também não é instintivo que a primeira coisa que a mulher deve fazer é levar o filho ao seio. Ela pode ficar beijando, ou pode sentir um estranhamento, como muita mãe sofre. Mas sofre porque a cultura diz que ela tem de sentir imenso amor.

Então, o que é a “maternidade”?
A mãe não precisa ser exatamente a mãe nata. Do ponto de vista da criança, mãe é quem se encarrega até as últimas consequências da sobrevivência dela.

Mas não há um instinto?
O instinto é a relação entre a necessidade e aquilo que vai satisfazer à necessidade. No animal, o objeto da necessidade já está dado pela natureza. O recém-nascido procura a teta da mãe. Tem uma relação com o objeto. Assim como fica logo em pé, sem que ninguém lhe ensine. Quando dizemos que o humano não tem instinto, não é que não tenha o chamado “instinto de sobrevivência”. Ele não tem essa relação inata entre a necessidade e o objeto que vai satisfazê-la. Por isso a criança pode ser alimentada por aquilo que não lhe convém. Ela aceita. O animal dificilmente aceita.

Há mães que nem queriam ser mães, mas sempre acabam cuidando, não?
Se você pegar uma geração mais tradicional, encontra adulto que diz: “Não sei por que minha mãe teve filhos.” Aquela não foi uma mãe feliz. Casou, e vieram os filhos. Você encontra a mãe funcional, que faz tudo como tarefa. O filho está sempre limpo, alimentado, mas ela virou um robô. Queria ser cantora, mas a carreira foi abortada. A situação não dá prazer ao filho. Porque a primeira indagação da criança é “como eu faço para ser amada”. Este é o sentido básico, aquilo que lhe faz inclusive achar que vale a pena lutar pela sua vida.

O bebê, nos primeiros meses, se confunde com a própria mãe, não?
Ele se diferencia aos poucos desse corpo, fonte de calor, alimento, acolhimento e gozo. É um pedaço dele até que haja o “eu”. É parecido com o apaixonamento amoroso, tal a perfeição do encontro, que termina um dia, senão seria um desastre. A sensação mais tarde, de você não estar só, de alguma coisa estar ligada a você, quase como uma extensão, é uma revivência desta vivência perdida, quando foi harmoniosa a relação mãe-filho. A separação é necessária. Mãe que nunca deixa faltar nada está reproduzindo uma criança psicótica, que nunca terá sua identidade separada da mãe. É preciso se deixar faltar. Faz parte de ser boa mãe.

Qual mãe tem mais possibilidade de ser feliz?
A maternidade é fonte de felicidade, mas não a única. Vivemos um momento interessante, ao mesmo tempo cruel, com o máximo de apelos para a mulher (o homem também) ir para o mundo. O destino não é mais ser “a rainha do lar”. Mas estamos numa sociedade 99% privatizada. Isso tem reflexo tremendo na vida, porque os filhos só têm um lugar onde estejam bem cuidados, o lar. A escola, para ser mais ou menos segura, também tem de ser privada. O mundo se oferece mas se recusa a partilhar os cuidados com os filhos. Não podem brincar na praça, atravessar a rua. A situação só seria prazerosa para a criança onde houvesse um mínimo de vida comunitária. Ela estaria na rua, na creche, no parquinho, no vizinho. Com meu primeiro filho, estava separada, então criei um rodízio com outras amigas separadas. Ficavam cinco crianças na casa de uma um dia, depois na casa da outra, cada manhã uma mãe dava aquele tempo cuidando das cinco, depois levava para a escola.

E essa mãe que não pode cuidar do filho e tem de cuidar de outros?
Essa figura brasileira, a empregada doméstica, isso é cruel. Ela começa a se apegar mais à criança que ela cuida, porque é mais valorizada pela sociedade. Existe um entendimento de que adolescência é fase de rebeldia… Mãe tem de aprender o tempo todo. Claro que os mais difíceis são os períodos de separação: desmamar, largar a fralda, ir à escola. A mãe vai perdendo controle, o filho vai perdendo o laço com a mãe. Todo período de crescimento é separação, não tem volta. A não ser em caso de neurose, aí pode regredir. A dificuldade na adolescência é o narcisismo dos pais. A filha quer ser como a mãe. Para o menino, o pai é ídolo. De repente, começa a ter algumas referências, ele fala “hum, meu pai falou aquilo, mas ele está errado”, quer dizer, há uma perda para os pais. Alguns agüentam tão pouco, que produzem a rebeldia. Em vez de dizer “puxa, meu filho está crescendo”, diz “não, você está errado”.

Até que ponto os pais devem compartilhar dificuldades com os filhos?
A gente deve evitar excessos. Tem mãe que faz confidência à filha sobre a vida conjugal, a filha acaba se envolvendo numa situação que não é com ela. A linha difícil aí é você não ter que esconder dos filhos, e saber qual é a realidade para aquela criança. Tenho um amigo, executivo, que começou a fazer uma tese. Ele tem carro do ano da empresa, direito a uma viagem por ano. Os filhos estão adorando. E ele está de licença, fazendo a tese, pensando em largar tudo, virar pesquisador. Ele diz “não tenho coragem, por causa dos filhos”. Eu digo, “cuidado, você vai cobrar deles esse sacrifício, ou eles vão descobrir que você foi infeliz por causa deles”. É o que chamo de privatização de todos os setores da vida, uma coisa perversa, está na publicidade, de que seus filhos têm direito a tudo. Nada tem a ver com educação, com criar seres humanos mais felizes, capazes de construir um mundo melhor. É só o interesse do mercado. E a gente embarca. Hoje temos uma mudança, com a história de casais homossexuais, que adotam filho: quem é o “pai”, a “mãe”? Há algo interessante, que é não dizer mais “o pai, a mãe”, mas “função materna” e “função paterna”. Claro que há pai e mãe, mas interessa saber a função. Isso não é de hoje: pais mais maternais, mães mais rígidas.

E a “produção independente”?
A mãe solteira vai ser sobrecarregada se não tiver apoio, amigos. Pode ficar excessivamente apegada ao filho. Não significa que não vá dar conta. O que acho legal é que o modelo de família burguesa deixe de ser referência forte. A gente inventa soluções. As primeiras gerações são mais sacrificadas, olhadas com olhar esquisito. A primeira geração de filhos de mães solteiras sofreu mais, assim como agora filhos de casais homossexuais.

Como é que Freud entra nessa história de “mãe”?
Como bom psicanalista, Freud nunca propõe o que uma coisa deve ser. Procura fazer uma leitura do que está sendo, e o que está dando errado. O que lançou de revolucionário foi dizer: o filho é o objeto erótico da mãe; e a mãe, o objeto erótico do filho. Isto, numa cultura em que a mãe estava sendo deserotizada. Ela só cumpria seu dever conjugal para conceber. Aquela santa, que nem tem órgãos sexuais. O filho, aquela pureza. Quando Freud disse aquilo, a família vitoriana nunca mais foi a mesma. Freud coloca o fato e o problema. Há um prazer e você tem de renunciar a ele. Quem tem de renunciar primeiro é a mãe. O complexo de Édipo mais grave é o dos pais. Se aguentam a onda, não segurar aquele corpinho cheiroso o tempo todo, esse corpinho vai se separando do nosso. Os pais são mais incestuosos do que os filhos.

E a mãe na maturidade nos dias de hoje?
A modernidade nos tirou tantas coisas, não? Tirou o amparo das comunidades, a doçura do mundo, um monte de ilusões. Mas abriu uma gama de possibilidades, única, na história da humanidade. Se a gente souber o que fazer com isso…
Fonte: http://www.almanaquebrasil.com.br/personalidades-cultura/10998-maria-rita-kehl.html

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Agonia e Sofrimento


"Considero importante para a situação clínica diferenciar agonia de sofrimento. Denomino agonia a situação de dor e angústia que atravessa a pessoa de tal maneira que ela a experimenta como algo eterno e, portanto, sem possibilidade de passagem. Trata-se de algo que interrompe a continuidade de si e a joga na experiência do infinito ruim. A pessoa vive uma aflição sem fim. A experiência do infinito ruim pode ser vivida do ponto de vista temporal mas também ser vivida do ponto de vista espacial quando, por exemplo, a pessoa se sente lançada para uma experiência de espaço sem fim, a experiência do infinito ruim coloca a pessoa em situações de dispersão de si.É a face do Outro, contemporâneo ou não, que possibilidade que o que seria agonia para alguém se torne sofrimento. Sofrimento é a possibilidade de viver uma dor física ou psíquica como passagem, isto é, uma experiência que se integra á constituição do sentido de vida da pessoa, de tal maneira que a vivência de infinito ruim torna-se travessia e revelação da condição humana. o sofrimento informa a pessoa sobre si mesma, sobre a condição humana e sobre as questões fundamentais da existência. ao vivermos uma experiência de sofrimento, portanto de passagem, se revela a cada um de nós algo de fundamental sobre a vida humana. Na agonia há um estancamento pois ocorre uma experiência sem devir ou construção de sentido. na situação clínica encontramos momentos em que o analisando busca o encontro com o analista como anseio da possibilidade de vir a sofrer. O sofrer é uma conquista ofertada pela relação com o Outro."

(Safra, Gilberto. Hermenêutica  na situação clinica - O desvelar da singularidade pelo idioma pessoal. p.92-93, São Paulo ,Edições Sobornost, 2006)

sábado, 19 de abril de 2014

Depressão: Do Patológico ao Humano Universal - Decio Gurfinkel


A depressão é uma vivência subjetiva da maior importância na vida dos homens. A contribuição psicanalítica nesse campo é bastante variada; nesta aproximação introdutória, será enfatizada a passagem que se deu, ao longo dos estudos psicanalíticos, do patológico ao universal. Ou seja, partindo do estudo das diversas formas de adoecimento depressivo, chegou-se à compreensão de uma depressividade própria do humano.
O ponto de partida dessa jornada encontra-se, mais uma vez, na obra de Freud. Seu brilhante artigo “Luto e melancolia” nos fornece a base da compreensão da melancolia, forma grave de depressão caracterizada por intensa prostração e total desinteresse pelo mundo e pela vida. Um traço distintivo dessa forma clínica é uma gigantesca autodepreciação que pode chegar às raias do delírio – o melancólico trata a si mesmo como responsável por todos os males que o cercam –, e que gera um enigma: por que tanta falta de amor-próprio, ou melhor, por que tanto auto-ódio?
A resposta encontrada por Freud é que se trata de uma inversão encobridora, já que o ódio é na verdade dirigido a outra pessoa e não a si mesmo. Por um misterioso processo psíquico inconsciente, esse alguém se aloja, como um fantasma, no mundo interno do sujeito, e agora é objeto de um ódio sem fim, à maneira de um saco de pancadas. Ora, esse outro-dentro-de-mim já não está mais presente no mundo externo; daí a descoberta fundamental de que a depressão está intimamente ligada à perda de um outro significativo para o sujeito (já que ninguém odeia alguém que lhe é indiferente). Essa perda pode ter sido sofrida pela pessoa, mas é, em geral, “produzida” por ela; o melancólico põe a perder aquilo que ama, e em seguida adoece de um ódio imenso que ataca o outro implacavelmente em seu mundo interno. A perda sofrida pode se referir não apenas a uma pessoa, mas também a um ideal, a uma posição etc.
Mas a depressão pode ter diversas outras formas, menos graves e radicais. É o que por vezes se denomina “depressões neuróticas”, já que a melancolia chegou a ser considerada uma “depressão psicótica”, ou ainda uma forma de “neurose narcísica”. O fato é que as depressões são muito frequentes e estão comumente associadas às chamadas psiconeuroses (histeria, neurose obsessiva e fobias), além das diversas formas de neuroses atuais. É difícil precisar os mecanismos que presidem em todos esses casos, mas podemos levantar alguns traços comuns: a vivência crônica da frustração, determinada por uma conjunção de fatores externos e internos, e a correlação desta com a perda, o desengano ou a decepção na relação com o outro. Essas formas de depressão são certamente muito comuns, a ponto de alguns autores considerarem a depressão como a doença do nosso tempo; afinal, não é difícil reconhecermos no nosso modo de vida atual fatores sociais que aumentam muito a possibilidade de eclosões depressivas: a extrema exigência de desempenho combinada com a redução das possibilidades de realização, a degradação geral da qualidade das relações humanas, o ritmo de vida veloz que exaure as energias, entre outros.
A depressão pós-Freud
A psicanálise pós-freudiana tem se desenvolvido em inúmeras direções, e novas formas de depressão têm sido descritas. Dentre elas, destacam-se aquelas que eu agruparia sob a rubrica de “depressões brancas”. Nelas, o que impera é o vazio, o oco, o sem sentido. Assim, temos a chamada “depressão essencial” (descrita por Pierre Marty), muito sutil e perigosa, que passa facilmente despercebida. Nela, dão-se um desaparecimento total de todo o interesse por si ou pelo mundo e uma vida automática e repetitiva, sem afetos, arroubos, fantasias ou sonhos, mas também não se observam sintomas produtivos, como as queixas constantes, a autorrecriminação, o sofrimento manifesto ou a angústia. Há apenas o vazio. Um dos perigos maiores dessa “crise sem ruído” é que, se ela perdura, pode abrir caminho para adoecimentos somáticos graves, tais como doenças autoimunes, infecções galopantes e neoplasias. Essa foi uma importante descoberta da psicossomática psicanalítica, que guarda importantes consequências para o campo da saúde pública. As “depressões esquizoides” (descritas por Winnicott) caracterizam-se por intensas vivências de vazio psíquico, acompanhadas de um sentimento de futilidade e de que a vida não vale a pena; nelas predominam ameaças de desintegração, cisões, despersonalização, sentimentos de irrealidade e defesas psicóticas. As pessoas esquizoides foram gravemente atingidas em etapas precoces de seu desenvolvimento emocional, o que não lhes facultou a construção da capacidade humana fundamental de estabelecer um contato significativo e mutuamente enriquecedor com o meio circundante. As trocas não puderam se estabelecer, e entre o eu e o outro se formou um enorme abismo. Outros autores descreveram também depressões do tipo “branco”, tais como o “complexo da mãe morta”, de André Green, e o “estado deprimido”, de Pierre Fédida (ou seja, a patologia do vazio, a doença do tempo congelado na imobilidade do corpo), enriquecendo sobremaneira o alcance da compreensão e do trabalho dos psicanalistas contemporâneos.
Fora do âmbito patológico
Mas a principal contribuição da psicanálise para o estudo da depressão foi tirá-la do âmbito exclusivamente patológico. Ao colocar a perda no centro da questão depressiva, Freud já de saída aproximou a depressão do fenômeno universal do luto; todos nós temos, de alguma maneira, de aprender a lidar com as perdas que fazem necessariamente parte do viver. O caráter efêmero de tudo o que é vivo – do próprio corpo, das capacidades físicas e psíquicas, dos entes queridos, dos relacionamentos, dos ideais etc. – coloca-nos em uma condição trágica e diante do constante desafio de reconstruir a vida a partir das cinzas, ou dos restos de lutos maiores ou menores que inevitavelmente enfrentamos. Os melancólicos, em sua doença, são paradoxalmente sábios e revelam uma “lucidez louca”: eles denunciam aos quatro ventos a pequenez, o egoísmo, a fragilidade e a mesquinhez do eu que em geral escondemos de nós mesmos. É desconcertante perceber a grande sensibilidade artística dos melancólicos, aliada à vocação de revelar a face verdadeira e insuportável de nossos valores; daí muitos artistas, tais como Dostoiévski, Virginia Woolf e Marguerite Duras, terem sofrido desse mal.
Melanie Klein foi a psicanalista que pela primeira vez teorizou sobre a dimensão universal e não patológica da depressão. Dando prosseguimento aos trabalhos de Freud e Abraham, ela propôs que todos passamos, em nossa infância precoce, por uma “posição depressiva” – à qual retornamos continuamente ao longo da vida. Nessa “posição”, tomamos contato e consciência da enorme ambivalência afetiva que nos habita: amamos e odiamos, na mesma medida, aqueles que nos estão próximos, o que comporta enormes implicações emocionais. A dor de se perceber tendo atacado e machucado um objeto amado não é facilmente tolerada; a tendência mais primitiva do ser humano é dividir o mundo de maneira maniqueísta entre “bons” e “maus”, a fim de evitar o conflito da ambivalência. Na posição depressiva, surge a culpa pelos impulsos agressivos, assim como um sentido de responsabilidade e de preocupação com o outro; isso implica um considerável nível de maturidade emocional e representa uma importante conquista. Ora, as patologias da depressão – e particularmente a psicose maníaco-depressiva – devem-se, para Klein, a uma impossibilidade de mergulhar na posição depressiva.
Um valor positivo da depressão
Assim, começamos a compreender o valor positivo da depressão e, mais precisamente, a importância crucial da depressividade do humano.
Todos passamos ao longo da vida por diversas crises de humor depressivo, motivadas por uma conjunção de fatores externos ou internos. Nelas, somos confrontados com nossas próprias forças destrutivas interiores e com a ameaça de perda que está inevitavelmente a elas associada, já que em diversas ocasiões contribuímos para “pôr a perder” o que mais amamos. Os afetos que nesses momentos surgem são a tristeza, o pesar e a preocupação; a energia psíquica não está disponível para grandes empreitadas no mundo, já que ela está em grande parte absorvida por um “balanço” interior e por um reordenamento de forças e recursos próprios. Em geral, quando a estrutura psíquica de quem vive uma crise depressiva é suficientemente forte, a pessoa é capaz de suportar a dor depressiva e concluir a travessia a contento, sendo recompensada por isso.
O resultado é uma reconquista da confiança em si mesmo e um reposicionamento mais consistente no relacionamento com os outros, levando-se em conta a totalidade dos impulsos e desejos envolvidos e a situação externa. Conforme o “balanço” finaliza, reabrimos nossas portas para o mundo em uma condição mais favorável, e certamente mais fortalecidos.
No entanto, esse desfecho nem sempre é possível, e nesses casos uma patologia depressiva sobrevém. O principal motivo reside em uma fragilidade psíquica estrutural, que impede que a travessia seja bem-sucedida; a capacidade de recuperar o “bom humor” não estava bem estabelecida. A atitude humorística é, para Freud, um dos maiores tesouros dos homens, já que lhes permite afirmar a força possível de seu eu, fazendo frente aos dissabores, frustrações e perdas que são inevitáveis, sem cair na doença. A doença, nesse caso, seria ou a saída maníaca – que evita a vivência depressiva a qualquer custo, afirmando de modo delirante uma onipotência que o eu de fato não tem –, ou a queda no estado deprimido, no qual a “loucura da lucidez” abraça com todas as forças a causa da insignificância do eu e sucumbe nas águas profundas e negras do sem sentido.
A terapêutica psicanalítica está profundamente comprometida com a problemática da depressão, seja em seu esforço contínuo de ajudar os sujeitos deprimidos a encontrar saídas de seu sofrimento tão violento, seja ao buscar, em cada tratamento, um enriquecimento por meio do mergulho na depressividade universal do humano. O humor depressivo possibilita-nos um contato mais profundo e real com nossos afetos, com nosso mundo interno e, por decorrência, com os outros e com o mundo externo. Para a psicanálise, só faz sentido pensar a depressão com base em sua dupla face: tanto como queda no vazio quanto como contínuo trabalho de renascimento a partir das cinzas.
Decio Gurfinkel  psicanalista, membro do Departamento de Psicanálise e professor dos Cursos de Psicossomática e de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

A palavra



A palavra quando é criação desnuda. 
A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser. 
A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se.

Octavio Paz

domingo, 13 de abril de 2014

A solidão Amiga - Rubem Alves

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…
Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.
Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxoleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis“. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?“ Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.“ Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.
Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga… Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.!“

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro.“ Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia… Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:
“Ó solidão! Solidão, meu lar!… Tua voz – ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.
Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.“
E o Vinícius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa – garrafa, prato, facão – era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (…) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quando aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (…) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.“
Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita.“ É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.
E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:
“…Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos… Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília…“
Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.
O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão…
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada ) dos outros, em celebrações cheias de risos… Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.


Rubem Alves teólogo, filósofo e psicanalista brasileiro. Rubem Azevedo Alves nasceu em 1933, Boa Esperança, Minas Gerais. Famoso cronista.

Decidir - Cora Coralina


Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça. 
Digo o que penso, com esperança. 
Penso no que faço, com fé. 
Faço o que devo fazer, com amor. 
Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende. 
Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir.

Cora Coralina

terça-feira, 8 de abril de 2014

Quando falar é agredir - Flávio Giokovate


Há opiniões discrepantes em relação às pessoas que são muito cuidadosas e delicadas quando expressam seu ponto de vista, especialmente sobre temas polêmicos.
Alguns as julgam falsas e hipócritas, pois escolhem as palavras com o intuito de agradar o interlocutor. Resultado: desconfia-se de sua sinceridade.
Outros, porém, pensam de forma diferente. Acham que são espíritos mais atentos, preocupados em não ser invasivos e grosseiros. Tomam cuidado, sim, porque não gostariam, em hipótese alguma, de magoar a pessoa com a qual estão conversando.

Pode parecer também que o tipo mais espontâneo e sincero é mais veemente na defesa de suas ideias, enquanto o mais delicado tem menos interesse em fazer prevalecer seu ponto de vista, ficando sempre “em cima do muro”.
Embora muitas vezes tais considerações sejam verdadeiras, penso que não é tão simples fazer a avaliação da conduta mais adequada. Esse assunto não só envolve questões morais, mas diz respeito à eficácia da comunicação entre as pessoas.
Sob o aspecto moral, a preocupação com o outro se impõe sempre. Ser honestos e sinceros não nos dá o direito de dizer tudo que pensamos. A franqueza pode ser prejudicial.
Por exemplo, se uma pessoa, ao encontrar um amigo de rosto abatido, falar: “Puxa, como você está pálido! Até parece doente”, estará sendo sincera, mas tremendamente insensível.
A verdade não subtrai o caráter agressivo da afirmação; pelo contrário o acentua.
Na prática, acredito que uma boa forma de avaliar uma ação é pelo resultado. Se o efeito for destrutivo, a ação será nociva, independentemente da “boa intenção” daquele que a praticou.
A tese de que devemos falar tudo o que pensamos é ainda mais indefensável quando o objetivo é facilitar o entendimento e a comunicação.
Indiscutivelmente o ser humano é vaidoso e, se sentir-se ofendido por alguma palavra ou atitude do outro, acabará desenvolvendo uma postura negativa em relação a essa pessoa.
Se alguém iniciar uma frase com expressões do tipo “Você não percebe nada”, “Qualquer idiota é capaz de compreender que…”, elas provocarão uma espécie de surdez imediata.
Não ouviremos o resto do argumento ou então o ouviremos com o intuito de encontrar bons raciocínios para derrubá-lo.
Quando nos expressamos, é preciso ter extremo cuidado com as palavras, pois elas atingem positiva ou negativamente o interlocutor. No processo de comunicação, a recepção é tão importante quanto a emissão dos sinais. Temos que nos lembrar disso se quisermos agir de modo construtivo para nós e para os demais.
O descaso pelo “receptor” indica desrespeito moral e agressividade (voluntária ou não). Há pessoas que só têm interesse em mostrar como são perspicazes e brilhantes. Querem ficar por cima. Querem ensinar e não aprender. Despertam raiva, não admiração, pois a arte de seduzir caminha exatamente na direção oposta.
Um homem (ou uma mulher) atraente faz o outro se sentir bonito, legal e inteligente. Prefere dar atenção a repetir o tempo todo “Como sou bárbaro e maravilhoso”.
Qual a pessoa que gosta de se aproximar de alguém cujo objetivo principal é a autopromoção constante? Quem atura discursos intermináveis baseados num narcisismo oco? Praticamente ninguém.
O descaso pelo interlocutor é, a meu ver, fruto de um individualismo acirrado e oculta o desejo inconsciente de se dar mal na vida.
Flávio Gikovate

É preciso não esquecer nada - Cecília Meireles


É preciso não esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta 
nem o céu de sempre. 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, 
o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que é preciso esquecer é o dia
carregado de atos, 
a ideia de recompensa e de glória. 

O que é preciso é ser
como se já não fôssemos, 
vigiados pelos próprios olhos severos conosco,

pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

segunda-feira, 7 de abril de 2014

As Razões do Amor - Rubem Alves


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa: "A rosa não tem "porquês". Ela floresce porque floresce."

Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo."
"Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra."

"Amor é estado de graça e com amor não se paga."

Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais.Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. 

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..."

Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.

Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar...

Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.

Variações sobre a impossível pergunta:

"Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles)

Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam.

Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.

Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo..."

Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...


Autor: Rubem Alves teólogo, filósofo e psicanalista brasileiro. Rubem Azevedo Alves nasceu em 1933, Boa Esperança, Minas Gerais. Famoso cronista.
Fonte: Crônica publicada no Correio Popular; Campinas; em 14/05/92 

Começo do mundo



teus olhos a ser os meus
espelho a plantar alma
no meu corpo

as paisagens de você
preenchiam as minhas aflições de não-ser
ainda

gerando-me de novo.

no começo do mundo

Própria autoria, 31.05.2013 

Green desvenda articulações entre o narcisismo e a pulsão de morte



Prefácio: O narcisismo, ontem e hoje ................................................... 9

I. TEORIA DO NARCISISMO......................................................... 31

1. Um, outro, neutro: valores narcisistas do mesmo ..................... 33

2. O narcisismo primário: estrutura ou estado?............................. 87

3. A angústia e o narcisismo....................................................... 143


II. FORMAS NARCISISTAS ............................................................ 187


4. O narcisismo moral................................................................... 189

5. O gênero neutro...................................................................... 223

6. A mãe morta............................................................................. 239


Posfácio: O Eu, mortal-imortal ........................................................ 275



André Green vem se destacando como um dos teóricos mais importantes do pensamento psicanalítico. Na década de 1970, sua polêmica com o pensamento de Lacan levou-o a escrever O discurso vivo - uma teoria psicanalítica do afeto, etapa importante do percurso de suas reflexões. Aí, apesar de reconhecer os méritos de Lacan e a influência deste em seu pensamento, ressalta que considerar o inconsciente estruturado como uma linguagem era uma mutilação do percurso freudiano pela exclusão da questão do afeto.


Muito da riqueza de seus textos deve-se à forma como ele os constrói: aponta de saída suas questões, deixando-as formarem um vivo e consistente desenho tanto no campo clínico como no teórico. Costuma convocar vários autores sobre os temas que trabalha, apontando tanto os pontos de contato como as diferenças. Assim, no rastro de um pensamento que vai buscando se constituir como próprio no contato com outros pensamentos, temos a satisfação de poder conhecer a rica bibliografia de que se serve através de pequenas sínteses e indicações. Não dispensa também a exegese da obra de Freud, trazendo sempre os meandros e as ambiguidades do pensamento deste que considera ainda o mais rigoroso e coerente de todos os autores psicanalistas.

É este veio que percorre esta excelente coletânea que reúne artigos de 1976 a 1982 sobre a questão do narcisismo. Esse conceito surgiu no âmbito psicanalítico em Para introduzir o narcisismo, escrito por Freud em 1914. Após um vacilante e rico percurso, Freud deixa-o de lado quando formula, por volta de 1920, sua segunda teoria pulsional, que postula as pulsões de vida e as pulsões de morte como as forças conflitantes na vida psíquica.

O narcisismo constitui o eixo da reflexão teórica de Green. Ele diz "haver uma articulação necessária entre o narcisismo e a pulsão de morte da qual Freud não se ocupou e que ele nos deixou para descobrir" (p. 14). Os artigos reunidos têm por objetivo pensar essas relações, conforme expõe no longo prefácio no qual faz uma espécie de alinhavo histórico-conceitual das problemáticas em torno do narcisismo e que é seguido de duas partes, uma sobre teoria e outra sobre formas narcísicas, além de um posfácio. Green propõe chamar a pulsão de morte de narcisismo negativo, duplo sombrio do eu unitário do narcisismo positivo, de modo que todo o investimento de objeto, assim como do eu, implicam seu duplo invertido que visa a um retorno regressivo ao ponto zero, que se manifesta clinicamente pelo vazio. É pela complexidade dos problemas da clínica que o lugar que ocupa o narcisismo se revela dos mais importantes e faz Green distinguir suas relações com diferentes formas clínicas. Mas é sobre os chamados casos limites que sua atenção se focaliza, ao pensar o limite como conceito e não apenas da maneira empírica que os situa nas fronteiras da psicose.

É por essa via que surge a possibilidade de aparecer a concepção nodal de seu pensamento que a bela capa do livro (da artista Ivoty Macambira) exprime de maneira muito feliz: o complexo de Édipo deve ser mantido como matriz simbólica essencial à qual é importante sempre se referir como uma triangulação axiomática, mesmo nos casos clínicos em que a regressão é dita pré-genital ou pré-edipiana, portanto, aquém da triangulação (p. 252). No entanto, é se voltando para a questão da angústia que Green propõe uma concepção estrutural organizada em torno de dois centros paradigmáticos diferentes. Por um lado, a angústia de castração, por privilegiar sua evocação no contexto de uma ferida corporal associada a um ato sangrento. Em contrapartida, quando se trata do conceito da perda do seio ou do objeto, das ameaças de abandono à perda da proteção do Supereu, a destrutividade ganha as cores do luto: preto como a depressão grave ou branco como os estados de vazio (p. 251).

O negrito de narcisismo de morte, na capa do livro, aponta bem o esforço do autor de descrever as tensões de um eu preso às malhas da lógica tecida pelo "Um, Outro e Neutro, valores narcisistas do mesmo", título de um dos capítulos. Mas se o psicanalista se vê, no seu ofício, às voltas com a angústia e a morte, não é em nome delas mesmas, e sim da vida. O opaco de narcisismo de vida na capa aponta que, se bem Green esboce no final a necessidade de que as sociedades devolvam a Eros alguns direitos de que foi espoliado, permanece ainda a necessidade de pensar o narcisismo de vida, campo das sublimações e de Eros, como o campo da singularidade às voltas com o múltiplo, sem por isso desintegrar-se ou fragmentar-se psicoticamente. Quem sabe, assim, a multiplicidade que sustenta o feminino não corra o risco de se transformar em uma visão assustadora ou em uma nova incógnita metafísica e possa expressar-se na carne do mundo.

Renata Udler Cromberg é psicanalista, membro do Departamento de Psicanalise do Instituto Sedes Sapientiae, doutora pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Professora dos cursos de especialização de Psicopatologia e Saúde Pública na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e Teoria Psicanalítica da Pontifíca Universidade Católica de São Paulo. Autora dos livrosCena Incestuosa e Paranóia, da coleção Clínica Psicanlítica da Editora Casa do Psicólogo.