sábado, 1 de março de 2014

Estádio do Espelho

O reconhecimento jubilatório da criança ao olhar-se no espelho se faz num jogo de aparecimento e desaparecimento, ou seja, de presença e ausência no campo especular. Ela realiza tal experiência, voltando seu olhar em direção ao adulto que assiste à cena, de quem solicita a confirmação de que a imagem projetada no espelho é ela. Isso se dá num movimento tríplice: ele se conhece no espelho, verifica que o outro atesta essa experiência e num terceiro movimento ele se re-conhece num novo olhar.
Essa experiência representa uma transposição/travessia decisiva: a criança passa, a partir de então, a ter uma representação unificada de si mesma. E isso se dá num momento da sua vida no qual ele está longe de dominar o próprio corpo, pois a descoordenação motora não lhe permite o controle do conjunto, razão porque,  suas impressões perceptivas são sempre parciais. Miller chama a atenção para a  suas impressões perceptivas são sempre parciais. Miller chama a atenção para a reconsideração feita por Lacan no Seminário 4, Os quatros conceitos fundamentais, do Estádio do Espelho, quanto ao desejo da mãe. Enquanto a imagem total é ele mesmo, o bebê, o efeito é de júbilo – “eu sou mais do que eu pensava” –, mas, quando ele se depara com a falta, o afeto é de depressão e a imagem total torna-se Outra. Ele se vê como incompleto e em deficit em relação à imagem total. O efeito depressivo comporta uma referência à onipotência da mãe, dissimulando a referência à sua falta. Então, ele se propõe ser o objeto fetiche da mãe, pois a imagem de si toma o sentido de ser o substituto da falta.
Pode-se deduzir, portanto, que a vivência especular é, ao mesmo tempo, jubilatória, por passar a ilusão de um domínio, de unidade reunida pela imagem;e dolorosa, por mostrar que essa imagem não corresponde à verdade da criança,que continua na dependência do outro. Ambas as versões subjetivas, Lacan as designa como a alienação essencial, pois o sujeito percebe sua forma num campo que está fora de si, no entanto, essa imagem dá consistência ao ego.

(A Trama do Olhar, Edilene Freire de Queiroz. Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, V, 1, 89-100)

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