quinta-feira, 13 de março de 2014

Cartas de Freud aos filhos revelam o psicanalista como pai amoroso


    Sigmund Freud com a filha Anna 1922

Correspondência com filha preferida e seguidora, Anna, já é conhecida. Porém cartas de Freud aos outros filhos permaneciam, em grande parte, inéditas. Publicadas em Berlim, correspondência revela pai amoroso e liberal.
Sob o título Unterdess halten wir zusammen (E no meio tempo ficamos bem unidos), uma edição abrangente dá ao grande público acesso à correspondência entre o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), e sua prole. O lançamento é da editora Aufbau, de Berlim. Em tom amoroso, muitas vezes preocupado, as cartas a cinco de seus seis filhos e filhas são, na grande maioria, inéditas.
Segundo afirma o editor Michael Schröter na introdução do volume de 500 páginas, nenhuma outra fonte mostra tão claramente a relação entre a pessoa e a obra de Freud quanto suas declarações como pai. A edição é complementada por anotações relevantes e dados biográficos sobre Mathilde, Martin, Oliver, Ernst e Sophie. As cartas a Anna – filha predileta do psicanalista austríaco e sua seguidora na profissão – já foram publicadas separadamente.
Anna Freud durante congresso psicanalítico, em 1971
A correspondência engloba o período desde a Primeira Guerra Mundial até 1938, antes de Freud deixar a Áustria, emigrando para a Inglaterra, a fim de escapar dos nazistas.
Humanidade sólida
Um motivo condutor das cartas – que explica a escolha do título – é manter juntos os membros da família, enquanto essa podia ser afetada por turbulências externas. Um ano antes de falecer, o pesquisador escrevia ao filho Ernst: "Duas perspectivas se mantêm nestes tempos turvos, ver vocês juntos e to die in freedom [morrer em liberdade]".
Schröter chama a atenção para a humanidade do autor, "sólida e de pés no chão", e sublinha que Freud não exigia submissão de seus filhos, aceitando-os como personalidades autônomas, uma liberalidade nada óbvia para as estruturas familiares europeias do início do século 20. Apesar disso, ele não era reservado ao aconselhá-los, jamais adotando um tom moralista, procurando, outrossim, ancorá-los na solidariedade familiar.
O editor salienta um outro aspecto: apesar de a família obviamente ocupar posto de grande importância para Freud, ao lado de sua profissão e da ciência, no dia-a-dia ele não se punha à disposição dos filhos, porém estava a seu lado nas vicissitudes e nas preocupações quotidianas, com conselhos, ações, e também financeiramente. Por outro lado, em seu testamento, ele só considerou a esposa, Martha, e legou aos netos os direitos autorais de suas obras.
Testemunho comovente
Parte das cartas numa coleção tão abrangente certamente pouco se distingue das de muitas famílias comuns da época: "Mamãe pretende viajar na semana que vem por 14 dias para Hamburgo", "Fico feliz que o quarto te agrade". Porém é sempre tocante o seu cuidado com os filhos e a forma como oferece apoio imediato: "Realmente uma carta supérflua! Por que não te sentaste simplesmente no trem e vieste para cá?".
A correspondência do criador da psicanálise está pontuada de observações psicossociais como "de um modo geral, as mulheres se conservam melhor". Em relação ao fracasso do casamento de um dos filhos, ele oferece um diagnóstico quase médico, sem deixar de tomar partido: "Ela não é só malvada emeschugge [maluca], mas sim louca, também no sentido clínico do termo".
A imprensa alemã saudou o empreendimento editorial: "insights comoventes" (Stuttgarter Zeitung); "cuidadoso, bondoso, antissentimental. Agora é possível também descobrir o pai da psicanálise também como papai" (Rheinische Post); "um testemunho singular (Literarische WELT); "uma fantástica visão da história europeia do início do século 20" (Deutschlandradio).
O site FAZ.net evoca a admiração pelo "estilista estóico". E aponta três ausências importantes: a de fac-símiles dos originais de Freud; a de tabelas comparativas contendo preços de pão, livros, etc. em cada época (sobretudo considerando-se as ondas inflacionárias depois das duas guerras mundiais); e a das respostas dos filhos de Freud: "É bastante duvidoso que os leitores teriam se entediado, como sugere a introdução com expressões como: 'triviais' e 'costumeiramente privadas e desinteressantes para os não-envolvidos'".
           Divã em que o psicanalista atendia a seus pacientes, no Museu Freud de Londres
Autor: Augusto Valente
Revisão: Carlos Albuquerque

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