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As Múltiplas Faces De Eros (Resenha)



“Quando o amor não é mais igual a catástrofe, castração ou morte, quando os pais podem ser reconhecidos em sua individualidade, em suas identidades sexuais separadas e em sua complementaridade genital, a cena primária internalizada, em sua versão transformada, torna-se uma aquisição psíquica que dá aos adultos-crianças o direito ao seu lugar na constelação familiar, aos seus corpos, à sua sexualidade.”  (Joyce McDougall)
 Natural da Nova Zelândia e residindo em Paris desde 1953, o trabalho de Joyce McDougall é reconhecido no cenário mundial como um dos mais originais e criativos.
Integrando em suas idéias as contribuições das várias correntes psicanalíticas – seu início com Anna Freud em Londres, seu contato com a Escola Britânica, mais tarde Lacan e a Escola Francesa, mas também as grandes contribuições da psicanálise americana – Joyce imprime a seu percurso teórico-clínico um estilo e uma ética que a levam a estar sempre atenta ao que ocorre nos dois lados do divã.
Seu último livro, que segue a mesma linha de pesquisa de trabalhos anteriores – Em defesa de uma certa anormalidade (1983), Teatros do Eu (1992), Teatros do Corpo (1991) – é dedicado ao amigo e colega, o analista norte-americano Robert Stoller, cujas contribuições para a compreensão das diversas manifestações da sexualidade, sobretudo dos chamados transtornos de gênero, recebem a atenção que merecem no trabalho de Joyce McDougall.
Se Freud começa seus Três ensaios dizendo à biologia, à moral e à opinião popular que elas se enganam quanto a natureza da sexualidade humana, Joyce McDougall começa seu último livro As múltiplas faces de Eros pela afirmação não menos ousada de que a sexualidade humana é inerentemente traumática.
Fruto de mais de quarenta anos de prática analítica, o quinto livro da autora é uma obra repleta de idéias originais sobre a matriz corpo/mente que reorganiza nossa compreensão dos caminhos da pulsão. Certas manifestações da sexualidade adulta revelam ser soluções encontradas pela criança do passado para sobreviver psiquicamente às dores psíquicas que seriam, de outra forma, intoleráveis. O livro explora os conflitos subjacentes a essas soluções, mostrando os elementos presentes na construção destas últimas: a sexualidade arcaica, a participação do inconsciente biparental assim como a dos acontecimentos internos e externos, quando do nascimento do bebê. Tais cenários, por mais complexos e extravagantes que possam parecer, conferem ao sujeito um sentimento de identidade subjetiva e sexual protegendo-o, dessa forma, contra o risco de aniquilamento psíquico.
Para McDougall, a identidade sexual é uma criação particular que traduz os arranjos psíquicos que o sujeito teve que fazer na tentativa de dar um sentido às mensagens – verbais, mas sobretudo pré-verbais – do ambiente biparental.
Com a intuição e a sensibilidade que lhe são peculiares, Joyce McDougall nos oferece uma visão do psiquismo rica em ensinamento clínico, dirigido a todos aqueles que se interessam pela história do corpo, e pelas suas ressonâncias orgânicas na construção da psicossexualidade, mostrando como esse corpo pode ser o teatro de experiências penosas no começo da vida.
Já no prólogo – “Sexualidade Humana: Uma Busca Eterna?” – um primeiro reconhecimento do terreno é efetuado e as bases da expedição estabelecidas: ao conflito frente ao mundo pulsional e as castrações do mundo exterior, segue-se uma descoberta traumática: a diferença dos sexos; ao período edipiano, na sua dimensão homossexual e heterossexual que leva a criança a desejar possuir os dois sexos, segue-se a maior ferida narcísica do ser humano: assumir sua monossexualidade e, num segundo momento, ter que se confrontar com a inelutável dimensão da morte.
Dois conceitos centrais relativos às origens do eu sexual servirão de fio condutor aos capítulos: a extensão do significado de bissexualidade psíquica, e a profunda importância das fantasias relativas à cena primária. Dentro dessa referência, serão analisados os sintomas psicossomáticos, as diversas formas de sublimações e criatividades, assim como a sintomatologia neurótica e as sexualidades desviantes.
A primeira parte do livro – “Feminilidade e sexualidade” – é dedicada a questões relativas a sexualidade feminina. Reavaliando as posições freudianas clássicas e analisando os aspectos constitutivos da feminilidade, Joyce McDougall lança uma nova luz para a compreensão das raízes do erotismo feminino. À questão de saber se existem diferenças, no contexto do processo analítico, entre analisandas heterossexuais e homossexuais, Joyce responde que embora os sintomas clássicos sejam basicamente os mesmos, a queixa da mulher heterossexual está mais relacionada com uma incapacidade de obter prazer, enquanto na homossexual a queixa refere-se a dar prazer à parceira.
Todo ato criativo – “Sexualidade e Criatividade” – é um ato (inconsciente) de violência, e o criador é violento na medida em que impõe sua obra ao mundo externo. Partindo da hipótese que a origem da criatividade deve ser buscada no corpo erógeno, McDougall analisa os fatores presentes no ato criativo – que podem ser fontes de fertilidade ou de esterilidade -, como versões da cena primária, e os traumas associados a organização psicossexual constituem não apenas fontes de sintomas e de inibições, mas também de criatividade.
Seguir Joyce McDougall na exploração das múltiplas faces de Eros, é também constatar – “O sexo e o Soma” – que certos distúrbios orgânicos, tais como asma, colite, úlcera, hipertensão, alergias, problemas cardíacos, respiratórios e ginecológicos dentre outros, podem ter uma significação simbólica relacionados com as soluções ódio/amor do começo da vida: os fenômenos somáticos, longe de constituírem uma “imposição genética” traduzem antes “uma necessidade de defesa contra a dor psíquica literalmente indizível (e conseqüentemente somatizada)”. As manifestações psicossomáticas representariam então uma espécie de ponto de amarra que evitaria a submersão completa do sujeito pelas experiências afetivas que não encontram representações psíquicas: o único aspecto do afeto que se pode observar é o somático.
As somatizações consideradas de maneira dinâmica – uma forma particular de simbolizar – rearticulam a oposição freudiana Eros/Tanatos testemunhando uma forma de sobrevivência psíquica constitutiva da identidade sexual.
Lembrando em “Desvios do Desejo” que o aspecto mais notável dos seres humanos é a singularidade de cada um, Joyce McDougall reserva o termo “perversão” para situações onde um sujeito impõe suas fantasias a um outro que não o consente, ou que não é responsável e sustenta que, em última análise, não é o ato em si que é desviante, mas sim, sob quais circunstâncias uma determinada prática deixa de ser uma simples variação da sexualidade adulta para tornar-se sintomática. (Na tentativa de manter o sentimento de identidade, o sujeito pode usar a sexualidade como uma droga – “sexo-adito”.) A compreensão da perversão, então, se dá a partir da destrutividade que o sujeito estabelece seja em relação a si, seja em relação ao outro, e não como um forma de prática sexual que não se enquadra naquilo que habitualmente é chamado de normalidade. Se os padrões da sexualidade humana são criados, e não inatos, para se compreender os diversos aspectos das escolhas sexuais deve-se levar em conta o complexo sistema de identificações e contra-identificações, assim como o discurso parental – consciente e inconsciente – sobre a sexualidade: é a partir da interpretação desses elementos e baseado no que a criança percebe dos conflitos sexuais e desejos (inconscientes) dos pais, que ela construirá sua psicossexualidade.
O último capítulo – “Desvios na atitude analítica” – coloca a questão fundamental de saber de que lado do divã devemos procurar os sinais de perversão: do lado do analisando ou do analista? quais as bases do sistema de valor da psicanálise e como os próprios valores e preconceitos do analista podem influenciar sua escuta? E mais ainda, como os analistas se respeitam entre si? Quando as Escolas psicanalíticas transformam-se em seitas, as teorias tornam-se leis: “Nossa maior perversão não seria então a de acreditar que possuímos a chave da verdade?”
A ética da psicanálise seria a de assegurar os fatores que contribuem para a sobrevivência psíquica dos seres humanos. Mas adotar essa postura como valor fundamental e, conseqüentemente, respeitar o equilíbrio de cada sujeito por mais sintomático que esse possa parecer, significa estarmos prontos para confrontar-nos com nossos próprios aspectos neuróticos, psicóticos, perversos e normopatas, e atentos para nossa contratransferência.
Se todos nós somos sobreviventes psíquicos, “com cada análise, e com cada analisando, nós intensificamos nossa própria análise e redescobrimos a própria psicanálise.”
O livro de Joyce McDougall marcará época e, seguramente, seu lançamento em português será seguido de muitos debates, e sem dúvida também de controvérsias: a psicanálise sairá ganhando
-Paulo Roberto Ceccarelli Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).
Resenha publicada na Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, O, 3: 731-734, 1996.
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