domingo, 30 de março de 2014

As Múltiplas Faces De Eros (Resenha)



“Quando o amor não é mais igual a catástrofe, castração ou morte, quando os pais podem ser reconhecidos em sua individualidade, em suas identidades sexuais separadas e em sua complementaridade genital, a cena primária internalizada, em sua versão transformada, torna-se uma aquisição psíquica que dá aos adultos-crianças o direito ao seu lugar na constelação familiar, aos seus corpos, à sua sexualidade.”  (Joyce McDougall)
 Natural da Nova Zelândia e residindo em Paris desde 1953, o trabalho de Joyce McDougall é reconhecido no cenário mundial como um dos mais originais e criativos.
Integrando em suas idéias as contribuições das várias correntes psicanalíticas – seu início com Anna Freud em Londres, seu contato com a Escola Britânica, mais tarde Lacan e a Escola Francesa, mas também as grandes contribuições da psicanálise americana – Joyce imprime a seu percurso teórico-clínico um estilo e uma ética que a levam a estar sempre atenta ao que ocorre nos dois lados do divã.
Seu último livro, que segue a mesma linha de pesquisa de trabalhos anteriores – Em defesa de uma certa anormalidade (1983), Teatros do Eu (1992), Teatros do Corpo (1991) – é dedicado ao amigo e colega, o analista norte-americano Robert Stoller, cujas contribuições para a compreensão das diversas manifestações da sexualidade, sobretudo dos chamados transtornos de gênero, recebem a atenção que merecem no trabalho de Joyce McDougall.
Se Freud começa seus Três ensaios dizendo à biologia, à moral e à opinião popular que elas se enganam quanto a natureza da sexualidade humana, Joyce McDougall começa seu último livro As múltiplas faces de Eros pela afirmação não menos ousada de que a sexualidade humana é inerentemente traumática.
Fruto de mais de quarenta anos de prática analítica, o quinto livro da autora é uma obra repleta de idéias originais sobre a matriz corpo/mente que reorganiza nossa compreensão dos caminhos da pulsão. Certas manifestações da sexualidade adulta revelam ser soluções encontradas pela criança do passado para sobreviver psiquicamente às dores psíquicas que seriam, de outra forma, intoleráveis. O livro explora os conflitos subjacentes a essas soluções, mostrando os elementos presentes na construção destas últimas: a sexualidade arcaica, a participação do inconsciente biparental assim como a dos acontecimentos internos e externos, quando do nascimento do bebê. Tais cenários, por mais complexos e extravagantes que possam parecer, conferem ao sujeito um sentimento de identidade subjetiva e sexual protegendo-o, dessa forma, contra o risco de aniquilamento psíquico.
Para McDougall, a identidade sexual é uma criação particular que traduz os arranjos psíquicos que o sujeito teve que fazer na tentativa de dar um sentido às mensagens – verbais, mas sobretudo pré-verbais – do ambiente biparental.
Com a intuição e a sensibilidade que lhe são peculiares, Joyce McDougall nos oferece uma visão do psiquismo rica em ensinamento clínico, dirigido a todos aqueles que se interessam pela história do corpo, e pelas suas ressonâncias orgânicas na construção da psicossexualidade, mostrando como esse corpo pode ser o teatro de experiências penosas no começo da vida.
Já no prólogo – “Sexualidade Humana: Uma Busca Eterna?” – um primeiro reconhecimento do terreno é efetuado e as bases da expedição estabelecidas: ao conflito frente ao mundo pulsional e as castrações do mundo exterior, segue-se uma descoberta traumática: a diferença dos sexos; ao período edipiano, na sua dimensão homossexual e heterossexual que leva a criança a desejar possuir os dois sexos, segue-se a maior ferida narcísica do ser humano: assumir sua monossexualidade e, num segundo momento, ter que se confrontar com a inelutável dimensão da morte.
Dois conceitos centrais relativos às origens do eu sexual servirão de fio condutor aos capítulos: a extensão do significado de bissexualidade psíquica, e a profunda importância das fantasias relativas à cena primária. Dentro dessa referência, serão analisados os sintomas psicossomáticos, as diversas formas de sublimações e criatividades, assim como a sintomatologia neurótica e as sexualidades desviantes.
A primeira parte do livro – “Feminilidade e sexualidade” – é dedicada a questões relativas a sexualidade feminina. Reavaliando as posições freudianas clássicas e analisando os aspectos constitutivos da feminilidade, Joyce McDougall lança uma nova luz para a compreensão das raízes do erotismo feminino. À questão de saber se existem diferenças, no contexto do processo analítico, entre analisandas heterossexuais e homossexuais, Joyce responde que embora os sintomas clássicos sejam basicamente os mesmos, a queixa da mulher heterossexual está mais relacionada com uma incapacidade de obter prazer, enquanto na homossexual a queixa refere-se a dar prazer à parceira.
Todo ato criativo – “Sexualidade e Criatividade” – é um ato (inconsciente) de violência, e o criador é violento na medida em que impõe sua obra ao mundo externo. Partindo da hipótese que a origem da criatividade deve ser buscada no corpo erógeno, McDougall analisa os fatores presentes no ato criativo – que podem ser fontes de fertilidade ou de esterilidade -, como versões da cena primária, e os traumas associados a organização psicossexual constituem não apenas fontes de sintomas e de inibições, mas também de criatividade.
Seguir Joyce McDougall na exploração das múltiplas faces de Eros, é também constatar – “O sexo e o Soma” – que certos distúrbios orgânicos, tais como asma, colite, úlcera, hipertensão, alergias, problemas cardíacos, respiratórios e ginecológicos dentre outros, podem ter uma significação simbólica relacionados com as soluções ódio/amor do começo da vida: os fenômenos somáticos, longe de constituírem uma “imposição genética” traduzem antes “uma necessidade de defesa contra a dor psíquica literalmente indizível (e conseqüentemente somatizada)”. As manifestações psicossomáticas representariam então uma espécie de ponto de amarra que evitaria a submersão completa do sujeito pelas experiências afetivas que não encontram representações psíquicas: o único aspecto do afeto que se pode observar é o somático.
As somatizações consideradas de maneira dinâmica – uma forma particular de simbolizar – rearticulam a oposição freudiana Eros/Tanatos testemunhando uma forma de sobrevivência psíquica constitutiva da identidade sexual.
Lembrando em “Desvios do Desejo” que o aspecto mais notável dos seres humanos é a singularidade de cada um, Joyce McDougall reserva o termo “perversão” para situações onde um sujeito impõe suas fantasias a um outro que não o consente, ou que não é responsável e sustenta que, em última análise, não é o ato em si que é desviante, mas sim, sob quais circunstâncias uma determinada prática deixa de ser uma simples variação da sexualidade adulta para tornar-se sintomática. (Na tentativa de manter o sentimento de identidade, o sujeito pode usar a sexualidade como uma droga – “sexo-adito”.) A compreensão da perversão, então, se dá a partir da destrutividade que o sujeito estabelece seja em relação a si, seja em relação ao outro, e não como um forma de prática sexual que não se enquadra naquilo que habitualmente é chamado de normalidade. Se os padrões da sexualidade humana são criados, e não inatos, para se compreender os diversos aspectos das escolhas sexuais deve-se levar em conta o complexo sistema de identificações e contra-identificações, assim como o discurso parental – consciente e inconsciente – sobre a sexualidade: é a partir da interpretação desses elementos e baseado no que a criança percebe dos conflitos sexuais e desejos (inconscientes) dos pais, que ela construirá sua psicossexualidade.
O último capítulo – “Desvios na atitude analítica” – coloca a questão fundamental de saber de que lado do divã devemos procurar os sinais de perversão: do lado do analisando ou do analista? quais as bases do sistema de valor da psicanálise e como os próprios valores e preconceitos do analista podem influenciar sua escuta? E mais ainda, como os analistas se respeitam entre si? Quando as Escolas psicanalíticas transformam-se em seitas, as teorias tornam-se leis: “Nossa maior perversão não seria então a de acreditar que possuímos a chave da verdade?”
A ética da psicanálise seria a de assegurar os fatores que contribuem para a sobrevivência psíquica dos seres humanos. Mas adotar essa postura como valor fundamental e, conseqüentemente, respeitar o equilíbrio de cada sujeito por mais sintomático que esse possa parecer, significa estarmos prontos para confrontar-nos com nossos próprios aspectos neuróticos, psicóticos, perversos e normopatas, e atentos para nossa contratransferência.
Se todos nós somos sobreviventes psíquicos, “com cada análise, e com cada analisando, nós intensificamos nossa própria análise e redescobrimos a própria psicanálise.”
O livro de Joyce McDougall marcará época e, seguramente, seu lançamento em português será seguido de muitos debates, e sem dúvida também de controvérsias: a psicanálise sairá ganhando
-Paulo Roberto Ceccarelli Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).
Resenha publicada na Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, O, 3: 731-734, 1996.
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quinta-feira, 13 de março de 2014

Cartas de Freud aos filhos revelam o psicanalista como pai amoroso


    Sigmund Freud com a filha Anna 1922

Correspondência com filha preferida e seguidora, Anna, já é conhecida. Porém cartas de Freud aos outros filhos permaneciam, em grande parte, inéditas. Publicadas em Berlim, correspondência revela pai amoroso e liberal.
Sob o título Unterdess halten wir zusammen (E no meio tempo ficamos bem unidos), uma edição abrangente dá ao grande público acesso à correspondência entre o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), e sua prole. O lançamento é da editora Aufbau, de Berlim. Em tom amoroso, muitas vezes preocupado, as cartas a cinco de seus seis filhos e filhas são, na grande maioria, inéditas.
Segundo afirma o editor Michael Schröter na introdução do volume de 500 páginas, nenhuma outra fonte mostra tão claramente a relação entre a pessoa e a obra de Freud quanto suas declarações como pai. A edição é complementada por anotações relevantes e dados biográficos sobre Mathilde, Martin, Oliver, Ernst e Sophie. As cartas a Anna – filha predileta do psicanalista austríaco e sua seguidora na profissão – já foram publicadas separadamente.
Anna Freud durante congresso psicanalítico, em 1971
A correspondência engloba o período desde a Primeira Guerra Mundial até 1938, antes de Freud deixar a Áustria, emigrando para a Inglaterra, a fim de escapar dos nazistas.
Humanidade sólida
Um motivo condutor das cartas – que explica a escolha do título – é manter juntos os membros da família, enquanto essa podia ser afetada por turbulências externas. Um ano antes de falecer, o pesquisador escrevia ao filho Ernst: "Duas perspectivas se mantêm nestes tempos turvos, ver vocês juntos e to die in freedom [morrer em liberdade]".
Schröter chama a atenção para a humanidade do autor, "sólida e de pés no chão", e sublinha que Freud não exigia submissão de seus filhos, aceitando-os como personalidades autônomas, uma liberalidade nada óbvia para as estruturas familiares europeias do início do século 20. Apesar disso, ele não era reservado ao aconselhá-los, jamais adotando um tom moralista, procurando, outrossim, ancorá-los na solidariedade familiar.
O editor salienta um outro aspecto: apesar de a família obviamente ocupar posto de grande importância para Freud, ao lado de sua profissão e da ciência, no dia-a-dia ele não se punha à disposição dos filhos, porém estava a seu lado nas vicissitudes e nas preocupações quotidianas, com conselhos, ações, e também financeiramente. Por outro lado, em seu testamento, ele só considerou a esposa, Martha, e legou aos netos os direitos autorais de suas obras.
Testemunho comovente
Parte das cartas numa coleção tão abrangente certamente pouco se distingue das de muitas famílias comuns da época: "Mamãe pretende viajar na semana que vem por 14 dias para Hamburgo", "Fico feliz que o quarto te agrade". Porém é sempre tocante o seu cuidado com os filhos e a forma como oferece apoio imediato: "Realmente uma carta supérflua! Por que não te sentaste simplesmente no trem e vieste para cá?".
A correspondência do criador da psicanálise está pontuada de observações psicossociais como "de um modo geral, as mulheres se conservam melhor". Em relação ao fracasso do casamento de um dos filhos, ele oferece um diagnóstico quase médico, sem deixar de tomar partido: "Ela não é só malvada emeschugge [maluca], mas sim louca, também no sentido clínico do termo".
A imprensa alemã saudou o empreendimento editorial: "insights comoventes" (Stuttgarter Zeitung); "cuidadoso, bondoso, antissentimental. Agora é possível também descobrir o pai da psicanálise também como papai" (Rheinische Post); "um testemunho singular (Literarische WELT); "uma fantástica visão da história europeia do início do século 20" (Deutschlandradio).
O site FAZ.net evoca a admiração pelo "estilista estóico". E aponta três ausências importantes: a de fac-símiles dos originais de Freud; a de tabelas comparativas contendo preços de pão, livros, etc. em cada época (sobretudo considerando-se as ondas inflacionárias depois das duas guerras mundiais); e a das respostas dos filhos de Freud: "É bastante duvidoso que os leitores teriam se entediado, como sugere a introdução com expressões como: 'triviais' e 'costumeiramente privadas e desinteressantes para os não-envolvidos'".
           Divã em que o psicanalista atendia a seus pacientes, no Museu Freud de Londres
Autor: Augusto Valente
Revisão: Carlos Albuquerque

Ameaça contemporânea


o tempo que faz lenda
traz o real: dias contados
suplicio do desperdiçar
render, render
aproveitar, aproveitar
contar, contar
notas, anotas
proezas demais
aventuras
vividas
viver
tudo todo tempo
n
a
d
a

Anna Amorim, 07/11/2013

domingo, 9 de março de 2014

Café Filosófico: Aceleração e Depressão - Maria Rita Kehl

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Palestra de Maria Rita Kehl no programa Café Filosófico CPFL gravada no dia 24 de junho de 2009, em São Paulo

Nesta palesta Maria Rita Kehl com clareza e propriedade transcorre pela formação do aparato psíquico a partir do vazio, na lacuna do tempo de espera, entre o mal-estar do bebê, seu choro e a chegada do que irá saciar seu incomodo e os efeitos na contemporaneidade da falta de tempo para pensar, elaborar, saborear, sentir, nossas vivencias e transforma-las em experiências de vida. De tal forma, que vivemos um sentimento social comum depressivo do sem sentido.
Abaixo um trecho e a letra da música Sinal Fechado de Paulinho da Viola, escolhida pela psicanalista para ilustra alguns trechos de sua fala.

"O sujeito psíquico na sua origem é tributário de um tempo vazio que no início é aterrorizante, mas vai deixando de ser na medida que ele vai sendo preenchido por representações mentais. O que qualquer um de nós pode entender usando sua memoria, não é só quando a criança está morrendo de fome que ela fica aterrorizada tem vezes que sentimos um vazio aterrorizante, angustia, medo e é o recurso mental de fantasiar, de imaginar o que nós queremos, de imaginar inclusive que vai ter um futuro, que não vai ser sempre assim, que aquele momento que esta terrível, uma perda, um luto, uma morte, terá um dia que vamos nós sentir melhores. Esta perspectiva do tempo que transforma as coisas e que nos somos capazes de transformamos as coisas no tempo  ajuda a superar inclusive os momentos de angustia, de terror, de nada, de vazio, de desanimo..."

Sinal Fechado
Paulinho da Viola



Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...

sexta-feira, 7 de março de 2014

Livro: Conceito de Amor em Psicanálise - Maria Madalena de Freitas Lopes

O amor em suas primeiras definições é completude e falta (conforme Platão, no Banquete). Noções que Freud desvela para além do imaginário, seguindo as pistas do sexual que marca presença; para além do eu, mais precisamente, como aquilo que o coloca fora de centro e exige forças que possam contê-lo ou mesmo adoecê-lo, tamanha sua voracidade em insistir ser reconhecido. A completude exigida pelo eixo pulsional (ou sexual conforme Freud) não permite definir um objeto — que, como um dos quatro termos que compõe a pulsão, fonte, objetivo e pressão, é o mais variável —, seguindo os ensinamentos do pai da psicanálise, o que importa é a satisfação. Numa dimensão oposta, o objeto é caro ao amor: é o outro. No enamoramento, este é capaz de empobrecer o eu. No imaginário humano o objeto é idealizado e traz consigo a morte do eu, tal qual é descrito no mito de Narciso, de forma a existir apenas o outro. No fluxo desta balança libidinal eu-outro, o quantum afetivo flui de um polo a outro, numa vertente dual.
Conceito de amor em psicanálise se inicia trazendo as definições dos objetos da pulsão e do amor e como estes se distinguem. O objeto da pulsão é sempre um objeto parcial, o outro do amor é um todo, uma imagem que unifica e fascina, da mesma forma que ocorre com a instauração do eu narcísico.
Explorando a vertente imaginária o texto segue o percurso de Freud, do narcisismo até o conceito de pulsão de morte. A morte ao adentrar a cena psicanalítica demanda um novo discernimento e abre-se à castração — falta humana por excelência, que permite a consciência do existir e de seu limite. A castração coloca tal dimensão e empurra o gozo aos limites do corpo erógeno e acena com a impossibilidade de acesso ao seu objeto, enquanto objeto de gozo, sempre demandado e fora-da-linguagem. Na linguagem — por ser uma questão de lei, de regras — coloca-se a questão humana. O campo do Outro — enquanto campo da linguagem — obriga o sujeito a se posicionar ao mesmo tempo em que o exclui do gozo. Permite a subjetivação e o sonho, uma vez que surgem aberturas, descontinuidades, brechas que possibilitam sua criação. Ou seja: a linguagem, por sua característica, permite a apreensão da existência temporal: que o sujeito exista e se posicione, existindo desde antes.
O campo do Outro (seus contornos) permite ao sujeito uma existência marcada pelo peso da falta, que por sua vez permite que o Outro do amor exista. Em suma, permite que outros existam: a cultura e relacionamentos. O amor resulta da superação do narcisismo — em sua vertente eu-outro — e, portanto, conta com a falta, que permite o Outro como terceiro, iniciando assim a criação de relações humanas.
O amor é uma invenção, recurso poético e primeiro, originário do humano, naquilo em que o Humano ganha destaque. Esta é uma trilha percorrida ao longo da história da psicanálise, que com Freud se inicia — e o amor força a cada passo que seja considerado e definido, impõe sua pesquisa no caminho da subjetividade e de seu eixo, o desejo. Assim se esclarece na perspectiva de Lacan, que persegue tal trilha. A repetição e a transferência que abordam a temática amorosa se revelam vinculadas à ordem pulsional (ou a sexualidade tal qual a psicanálise freudiana a revela). O gozo, a satisfação, a completude marcam presença na contramão do amor. Na neurose, verifica Freud, a incapacidade de amar se apresenta e revela — conforme os Estudos sobre histeria — o objeto (no caso, de gozo); apreensão que impossibilita pensar o amor e defini-lo, e que se apresenta como enigma... O amor ganha sua primeira definição a partir do narcisismo — é “amor a si mesmo” —, tão imaginário como Narciso e a fantasia, mas insiste em suas sutilezas que levam Freud a atentar e definir a morte, e destacá-la enquanto presença em sua teoria. Invenção também de Freud? É a interpretação do silêncio que marca o humano? Castração? O reconhecimento do Outro se vincula ao amor — mais precisamente, por seu Dom —, ganha os contornos do uso do símbolo, que surge como Lei; e o amor, por fim, é capaz de ser reconhecido como saída humana: é superação narcísica e presença da morte, castração na contramão da completude almejada pela pulsão.

Maria Madalena de Freitas Lopes: Psicóloga clínica, Pós-graduada em Psicanálise, Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUCSP. Professora e supervisora clínica na Universidade Camilo Castelo Branco - São Paulo. Título do Doutorado: Como as mulheres amam: um estudo semiótico-psicanalítico do amor feminino, 2002.

sábado, 1 de março de 2014

Estádio do Espelho

O reconhecimento jubilatório da criança ao olhar-se no espelho se faz num jogo de aparecimento e desaparecimento, ou seja, de presença e ausência no campo especular. Ela realiza tal experiência, voltando seu olhar em direção ao adulto que assiste à cena, de quem solicita a confirmação de que a imagem projetada no espelho é ela. Isso se dá num movimento tríplice: ele se conhece no espelho, verifica que o outro atesta essa experiência e num terceiro movimento ele se re-conhece num novo olhar.
Essa experiência representa uma transposição/travessia decisiva: a criança passa, a partir de então, a ter uma representação unificada de si mesma. E isso se dá num momento da sua vida no qual ele está longe de dominar o próprio corpo, pois a descoordenação motora não lhe permite o controle do conjunto, razão porque,  suas impressões perceptivas são sempre parciais. Miller chama a atenção para a  suas impressões perceptivas são sempre parciais. Miller chama a atenção para a reconsideração feita por Lacan no Seminário 4, Os quatros conceitos fundamentais, do Estádio do Espelho, quanto ao desejo da mãe. Enquanto a imagem total é ele mesmo, o bebê, o efeito é de júbilo – “eu sou mais do que eu pensava” –, mas, quando ele se depara com a falta, o afeto é de depressão e a imagem total torna-se Outra. Ele se vê como incompleto e em deficit em relação à imagem total. O efeito depressivo comporta uma referência à onipotência da mãe, dissimulando a referência à sua falta. Então, ele se propõe ser o objeto fetiche da mãe, pois a imagem de si toma o sentido de ser o substituto da falta.
Pode-se deduzir, portanto, que a vivência especular é, ao mesmo tempo, jubilatória, por passar a ilusão de um domínio, de unidade reunida pela imagem;e dolorosa, por mostrar que essa imagem não corresponde à verdade da criança,que continua na dependência do outro. Ambas as versões subjetivas, Lacan as designa como a alienação essencial, pois o sujeito percebe sua forma num campo que está fora de si, no entanto, essa imagem dá consistência ao ego.

(A Trama do Olhar, Edilene Freire de Queiroz. Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, V, 1, 89-100)