sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Elisabeth Roudinesco ataca ‘inimigos da psicanálise’


Elisabeth Roudinesco é a mais famosa historiadora da psicanálise na França. Hoje, porém, essa psicanalista de 67 anos, com dezenas de livros publicados em 30 países, entre eles uma biografia de Lacan (de 1993) e dois volumes da “História da psicanálise na França”, está no fogo cruzado de uma guerra que a opõe aos detratores da psicanálise, de um lado, e à família de Lacan, de outro. Em entrevista ao GLOBO, Roudinesco defende Freud e Lacan, mas queixa-se que alguns psicanalistas levam os mestres ao pé da letra, como se a psicanálise fosse “uma seita”, ataca. Ela se diz chocada com a disputa na Justiça com a filha de Lacan, Judith Miller, a quem conhece desde os seis anos de idade. A mãe de Roudinesco, Jenny Aubry, especialista em psicanálise de crianças, era amiga de Lacan. Foi uma das pessoas, segundo Roudinesco, que ouviu Lacan falar sobre o sonho de ter um funeral católico, um dos motivos do conflito com Miller.


Na sociedade de hoje, apressada, individualista e pragmática, Lacan e Freud têm o mesmo lugar que antes?
ELISABETH ROUDINESCO: Têm o mesmo lugar na História e na memória. São parte do patrimônio cultural e universal. A grande constatação: eles não pertencem mais apenas aos psicanalistas. Hoje, 72 anos depois de sua morte, os textos de Freud são publicados livremente.
Isso é bom ou ruim ? 
É excelente, porque escapa do sectarismo. Os psicanalistas têm o seu Freud, o seu Lacan. Mas não são mais os únicos a pensar a questão. 
Qual a grande herança de Lacan, 30 anos após sua morte?
Lacan reintroduziu a filosofia alemã na doutrina psicanalítica. Em segundo lugar, ele abandonou o modelo biológico vindo de Darwin por um modelo linguístico. Para Lacan, a consciência é a linguagem. Isso é importante porque, sem negar a importância do evolucionismo e do materialismo de Darwin, Lacan mostra que a especificidade do ser humano é a palavra e a linguagem: ele não é autômato, nem animal. Em terceiro lugar, Lacan se inscreveu na linha de pensadores pessimistas, ao cultivar uma visão pessoal da pulsão humana depois da exterminação dos judeus [nos campos nazistas] e adotando a linha de Theodor Adorno. Por isso, neste meu livro (“Lacan, a despeito de tudo e de todos”) eu revejo os textos “Kant com Sade” e “Antígona”, que o marcam como um pensador da luz sombria.
Os detratores de Lacan o acusam de ter produzido uma obra obscura e arrogante.
Os detratores dizem a mesma coisa contra Freud, que é muito mais fácil de ler do que Lacan. É tão difícil ler Lacan quanto é ler Spinoza ou Hegel, porque é uma obra mais filosófica. 
A senhora diz que os psicanalistas, às vezes, se portam como inimigos da psicanálise. Como assim? 
Quem disse isso foi Freud. Eu retomo o que ele disse, referindo-me aos que acham que as obras pertencem a eles. Não quero estes extremistas. 
Quem são os maiores inimigos da psicanálise: seus detratores ou as terapias comportamentais? 
As terapias comportamentais são minoritárias no mundo. Hoje dominam as escolas de psicoterapias como a Gestalt (com abordagem humanis$), as psicoterapias relacionais, de grupo, psico-corporais. Existem em torno de 700, o risco é a proliferação. Mas ao contrário das psicoterapias, a terapia comportamental tem uma concepção do ser humano radicalmente oposta à psicanálise. O conflito é terrível. Consideram que o sujeito humano se reduz a seu comportamento. Para eles, não há alma nem psiquismo. Não há diferença entre um animal e um homem. Há um terceiro campo: o da neurociência. E outro problema: a psiquiatria se tornou muito química. Vamos assistir a uma reviravolta. Depois de 30 anos, começamos a observar que os medicamentos psicotrópicos têm um efeito devastador no cérebro quando tomados por muitos anos.
As pessoas estão tomando muitos remédios? 
E há ainda outro problema: frequentemente psicanalistas fazem uma defesa muito incondicional da psicanálise. Foi isso que Freud quis dizer, quando afirmou que os psicanalistas eram o principal inimigo da psicanálise: quando são muito sectários. No plano terapêutico, acho absolutamente condenável as sessões ultracurtas feitas por certos lacanianos. E eu digo isso no meu livro: não se deve imitar Lacan! Ele foi genial, mas hoje há muitos lacanianos que têm tendência a imitá-lo, a copiá-lo, no lugar de pensar sua herança.
Sessões curtas eram um traço de Lacan. Qual o problema com elas?
Lacan não fez isso o tempo todo, apenas no final de sua vida. Lacan também não teorizou a ideia de que era preciso fazer sessões muito curtas, de 5 a 10 minutos. Para mim, esse é o funcionamento de uma seita: frustra (o paciente), é uma manipulação. As sessões devem demorar, no mínimo, 30 minutos.
O filósofo Michel Onfray escreveu um livro destruindo Freud e o chamando de fascista e incestuoso. Para ele, a psicanálise não passa de uma autobiografia de Freud. Como a senhora responde a isso?
Michel Onfray é uma figura popular, que criou uma universidade popular. Seu livro contém 650 erros. Ele é alguém que não sabe do que está falando e quis produzir voluntariamente um panfleto. É um detrator integrista, que quer inverter a imagem do ídolo, fazendo dele um demônio. O problema é que ele afirma coisas que são inexatas. Por exemplo: Freud não poderia $engravidado sua cunhada em 1923 porque ela tinha 58 anos. Freud não estava em Berlim com os nazistas em 1935 porque ele estava em Viena, na Áustria. As irmãs de Freud não foram deportadas para o campo de concentração de Auschwitz, mas sim para outros campos, como Theresienstadt e Maly Trostinec. E não encontraram Rudolf Hoss (comandante do campo de concentração de Auschwitz). Para amparar sua tese de que Freud é fascista, nazista etc, Onfray torceu a verdade histórica a um ponto caricatural.
Por que foi importante escrever um livro contestando cada ponto dos argumentos?
Porque Onfray é uma figura popular na França. Quando escutei na mídia que Freud era fascista, nazista, eu disse: não podemos deixá-lo fazer isso, simplesmente porque o que ele diz não é verdade.
A senhora pensou em processá-lo?
Jamais! Nunca processo. É um debate intelectual. 
Por que tanta raiva contra Freud?
Desde 1905, a cada cinco anos há um livro contra Freud. Isso significa que ele trouxe algo de importante à história do pensamento. Caso contrário, não o atacariam. 
A filha de Lacan, Judith Miller, e seu marido Jacques Alain-Miller, herdeiros da obra lacaniana, processam-na por difamação. A senhora escreveu que Lacan teve dois desejos contrariados: ser enterrado na Itália e ter uma cerimônia católica. Os herdeiros dizem que Lacan, ao contrário, queria se livrar da religião.
Ah, de jeito nenhum! Primeiro, eles não são os herdeiros: eles têm o direito sobre a obra de Lacan — o que é diferente. O processo acontece no dia 16 de novembro e eu tornarei pública minha posição neste momento. Eu disse que Lacan manifestou o desejo de ter funerais católicos. Não há prova. Lacan foi muito marcado por ritos religiosos católicos romanos. Ele escreveu isso. E ele sempre sonhou — isso era um fantasma — com a Itália e funerais católicos. Ele disse isso diante de muitas pessoas, que eu cito na minha obra “História da psicanálise”, de 1993.
Como a senhora recebeu este processo?
Este debate é sobre o direito de uma historiadora como eu interpretar as declarações ou fatos. Há algo para mim chocante num processo como esse: deixa subentendido que não se tem direito de escrever sobre Lacan quando não se faz parte da família. A obra não pertence à família.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Por quê o divã? x A técnica da associação livre.

                                                                 
                                                                               Divã de Sigmund Freud 

A única maneira de o analista instalar o discurso analítico, de dirigir a cura, é não dirigir o paciente.
(...) Freud alertou para esse ponto exigindo a neutralidade do analista. Para ele, o analista deve deixar em suspenso seus próprios valores, sua verdade, sua experiência, para poder investigar a do outro. 
Um outro procedimento para o analista instalar o discurso analítico é fazer o sujeito aplicar a regra fundamental da associação livre. O analista, ao não identificar a sua verdade com a do paciente, encontra essa verdade no próprio paciente.
A psicanálise usa o método da associação livre para descobrir a verdade do paciente, e pede a ele que diga tudo o que lhe passar pela cabeça, sem que faça nenhum tipo de censura. Sem esse método de investigação seria impossível haver psicanálise e não haveria discurso analítico. 
Para uma maior eficácia nesta investigação, utiliza-se de variáveis técnicas, que são uma questão de estilo, de convenção; o divã, por exemplo. Freud dizia que usava o divã por uma questão de preferência pessoal, pois não conseguia atender dez pacientes seguidos olhando para eles todo o tempo. Freud também percebeu que, para facilitar a obediência à regra fundamental, deveria sair do campo escópico do paciente, pois suas reações certamente influiriam na concatenação de idéias do analisante.Se o paciente observar o analista, a associação não será tão livre assim, porque qualquer reação do analista pode, inconscientemente, significar algo para esse paciente e produzir uma modificação em seu curso associativo. A técnica da exclusão do analista do campo visual do paciente é uma forma de tornar mais pura a investigação, e de aproximar-se a uma condição em que o único estímulo para a associação livre seja o próprio psiquismo do paciente." 


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Sobre o arrependimento





O arrependimento seria uma saída possível do ressentimento: aquele que se responsabiliza por uma escolha que redundou em fracasso ou sofrimento pode arrepender-se, sem precisar culpar ou acusar alguém pelo prejuízo. Mas o arrependimento também pode se transformar em lamento sem fim, em meio de gozo equivalente ao ressentimento. Também pode ser um modo de não aceitar as com sequencias de uma escolha , os erros e descaminhos percorridos ao longo de uma vida que nunca é perfeita. O arrependimento, em suas formas extremas , também sinaliza um recusa narcisista da determinação inconsciente. Só quem se julga inteiramente senhor de todos os seus atos não se perdoa por uma má escolha.
Neste sentido, vale tomar  o ensaio de Michael Montaigne sobre o arrependimento, em que esse pensador  que levou os últimos anos da sua vida a examinar-se o mais honestamente possível afirma que não se arrepende de nada porque não se pretende infalível. 

                              Expliquemos aqui o que repito constantemente: só de raro em raro me arrependo,
                              e minha consciência contenta-se com seu próprio testemunho, não o de uma cons-
                              ciência de anjo ou animal, mas uma consciência humana (...) não se trata aqui de 
                              simples palavrório e sim de um ato de humildade completa e absoluta.

(Maria Rita Kehl, Ressentimento. Coleção Clínica Psicanalítica. Ed Casa do Psicologo, São. São Paulo, 2004. p. 23.)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O império do pensamento do obsessivo



"Contudo, se o seu desejo é forte, o desejo do Outro também se apresenta como onipotente e o obsessivo sente-se ameaçado diante desta onipotência. Teme o confronto com o desejo onipotente do Outro, que o ameaça de aniquilamento, ao mesmo tempo em que se coloca o dilema de sua destruição. Destruir o Outro o protegeria de ser liquidado pelo seu desejo, entretanto, a medida de sua dependência deste Outro, o seu aniquilamento, o seu aniquilamento, significaria a sua própria destruição. Assim, como medida de proteção, o obsessivo coloca o desejo dentro da dimensão da impossibilidade e desenvolve toda especie de escapatórias para não se confrontar com o desejo. O seu movimento é matar o desejo, já que a sua proximidade o deixa absolutamente desprotegido. É esse movimento de destruição que o leva  a um superinvestimento da dimensão significante como estrategia para manter o Outro vivo, dai a excessiva racionalização e o universo de duvidas e abstrações a que se encontra submetido. É o império do pensamento. O obsessivo sufoca o desejo por excesso de pensamento."

(Urania Tourinho Peres. "A Morte é um Ato Falho". In Mosaico de Letras: ensaios de psicanálise.  Ed. Escuta. Rio de Janeiro, 1999, p. 115)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Felicidade é responsabilidade pessoal e intransferível



Entrevista de Jorge Forbes publicada no site A Tarde.com.br
Qua , 15/01/2014 às 18:16
"Felicidade é responsabilidade pessoal e intransferível"
Fabiana Mascarenhas

O psicanalista e médico psiquiatra Jorge Forbes sempre defende que buscar alguém para suprir as carências emocionais é assinar um atestado de infelicidade permanente. "Só pode estar junto aquele que pode estar separado. A felicidade é uma responsabilidade pessoal e intransferível". Segundo ele, a primeira coisa que é necessário saber é que a felicidade amorosa não tem garantia. "Todo amor é um contrato de risco que mantém os parceiros sempre alertas". Doutor em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Psicanálise pela Universidade Paris VIII e doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), Forbes é um dos principais introdutores do ensino de Jacques Lacan no Brasil, de quem frequentou os seminários em Paris, de 1976 a 1981. Teve participação fundamental na criação da Escola Brasileira de Psicanálise, da qual foi o primeiro diretor-geral, e atualmente preside o Instituto da Psicanálise Lacaniana (IPLA). Recentemente, ganhou o prêmio Jabuti com o livro Inconsciente e Responsabilidade - Psicanálise do Século XXI, em que estuda as mudanças necessárias a uma psicanálise para os tempos pós-modernos, além do Édipo. Para Forbes, estamos vivendo uma nova forma de amor, que ele define como o amor da pós-modernidade. "As pessoas estão com as outras porque querem, não mais por obrigação ou necessidade".

Apesar das conquistas femininas e de as pessoas atualmente serem muito mais independentes econômica e intelectualmente, percebe-se que homens e mulheres ainda buscam na relação o seu ideal de felicidade. Por que?
Mas será que vamos pensar que a única razão para que as pessoas estivessem juntas seria a dependência econômica ou intelectual? Isso é desacreditar de vez no amor ou achar que amor é tema menor e piegas. Não vejo assim. É exatamente porque diminuímos as dependências que fica mais evidenciado o difícil que é a vida sem alguém.


E por que é tão difícil a vida sem alguém? Há um temor da solidão?
Gosto muito da frase de Nietzsche "Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro". Sérgio Buarque de Holanda a lembrou quando comentou a cordialidade do brasileiro. É muito difícil frequentar a solidão de si mesmo, mas não tem jeito. Só quem pode ficar separado é quem pode ficar junto.


Então qual a melhor maneira de lidar com a solidão?
Encontrando alguém.


O senhor acredita que temos evoluído pouco no aspecto sentimental?
Acredito no contrário, que estamos vivendo uma mudança importante a ponto de merecer um nome: "novo amor". Até bem pouco tempo, as pessoas ficavam juntas em nome de algo ou de alguém. Dizia-se, por exemplo "Estou com você porque jurei na igreja"; "Estou com você porque não vou me afastar dos meus filhos"; "Estou com você para manter nosso patrimônio"; e por aí seguia. O fato é que, hoje em dia, temos um novo amor, livre dessas intermediações, no qual se uma pessoa está com outra é porque quer, mesmo que diga que não.


Esse é o amor que o senhor define como o amor da pós-modernidade, no qual o laço social é predominantemente horizontal? Que tipo de amor é esse?
Sim. A pós-modernidade trouxe uma revolução no laço social nunca antes vista. Nos últimos 2500 anos, nossos laços sempre foram verticais, no sentido de nos agruparmos em torno de um padrão, constituindo o desenho de uma pirâmide. Seja colocando no topo da pirâmide a Natureza, Deus, ou a Razão. Hoje, não há mais padrão, por conseguinte, não há mais verticalidade, motivo de falarmos em sociedade de rede, horizontal. Nessa sociedade, detectamos um novo amor pelo qual a responsabilidade é só dos amantes, sem desculpa. Uma pessoa está com a outra porque quer, ponto. O curioso é que normalmente não sabemos o que é esse querer. Ama-se sem saber o porquê e responsabiliza-se por esse não saber.


Em Os complexos familiares na formação do indivíduo, Lacan diz que a família prevalece na primeira educação e preside os processos fundamentais do desenvolvimento psíquico. Isso explica o fato de alguns serem mais carentes que outros?

Carentes somos todos, uma vez que sempre nos falta algo. Por mais que recebamos, o desejo sempre aponta um mais além. O que nos diferencia é como reagimos às carências. A família cumpre um primeiro papel muito importante, mas, para nossa sorte, não definitivo. Sorte porque, se não fosse assim, cairíamos no determinismo que pensa que uma vez tendo tido um problema na infância, não se teria mais conserto, teria que nascer de novo. Nada disso.


A carência gera pessoas que desenvolvem uma dependência afetiva muito grande. Em contrapartida, vivemos em uma época em que as relações terminam mais facilmente. Como explicar isso?
De fato vivemos uma época de mudanças de parceiros mais frequente que anteriormente. Isso não quer dizer que estejamos amando pior. Essa aparente contradição se explica facilmente. Se estivermos de acordo com o já dito, que uma pessoa só está com a outra hoje em dia porque quer e não por segundos ou terceiros motivos, não havendo mais amor, ou se reinventa ou se separa.


O senhor afirma que buscar alguém para suprir as carências emocionais é assinar um atestado de infelicidade permanente. Como evitar que isso aconteça?
Evitando a dependência excessiva do outro. O problema é que, ao encontrar alguém aparentemente disponível, muitas pessoas agarram-se a ela como garantia de segurança emocional, econômica, social, espiritual, mas isso não é a felicidade. Idealizar que o parceiro é a fonte da felicidade tem dois lados ruins: o primeiro é que, enquanto está sem par, a pessoa acaba desvalorizando as outras conquistas da sua vida, que também são importantes, mas acabam passando despercebidas. Segundo porque, se, por acaso, ela consegue que seu relacionamento amoroso atinja seu ideal de felicidade, está fadada a perder essa situação, já que nenhum relacionamento consegue ser ideal eternamente. É preciso entender que só pode estar junto aquele que pode estar separado. Felicidade é responsabilidade pessoal e intransferível.


De que maneira esse apego ao outro se traduz no universo virtual, uma vez que observamos cada vez mais pessoas dependentes da rede social?
Pessoas são dependentes de pessoas desde que o mundo é mundo. Nós nos entendemos sempre através do outro. Haja vista essa entrevista (risos). A identidade de uma pessoa é relacional, se dá na relação com as outras e com o meio. É o que possibilita dizermos que uma pessoa me faz sentir melhor, outras, pior. As redes sociais não são culpadas disso, elas só evidenciam a nossa natureza humano-dependente.


De fato, todo relacionamento amoroso é um contrato de risco?
Sempre. O amor é um contrato de risco, no qual não há garantias. Isso porque não é possível estabelecer todas as cláusulas necessárias a um acordo. Até mesmo o elementar "Eu te amo" é sempre escutado com desconfiança, que leva o parceiro a responder "Ama mesmo?". Amor é um contrato de risco que mantém os parceiros sempre alertas.


E o maior risco é daqueles que costumam transformar amor em remédio?
Se amor é remédio, ele é daqueles cheios de efeitos colaterais e de reações adversas. Seria divertido escrevermos a bula do amor. É o que os poetas tentam todos os dias, em um trabalho infinito, pois sempre falta algo a dizer.


Ouvimos diversas pessoas se queixando sobre as mudanças que surgem depois de um tempo de relação. Querer que seja sempre "à flor da pele" é um dos principais motivos para o fracasso?
O amor acorda, mas, de vez em quando, você quer dormir. Aí, com boa razão, vem o medo de o amor ir embora, o que leva muitos a tentarem congelá-lo para depois comê-lo requentado no microondas. Amor requentado dá azia brava. A paixão pode ser chamada de felicidade, mas, quando se transforma em um ideal de vida, fica supervalorizada e representa um perigo. Fica bonito no teatro, mas é muito triste na vida real. Daí personagens como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa. Morreram porque tentaram eternizar a paixão.


O estado da paixão, de acordo com a ciência, dura de dois meses a dois anos, porque, se durasse mais tempo, ninguém conseguiria suportar. É isso mesmo?
Divertem-me essas definições pseudocientíficas. O amor é uma coisa séria demais para ser formatado em padrões empíricos e objetivos. Agora, de fato, é duro suportar uma emoção que te questiona todos os dias. Há amantes entusiasmados e amantes cansados, não é uma questão de tempo, mas uma questão de criatividade.

Algumas relações amorosas tendem a extrair o que há de melhor em nós, outras, por sua vez, nos fazem ficar cara a cara com o nosso lado mais sombrio. Em sua opinião, por que isso acontece?
Toda relação digna desse nome nos oferta os dois lados: o melhor de nós e o mais sombrio. O que se espera é aproveitar o melhor e com ele se guiar no lado mais sombrio.


O senhor diz sempre que felicidade não é bem que se mereça. Seria então uma questão de sorte?
Olha, quando eu escrevi sobre isso, a ideia era chamar a atenção para o contrário daquilo que se pensa normalmente, a saber, que a felicidade seria fruto dos nossos merecidos esforços. Não é não. A felicidade, do ponto de vista psicanalítico, se dá no encontro, na surpresa, e não há esforço nenhum na surpresa. E, como disse antes, para haver encontro não pode haver dependência. Se não, o que se dá não é um encontro, é parasitismo. A felicidade sempre nos parece inalcançável. Por isso, quando uma pessoa está feliz, ela não sabe quem ela é, ela pensa que está sonhando ou que houve um engano. Ela acaba vivendo uma crise de identidade: "Esse cara sou eu?". O mais triste é que a maioria das pessoas se assusta e sai correndo de medo da felicidade, exatamente pela sensação de estranheza que ela provoca. Por isso, dizer que há que se suportar ser feliz.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

10 MITOS SOBRE A PSICANÁLISE



O paciente fala deitado no divã e o analista só escuta, sentado numa poltrona confortável. Cliché no cinema, a cena nem sempre é exatamente essa nos consultórios. Aqui, toda a verdade sobre o folclore que envolve essa relação tão delicada. Por Sílvana Tavano


Todas terapias têm a mesma meta: lidar com a angústia e com o sofrimento, ajudando o paciente a ser mais feliz e a encontrar um sentido para a vida. Mas cada modalidade busca esses objetivos à sua maneira -em alguns casos, a pessoa vai dramatizar e reviver situações pelas quais passou; em outros, vai tentar desatar nós desbloqueando tensões físicas. Na psicanálise, a fala é o fio condutor de um processo de autoconheci-mento.Tudo começou com Freud, no início do século passado: ao receber pacientes que já tinham consultado todos os médicos de Viena, sem sucesso, Freud percebeu que o ato de falar, sendo ouvido por alguém, era terapêutico. Mais do que isso, esse discurso podia trazer à tona conflitos que estavam em outro lugar além da mente racional a esse lugar; ele deu o nome de in-consciente. "Uma parte da mente à qual não temos acesso, mas que é capaz de produzir efeitos, como neuroses, angústias e sintomas físicos", explica a psicanalista Mania Deweik, de São Paulo. A seguir, três especialistas falam sobre os mitos que cercam o assunto, mostrando que muito do que se diz sobre a psicanálise é um exagero. 

1- O psicanalista nunca fala durante a sessão? 
"Eu falo e escuto, ensino, aprendo e também me divirto com meus pacientes", diz a psicanalista Mania Deweik. Segundo ela, talvez esse mito tenha surgido quando a obra de Freud foi traduzida do alemão para o inglês. "Ele escrevia de maneira literária, inspirava-se nos poetas, na tragédia grega,e seus discípulos ingleses entenderam que era preciso dar uma forma mais científica à sua teoria.Esse pode ter sido um dos fatores que contribuíram para a ideia de neutralidade."Na prática, existem psicanalistas que mantêm uma atitude mais sisuda. "E uma questão de estilo pessoal.Tem que seja mais reservado e há os que são expansivos. Mas isso não é uma regra da terapia", diz o psicanalista gaúcho David E. Zimerman. 

2- Para ter resultado, é preciso fazer terapia durante muitos anos? 
Na época de Freud, os tratamentos terminavam em meses. Mas, ao longo das décadas, a psicanálise se desenvolveu como um processo que dura anos. Hoje a prática não corresponde a nenhuma das duas alternativas. "A psicanálise não pode ser definida como um tratamento breve, porque exige um tempo de elaboração, e esse tempo varia de pessoa para pessoa",diz a psicanalista Dulce Barras, de São Paulo. Na sua clínica, o usua lé começar com duas sessões semanais, que podem se reduzir a uma, e o tratamento dura, em média, de três a cinco anos. Segundo Mania Deweik, o tratamento pode parecer longo para quem busca resultados imediatos contra a tristeza, o medo, a ansiedade. "Mas crescer não é um processo instantâneo. E, além disso, cada paciente tem sua história e seu ritmo", diz Mania. 

3- A análise é um tratamento caro? 
A ideia de um tratamento elitizado, que só acontece entre quatro paredes e com um paciente pagando por infinitas sessões, já não corresponde à realidade. "A psicanálise está nas creches, nos postos de saúde e nas instituições de saúde mental", explica Mania Deweik O psicanalista David Zimerman afirma que a maioria das sociedades psicanalíticas mantém serviços ambulatoriais, com preços acessíveis à população. "Além disso, é normal analista e paciente conversarem e negociar a questão do dinheiro", diz Dulce Barros.

4- O paciente fala o tempo todo do passado, da mãe e do pai? 
É importante trazer do passado as situações que continuam a perturbar ou ase repetir no presente, mas isso não significa que a análise vá girar em torno disso. "O único passado que interessa é o que não foi suficientemente elaborado, isto é, entendido e aceito. Por isso,continua incomodando o paciente", explica Mania.Segundo Zimerman, o assunto de cada sessão fica a critério do paciente -é comum que apessoa fale sobre situações cotidianas, ligadas ao trabalho ou à família. Mas, através desses temas que fluem espontaneamente, muitas vezes é possível fazer uma conexão com situações similares que já aconteceram. "Essas associações trazem compreensão. E o que tecnicamente chamamos de 'insight'. Nesse momento, o paciente se dá conta de que está agindo de determinada maneira porque tende a reagir da mesma forma. São jeitos de se comportar ligados a traumas ou relacionamentos antigos", explica o psicanalista. Nas palavras de Dulce Barros, os fatos imediatos são uma conseqüência do passado. "Na análise, a pessoa percebe que existe esse processo de repetição e que isso só termina quando há uma compreensão do que aconteceu." 

5- Tudo o que a pessoa faz tem a ver com sexo? 
Segundo David Zimerman, essa falsa crença tem origem no próprio Freud, que relacionava todas as angústias e sintomas a algum problema sexual. "Hoje essa visão se justifica só em certos casos. Na maioria das vezes, há outros aspectos a considerar e que são mais importantes do que as questões ligadas ao sexo", explica o psicanalista. A questão é que,para Freud, o conceito de sexualidade ia muito além do ato sexual genital, incluindo várias outras manifestações prazerosas. "Nesse contexto, o sexo não deve

6- Muitos pacientes se apaixonam pelo psicanalista?
"Pode acontecer Mas essa "paixão" tem muitos coloridos, não só o do desejo sexual. Pode ser uma transferência da imagem da mãe, da amante, da competidora... Importante é que isso seja analisado como qualquer outra fantasia", explica Mania. Para Dulce, muitas vezes esse jogo de sedução esconde apenas uma outra forma de resistência. "O paciente imagina que,se encantar o médico, vai ser menos censurado." Nessa situação, o papel do psicanalista é decisivo. "Ele vai, sim, lidar com os sentimentos do paciente, mas não pode ficar envolvido com ele", explica Zimerman

 7-O paciente não pode saber nada sobre o seu psicanalista?
Freud atendia em sua própria casa, sob o mesmo teto em que moravam os oito filhos, a mulher e a cunhada. Portanto, a ideia de total neutralidade do profissional não tem nada a ver com ele, mas com a interpretação que seus seguidores fizeram de sua teoria. "Acredito que é preciso estabelecer limites, mas existem formas de olhar para isso. Cabe ao analista definir até que ponto a curiosidade do paciente é normal e a partir de que momento isso se transforma em mais um problema a ser trabalhado", explica Zimerman. Em uma relação tão íntima,muitas vezes o paciente passa a ver seu analista como um amigo, com quem gostaria de, por exemplo, poder sair para tomar um café. "Mas é importante preservar a cumplicidade que se conquistou dentro do consultório. Por isso, a relação não deve mudar de formato", explica Mania, Segundo ela, não há hierarquia, mas o relacionamento não é de igual para igual. "Um fala e o outro escuta, as posições que as pessoas ocupam são diferentes. Essa não é uma relação entre amigos", conclui Mania. 

8- É obrigatório deitar no divã? 
O que define a análise não é o divã, mas a escuta do analista. Todos concordam, porém, que o divã pode facilitar "Freud atendia até 15 pessoas por dia. Não é fácil ficar submetido ao olhar do outro durante tanto tempo, tentando, ao mesmo tempo, captar o que aquela pessoa está dizendo", diz Mania. Apesar disso, os pacientes ficam à vontade para ocupar o espaço que desejam em seu consultório. Para o psicanalista David Zimerman, a pessoa fica livre para decidir "Mas considero uma conquista do paciente quando ele decide fazer análise deitado.Isso apenas demonstra que ele sente confiança e não tem necessidade de tentar controlar seu analista", Isso também não é obrigatório para a psicanalista Dulce Barros, mas ela admite que a terapia flui mais tranquilamente com o paciente deitado. "Quem usa o divã geralmente está relaxado e menos defensivo." 

9- O psicanalista interpreta os sonhos? 
O sonho é um dos caminhos de acesso ao inconsciente e auxilia o trabalho de análise. "Mas é o paciente que traz associações relacionadas ao sonho", explica Dulce. O analista ajuda e estimula a pessoa a fazer as suas próprias interpretações. "Não se trata de um oráculo,alguém que está dizendo algo que o outro não sabe... Na prática, o analista só junta aquilo que o paciente está próximo de descobrir por si mesmo", explica Mania. 

10- E muito fácil enganar o analista? 

Mesmo que o paciente minta, o analista tem como conduzir bem o tratamento. Na prática, isso não chega a ser importante, já que o analista não está preocupado com a veracidade dos fatos, mas com a forma como a pessoa conta suas verdades e também suas mentiras."Mesmo que seja falsa, a história sempre vai ter a estrutura e o jeito de ser daquela pessoa. E isso é revelador", diz Mania. Para Zimerman, é importante que o analista assinale, em algum momento, que o paciente está mentindo para si mesmo em primeiro lugar. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Escuta analítica



“Freud escuta nas reticências, nos tropeços, no sintoma, para apanhar na palavra a verdade do corpo e do desejo...Se o fenômeno, o manifesto e o aparente tornam-se suspeitos, o insensato e o incoerente ganham significação.”

(Rubia Delorenzo, Neurose Obsessiva, págs. 20 e 21)