terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Estranhas Ninharias - Diana Corso


Publicado em 01/03/2013

Edição 129

Como Clarice Lispector, precisamos nos ocupar das pequenas coisas da vida: elas são a chave para os temas mais importantes

"Sou uma pessoa muito ocupada: tomo conta do mundo", escreveu Clarice Lispector. "No Jardim Botânico, então, eu fico exaurida, tenho que tomar conta com o olhar das mil plantas e árvores, e sobretudo das vitórias-régias. (...) Tomo desde criança conta de uma fileira de formigas."

Entendo semelhantes inquietudes: muitos dos nossos sentimentos são pateticamente dedicados a estranhas ninharias. Dá até vergonha de confessar. Lutamos contra os pensamentos que atestam nossa futilidade. Pedimos a nossa mente perturbada: diga logo, o que na verdade está produzindo tanto ruído? Não adianta...

Todo ano, sempre que viajo para minha cidade natal, sei que vou sentir uma pontada de angústia se não reencontrar o cachorro de um vidente que sequer consulto. Chego e vou ver se estão em seu postos, na banquinha de búzios. O velho hippie usa roupas surradas e tem longos cabelos brancos. A seu lado, em uma almofada vistosa, repousa seu cão, também grisalho. Certa vez notei a falta do cachorro e fiquei com um aperto no coração: um havia perdido o outro. Agora o vidente parecia miserável, sozinho. Para minha alegria, no dia seguinte o cão estava de volta. Com tantas preocupações dignas de nota, por que essa?

A cidade onde nasci é para mim lugar de muitas perdas, de lutos, mas também de férias felizes, da minha infância. O pequeno drama imaginário, no qual faço do cachorro e do vidente protagonistas de uma grande amizade, é uma metáfora forte. Eles representam os vínculos que fazem de alguém um ricaço e as perdas que nos depauperam. Por isso temos que nos ocupar das ninharias: elas são a chave para os temas de suma importância.

Clarice tinha a tarefa de olhar as plantas do Jardim Botânico, de cuidar da integridade da fila de formigas. Ela sabia que nossa presença no mundo faz diferença, mas está longe de ser imprescindível. A minha com certeza mais prescindível que a dela. Esse texto, chamado "Eu tomo conta do mundo", termina com a frase: "só não encontrei a quem prestar contas".

Mentirosa, essa Clarice: ela contou para nós. Na crônica e na ficção, soube ser embaixadora da vida mínima, onde pulsam máximas emoções. Fazemos parte da fila de formigas de que ela tomou conta. Somos menos solitários graças a sua generosa sinceridade. É isso que faz um grande cronista, revelar a grandeza de nossas bobagens, sem cometer a descortesia de reduzi-las à razão. Eis meu sonho de consumo ao escrever e analisar nossa vida, que nem sempre sabe ser simples. Continuarei tentando.


Diana Corso é psicanalista e, atualmente, atende jovens e adultos em Porto Alegre, onde mora. Junto com o marido, Mário Corso, é autora dos livros Fadas no Divã e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, ambos pela Ed. Artmed.recentemente publicou Tomo conta do mundo - Confissões de uma psicanalista, onde uma série de crônicas que misturam a contemplação do cotidiano com uma investigação do inconsciente. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Desejo - Victor Hugo


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar

Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar

E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo

Desejo depois, que você seja útil
Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor

Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.

Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta

Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada

Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem

Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar

Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar!

Victor Hugo

domingo, 14 de dezembro de 2014

Eu, mamãe e os meninos



"É genial.
Acabei de perceber algo incrível. 
De fato, o que distingue as mulheres é a sua forma de respirar.  
Sim.
É mais macio.
Variável.
Menos linear, uniforme.
É isso.
A respiração de uma mulher varia o tempo todo
depende se estar emocionada ou concentrada osedutora ou charmosa..."




A origem do filme Eu, mamãe e os meninos (Les Garçons et Guillaume, à table!) é uma peça solo de Gallienne inspirada  na sua história pessoal, sendo que neste interpreta a si mesmo e sua mãe, o que é muito conveniente para expressar a alienação no desejo materno da qual parte a trajetória do personagem rumo a uma escolha alicerçada no próprio desejo. A comédia ganhou cinco categorias do César na França, incluindo melhor filme e melhor ator.
O nome do filme em francês é a frase que a mãe usava para chamar o protagonista e os irmãos à mesa. Guillaume era assim diferenciado dos irmãos, mas ao sê-lo era retirado da categoria de meninos!  
Nas suas fantasias ele era a menina desejada, a mãe, Sissi. Imitava a mãe tão bem que numa cena, a avó materna está de costas e este responde “com a voz materna” . A avó prossegue e apenas ao se virar descobre que é o neto.  Então de forma cifrada o alerta que não deve se enganar e se lamentar, mas ainda Guillaume tem um longo caminho a percorrer, terá que se deparar com medos e  descobrir alguns véus.
A mãe havia desejado uma menina, os irmãos o rotulam de homossexual, o pai rejeita seus trejeitos afeminados, percebendo que há um consentimento da mãe, mas sem se aproximar do filho, apenas o envia para o mais longe. 
O filme, nos faz pensar, antes  da posição sexuada e da escolha de objeto temos que nos constituir, simplesmente SER. Quem é Guillaume? Ele imita a mãe, seus trejeitos, sua voz, seu andar. É para se diferenciar que a imita, para ser tão grande quanto ela. Ser o falo. Não para ser mulher, se o fosse, seria transexual. Guillarme busca ser um entre muitos, ser diferente, não ser igual. Ser menina seria uma resposta ao desejo da mãe, mas também o diferenciaria, já que naquela família ser um menino não foi um lugar que ele ao nascer foi destinado como atrativo ou positivo, ele também não pode o positivar.
Numa cena temos Guilhaume Gallienne perguntando : Mamãe, dei de cara com meu primeiro amor hoje! Lembra da Ana?”, sua mãe responde: “Como ele está?”. È um lapso que diz do desejo da mãe que o filho fosse uma menina ou não amasse outra que não ela? Ambas as coisas podiam ser possíveis se ele fosse uma menina!!! Mas Guilhaume não é uma menina!!!
Guilharme sai do lugar de alienação do desejo materno e de ter raiva de parecer o que todos dizem que é e parte em na busca de saber quem é e qual é o seu desejo.
Nascemos num corpo biologicamente sexuado, mas a posição sexuada feminina/masculina e a escolha pela homossexualidade ou heterossexualidade  ocorre no caminho, entre este primeiro amor à mãe, que pode ser esta mulher que jorra igual “Cataratas do Iguaçu” (fala da personagem no filme ao ir ao banheiro), é portanto, não é exatamente uma  mulher. É necessário reconhecê-la "envergonhada" (fala do personagem, que aqui utilizarmos como similar a não-completa, fálica), não-toda...para podermos amarmos a nós mesmos e a uma outra pessoa.

Autoria própria, 14/12/2014


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Como viver um luto - Contardo Calligaris


Qual é o melhor jeito de viver um luto? Agora que ele/ela morreu, agora que perdi a saúde, agora que a casa caiu, como é que eu faço para continuar com minha vida?
Quase sempre, quem coloca essa pergunta de fora (ou seja, pensando generosamente nas perdas dos outros ou em eventuais perdas futuras) parece acreditar num pressuposto pelo qual, antes de mais nada, quem perdeu um ente querido gostaria de sofrer quanto menos possível e pelo tempo mais curto possível.
Quando passamos por um luto, muitos amigos e parentes apostam no mesmo pressuposto e sugerem que a gente dê um jeito para se distrair e para "esquecer" logo.
Pois bem, o tal pressuposto é errado: "fazer o luto" nunca significa esquecer quem e o que perdemos –ao contrário, para "fazer o luto" e sair minimamente da "fossa" é necessário se lembrar.
Talvez isso aconteça porque se lembrar de quem morreu é um jeito de manter o morto em vida, dentro de nós; sei que essa observação pode parecer mais bonita do que verdadeira, mas aqui vai um exemplo.
Anos atrás, conheci uma senhora idosa, que acabava de perder o único filho (o qual, por sua vez, era jovem e celibatário). Ela ficara sem família alguma, sozinha no mundo; a vida não fazia mais sentido: logo daria um jeito de acabar "esta lástima".
Detesto mentir para consolar. O único argumento que me veio foi o seguinte: se ela se matasse, o filho morreria de novo, com ela, e desta vez definitivamente, pois não haveria mais ninguém para se lembrar dele.
Encontrei uma curiosa confirmação das minhas palavras, quando li uma crônica de David Eagleman, em "A Soma de Tudo" (Rocco): no Além, todos os mortos estão juntos até o momento em que, na Terra, seu nome é pronunciado pela última vez.
Quando isso acontece, alguém vem e leva o morto embora. Não se sabe para onde ele vai, mas a impressão dos que ficam na sala é que a morte verdadeira é aquela –quando chega a última vez em que o nome é pronunciado na Terra.
Por isso talvez, para todos os autores sérios que tratam do tema, o luto nunca seja esquecimento. E, quanto a mim, faço esforços propositais para me lembrar de meus mortos, para mantê-los naquela sala do Além, antes da chamada final.
Uma outra coisa com a qual quase todos os autores sérios concordam é a recomendação que o luto se expresse numa atividade concreta. Você pode fazer algo que a pessoa que você perdeu gostava de fazer ou que você fazia com ela.
Ou, então, criar algo que torne sólido, tangível o trabalho de sua memória –por exemplo, escrever um diário do luto, contando como ele ou ela lhe fazem falta, mas continuam na sua vida.
Boris Fausto, justamente, nos últimos três anos, depois de perder Cynira, a companheira de uma vida, escreveu o diário de seu luto: "O Brilho do Bronze" (Cosac Naify, R$ 39,90, 240 págs.), lançado em novembro.
Fazia muito tempo que não eu lia nada tão verdadeiro, tão honesto e tão justo. Terminei o livro numa sentada só e guardo ele ao alcance da minha mão; claro, é porque posso querer reabri-lo de vez em quando, mas não é só por isso: "O Brilho do Bronze" é uma obra companheira, como os "Ensaios" de Montaigne ou as melhores coisas de Roland Barthes –quero que o livro fique comigo e me acompanhe durante um tempo.
Talvez seja por causa do próprio luto, talvez seja por causa da idade (84 anos), mas o fato é que Boris Fausto escreve com a liberdade de quem não tem nada para esconder, nem de si mesmo.
Entende-se que livro seja um companheiro e amigo para qualquer um que esteja vivendo um luto. E não diga que ter amigos em carne e osso com quem conversar seria melhor do que ter um livro para ler.
O livro de Boris Fausto é mais sábio do que a média dos amigos. Além disso, uma grande parte dos nossos lutos são inconfessáveis e são vividos sem poder falar nada para ninguém: pense no luto de quem perde o homem da sua vida, que não é o marido –ou a mulher de sua vida, que nem a própria sabia que era" Kenneth Doka, um famoso gerontologista da Faculdade de New Rochelle, em Nova York, descobriu a importância (quantitativa e qualitativa) dos lutos não autorizados ("disenfranchised"), que precisamos viver sozinhos, em silêncio –porque os sentimentos eram e devem continuar escondidos, porque a sociedade não leva a sério a perda que sofremos, porque o laço era de alguma forma vergonhoso e a dor seria uma confissão.
Enfim, com ou sem luto, o livro de Boris Fausto é um amigo para qualquer um que, por qualquer razão, esteja perdendo sua fé na escrita e na leitura. 

Contardo Calligaris, italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Ensinou Estudos Culturais na New School de NY e foi professor de antropologia médica na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo.

    quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

    Anna Freud é homenageada com Doodle do Google em seu 119º aniversário


    119º aniversário de Anna Freud, filha de Sigmund Freud, é celebrado em Doodle do Google (Foto: Reprodução/Google)

    Anna Freud, pioneira da psicologia infantil e filha de Sigmund Freud o "pai da psicanálise", recebeu uma homenagem em um colorido Doodle do Google nesta quarta-feira (3). Nascida em 3 de dezembro de 1895 em Viena, na Áustria, a sexta filha de Sigmund e Martha completaria seu aniversário de 119 anos.


    Anna focou seus estudos principalmente no tratamento de crianças, dando início à psicanálise infantil. Seu primeiro caso de análise foi W. Ernest Freud, um sobrinho que tratou em duas ocasiões. O doodle colorido faz referência à sua relação com o mundo infantil e lúdico na terapia voltada para as crianças.

    Anna era a filha mais nova de Freud e é a única de seus seis filhos a seguir estudando a psicanálise.

    Anna teve grandes divergências com Melanie Klein, psicanalista dissidente do freudismo ortodoxo e iniciou os estudos sobre a obra de seu pai ainda bem jovem, aos 13 anos de idade, quando começou a participar de discussões semanais sobre as ideias e teorias psicanalíticas e análise de casos.

    Após um início de carreira como professora, ela deixou a profissão devido a problemas de saúde e passou a acompanhar mais de perto os passos de seu pai nos anos após a primeira guerra mundial. 

    Anna Freud tornou-se membro da Sociedade Psicanalítica de Viena em 1922 e tornou-se diretora do Instituto de Formação Psicanalítica de Viena em 1935, seguindo os passos do pai.

    Após a família Freud fugir da Áustria em razão do aumento da perseguição dos judeus pelos nazistas, Anna continuou com o seu trabalho em Londres, além de cuidar do pai, então gravemente doente devido a um câncer. Sigmund Freud morreu aos 83 anos. Já sua filha, viveu um pouco mais e faleceu aos 86 anos, em Londres
    Com a chegada da Segunda Guerra, abriu a The Hampstead War Nursery, uma casa para as crianças que sem-teto e muitas vezes órfãs, como consequência direta do conflito armado. Sua pesquisa sobre o impacto do estresse e da separação em crianças foi publicado em parceria com Dorothy Burlingham, sendo seguida de outras obras importantes para a atual psicologia infantil.

    Anna aplicou a sua formação e conhecimento em crianças da instituição, que foi renomeada como Hampstead Child Therapy Course and Clinic no ano de 1952, quando foi reconhecida como obra e local de caridade. Após sua morte, em 1982, o local ganhou um novo nome, Anna Freud Centre (annafreud.org), e continua a ser uma das principais instituições para a saúde mental de crianças.
    Anna Freud Centre, em Londres (Foto: Reprodução/AnnaFreud.org)
    Fonte: VIDA DIGITAL

    quarta-feira, 19 de novembro de 2014

    O Tempo - Mario Quintana


    A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
    Quando se vê, já são seis horas!
    Quando de vê, já é sexta-feira!
    Quando se vê, já é natal...
    Quando se vê, já terminou o ano...
    Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
    Quando se vê passaram 50 anos!
    Agora é tarde demais para ser reprovado...
    Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
    Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
    Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
    E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
    Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
    A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará

    Mario Quintana

    domingo, 16 de novembro de 2014

    Amor trago já - Isloany Machado


    *Este texto é o terceiro prelúdio do XV Encontro nacional da EPFCL- Brasil, a acontecer em Campo Grande nos dias 13, 14, 15 e 16 de novembro.

    Convocada a dizer sobre o amor, travei. Sim, escrevo. Mas sobre o amor? Não! Entretanto, não havia escapatória. Tinha que dizer, como psicanalista, do amor. Os dias foram se arrastando e as palavras fugiam. E de lá do fundo do meu falasser brotavam chavões: "O amor é fogo que arde sem se ver". O que é o amor, o que é o amor? "É só o amor, é só o amor". Às voltas com a convocação, espremia, espremia, e nada.
    Tenho o costume de andar olhando para as coisas do chão. Até algum tempo atrás achava um jeito feio de andar, mas depois de Manoel de Barros, que dá tanto valor para as coisas desimportantes – coisas de formigas, de pedras, de rãs – achei que não tinha problema esse meu olho torto. É no chão que acho as coisas mais fundamentais. E eis que um dia, chutando pedrinhas no centro de Campo Grande, encontrei um bilhetinho roto que dizia: "AMOR TRAGO JÁ". Passei reto. Fiquei com vergonha de apanhar do chão algo que estava tão pisoteado. As palavras ficaram mordendo meu calcanhar, então na volta peguei, com um meio sorriso pra disfarçar o constrangimento. Tentei não fazer de forma furtiva para que as pessoas não pensassem que encontrara algo de valor. Era só um papel muito roto e pisoteado. Corri para o consultório a fim de ler o que dizia. Transcrevo:

    "AMOR TRAGO JÁ
    **ATENÇÃO** Não Sofra mais...Chega de sofrer e venha ser feliz...Eu posso e trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, em apenas 7 dias com garantia e rapidez, não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre. NÃO SOFRA MAIS! Há solução p/ todos os seus problemas e outros mais. Faço e desfaço qualquer tipo de trabalho Espiritual!!
    EU GARANTO O QUE EU FAÇO!!!
    TRABALHOS RÁPIDOS E GARANTIDOS
    Sigilo Absoluto"

    Reli umas duas vezes e fiquei sem entender por que as pessoas haviam pisoteado aquele papel, sem lhe dar importância. Fiquei comovida com aquelas palavras. Talvez não com as palavras em si, pelo que dizem, mas porque o amor estava misturado a todas as coisas desimportantes do chão. Quem teria deixado cair o papel? Algum desacreditado do amor? Ou talvez alguém que nunca o tenha conhecido. Reli o papel. Havia ali uma promessa de trazer o amor, o GRANDE AMOR de volta. Mais que uma promessa, havia uma garantia. Me senti descrente, uma mulher de pouca fé: Ora, o amor nada mais é do que amar ser amado, é demandar amor.
    Olhei para o divã ao lado e fiquei lembrando dos ditos amorosos e desamorosos – principalmente estes – que ouvira naquele mesmo dia, permeados pelo silêncio das minhas intervenções. Não havia palavra que pudesse dar garantias de trazer o amor no laço, AMARRADO, GAMADO, ACORRENTADO. Encafifada com a promessa do bilhete, pensei: por que não? Por que o amor não se deixa amarrar, acorrentar, para sempre? Depois de alguns minutos a sentir o gosto dessas duas palavras, percebi que o amor não se pode acorrentar porque está como elo da corrente; não se deixa amarrar, porque faz laço; não se permite enodar, porque o amor é o que faz nó.
    Antes de uma grande declaração de amor, há um nó na língua. Mas quando se perde um amor, resta um nó na garganta. Às vezes este tipo de nó é tão apertado que a vida se vai. Lenine diz: "às vezes parece até que a gente deu um nó", mas só parece, pois "hoje eu quero sair só", conta o restante da letra (1+1=1). O amor dá nó no ser: "levei um nó". Mas o nó que o amor dá não é cego, caso contrário o bilhete roto teria que dizer: "Eu posso e trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, pois trabalho com um nó cego". Ora, os termos precisam ser ditos claramente.
    Acontece que há outro nó. O nó borromeano, que Lacan utiliza em sua teoria para falar, dentre outras coisas, de algo da ordem do impossível, de que não há completude. Nenhum nó é cego, "desenodável". Foi aí que minha ficha caiu e pude entender minha descrença. Esse nó tem três elos iguais em termos de consistência, pois desfeito um, qualquer um, o nó se desfaz. Misturei Lacan com a cigana do bilhete, minha cabeça deu nó. Mas entendi que o silêncio dos meus ditos diante do desamor que ouço todos os dias na clínica, tem a ver com a face real desse nó, com o impossível da relação sexual. Então, pelo lado avesso, pensei: se o amor é narcísico, pois não foge das identificações e dos espelhamentos, é, portanto, imaginário. Mas se o amor faz laço, enlaça o sujeito com seu desejo, é simbólico.
    Neste momento, deixei cair o bilhete e pensei: "Dona cigana, sua desatadora de nós, não acorrente o amor, deixe-o livre para fazer nós". Reli pela última vez o bilhete e reformulei seu dito:
    "AMOR TRAGO NÃO
    **ATENÇÃO** Pode sofrer por amor...Continue a sofrer, pois amar não é o mesmo que ser feliz...Eu não posso e não trago o seu GRANDE AMOR de volta GAMADO, AMARRADO E ACORRENTADO para sempre, porque não se faz nó cego no amor, porque não se pode acorrentar o amor, pois ele é a corrente. No amor não há garantias, quanto menos em apenas 7 dias. Não importa a distância que for, esteja ELE ou ELA aonde estiver, o ‘amor é bicho instruído’. Tenha quem você AMA aos seus pés para sempre, no espelho. SOFRA, porque ‘essa ferida, meu bem, às vezes não sara nunca, às vezes sara amanhã’. Não há resposta pronta p/ nenhum de seus problemas e de ninguém mais.
    EU NÃO GARANTO NADA!!!
    TRABALHOS LONGOS E SEM GARANTIAS
    Sigilo Absoluto!!!

    A Dor de Amar (Citação I) - J.D. Nasio


    Edvard Munch - Separation 1894

    A dor de amar é uma lesão do laço íntimo com o outro, uma dissociação brutal daquilo que é naturalmente chamado a viver junto.

    “Ao contrário da dor corporal causada por um ferimento, a dor psíquica ocorrem sem agressão aos tecidos. O motivo que a desencadeia não se localiza na carne, mas no laço entre aquele que ama e seu objeto amado. Quando a causa se localiza nessa encarnação de proteção do eu que é o corpo, qualificamos a dor de corporal; quando a causa se situa mais-além do corpo, no espaço imaterial de um poderoso laço de amor, a dor é denominada "dor de amar". Assim, podemos desde já propor a primeira definição de dor de amar, como o afeto que resulta da ruptura brutal do laço que nos liga ao ser ou à coisa amados. Essa ruptura, violenta e súbita, suscita imediatamente um sofrimento interior, vivido como um dilaceramento da alma, como um grito mudo que jorra das entranhas.
    A dor está sempre ligada à subtaneidade de uma ruptura, à travessia súbita de um limite, mais-além do qual o sistema psíquico é subvertido sem ser.” 

    (A Dor de Amar, J-D,Nasio, 2007, Zahar)

    No Consultório de Lacan / Rendez vous chez Lacan

    segunda-feira, 10 de novembro de 2014

    O corpo fala

    O resfriado escorre quando o corpo não chora.
    A dor de garganta entope quando não é possível comunicar as aflições.
    O estômago arde quando as raivas não conseguem sair.
    O diabetes invade quando a solidão dói.
    O corpo engorda quando a insatisfação aperta.
    A dor de cabeça deprime quando as dúvidas aumentam.
    O coração desiste quando o sentido da vida parece terminar.
    A alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável.
    As unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas.
    O peito aperta quando o orgulho escraviza.
    O coração infarta quando chega a ingratidão.
    A pressão sobe quando o medo aprisiona.
    As neuroses paralisam quando a "criança interna" tiraniza.
    A febre esquenta quando as defesas detonam as fronteiras da imunidade.
    Este alerta está colocado na porta de um espaço terapêutico
    Preste atenção! O plantio é livre, a colheita, obrigatória... Preste atenção no que você está plantando, pois será  a mesma coisa que irá colher!!!
                            
    Assim, desejo que você se cuide, porque sua saúde e sua vida dependem de suas escolhas!!!
    Escolha ser feliz!
    "Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade."

    Mário Quintana

    domingo, 2 de novembro de 2014

    O lado bom de ficar sozinho

    Querer isolar-se de tudo e de todos nem sempre denuncia um problema


    “Geralmente saio de circuito, desligo do mundo e procuro ficar sozinha. Gosto de ouvir o silêncio e entrar em sintonia com os meus pensamentos”, confessa a atriz e socióloga Noêmia Scaravelli, 55 anos. Optar pela solidão, em alguns momentos da vida, não é uma atitude considerada nociva. 

    “Os momentos de real importância na transformação ou passagem de um momento para outro ao longo da vida são precedidos por pequenos períodos de auto-isolamento e esvaziamento de si”, explica o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, que também é professor livre-docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). 

    Por isso,. “A boa solidão é sentida como uma necessidade de estar só; a má solidão, como uma impossibilidade de ficar sozinho”, completa Dunker. Para a psicóloga Denise Diniz, coordenadora do Setor de Gerenciamento de Estresse e Qualidade de Vida da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a solidão torna-se patológica quando vem associada a outros sentimentos, como tristeza, rejeição e sensação de abandono. “Neste caso, pode ser prejudicial ao indivíduo que, considerando que não pode ser aceito e amado, irá sofrer e até cair em depressão”, informa. 

    No entanto, isso não tem a ver com escolha. “A solidão benéfica nunca se estrutura em torno de ‘eu não preciso do outro’. É justamente quando me dou conta de que preciso do outro, mas não absolutamente, que a solidão torna-se um espaço criativo”, coloca Dunker. Aqui, a ideia não é querer se afastar do mundo, mas permitir-se ficar sozinho. “E qual de nós já não teve uma crise existencial?”, questiona Denise. 

    E para resolver a questão, não é preciso, necessariamente, ir para um retiro ou viajar para um lugar distante. Sabe aqueles dias em que a gente não tem vontade de conversar? “Isso deve ser respeitado. Se toda a turma está indo para a balada e você não está disposto, tudo bem! Ninguém deve se culpar por querer desfrutar de um período de isolamento”, enfatiza a psicóloga da Unifesp. 

    Denise afirma que vivemos em uma sociedade voltada para a indústria do lazer. “Ficar em silêncio, pensar na vida, colocar as ideias em ordem, são atitudes saudáveis e muito normais”, diz Denise. Ela explica que tal situação tem um nome: solitude. Aqui, há uma escolha consciente em querer ficar só.

    Novo rumo

    Foi o que aconteceu com o jornalista Rodrigo Rainho, 33 anos, que, para dar um rumo em sua vida, apostou em uma viagem sem acompanhante. “Em 2008, decidi me isolar para refletir sobre meu futuro e tentar esquecer de vez minha ex-namorada, da qual havia me separado em 2004. Estava vivenciando uma instabilidade afetiva e profissional, pois a empresa em que trabalhava passava por uma crise. Viajei para Arraial D'Ajuda, na Bahia, e fiquei 15 dias por lá em um quarto só meu”, relata. 

    Quando retornou de seu exílio, Rainho havia recuperado a energia positiva que precisava para tomar decisões importantes. “Pedi demissão e fui atrás de um emprego que me deixasse realizado. Sem contar que, na Bahia, conheci uma mulher maravilhosa que me ajudou a tocar a vida em frente e, isso me impulsionou a voltar a me relacionar e viver intensamente”, acrescenta. 

    E tal atitude, segundo Dunker, é tida como uma condição para o desenvolvimento da autonomia, da independência e da emancipação. “O isolar-se é uma maneira de deixar a voz e o olhar do outro esvaziar-se, de ver nossa própria situação de longe, ou inversamente, em uma proximidade inexplorada. Isso permite reconhecer melhor o tipo de posição na qual nos encontramos em relação ao outro”, afirma. 

    Quem tem medo da solidão? 

    Apesar de a solidão ter o seu lado positivo, ainda há um preconceito que só a associa a momentos de profundo abandono. “A solidão é tão fortemente repudiada pelo indivíduo porque se associa aos estados de desproteção e insegurança”, analisa Dunker. Entretanto, o auto-isolamento é uma experiência simbólica e não uma exclusão física.


    “O isolamento social pode ser nocivo”, diz Denise. E Dunker lembra que a solidão patológica é sentida como humilhação social, e este tipo de sensação causa temor. “Há pessoas que jamais vão a um cinema ou a um restaurante sozinhas, pois têm certeza de que todos à sua volta estão olhando e pensando: ‘Veja aquele solitário, um fracassado que não conseguiu respeito, amizade ou amor de ninguém’. Este é um exemplo da solidão patológica, ou seja, aquela que é sentida como deficitária”, exemplifica o psicanalista. 


    Porém, usufruir da própria companhia pode ser reconfortante em muitos momentos. Aproveitar este auto-isolamento, colocar a ideias em dia e tomar a decisão certa, por exemplo, pode ser muito prazeroso e satisfatório. “Se alguém não é capaz de inventar uma vida interessante sozinho, se a coisa mais interessante que pode acontecer na sua vida é encontrar alguém que te diga que você é interessante, isso acontece porque você não é interessante”, atenta Dunker. 


    E, pelo visto, Noêmia já aprendeu a lição. “Sempre acho positivo ficar sozinha. Se há muita balbúrdia em volta, me recolho para me encontrar”, finaliza.

    Por Simone Cunha, especial para o iG