domingo, 22 de setembro de 2013

Hemel (2012)

Hemel  (que significa céu em holandês) é um sensível drama de  2012, estrelado pela jovem atriz Hannah Hoekstra  e Hans Dagelet (Gijs), dirigido por  Sacha Polak.
O filme se destaca pela poética fotografia e crua realidade das dificuldades do relacionamento do pai Gigs com sua filha Hemel.
Gigs cria sua filha sozinho após um caso passageiro em que a mãe da criança comete suicídio. Não estabelece uma relação de amor com outra mulher, tendo várias tentativas ao longo da vida até sua filha se tornar adulta. Hemel torna-se uma jovem agressiva, provocativa, mantendo uma vida sexual com diferentes parceiros evitando qualquer tipo de envolvimento afetivo. Em uma das cenas em que um homem é carinhoso após terem relação sexual ela diz: “você não precisa fazer isso.” Diz que não gosta de pós-preliminares e acabar por pedir para ele sair.
Hemel se identifica com o pai, mas sem perceber que o padrão do pai é menos rígido. Ele mantém relações sexuais/afetivas por um tempo, é monogâmico, embora não consiga se entregar a uma relação plenamente,  enquanto ela evita qualquer intimidade. O único padrão de amor que Hemel conhece é adoecido, é o amor que ambos tem um pelo outro e que os prende, um amor fusional, que não delimita os espaços, que funde um ao outro e por isso é agressivo, difícil, traiçoeiro.
Em uma das cenas vemos Hemel chegar e o pai ignorá-la enquanto continua a tocar trompete. Ela o abraça pelas costas e o beija no pescoço, ele lhe chama a atenção preocupado que ela tenha sujado de batom sua camisa, logo estão no chão brincando de lutar, como se ela fosse um filho homem, ao mesmo tempo a cena remete a uma intimidade de casal. Nesta cena e ao longo do filme fica a sensação embaraçosa para o espectador de ver pai e filha emaranhados nas teias de um amor onde um pai não soube barrar o amor edípico de sua filha, embora a tenha amado como filha e cuidado dela, o que temos conhecimento na última cena. Teria sido a ausência na sua vida da vivência de amar e ser amado por uma mulher que o teria impedido de barrar este amor da filha para além do amor ao pai-homem? Possivelmente.
Desta forma o pai a trata ás vezes de forma  agressiva e brusca, ao mesmo tempo que outras vezes não impõe limites na intimidade que poderá haver entre eles. Resta a filha o sentimento confuso de ser constantemente rejeitada ao mesmo tempo que é exposta a um suposto amor sem limites que algumas vezes a coloca num lugar infantilizado, noutras de um menino-rapaz ou da mulher do pai que poderia supostamente em sua fantasia formar um casal.  Porém dois encontros vem mudar o rumo desta história. O apaixonamento da filha por um amigo do pai, um homem casado, que não vem a amá-la, mas com quem vive uma troca afetiva e a decisão do pai de morar com Sophie, a mulher pela qual encontra a via para o amor na idade madura. A esta mulher ele entrega um anel om a seguinte escrita: “Você me faz humano.” Haveria maior definição do que esta para o amor?

Abaixo um trecho do filme onde o pai revela a filha que irá morar com Sophie e ambos discutem sobre o tema amor. 

Pai: Vou morar com Sophie

Filha: Ela é a mulher certa?

Pai: Acho que sim.

Filha: Onde

Pai :Em nossa casa

Filha:“Nossa” com “você e eu” ou com “você e ela”?

Pai: Nossa com “minha casa”. Você tem sua casa. Você pode ficar com o seu quarto, é claro.

Filha: Por que vai morar com ela? Nunca fez isso antes. Por que a ama?

Pai: Eu sinto que não preciso esconder nada pela primeira vez na vida.

Filha: Isso é amor? Para mim amor é querer saber tudo que o outro sabe, ser a mesma pessoa que ele por dentro.

Pai: Acho que as diferenças são o mais interessante.

Autoria própria, 22/09/2013


PSICANÁLISE & LITERATURA: Clarice Lispector: Inquietações do inacessível


Clarice Lispector, uma das personalidades mais inteligentes e sensíveis do cenário cultural brasileiro, publicou por muitos anos uma coluna semanal no “Jornal do Brasil”, que foram reunidos no livro “A DESCOBERTA DO MUNDO”. Nestas crônicas, Clarice se desvelava: “Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna, estou de algum modo me dando a conhecer.” No texto de 29/8/1970, Clarice revela por meio de uma linguagem clara e simples, na forma de perguntas e respostas, a densidade e profundidade de seu mundo subjetivo.

                      “Perguntas e Respostas para um Caderno Escolar”


- Qual é a coisa mais antiga do mundo?
 Poderia dizer que é Deus que sempre existiu.

- Qual é a coisa mais bela?
O instante de inspiração.

- E Deus quando criou o Universo não o fez no momento de Sua maior inspiração?
O Universo sempre existiu. O cosmos é Deus.

- Qual das coisas é a maior?
O amor, que é o maior dos mistérios.

- Qual das coisas é a mais constante?
O medo. Que pena que eu não possa responder que é a esperança.

- Qual o melhor dos sentimentos?
O de amar e ao mesmo tempo ser amada, o que parece apenas um lugar-comum mas é uma de minhas verdades.

- Qual é o sentimento mais rápido?
O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.

- Qual é a mais forte das coisas?
O instinto de ser.

- O que é mais fácil de se fazer?
Existir, depois que passa o medo.

- Qual é a coisa mais difícil de realizar?
A própria relativa felicidade que vem do conhecimento de si mesmo. (depois as perguntas se tornaram mais complicadas.)

- Você é tímida como escritora?
Na hora de escrever não sou tímida. Pelo contrário: Entrego-me toda. Como pessoa sou às vezes inibida.

- Como nascem suas histórias? Elas são planejadas antes do ato de escrever?
Não, vão se desenvolvendo à medida que escrevo, e nascem quase sempre da mesma sensação, de uma palavra ouvida, de um nada ainda nebuloso.

- Como é que você se sente durante o ato de escrever? E depois de escrito o livro, você se preocupa com o destino dele?
Enquanto escrevo o bom é que não dou mostra da grande excitação de que às vezes sou tomada. E por mais difícil que seja o trabalho, sinto uma felicidade dolorosa, pois, com os nervos aguçados, fico sem a cobertura de um cotidiano banal. E depois de pronto o livro, de entregue ao editor, posso dizer como Julio Cortázar: retesa o arco ao máximo enquanto escreve e depois o solta de um só golpe e vai beber vinho com os amigos. A flecha já anda pelo ar, e se cravará ou não cravará no alvo; só os imbecis podem pretender modificar sua trajetória ou correr atrás dela para dar-lhe empurrões suplementares com vistas à eternidade e às edições internacionais.

- O que acontece com a pessoa encabulada que você é, enquanto tem a ousadia de escrever?
Desabrocho em coragem, embora a vida diária continue tímida. Aliás, sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim. Sou uma ousada-encabulada: depois de grande ousadia é que me encabulo.

- Você conhece os seus maiores defeitos?
Os maiores não conto porque eu mesma me ofendo. Mas posso falar naqueles que mais prejudicam a minha vida. Por exemplo, a grande fome de tudo, de onde decorre uma impaciência insuportável que também me prejudica.

- Você sente e participa dos problemas da vida nacional?
Como brasileira seria de estranhar se eu não sentisse e não participasse da vida de meu país. Não escrevo sobre problemas sociais, mas eu os vivo intensamente e, já em criança, me abalava inteira com os problemas que via ao vivo.

[In: Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo – Rio de Janeiro: Rocco, 1999, pag.308.]

O Espaço Cultural da SBPRP convida a todos para uma interlocução entre a Literatura e a Psicanálise.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Todo Mundo Quer Amor - Jorge Forbes em Entrevista para a Revista Marie Claire


O psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes* fala que a felicidade amorosa não tem garantia. Ele acredita que buscá-la é obrigação de todos. Mesmo sabendo do risco de se machucar no caminho.

Marie Claire: É impossível ser feliz sozinho?
Jorge Forbes: Todo ser humano necessita de alguém que o incomode, que o desafie todos os dias. Quando acontece o encontro, um acorda o outro e é bom, as pessoas precisam de alguém que as retire do comportamento individualista. A mulher deve ser "a pedra no caminho" do homem, como nos versos de Carlos Drummond de Andrade. É ela quem alerta o homem, porque ele é mais acomodado e ela é mais inquieta. O encontro faz com que os dois tenham motivo para reinventar a vida todos os dias. Mas felicidade dá trabalho.


MC: Fixar-se na falta do parceiro é uma atitude infeliz?
JF: Idealizar que o parceiro é a fonte da felicidade tem dois lados ruins:

1. Enquanto está sem par, a pessoa desvaloriza as outras conquistas da vida, que também são importantes, mas acabam passando despercebidas.

2. Se, por acaso, consegue que seu relacionamento amoroso atinja seu ideal de felicidade, está fadada a perder essa situação, já que nenhum relacionamento é ideal eternamente.

MC: Como realizar o sonho de ser feliz no amor?
JF: Tentar ser feliz é obrigatório. Realizar é uma sorte. Para chegar um pouco mais perto, aí vão alguns lembretes:


1. Não acredite em conselhos que tenham em sua composição a palavra "dever".

2. Esqueça regras pré-concebidas. As formas de satisfação a dois só podem ter uma regra – o comum acordo entre os parceiros.

3. Os parceiros podem contar todas as fantasias amorosas um para o outro: contar sempre, realizar quando der.

4. Jamais tente compreender a felicidade. É preciso suportar o inusitado dela, mesmo se você não compreende o que está acontecendo! Com medo de que a felicidade acabe, as pessoas ficam tentando descobrir a receita para repetir exatamente o que aconteceu, na tentativa de aprisionar o momento feliz. Mas toda vez que se constrói uma prisão, a felicidade acaba.

5. A base da felicidade é o novo, a originalidade. Ela é a possibilidade de viver fora do padrão e de reinventar a vida. Quem ousa tem mais chance de ser feliz.


MC: Dizem que"casamento é loteria". O senhor acha que felicidade é questão de sorte?
JF: Concordo que o amor é um encontro por acaso. A essência do relacionamento não se pode prever e nem medir. Todo balanço pré-nupcial tem um elemento imponderável, por isso os mais velhos costumavam dizer que "quem pensa muito não casa". A razão é simples: é impossível entender plenamente por que se está casando.


MC:A felicidade depende da maturidade?
JF: Isso não garante nada. A maturidade é uma chatice que a civilização impõe. A felicidade é poder manter algo dos 5 anos de idade e não ser taxado de débil mental. Felicidade é a força bruta do desejo, que dá o impulso para que as coisas se realizem.

MC: "Tenho medo da dependência" é outro clichê moderno para fugir da intimidade emocional.
JF: Atrás dessa frase há sempre uma pessoa querendo muito ser dependente. Ao encontrar alguém aparentemente disponível, agarra-se a ela como garantia de segurança emocional, econômica, social, espiritual... mas isso não é felicidade. Há sempre uma diferença radical entre dois parceiros: amor é o nome que se dá à ponte que recobre temporariamente essa distância entre eles. Mas a diferença sempre vai reaparecer, é inevitável. A felicidade é tênue, um encontro provisório. Não é standard, nunca é fixa.


MC:Esperar que a relação seja fonte de felicidade revela uma visão idealizada do amor?
JF: Tratar a relação amorosa como um tapa-buraco para as dificuldades da vida é exigir demais do parceiro, que acaba tendo uma responsabilidade que desconhece e com a qual não pode arcar. Relacionamento amoroso ajuda, sim, mas indiretamente: fornece energia e entusiasmo para enfrentar a vida.

MC:O que precisamos saber para amar e ser feliz?
JF: Que não existe garantia. Todo amor é um contrato de risco e nisso reside sua graça e sua desgraça. Graça, quando contribui para aumentar o entusiasmo na vida. Desgraça quando deixa a pessoa desarvorada – a pior reação de uma mulher frente à perda de um amor, segundo [a escritora] Marguerite Duras.


MC:Mulher sofre mais por amor do que homem?
JF: Geralmente, sim. O abatimento da mulher é maior porque a capacidade feminina de amar é infinitamente superior à do homem.

MC:Felicidade é uma responsabilidade pessoal?
JF: Pessoal e intransferível. Quem espera que o outro lhe traga a felicidade é porque se acomodou. Colocou o parceiro no lugar da mãe que levava o Toddy na cama.

MC:Na carência afetiva, corremos o risco de consumir o outro como um "antidepressivo"?
JF: Transformar amor em remédio é perigoso, felicidade não é artigo de consumo. A relação amorosa tem duas vertentes: a afetiva e a sensual. A afetiva é cuidado, segurança, companheirismo – é repetição. A sensual é invenção e nada tem a ver com o cuidar – envolve surpresa, uso sexual recíproco e tem uma vertente enigmática. Quando as pessoas estão carentes, tendem a desenvolver a corrente amigável e sufocar a sensual. Aí o amor acaba. Quem se preocupa demais com o dia-a-dia costuma fazer mal amor à noite.

MC: A felicidade amorosa quase sempre vem acompanhada do medo da perda, do abandono ou da traição. Como superar isso?
JF: Quando se gosta de alguém, a tendência é ficar vulnerável. Amar é suportar ser ridículo. A partir dos 30 anos as pessoas estão escaldadas, já tiveram decepções amorosas. Daí o medo. Mesmo assim, vale a pena arriscar novamente, ainda sabendo que pode se ferrar de novo. Mas se a pessoa só se ferra, é hora de desconfiar de suas más escolhas. Tem gente que tem prazer em sofrer.


MC: A euforia do começo da paixão pode ser chamada de felicidade?
JF: A paixão pode ser chamada de felicidade, mas, quando se transforma em um ideal de vida, fica supervalorizada e representa um perigo. Fica bonito no teatro, mas é muito triste na vida real. Daí personagens como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Abelardo e Heloísa... Morreram porque tentaram eternizar a paixão. Quando os envolvidos querem manter intocável a paixão, quando não suportam mudança ou interferência, acabam selando um compromisso de morte.


sábado, 7 de setembro de 2013

Frases sobre o Amor II Jacques Lacan



"Amamos aquele que carrega o traço do objeto anteriormente amado, e a tal ponto que poderíamos afirmar que, na vida, todos os seres que amamos se assemelham por um traço. Efetivamente, quando temos um novo encontro, é frequente ficarmos surpresos ao constatar que ele traz a marca da pessoa anteriormente amada. A idéia genial de Freud consistiu em revelar que essa marca que persiste e se repete, no primeiro, no segundo e em todos os outros parceiros sucessivos de uma história, que essa marca é um traço, e que esse traço não é outra coisa senão nós mesmos. O sujeito é o traço comum dos objetos amados e perdidos no curso da vida."

(Jacques Lacan).