sábado, 31 de agosto de 2013

A dor de amar - J. D. Nasio


O psicanalista J. D.Nasio inicia seu livro “A dor de amar”  relatando o caso da paciente Clémence que após longo período de tratamento de esterilidade perde o filho três dias após o seu nascimento. Nasio começa através de fragmentos da clínica a tecer as considerações sobre  a dor e o processo de luto decorrentes da perda de um ser amado.
Sobre o lugar do analista neste processo escreve que atribuir um valor simbólico a uma dor que é puro real é uma forma de possibilitar que o paciente não seja mais tomado pela dor de forma absoluta. Entendemos que ao contrário do que o senso comum pode conceber dar voz a dor não é consolar o paciente, encorajá-lo a viver a dor como uma experiência fortalecedora, nem fornecer uma interpretação desta dor de forma forçada e fora do tempo do paciente, e sim acompanhá-lo passo-a-passo neste espaço em que a dor será diluída em lágrimas e re-significada em palavras.
Nasio afirma que a dor psíquica é o sinal incontestável de uma prova. Ao se interrogar qual prova, responde: “A prova de uma separação, da singular separação de um objeto que, deixando-nos súbita e definitivamente, nos transforma e nos obriga a reconstruir-nos” (p.20).
Nasio usa como exemplo a perda devido a morte de uma pessoa querida, mas seu estudo abarca a perda pelo abandono; pela humilhação, quando então somos feridos no nosso amor-próprio e a dor da mutilação quando perdemos parte do nosso próprio corpo. Compreendendo que todas estas dores se referem a perda de um objeto amado, ao qual estávamos vinculados de tal forma que este participava e regulava a harmonia do nosso funcionamento psíquico e que a tal laço nomeamos por amor, trata seu estudo como a dor de amar. Através deste percorremos os meandros não apenas da compreensão da dor psíquica, mas da definição do que constitui o sentimento do amor.
Tal como um desenrolar de um novelo de lã e depois seu tricotar, Nasio irá desdobrando e revelando ao leitor o que entende pela dor psíquica causada pela perda a partir dos conceitos psicanalíticos. Assim dando seqüência a sua elaboração irá compreender que a dor aparece como um afeto causado não pela perda em si, mas pela percepção do transtorno interno  desencadeado pela perda.

"...a dor é um afeto, o derradeiro afeto, a última muralha antes a loucura e da morte. Ela é como um estremecimento final que comprova que a vida e o nosso poder de nos recuperarmos...Enquanto há dor, também temos força disponíveis para combate-la e continuar a viver." (p.23)

"O que dói não é perder o ser amado, mas continuar a amá-lo mais do que nunca, mesmo sabebdo-o irremediavelmente perdido." (p41)

"Realizar um luto significa, de fato, desinvestir pouco a pouco a representação saturada do amado perdido, para torná-la de novo conciliável com o conjunto da rede de representações egóicas.O luto nada mais é do que uma lentíssima redistribuição de energia psíquica até então concentrada em uma única representação..." (p.40)       

(A Dor de Amar, J-D,Nasio, 2007, Zahar)


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Frases sobre o Amor I




 
"Nós nunca somos tão desamparadamente infelizes como quando perdemos um amor.”

"Em última análise, precisamos amar para não adoecer."


"Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!"
SIGMUND FREUD

"Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro."

"Onde acaba o amor têm início o poder, a violência e o terror"

"O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação."
CARL GUSTAV JUNG

"O amor é o estado no qual os homens têm mais probabilidades de ver as coisas como elas são."

"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."
FRIEDRICH NIETZCHE 

'Nada provoca mais felicidade--e mais medo--do que o encontro amoroso de qualidade. É preciso redobrar a cautela contra a destrutividade."
FLAVIO GIKOVATE

"O diálogo que leva ao amor, que dá a cada um vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas."

"O amor e a paixão não nos fazem necessariamente felizes, mas são uma festa e uma alegria porque deles podemos esperar ao menos isto: que eles nos tornem um pouco outros, que eles nos mudem."
CONTARDO CALLIGARES


terça-feira, 27 de agosto de 2013

Depressão por Maria Rita Kelh

A psicanalista Maria Rita Kelh

A depressão é uma forma muito particular e avassaladora daquilo que corriqueiramente chamamos a dor de viver. Juntamente com a angústia e a dor propriamente dita, é uma constelação de afetos tão familiar que, como escreve Daniel Delouya, dificilmente conseguimos classificá-la entre os quadros clínicos da psicopatologia. À dor do tempo que corre arrastando consigo tudo o que o homem constrói, ao desamparo diante da voragem da vida que conduz à morte – que para o homem moderno representa o fim de tudo – a depressão contrapõe um outro tempo, já morto: um “tempo que não passa”, na expressão de J. Pontalis.
O psiquismo, acontecimento que acompanha toda a vida humana sem se localizar em nenhum lugar do corpo vivo, é o que se ergue contra um fundo vazio que poderíamos chamar, metaforicamente, de um núcleo de depressão. O núcleo de nada onde o sujeito tenta instalar, fantasmaticamente, o objeto perdido – objeto que, paradoxalmente, nunca existiu.
A rigor, a vida não faz sentido e nossa passagem por aqui não tem nenhuma importância. A rigor, o eu que nos sustenta é uma construção fictícia, depende da memória e também do olhar do outro para se reconhecer como uma unidade estável ao longo do tempo. A rigor, ninguém se importa tanto com nossas eventuais desgraças a ponto de conseguir nos salvar delas. Contra este pano de fundo de nonsense, solidão e desamparo, o psiquismo se constitui em um trabalho permanente de estabelecimento de laços – “destinos pulsionais”, como se diz em psicanálise – que sustentam o sujeito perante o outro e diante de si mesmo.
Freudianamente falando, a subjetividade é um canteiro de ilusões. Amamos: a vida, os outros, e sobretudo a nós mesmos. Estamos condenados a amar, pois com esta multiplicidade de laços libidinais tecemos uma rede de sentido para a existência. As diversas modalidades de ilusões amorosas, edipianas ou não, são responsáveis pela confiança imaginária que depositamos no destino, na importância que temos para os outros, no significado de nossos atos corriqueiros. Não precisamos pensar nisso o tempo todo; é preciso estar inconsciente de uma ilusão para que ela nos sustente.
A depressão é o rompimento desta rede de sentido e amparo: momento em que o psiquismo falha em sua atividade ilusionista e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar. É o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade. Algumas pessoas conseguem evitá-lo a vida toda. Outras passam por ele em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. Mas há os que não conhecem outro modo de existir; são órfãos da proteção imaginária do “amor”, trapezistas que oscilam no ar sem nenhuma rede protetora embaixo deles. “A depressão é uma imperfeição do amor”, escreve Andrew Solomon, autor de “O demônio do meio-dia”, vasto tratado sobre a depressão publicado nos Estados Unidos e traduzido no Brasil no final de 2002. Faz sentido, se considerarmos o sentido mais amplo da palavra amor.
Durante cinco anos, Solomon dedicou-se a pesquisar a depressão: causas e efeitos, tratamentos, hipóteses bioquímicas, estatísticas. Recolheu histórias de vida de dezenas de pessoas que passaram por crises depressivas – “nunca escrevi sobre um assunto a respeito do qual tantos tivessem tanto a dizer”. A estas, acrescentou sua própria história – o trabalho no livro foi uma forma de reação ao longo período em que ele próprio passou por sérias crises depressivas. Um período em que, nas palavras do autor, “cada segundo de vida me feria”.
A julgar pelos números recolhidos por Solomon em relatórios da divisão de saúde mental da Organização Mundial de Saúde – o DSM-IV – esta ferida acomete a um número cada vez maior de pessoas no mundo, e particularmente nos Estados Unidos. 3% da população norte americana sofre de depressão crônica – cerca de 19 milhões de pessoas, das quais 2 milhões são crianças. A depressão é a principal causa de incapacitação em pessoas acima de cinco anos de idade. 15% das pessoas deprimidas cometerão suicídio. Os suicídios entre jovens e crianças de 10 a 14 anos aumentaram 120% entre 1980 e 1990. No ano de 1995, mais jovens norte-americanos morreram por suicídio do que de da soma de câncer, Aids, pneumonia, derrame, doenças congênitas e doenças cardíacas.
Esta forma de mal estar tende a aumentar, na proporção direta da oferta de tratamentos medicamentosos: há vinte anos, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje este número subiu para 5%. Sincero adepto dos tratamentos farmacológicos, que segundo ele salvaram sua vida, Andrew Solomon acaba por se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos industriais criam mercados para seus produtos.
Insight sem inconsciente?
A contribuição das terapias medicamentosas no tratamento das doenças mentais é inegável, e o analista, assim como outros “terapeutas da fala” no dizer de Solomon, não pode dispensá-la. “O Prozac não deveria tornar o insight dispensável,”, diz Robert Klitzman, da Universidade de Colúmbia, citado pelo autor. “Deveria torná-lo possível”.
Mas qual o insight possível, capaz de produzir efeitos sobre a subjetividade, em uma cultura onde as práticas de linguagem se impõem fortemente de modo a apagar o sujeito do inconsciente? As histórias de pacientes depressivos enumeradas por Andrew Solomon centram-se ao redor da perspectiva única do vitimismo. As pessoas se deprimem porque não suportam o que foi feito a elas. Acidentes, perdas traumáticas, abandonos, violência, abuso sexual na infância; é de fora para dentro que a vida psíquica se impõe àqueles que sofrem de mal estar.
É óbvio que a rede de proteção do psiquismo pode ser rompida pelas irrupções traumáticas do real; mas as “desgraças da vida” recaem sempre sobre um sujeito, incidem sobre uma posição desejante e são rearticuladas pelas formações do inconsciente, que são formações da linguagem. Do ponto de vista do vitimismo, a cura da depressão consiste na eliminação de todo traço de “má notícia” que advenha do inconsciente. A psiquiatria e a indústria farmacêutica aliam-se a este ponto de vista. “Assistimos a um conluio curioso entre a descrição psiquiátrica e a própria queixa do deprimido”, escreve Delouia. “A ignorância a respeito do psíquico “une o fenômeno depressivo com a parafernália nosográfica da psiquiatria”.
O autor não deixa de ser crítico em relação a esta perspectiva. “Nós patologizamos o curável. Quando existir uma droga contra a violência, ela será encarada como uma doença”. Também é crítico em relação ao ideal de remoção química de toda a dor de existir. No entanto, a ingenuidade a respeito da realidade psíquica prevalece até mesmo em relação à sua própria crise depressiva. Filho de uma mulher ativa e absorvente, que mais tarde ele próprio pode perceber como depressiva, Andrew Solomon participou, junto com o pai e o irmão, do suicídio assistido da mãe, vítima de câncer no ovário aos 58 anos. Depois dessa morte, dramática e intensamente estetizada, a fantasia de suicídio ocorre aos outros membros da família. No ano seguinte, Solomon inicia uma análise com uma mulher que lhe lembra a mãe, e propõe a ela um pacto incondicional: não abandonarão o tratamento até o “fim”, sob nenhuma condição. Mas alguns anos depois,a analista anuncia ao dedicado analisando que vai deixar o trabalho. Aposentadoria por tempo de serviço…
No tempo de análise que lhe resta, Andrew Solomon não entende por que vai entrando em depressão cada vez mais grave, até que a própria analista concorda em que ele busque auxílio psiquiátrico. A análise “termina” pouco depois, e ele atravessa um ciclo de depressões gravíssimas. A inabilidade da analista de Solomon quanto ao manejo da transferência diante de um quadro de luto melancólico salta aos olhos do leitor familiarizado com a psicanálise. Não é sem razão que ele escreve, anos mais tarde, que a psicanálise seja “hábil para explicar, mas não eficiente para mudar” os quadros depressivos.
A julgar pelo relato de Solomon, seu tratamento psicanalítico foi baseado na reconstituição da vida infantil, em busca de um causalidade psíquica que, de fato, pode ter valor explicativo mas não produz nenhuma intervenção sobre o psiquismo vivo e ativo no sujeito adulto. Pierre Fédida, em seu livro sobre a depressão, adverte sobre os riscos de se buscar a evocação de um “acontecimento real que se supõe empiricamente traumático: a vivência infantil – essencialmente inatual na fala associativa – recebe assim uma positividade patogênica, na forma de uma atualidade passada”. O “infantil” que interessa à psicanálise não é o do passado, rememorado pelo eu, mas o que se manifesta ao vivo na transferência, nas demandas dirigidas ao analista. Como a analista de Solomon não se deu conta da relação entre a proposta de uma análise incondicional feita por ele, o amor pela mãe e o pacto de morte que o uniu a ela? Como não se deu conta da relação entre a crise depressiva de seu analisante e o anúncio burocrático de sua “aposentadoria”?
O livro de Solomon não oferece nenhuma contribuição decisiva para o conhecimento da depressão, mas lança uma luz importante sobre as relações entre a emergência epidêmica dessa forma de mal estar e os modos de subjetivação predominantes na cultura norte-americana. Em uma sociedade onde as formações discursivas apagam o sujeito do inconsciente, em que a felicidade e o sucesso são imperativos superegóicos, a depressão emerge – como a histeria na sociedade vitoriana – como sintoma do mal estar produzido e oculto pelos laços sociais. O vazio depressivo, que em muitas circunstâncias pode ser compensado pelo trabalho psíquico, é agravado em função do empobrecimento da subjetividade, característico das sociedades consumistas e altamente competitivas. A “vida sem sentido” de que se queixam os depressivos só pode ser compensada pela riqueza do trabalho subjetivo, ao preço de que o sujeito suporte, amparado simbolicamente pelo analista, seu mal estar. A eliminação farmacológica de todas as formas de mal estar produz também, paradoxalmente, o apagamento dos recursos de que dispomos para dar sentido à vida.

Fonte: Texto retirado no site da psicanalista Maria Rita Kelh

domingo, 4 de agosto de 2013

Reencontrando a Felicidade



Rabbit Hole (no Brasil, Reencontrando a Felicidade) é um filme de  2010, estrelado por Nicole KidmanAaron Eckhart,  dirigido por John Cameron Mitchell, baseado na peça homônima de David Lindsay-Abaire. Recebeu uma indicação ao Oscar em 2011 pela atuação de Nicole Kidman como Becca Cobert.
Neste belo drama acompanhamos a trajetória do casal Becca e Howie na tentativa de lidarem, cada um ao seu modo, com a abrupta morte do filho de 4 anos num acidente.
Becca se isola, procura regenerar algo de si, através do cuidado das plantas, da casa, cozinhado, mas não suporta o contato com os outros e quando abrupto é vivido como invasão, como o próprio acidente.  Assim logo na primeira cena, vemos o seu olhar desolado para a plantinha que é esmagada, sem intencionalidade, pela vizinha que vem convidar o casal para jantar.
Becca não consegue fazer amor com o marido, vive suas aproximações como uma não compreensão do que está vivendo, já que tem dificuldade de comunicar seus sentimentos, a não ser quando se sente agredida e defende-se. Decorreram oito meses que Becca e Howie  perderam o filho.
Ao longo do filme vamos compreendendo a construção do psiquismo da personagem; a mãe auto-referente sempre compara a dor de Rebecca a sua dor pela morte do filho, Arthur, aos 30 anos por overdose há 11 anos. Becca necessita de um espaço em que possa viver a singularidade da sua dor. A irmã de Becca com um perfil psicológico bem diferente da irmã, mais próxima à mãe, revela uma gravidez inesperada, de um músico que conheceu há algumas semanas, que trará a Becca mais questões emocionais com que lidar.
O marido ao contrário tem necessidade de estar com as pessoas, retomar a vida e ao mesmo tempo revive o filho dia após dia assistindo um pequeno vídeo em seu celular.
Há pinturas de Danny na geladeira, o quarto esta intacto, o guarda-roupa e todos brinquedos solitários. Becca busca ainda, sem iniciar um trabalho de luto, se desprender das coisas do filho doando as roupas de Danny para o filho da irmã que não aceita dizendo que seria estranho, isso se nascer menino, ver o filho correr com as roupas que foram do sobrinho.
Um incidente dá um novo rumo a conturbada história; um dia Becca vê dentro do ônibus o olhar absorto do introspectivo Jason.
Começa então a segui-lo até ser descoberta. Ele então pergunta o que ela quer e começam com cuidado a tatearem o mundo um do outro. Becca com sua sensibilidade sabe que o mundo de Jason foi transpassado pelo acidente que causou, ele sabe da dor
que causou, há ainda  um sentimentos que ambos compartilham a necessidade de reconstruir novos referenciais para habitar o mundo, um desafio para o rapaz de vai para a faculdade, que irá se distanciar da mãe que mora apenas com ele, e para a mãe que perdeu seu filho.
A cena do primeiro encontro de Becca com Jason é de uma sutileza e sensibilidade sem subterfúgios.
Quem Becca vê em Jason? Seu filho projetado no futuro? Já que se identifica com ele emocionalmente. Ela mesma no passado? Ela hoje, na busca por sua travessia para uma vida onde possa viver apesar da morte do filho? Quantas são as realidades paralelas que o filme nos apresenta?
Enquanto Becca inicia seu processo de luto, após o encontro com Jason, Howie se perde nos meandros da carência, do desejo, não conseguindo compreender o que se passa consigo e com a mulher, busca através de outra suprir sua carência. Ao voltar para a casa sem a presença de Becca, ao imaginar-se abandonado, deita-se na cama do filho em posição fetal e dorme.
Acompanhar a trajetória do casal entre encontros e desencontros é atravessar o que, em nós, habita de humano.

Autoria própria, 2013