sábado, 30 de março de 2013

Pra que serve a psicoterapia? por Fernando Savaglia



Preocupado com o comportamento problemático de seu filho na escola, o mafioso Tony Soprano pergunta à sua terapeuta:
- O que você acha que eu deveria fazer com ele, ir com calma ou pressioná-lo?
- Isto é difícil de responder – falou a analista.
- Quer aumento para responder? – perguntou o paciente, não disfarçando a irritação com a devolutiva da psicoterapeuta.
Este diálogo, transcrito de um dos episódios da série A Família Soprano, descreve bem a ideia simplória que muitas pessoas têm do processo da psicoterapia: pagamos para obter respostas objetivas sobre nossos afetos a alguém que se livrou completamente de suas neuroses.
O recentemente falecido José Ângelo Gaiarsa, provavelmente o maior terapeuta reichiano do Brasil, deixou em seu último livro publicado, Meio Século de Psicoterapia, contundentes opiniões sobre o processo. “Melhor ser visto, perante o paciente, como um aliado, até um cúmplice, do que se propor como uma autoridade imune ante os males do mundo no qual ambos vivem e no qual se formaram”.
É claro que a relação terapeuta/paciente tem importância fundamental em qualquer processo analítico. Porém, é unanimemente reconhecido entre os profissionais psi que cerca de 90% do que é dito pelo analista não é absorvido pelos pacientes.
A partir daí pode surgir a famosa e recorrente pergunta por parte do cliente: “estaria eu pagando para ter um amigo com quem possa desabafar?” Ou então, “como sei se a terapia está surtindo efeito?”
A resposta a esta pergunta pode parecer complexa. Muito melhor que elucubrações teóricas sobre esta ou aquela abordagem, podemos começar a respondê-la dando um exemplo de sensibilidade de um terapeuta que ao invés de tentar desarmar uma suposta neurose, soube ver no relato de seu analisando um caminho para aplacar aquela angústia. Para isso, faço uso de uma história do pedagogo e psicanalista Rubem Alves. Ele conta que certa vez recebeu um paciente que se queixava da falta de capacidade de se integrar ao mundo ao seu redor. As pessoas lhe pareciam fúteis, as relações sem profundidade e em seu trabalho estava cercado de situações injustas e egoístas. Alves, ao invés de buscar uma terapia de inclusão, isto é, tentar reintegrá-lo a este universo, num arroubo existencialista – não raro para alguns psicanalistas menos ortodoxos – sabiamente valorizou a sensação de desamparo do homem. Ressaltou sua capacidade de se deparar com a realidade e que ele havia transposto a primeira, e às vezes dificílima, etapa da construção de uma vida real.
A partir daí, juntos, analista e analisando se lançaram na aventura de buscar um lugar no mundo, apesar da “situação demencial da modernidade” como gostava de frisar Heidegger. Se em algum momento você sentir que não encontra no seu analista a figura de um cúmplice nesta jornada, existe um indício de que a terapia não está funcionando. Num mundo em que as realizações, algumas bem fúteis, se contrapõem à depressão e à ansiedade, gerando um padrão psíquico melancólico na sociedade atual, a verdadeira revolução é, justamente, transformar a sensibilidade, antes algoz, em uma janela onde se pode vislumbrar esse SER.
As palavras do genial cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira podem servir de norte para essa relação: “a vida oscila entre o terror e a glória. Do terror já se falou muito, e isso criou um mundo onde as glórias da vida estão ocultas. Já foi tudo muito denunciado. É preciso denunciar que vale a pena viver”.
 
Publicado na Revista Psique edição 68

domingo, 17 de março de 2013

Palavra e Psicanálise




“A psicanálise nasceu com a descoberta de que as palavras são cheias de silêncio. Aqueles que só entendem o que é falado ou escrito não entendem coisa alguma: a letra mata.
O corpo fala línguas ininteligíveis: glossolalia. Babel deve dar lugar a Pentecostes. A verdade vive no avesso daquilo que é conhecido com familiaridade. Sabedoria é loucura, loucura é sabedoria. Como o Deus Absconditus, a verdade também vem escondida, sob um disfarce. Ela usa máscaras. Todas as palavras, tomadas literalmente, são falsas. A verdade mora no silêncio que existe em volta das palavras. Prestar atenção ao que não foi dito, ler entre as linhas. A atenção flutua: toca as palavras sem cair em duas armadilhas, sem ser por elas enfeitiçadas. Cuidado com a sedução da clareza! Cuidado com o engano do óbvio!

[...]

A psicanálise é um ouvir atento do silêncio que mora nos interstícios das palavras, a fim de ouvir o que não foi falado.
Mas isso não foi invenção da psicanálise: a psicanálise apenas acreditou naquilo que já havia sido conhecido por milhares de anos e depois varrido para fora do salão como lixo, pela etiqueta das ideias claras e distintas.
Muito antes da psicanálise, os poetas buscam as palavras que moram no silêncio.”


Rubem Alves em Lições de Feitiçaria

sexta-feira, 1 de março de 2013

pancinema 2013: o masculino

Dia 12 daremos início ao ciclo 2013 de encontros pancinema. Neste trimestre discutiremos o Masculino, suas representações e lugares possíveis. Abaixo o texto da Maria Lucia Homem sobre a escolha do tema:

“Diz-se que o século XX realizou um duplo feito: levou a cabo uma revolução silenciosa e o fez de maneira relativamente pacífica. Essa transformação foi a do lugar da mulher – travessia de posição que se deu no corpo, no voto, na propriedade, na vida dentro de casa, fora de casa, no trabalho, no poder. Processo que já tem um certo percurso e que, também para existir, fez correr rios de palavras. Sabemos. Agora, o que ainda não sabemos muito bem é, então e a partir daí, como compreender o masculino hoje. Entendemos que ‘homem não chora’ não faz mais tanto sentido ou que o masculino, usando Lacan, quando se inscreve na lógica da significação fálica não diz tudo. Quais travessias, entraves, permanências se colocam para o homem no XXI? Que imagem de masculino surge no contraponto dessas representações? Como a sociedade de massas globalizada formata e ao mesmo tempo racha, abre dobras, fissuras onde se desconstrói continuamente a masculinidade mas também possíveis novas configurações alteram o sentido e os horizontes do ser Homem?
Neste semestre escavaremos o tema a partir do cinema, da psicanálise e das humanidades. O curso será estruturado em dois módulos: o primeiro sobre o lugar do cinema nos processos de formatação de uma determinada imagem do masculino e, segundo, afluentes de uma desconstrução e possível nova configuração desse território.”

Importante lembrar que o curso é livre e você não precisa ter feito outros módulos para poder participar.

Mais informações e incrições: PANCINEMA 2013 : O Masculino