domingo, 3 de fevereiro de 2013

A eterna dança da solidão




"Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, a dança da solidão...". Para os vários tipos de solitários de que fala a canção de Paulinho da Viola chegou ao Brasil um clássico sobre o tema: o livro da psicanalista francesa Françoise Dolto (Editora Martins Fontes). Intitulado simplesmente Solidão, ele teve como fonte de pesquisa casos que se passaram nos mais de 30 anos de consultório da autora.
Para ela, as vivências mais radicais de solidão que temos na vida são as primeiras: o parto (que separa o feto do útero) e o desmame (que separa o bebê do seio da mãe). Há duas formas de o bebê reagir à solidão e a que é predominante forma sua personalidade. "Uma é a simbólica, aquela que abre as vias da comunicação à distância (o bebê chora, aprende a se mover, a dominar o espaço); a outra é a do fetiche, apoiada no imaginário do passado, que cala a comunicação. É quando o bebê se satisfaz com a chupeta ou o dedo", ensina Françoise Dolto.
No primeiro caso, o bebê reage de forma construtiva, tentando se comunicar com o mundo; no segundo, ocorre exatamente o oposto: ele se isola do mundo e a experiência de estar só ganha um gosto amargo, que, se muitas vezes repetido, forma a personalidade hostil de um adulto intimamente amargurado.
Para a autora, a capacidade de enfrentar a solidão depende da primeira infância e de como a mãe se relaciona com o bebê. Se a mãe costuma conversar com o filho, ele se torna um adulto capaz de enfrentar a solidão.

NA INFÂNCIA - A importância do desmame é tal que, se for malfeito, termina levando ao alcoolismo na idade adulta. "A potencialidade para tornar-se alcoólatra está ligada a uma grande felicidade de comunhão com a mãe durante o período de aleitamento, que não foi substituída, depois do desmame, por um intercâmbio verbal ainda mais enriquecedor. Os alcoólatras são todos adultos carentes de mãe", afirma a psicanalista.
Ela conta uma história para ilustrar outros efeitos da solidão na primeira infância. "Conheci dois bebês que a mãe alimentava como se desse de comer a cachorros. Cuidava deles, dava papinha nas horas certas, mas, fora esses momentos, estava sempre entregue às panelas. Satisfazia suas necessidades, mas nunca falava com eles. Na idade de entrar para a escola, foi terrível, não queriam de jeito algum. O único prazer das crianças era passear com latas de conservas vazias, nas quais enfiavam pedaços de bichos de pelúcia e de bonecas. As crianças imitavam a mãe, que fazia conservas, mas, no lugar dos alimentos, guardavam pedaços de brinquedos", lembra a psicanalista.

Aos 2 anos, porém, a situação se inverte. A solidão, danosa para os bebês, é boa companheira para crianças com mais idade. "Deixar as crianças sós (e não no isolamento), respeitando sua solidão aparentemente desocupada, é indispensável para que elas não se tornem robôs dos outros. Estar só é enriquecedor quando isto não é sentido como rejeição. Os pais são os mestres da vida. As crianças deveriam ser ensinadas a jamais confundir amor com dependência", comenta a autora.

Segundo Françoise Dolto, os adolescentes têm um desequilíbrio revelador em seu comportamento. "Retraimentos solitários alternam-se com atitudes provocantes", explica. "A solidão é a mais perigosa das fugas para o adolescente. A intensidade emocional da atração pelo sexo e o medo de ser ridículo são resquícios do complexo de Édipo que levam ao sentimento de culpa por qualquer desejo sexual. Mascarar o desejo com uma capa de indiferença ou contar vantagem, fantasiando conquistas, são meios de bloquear a comunicação autêntica para anular a angústia", defende.

TIPOS - O livro de Françoise Dolto se estrutura como uma conversa de consultório entre analista e analisando, passeando por várias solidões - a sensação de abandono dos bebês; a reclusão agressiva dos adolescentes; a angústia da separação conjugal; o sentimento de perda dos viúvos; o isolamento sensorial de cegos e surdos. No final do percurso, a autora francesa flagra a solidão como refúgio criativo de artistas e escritores para torná-la exemplo cotidiano.

Para Françoise Dolto, a solidão só acaba quando se descobre uma forma de se expressar. Escrever (mesmo que sejam diários) é um caminho para transformar a solidão numa experiência construtiva, de busca de comunicação.

"Ninguém vive sem sentir solidão; e nem pode estar sempre com alguém. A personalidade forte é habitada, desde a infância, por uma solidão povoada de intercâmbios de palavras e de contato físico".



Um comentário:

  1. Amiga Anna, cada me convenço mais de que criar filhos é uma tarefa delicadíssima! Nobre, mas delicada tarefa.
    Um abraço. Tenhas uma linda semana.

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