domingo, 24 de fevereiro de 2013

Identidade - Mia Couto




Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço 
aguardando pelo meu passado  
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato 
morro no mundo por que luto nasço

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Hímeros - I Colóquio de Arte e Psicanálise 19, 20 e 21 de abril de 2013



Artistas, psicanalistas e professores universitários, de diversos estados do Brasil estarão presentes em mesas redondas com trabalhos e nos debates. Posters em papel e em vídeo serão expostos no hall do Teatro Tom Jobim. Participação especial: Cia. Inconsciente em Cena. Este colóquio será a abertura do Doutorado de Psicanálise, Saúde e Sociedade da Universidade Veiga de Almeida (UVA).

PROGRAMAÇÃO

Palestrantes confirmados com os títulos de suas comunicações:

Ana Laura Prates Pacheco (EPFCL- SP): Rosa com Joyce: a terceira margem e o quarto nó?
Ana Vicentini (UNB): Quando épos é práxis: ética analítica e ética trágica
Andrea Brunetto (EPFCL- Campo Grande- MTS/ Ágora): Pátrias, fronteiras: o exílio na escrita
Andra Fernandes (EPFCL-Salvador/UFBA): Freud e Zweig: Psicanálise e Literatura
Antonio Quinet (EPFCL-Rio/UVA): Apresentação Hímeros, o brilho do desejo e Teatro e semblante
Antônio Teixeira (EBP-MG/FAFICH-UFMG): Ready for Love: Estética da violência e da exceção em ‘Clockwork Orange’
Auterives Maciel (UVA): A estética do deslimite: Manoel de Barros e arte brasileira contemporânea
Bárbara Guatimosim (EPFCL/UFMG): Kafka e a função da Letra
Beatriz Maya (EPFCL - Colômbia): Não suficientemente poata
Betty Fuks (UVA): Parla! O que a estátua de Moisés disse a Freud?
Christian Ingo Lenz Dunker (EPFCL-SP/USP): Para uma nova teoria do sujeito estético: Lacan com Badiou
Denise Maurano (CFAP/UNIRIO): Da cena trágica à cena analítica
Dominique Fingermann (EPFCL- SP): Poesia e psicanálise
Edson Luiz André de Sousa (UFRGS): Imagens não disponíveis - utopia, arte e psicanálise
Elisabeth da Rocha Miranda (EPFCL-RIO/UVA): Katherine Mansfield e o Bliss
Fernanda Costa Moura (UFRJ) - Sobre a ópera e seu tempo
Florencia Farias (EPFCL-AR/UBA): Teatro e psicanálise
Gabriel Lombardi (EPFCL- AR/UBA): A função tíquica na arte
Glória Sadala (FCCLRJ/UVA): O fazer poético
Gustavo Chataignier Gadelha (PUC-RJ): Acontecimento e dessublimação repressiva: por uma crítica da concordância
Ieda Tucherman (UFRJ): Encontros Imprevistos: Badiou e Manoel de Barros
José Eduardo Costa e Silva (UFES): Música e Inconsciente no Teatro
Luciano Elia (TFAP/UERJ): Por que a psicanálise não é arte?
Lucia Castello-Branco (UFMG): A prática da letra nos sonhos da literatura e da psicanálise
Marcelo Mazzuca (EPFCL-AR/UBA): Música e psicanálise
Marco Antonio Coutinho Jorge (CFAP/UERJ): Madonna– performance e transmissão poética
Maria Anita Carneiro Ribeiro (EPFCL-Rio/UVA): Shakespeare e as mulheres
Maria Cristina Poli (APPOA/ UVA / UFRJ): Mise en abyme e gozo feminino
Maria Helena Martinho (EPFCL-Rio/UVA): A arte de Rembrandt e Giacometti: uma escrita do real
Nina Leite (APE/ UNICAMP): Outrarte
Norman Mandarasz (PUC-RS): Na Corte da castração: Body Arte como produção de verdades
artísticas
Pedro Pascutti (CAPES): A interdisciplinariedade na pós-graduação
Raul Pacheco Filho (EPFCL-SP/PUC-SP): Repetição e contingência na obra de arte
Ricardo Rojas (EPFCL-Colômbia): Arte e interpretação
Rosane Melo (EPFCL-Rio/UFRRJ): Brincar: o tratamento do real
Sheila Abramovich (FCCLRJ/UERJ): a impressão - de um instante - que nos causa
Sonia Borges (EPFCL-Rio/UVA): Recuperação de gozo na criação
Tania Rivera (CF/UFF): A Arte e o Avesso do Imaginário
Tersa Nazar (ELP): A Escrita em Cena
Vera Pollo (EPFCL-Rio/UVA): O palco da histeria

Para ler mais e fazer inscrição: Hímeros - I Colóquio de Arte e Psicanálise 




quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Para ser grande, sê inteiro





Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive
 
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
            

XXXIV Congresso Interamericano de Psicologia





Pela quarta vez, o Congresso Interamericano de Psicologia - CIP será realizado no Brasil.Este ano ocorrerá de 15 a 19 de julho, em Brasília,  no Campus Asa Norte do Centro Universitário de Brasília – UniCeub.

Para saber mais sobre acesse: http://www.sip2013.org/principal.htm

sábado, 9 de fevereiro de 2013

A Infinita Fiadeira - Mia Couto


Caros amigos,

Vejam que interessante fábula crítica da pós-modernidade de Mia Couto. Neste tempo que não temos tempo para SER, apenas FAZER, produzir com finalidade, sem poder ser gente!


A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs. E dia e noite: dos seus palpos primavam obras, com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções: lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha, em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós. Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
Não faço teias por instinto.Então, faz porquê?Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação, a mandaram chamar. A mãe:
Minha filha, quando é que assentas as patas na parede?E o pai:
Já eu me vejo em palpos de mim...Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos muitos olhos enquanto disse:
Estamos recebendo queixas do aranhal.
O que é que dizem, mãe?
Dizem que isso só pode ser doença apanhada de outras criaturas.Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um machito. E organizaram um amoroso encontro.
Vai ver que custa menos que engolir mosca – disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o singelo namorador, a aranha namorou, enamorada. Os dois deram-se os apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime. Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
Faço arte.
Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados. Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos – chamados obras de arte – tinham sido geneticamente transmutados em bichos. Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.
* Mia Couto 
Em: O Fio das Missangas, 2004.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A eterna dança da solidão




"Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, a dança da solidão...". Para os vários tipos de solitários de que fala a canção de Paulinho da Viola chegou ao Brasil um clássico sobre o tema: o livro da psicanalista francesa Françoise Dolto (Editora Martins Fontes). Intitulado simplesmente Solidão, ele teve como fonte de pesquisa casos que se passaram nos mais de 30 anos de consultório da autora.
Para ela, as vivências mais radicais de solidão que temos na vida são as primeiras: o parto (que separa o feto do útero) e o desmame (que separa o bebê do seio da mãe). Há duas formas de o bebê reagir à solidão e a que é predominante forma sua personalidade. "Uma é a simbólica, aquela que abre as vias da comunicação à distância (o bebê chora, aprende a se mover, a dominar o espaço); a outra é a do fetiche, apoiada no imaginário do passado, que cala a comunicação. É quando o bebê se satisfaz com a chupeta ou o dedo", ensina Françoise Dolto.
No primeiro caso, o bebê reage de forma construtiva, tentando se comunicar com o mundo; no segundo, ocorre exatamente o oposto: ele se isola do mundo e a experiência de estar só ganha um gosto amargo, que, se muitas vezes repetido, forma a personalidade hostil de um adulto intimamente amargurado.
Para a autora, a capacidade de enfrentar a solidão depende da primeira infância e de como a mãe se relaciona com o bebê. Se a mãe costuma conversar com o filho, ele se torna um adulto capaz de enfrentar a solidão.

NA INFÂNCIA - A importância do desmame é tal que, se for malfeito, termina levando ao alcoolismo na idade adulta. "A potencialidade para tornar-se alcoólatra está ligada a uma grande felicidade de comunhão com a mãe durante o período de aleitamento, que não foi substituída, depois do desmame, por um intercâmbio verbal ainda mais enriquecedor. Os alcoólatras são todos adultos carentes de mãe", afirma a psicanalista.
Ela conta uma história para ilustrar outros efeitos da solidão na primeira infância. "Conheci dois bebês que a mãe alimentava como se desse de comer a cachorros. Cuidava deles, dava papinha nas horas certas, mas, fora esses momentos, estava sempre entregue às panelas. Satisfazia suas necessidades, mas nunca falava com eles. Na idade de entrar para a escola, foi terrível, não queriam de jeito algum. O único prazer das crianças era passear com latas de conservas vazias, nas quais enfiavam pedaços de bichos de pelúcia e de bonecas. As crianças imitavam a mãe, que fazia conservas, mas, no lugar dos alimentos, guardavam pedaços de brinquedos", lembra a psicanalista.

Aos 2 anos, porém, a situação se inverte. A solidão, danosa para os bebês, é boa companheira para crianças com mais idade. "Deixar as crianças sós (e não no isolamento), respeitando sua solidão aparentemente desocupada, é indispensável para que elas não se tornem robôs dos outros. Estar só é enriquecedor quando isto não é sentido como rejeição. Os pais são os mestres da vida. As crianças deveriam ser ensinadas a jamais confundir amor com dependência", comenta a autora.

Segundo Françoise Dolto, os adolescentes têm um desequilíbrio revelador em seu comportamento. "Retraimentos solitários alternam-se com atitudes provocantes", explica. "A solidão é a mais perigosa das fugas para o adolescente. A intensidade emocional da atração pelo sexo e o medo de ser ridículo são resquícios do complexo de Édipo que levam ao sentimento de culpa por qualquer desejo sexual. Mascarar o desejo com uma capa de indiferença ou contar vantagem, fantasiando conquistas, são meios de bloquear a comunicação autêntica para anular a angústia", defende.

TIPOS - O livro de Françoise Dolto se estrutura como uma conversa de consultório entre analista e analisando, passeando por várias solidões - a sensação de abandono dos bebês; a reclusão agressiva dos adolescentes; a angústia da separação conjugal; o sentimento de perda dos viúvos; o isolamento sensorial de cegos e surdos. No final do percurso, a autora francesa flagra a solidão como refúgio criativo de artistas e escritores para torná-la exemplo cotidiano.

Para Françoise Dolto, a solidão só acaba quando se descobre uma forma de se expressar. Escrever (mesmo que sejam diários) é um caminho para transformar a solidão numa experiência construtiva, de busca de comunicação.

"Ninguém vive sem sentir solidão; e nem pode estar sempre com alguém. A personalidade forte é habitada, desde a infância, por uma solidão povoada de intercâmbios de palavras e de contato físico".