sábado, 26 de janeiro de 2013

Canção Amiga - Drummond




Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos. 


Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos. 


Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.


Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas. 


Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Carlos Drummond de Andrade
In Novos Poemas
José Olympio, 1948

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Entre o Amor e a Paixão - Take this waltz

Há filmes que nos lançam no mundo da fantasia e sonho sendo este o grande mérito e sentido dos mesmos, uma vez que o humano precisa do sonho e da fantasia. Outros nos fazem mergulhar nas agruras do viver e refletir a duras penas.  O filme “Take this waltz” da diretora e roteirista canadense Sarah Polley está na segunda categoria.
A substituição do nome em inglês por “Entre o Amor e a Paixão” engana o que se deve esperar do filme que não se reduz ao conflito de uma jovem mulher entre o um amor que vive no relacionamento conjugal e uma paixão avassaladora por um homem estranho que surge em sua vida. “Take this waltz” trata sobretudo da solidão das pessoas dentro dos relacionamentos quando estes se esvaziam, pairam na superficialidade, quando a dificuldade em se comunicar causa a deterioração dos relacionamentos ou até a impossibilidade de serem construídos. Vemos o casal Margot (Michelle Williams) e Lou (Seth Rogen) a todo o momento dizerem um ao outro que se amam, utilizando de uma brincadeira particular do casal e de formas a mais insólitas possíveis. Em uma das cenas Margot logo ao ser acordada pelo marido diz: “Eu te amo tanto que vou amassar a sua cabeça como purê de batatas”. Ele responde: “Eu te amo tanto que vou colocar o seu braço em uma máquina de moer carnes.” Por fim ela ganha a brincadeira nesta vez fazendo o marido rir ao dizer “Eu te amo tanto que vou injetar no seu rosto uma combinação de influenza e ebola.” O que nos arranca um sorriso angustiado. Logo vemos que as brincadeiras escondem e revelam o que não pode ser pensado, falado e até mesmo sentido por eles. A necessidade constante de afirmação do amor esconde as dúvidas e medos do casal na impossibilidade de lidarem com suas diferenças e sentimentos mais profundos. Na brincadeira repetitiva são dois iguais, como se fossem apenas duas crianças brincando, mas como adultos não conseguem lidar com a diferença entre as formas de expressarem o seu amor e desejo um para o outro. Margot quer ter um filho, ele não, mas não conversam sobre isso, sobre o significado desta diferença e como vão lidar com ela. O que significaria para Magort o marido não desejar ter um filho com ela? Por qual motivo este desejo é ausente para ele e até mesmo impensável? Nada disso sabemos, nem eles conseguem se deparar com tais questões. O que fica? A dor, a mágoa, a raiva. Sentimentos que ambos tentam evitar tocar usando como barreira protetora as brincadeiras que são ao mesmo tempo uma expressão destes mesmos sentimentos. Nas brincadeiras podemos ainda ouvir que a pergunta: quem ama mais? é uma constante dentro de cada revelando a insegurança e o medo de amar mais ao outro do que se é amado. A protagonista num determinado momento pergunta: “Quando mesmo comecei a perder nesta brincadeira?”. O que poderíamos traduzir pela questão quando meu amor começou a diminuir?. Neste momento seu companheiro comenta que começou a ganhar porque talvez a ame mais do que no começo. A dúvida e o medo não permitem que possam respeitar o tempo do desejo de cada um, de tal forma que primeiro temos uma cena onde Margot não corresponde ao desejo sexual do marido e numa segunda cena ele faz o mesmo. O que poderia ser vivido apenas como um desencontro, caso não houvesse sentimentos reprimidos entre ambos, é vivido por cada um como uma rejeição. A diferença é que Margot ao dizer que não quer avançar para uma relação sexual percebe que o marido ficou aborrecido nomeia isto e pede desculpas, enquanto Lou não apenas não corresponde ao desejo dela como não o reconhece. Ele não corresponde a tentativa de sedução da esposa por supostamente estar impedido de fazê-lo por ocupar-se da preparação do jantar inconsciente que a rejeita por ter se sentido rejeitado anteriormente por ela. Tal negação do que esta sendo vivido entre eles mergulha Margot num profundo desespero já que fazendo isso Lou nega a realidade a tal ponto que ela fica totalmente sozinha e no lugar de quem esta delirante. Em sinal de desespero Margot chora e o marido diz: “Eu estou apenas fazendo o frango?”. Perguntamos-nos por qual motivo Lou seria tão cruel com a esposa pela qual esta envolvido e imaginava viver o restante da vida, tal qual revela em outra cena? Em outro momento diz a ela: “Em algum lugar eu sabia que alguma coisa não estava bem, mas acho que apenas espera passar.” Os mecanismos de defesa inconscientes servem para que o psiquismo se proteja de lidar com certos sentimentos que seriam vividos como intoleráveis ou dolorosos pelo ego(eu). Todos nos utilizamos estes, porém o que vemos é o mecanismo da negação sendo utilizado até as últimas consequências. Lou não reconhece seus sentimentos nem da sua mulher, portanto não a vê. Em sucessivas cenas Margot busca a atenção do marido, quando ele esta ao telefone, cozinhando, no restaurante com ela. O que fica evidente é que há um impedimento para além da tarefa que ele estaria executando a cada momento uma vez que ao estarem jantando num restaurante para comemorarem o aniversário de casamento ele não consegue criar um espaço de conversa com ela. Ao ser solicitado por Margot diz que não tem o que conversar com ela porque sabem tudo um do outro por viverem juntos. Paralelamente a estas cenas Daniel (Luke Kirby) com quem Margot flerta numa viagem a persegue pelas ruas e lugares. Margot busca alguém que a veja, a ouça, a ame, mas como uma criança deixa-se embalar nos movimentos do carrossel que levam a vertigem, mas são temporários. O filme que ficaria bem traduzido como “Alguém para conversar” revela que o essencial para o relacionamento amoroso é, para além da junção do amor e desejo, a possibilidade de enfrentar alguns dos medos e dores mais profundos que assombram a alma humana: o medo da rejeição e a dor de não receber o olhar do outro correspondência ao nosso olhar.


Poema que inspirou "Take this Waltz" de Leonard Cohen 

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,violín y sepulcro, las cintas del vals.

(Frederico Garcia Lorca - Pequeño Vals Vienés)



                 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Da solidão - Vinícius de Moraes



Sequioso de escrever um poema que exprimisse a maior dor do mundo, Poe chegou, por exclusão, à idéia da morte da mulher amada. Nada lhe pareceu mais definitivamente doloroso. Assim nasceu “O corvo”: o pássaro agoureiro a repetir ao homem sozinho em sua  saudade a pungente litania do “nunca mais”.
Será esta a maior das solidões? Realmente, o que pode existir de pior que a impossibilidade de arrancar à morte o ser amado, que fez Orfeu descer aos Infernos em busca de Eurídice e acabou por lhe calar a lira mágica? Distante, separado, prisioneiro, ainda pode aquele que ama alimentar sua paixão com o sentimento de que o objeto amado está vivo. Morto este, só lhe restam dois caminhos: o suicídio, físico ou moral, ou uma fé qualquer. E como tal fé constitui uma possibilidade – que outra coisa é a Divina comédia para Dante senão a morte de Beatriz? – cabe uma consideração também dolorosa: a solidão que a morte da mulher amada deixa não é, porquanto absoluta, a maior solidão.
Qual será maior então? Os grandes momentos de solidão, a de Jó, a de Cristo no Horto, tinham a exaltá-la uma fé. A solidão de Carlitos, naquela incrível imagem em que ele aparece na eterna esquina no final de Luzes da cidade, tinha a justificá-la o sacrifício feito pela mulher amada. Penso com mais frio n’alma na solidão dos últimos dias do pintor Toulouse-Lautrec, em seu leito de moribundo, lúcido, fechado em si mesmo, e no duro olhar de ódio que deitou ao pai, segundos antes de morrer, como a culpá-lo de o ter gerado um monstro. Penso com mais frio n’alma ainda na solidão total dos poucos minutos que terão restado ao poeta Hart Crane, quando, no auge da neurastenia, depois de se ter jogado ao mar, numa viagem de regresso do México para os Estados Unidos, viu sobre si mesmo a imensa noite do oceano imenso à sua volta, e ao longe as luzes do navio que se afastava. O que se terão dito o poeta e a eternidade nesses poucos instantes em que ele, quem sabe banhado de poesia total, boiou a esmo sobre a negra massa líquida, à espera do abandono?
Solidão inenarrável, quem sabe povoada de beleza… Mas será ela, também, a maior solidão? A solidão do poeta Rilke, quando, na alta escarpa sobre o Adriático, ouviu no vento a música do primeiro verso que desencadeou as Elegias de Duino, será ela a maior solidão?
Não, a maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.


Vinicius de Moraes in “Pra viver um grande amor”.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O DESAFIO DO ANALISTA É PERMANECER HUMANISTA

Na entrevista dada ao Estadão no dia 07/10/2012 o psicanalista Leopoldo Nosek responde a perguntas cruciais para quem deseja compreender como a psicanálise pode ajudar as pessoas na contemponaneidade e aborda temas importantes como anorexia, sindrome do pânico, sexualidade,  tempo e competitividade na atualide e o conceito de felicidade.
 

“O DESAFIO DO ANALISTA É PERMANECER HUMANISTA” 

Quando o antigo já não existe mais e o novo ainda não se estruturou é que se criam os monstros, segundo Leopold Nosek, da Federação Psicanalítica da América Latina. 
Os sintomas desse momento de transição– no qual se encontra a humanidade– estão na pauta dos principais desafios dos analistas contemporâneos.
A seguir, os melhores momentos da entrevista realizada com o psicanalista por ocasião do 29º Congresso Latino-Americano de Psicanálise,  realizado em São Paulo de 10 a 13 de outubro  em torno do tema “Invenção-Tradição”, uma alusão às mudanças vertiginosas de nossa sociedade.

O mundo atual é muito fragmentado, a análise ajuda a dar unidade para pensamentos e sentimentos?
O paciente continua um ser humano. Só precisa ser lembrado disso. É um trabalho de recuperação. Não vivemos de construções velhas, portanto é impossível um analista estar ouvindo a mesma coisa. Nossos sentimentos pedem sempre novos versos.

Dê um exemplo.
As canções de ninar. São todas iguais. Falam de monstros, não de sossego. Porque a criança tem o medo e o horror dentro dela. E quando encontra uma representação, se sente entendida. Quando se adquirem palavras para o conflito e para a dor, aquilo se circunscreve. Deixa de ser infinito e adquire um tamanho. A partir daí, monta-se a equação e pode-se lidar com isso. Uma boa análise não resolve as equações, mas ajuda a montá-las. E, às vezes, isso é o mais difícil. “A cuca vem já já, papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar”. É uma equação de desamparo.

O ser humano continuou igual, enquanto o mundo sofreu um avanço tecnológico imenso?
Em qualquer idade nos encontramos em transição. Sempre foi assim. Mas, agora, a velocidade é assombrosa. Outro dia, um adolescente me falou uma coisa interessante: que John Lennon nunca tinha visto um computador.

Quando um paciente tem alta, quem define isso: ele ou o analista?
Não creio em alta. A alta não faz parte da minha ideia analítica. A cura é uma ideia médica e se baseia em sintomas. O que existe são momentos de desenvolvimento que promovem emancipação. Tem muita gente que quer se aprofundar em si mesmo. Por outro lado, para quem faz análise, esse tipo de exercício reflexivo é vital. Não há como evitar.

Existe quem consiga fazer essa reflexão sozinho?
De fato não criamos nada em isolamento. Prefiro dizer que há pessoas que fecham a porta para esse tipo de prática. Muitas possuem uma dificuldade de olhar para sua interioridade. São pessoas que estão sempre em ação, impedindo o contato com o mundo onírico. Outros têm uma cegueira para o que é conflitivo, contraditório e escuro. O que sabemos sobre a análise é que aquele que a faz fica um pouquinho melhor na comparação com ele mesmo. E esse pouco melhor é inestimável. A família e as pessoas ao lado notam. Claro que, como tudo, análise depende de sorte. De achar a companhia certa para tanto. Nelson Rodrigues dizia que sem sorte você não chupa nem picolé porque vai cair no seu sapato.

A rapidez e a competição da atualidade contribui para o aumento da angústia?
Vivemos transformações importantes. Acostumamo-nos a lidar com um aparelho eletrônico e já temos que lidar com um novo. Existe hoje um paradoxo. Vamos viver mais de oitenta anos, mas ficaremos obsoletos profissionalmente, muitas vezes, com 40, 50 anos. Isso gera uma grande insegurança. Há uma enorme concentração de recursos materiais e de expediente para o trabalho para se produzir. Isto influencia nosso modo de viver. Por exemplo, os bancos vão se preocupar com suas ações e não com as hipotecas e o destino dos mutuários. Será que as grandes corporações farmacêuticas são diferentes?

E qual a consequência disso?
Falta tempo para o ser humano olhar para a própria humanidade. Não conseguimos construir um acervo onírico, uma personalidade. Sonhar e adquirir um repertório cultural, poético, requer tempo. É isso que necessitamos para dar conta da vida. É um desafio dos analistas de hoje, muito diferente da época do Freud. O sofrimento atual é de outra ordem. A do vazio. O indivíduo sofre, mas não articula um discurso. Quem tem pânico, por exemplo, sequer sabe diferenciar se o sofrimento é psíquico ou corporal. E crescem doenças como a anorexia, obesidade e a bulimia, que há 40 anos eram uma raridade.

O que é anorexia?
Ausência de desejo. Não se sente fome, não há vida sexual. Porque o desejo é visto pelo anoréxico como um perigo de destruição interna. Ele não tem acervo para dar conta. Isso é o desafio para o analista. Como trata-se de um discurso que não se organiza, é impossível realizar o que os analistas faziam antigamente – presente no imaginário popular –, de atribuir significados inconscientes ao que o paciente fala. É necessário a criação de novas narrativas, novos sonhos.

E como o analista reage em uma situação como essa?
É um dos temas do nosso congresso. Colocar o analista em questão. Estamos diante de um mundo novo. Que implica em novo corpo, sexualidade, ética e moralidade. Além de um sistema jurídico que terá que se adaptar a tudo isso. Em um mundo onde as coisas estão cada vez mais técnicas, o desafio para o analista é permanecer um humanista.
Com o avanço das drogas psiquiátricas, o paciente é o que ele toma?
Claro que não. Comemoramos as novas medicações, são um progresso. Entretanto, há um exagero. As pessoas não podem mais ficar tristes. Crises e os lutos são grandes oportunidades de transformação, de inventividade, desenvolvimento. Se você não tem tempo do luto, as pessoas tornam-se descartáveis. Como viver sem perdas? O importante é dar um destino criativo para elas.

Onde entra a análise?
As pesquisas mostram que uma terapia, de ordem verbal, aliada a medicação, funciona melhor do que só o remédio. Isso é consenso em psiquiatria também. No entanto, existe uma predileção por sucesso rápido. Costuma-se dizer que a psicanálise é demorada. O que ocorre é que entramos em um processo de desenvolvimento. Se a análise for boa você sente os benefícios desde o primeiro encontro.

Como se manter são?
Eu nem pretendo isso. Não me apresento assim. Não tenho cara de são e não faço a menor questão de ser. E não sei mais do que a pessoa que está lá comigo. Só tenho um ouvido disciplinado para aquilo. Para ser analista, tem que ter problemas suficientes para não conseguir ficar quieto.

Como o senhor vê o crescimento dos fundamentalistas no mundo?
Quando eu comecei, a angústia dos pais era que os filhos estavam virando revolucionários. Hoje, se preocupam porque os filhos estão virando fanáticos. Com o a falta de tempo para construir um acervo que dê conta da sua humanidade, o indivíduo apela para as receitas prontas.

Em qualquer época?
Em tempos de transformação. Quando o velho não existe mais e o novo ainda não se estruturou, criam-se os monstros, dizia Antonio Gramsci. São momentos em que ainda não há um novo sonho, uma referência poética. Em épocas como essa, em que não existe tempo de esperar até que se organize um novo sonho, uma nova referência poética e cultural, é que as pessoas se socorrem de coisas estabelecidas.

Outra discussão é sobre a esfera do público e do privado. Mudou com a internet?
Sim. O Facebook e similares, por exemplo. As pessoas acreditam que estão expondo a intimidade ali. Mas, na verdade, não. Mudou o critério de intimidade. O que é íntimo, de verdade, as pessoas não mostram.

Por quê?
Porque quando é íntimo é conflituoso. O sexo pode ser íntimo para uma pessoa e não para outra. E parte da graça do sexo é que é tremendamente conflituoso e angustiante. Senão, seria como comer bife. O medo da perda, da invasão, do excesso, estão sempre aí. O número de fantasias, medos e expectativas que acompanham a sexualidade é enorme, e aí é que está a graça.

O que é a felicidade?
Essa felicidade da qual se fala é uma bobagem (risos). Uma coisa é viver criativamente, viver bem. Viver feliz é um sonho infantil. A ideia de não ter conflitos, problemas, é uma negação da realidade. Isso não é viver feliz, é ter uma anestesia para uma parte da vida. Uma pessoa que acredita nisso não vive as crises dos filhos, as questões amorosas, os lutos. Pensa em soluções. Chamo essas pessoas de “solucionáticas”.

Para resumir, qual o maior desafio para o analista hoje?
Cada vez mais o tratamento é bipessoal. Na sala de análise tudo pode acontecer virtualmente. O analista tem que ser corajoso e participativo. Ter audácia. Tem que ter o conhecimento. Esta é a sua ética. Estamos todos em questão, o paciente, o analista e a análise. Cabe a brincadeira “vamos olhar seus problemas de frente: pode se deitar”.

Entrevista publicada pelo jornal O Estado de São Paulo.

O constante diálogo - Drummond



Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
                   o semelhante
                   o diferente
                   o indiferente
                   o oposto
                   o adversário
                   o surdo-mudo
                   o possesso
                   o irracional
                   o vegetal
                   o mineral
                   o inominado

Diálogo consigo mesmo
            com a noite
            os astros
            os mortos
            as idéias
            o sonho
            o passado
            o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
                           e
tua melhor palavra
                           ou
teu melhor silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.



Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Passado e Construção


"O passado é uma definição nossa. Podemos nos esforçar para escapar dele, por bons motivos, ou escapar do que é ruim nele, mas só escaparemos acrescentando algo melhor"

Wendell Berry