domingo, 9 de setembro de 2012

A poética do Suicídio de Sylvia Plath




ISBN: 8570413688
ISBN-13: 9788570413680
Idioma: português
Encadernação: Brochura
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: 2003
Número de páginas: 312


SINOPSE: Em fevereiro de 1963, aos 30 anos de idade, a escritora americana Sylvia Plath se suicidou em Londres, onde morava com seus dois filhos, poucos meses depois de ter se separado de seu marido, o poeta inglês Ted Hughes. A morte de Plath aconteceu em meio a uma intensa produção poética, que haveria de incluí-la, por fim, entre as autoras mais importantes do século XX. Uma abordagem psicanalítica da obra da escritora revelará elementos que nos permitem reconhecer uma espécie de toxidez da escrita. Este aspecto aponta a presença de impulsos destrutivos que operam no interior do processo criativo. Na articulação entre vida, obra e morte, este livro procura ressaltar os modos pelos quais esses impulsos relacionam-se aos limites da escrita literária em sua dupla face funcional e disfuncional.

A psicanalista Eliana Borges Pereira Leite, no texto Escrita de risco, poesia de abismo cometa sobre o livro: Além de fornecer ao leitor, na primeira parte de seu livro, os dados mais importantes sobre a vida de Sylvia Plath, Ana Cecília Carvalho descreve e analisa o modo de produção que será a marca registrada da sua poesia, sua poética autobiográfica. Inicialmente influenciada pelo New Criticism – movimento que exigia do autor o distanciamento das suas próprias experiências e que valorizava a impessoalidade –, Plath precisou ultrapassar suas primeiras convicções para assumir uma escrita cuja força estava justamente na captação poética e na transformação das suas experiências cotidianas, das mais simples às mais complexas ou sofridas, em matéria-prima dos seus romances e poemas. A relação problemática com a mãe, o conturbado casamento com o escritor Ted Hughes e as angústias relativas ao seu projeto literário se expressam de diferentes maneiras em cartas e diários. Parcialmente publicados após sua morte, esses documentos pessoais dão a conhecer um árduo trabalho de ficcionalização da experiência, revelando o esforço de representação inerente à busca de uma forma poética que, sem se tornar confessional, desse o contorno adequado e a versão literária ao seu mundo emocional. A determinação de Sylvia Plath fazia com que ela “não perdesse de vista que a complexidade da vida emocional requer uma preparação controlada e sempre atenta aos dispositivos da linguagem para que a efetividade literária possa ocorrer” (p. 42).

Para finalizar, PALAVRAS e OLMO de Sylvia Plath:


PALAVRAS

Golpes,
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
sobre a rocha
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto
Do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.
 
OLMO

Conheço o fundo, diz ela. Cheguei lá com a minha raiz maior:

É disso que tu tens medo.

Mas eu não tenho medo: já lá estive.


É o mar o que houves em mim,

As suas insatisfações?

Ou a voz do nada que era a tua loucura?


O amor é uma sombra.

Como ficas prostrada e chorosa depois

Escuta: são os cascos dele: desapareceu como um cavalo.


Toda a noite vou galopar, assim, impetuosamente,

Até que a tua cabeça fique uma pedra e a tua almofada um pequeno monte de turfa,

Fazendo eco, fazendo eco.


Ou deverei eu trazer-te um som de venenos?

Agora é a chuva, este quase silêncio.

E este é o seu fruto: da cor metálica do arsénico.


Tenho sofrido a atrocidade dos crepúsculos.

Queimados até à raiz

Os filamentos vermelhos ardem, ficam espetados, mão de fios eléctricos.
Desfaço-me em bocados de caruma que voam em várias direcções.
Um vento tão violento
Não aguenta espectadores: tenho de gritar.

Também da lua ausente a piedade: havia de arrastar-me

Cruel, na sua esterilidade.
O seu esplendor ofusca-me. Ou talvez a tenha agarrado.

Vou deixá-la ir. Vou deixá-la ir

Diminuida e esvaziada, como após uma operação radical.
Como os teus sonhos maus me possuem e alimentam.

Sou habitada por um grito.

Noite após noite bate as asas
Procurando com as garras algo para amar.

Aterroriza-me esta coisa tenebrosa

Que dorme dentro de mim;
Todo o dia sinto o macio voltejar das suas penas, a sua malignidade.

As nuvens passam e dispersam-se.

Serão essas as faces do amor, esfumadas coisas que não se recuperam?
É por isto que perturbo o meu coração?

Sou incapaz de aprender mais.

O que é isto, este rosto
Tão assassino em seus tentáculos estranguladores?-

O seu ácido silvo de serpente.

Petrifica o desejo. Erros que isolam, essas falhas lentas
Que matam, e matam, e matam.


Sylvia Plath
Ariel, tradução de Maria Fernanda Borges, Relógio D'Água, 1996 


Ler na íntegra o texto Escrita de risco, poesia de abismo: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0101-31062010000100022&script=sci_arttext