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A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente. Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.

Anna Amorim, 2010

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