segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Homenagem Dia do Psicólogo 27 de agosto - aos colegas e pacientes

  

"O passado não é passível de mudança, mas a visão e a forma de lidarmos com o reflexo de nossa história no presente o é. Buscando novas significações recriamos nossa própria vida."
                                                                                                               (Ana MªAmorim )   
Hoje comemora-se o Dia do Psicólogo. Inicio este post com a frase acima, de minha autoria, porque  diz muito sobre nossa tarefa ao lado de cada novo paciente que vem a nosso encontro com suas angústias, dúvidas, desejos, ideais.
Quero parabenizar todos colegas e agradecer todos meus pacientes, pela troca, ensinamentos e coragem!


No dia 27 de agosto é comemorado no Brasil o Dia do Psicólogo. Nesta mesma data, no ano de 1964, a profissão foi regulamentada através da Lei 4.119/64.
Essa ciência nasceu da necessidade do homem de compreender a si mesmo em toda a sua complexidade enquanto indivíduo que se relaciona.
Através das técnicas de investigação da história pessoal, utilização de instrumentos de avaliação e de observação, busca estudar e entender todos os tipos de comportamento humano, manifesto e oculto; simples ou complexo; racional ou irracional; bem como a compreensão de sua natureza, os sentimentos e pensamentos.
A Psicologia é uma ciência que aborda o humano desde o seu ser cognitivo (consciente e inconsciente), social, político, comportamental, orgânico, bioquímico, etc. 
O psicólogo é um profissional de saúde de nível superior (Resolução CNS n.º 218/97) e como tal pode atuar na pesquisa, no diagnóstico, prognóstico, prevenção e tratamento de manifestações do humano, incluindo as patológicas (doenças). 

IMPORTANTE:

Ao procurar serviços em Psicologia exiga a "carteira de identidade profissional" (Lei Federal nº 5766/71) do seu psicólogo. Esse procedimento torna-se fundamental, pois há inúmeras pessoas sem formação em Psicologia que procuram se passar por esse profissional.


Símbolo da Psicologia

É 23a letra do alfabeto grego, nomeada psi e adotada em todos os países como representação da Psicologia.
As duas serpentes indicam os saberes (pluralidade) sobre essa ciência.
Os dois ramos de louros (parte inferior do símbolo) no mundo clássico significavam: glória, honra, orgulho, triunfo, vitória, laurel, pleito, homenagem.
A cor azul é designada para a faixa de formatura e a pedra lápis-lazúli para o anel de formatura.
O juramento: “Como psicólogo, eu me comprometo a colocar a minha profissão a serviço da sociedade brasileira, pautando meu trabalho nos princípios da qualidade técnica e do rigor ético. Por meio do meu exercício profissional, contribuirei para o desenvolvimento da Psicologia como ciência e profissão na direção das demandas da sociedade, promovendo saúde e qualidade de vida de cada sujeito e de todos cidadãos e instituições”
(resolução CFP N0 002/2006)


Contexto Histórico


Apesar de muitos filósofos e pensadores terem se ocupado da mente humana em seus estudos, foi apenas no século XVI que apareceu pela primeira vez o termo psicologia, quando o humanista croata Marco Marulik publica A psicologia do pensamento humano.
Ainda assim, um conceito de psicologia, tal como conhecemos hoje, só veio surgir no século XIX, através das formulações de Wilhelm Wundt que, em 1879, criou o primeiro laboratório de psicologia, em Leipzig , na Alemanha. Suas idéias, porém estavam ainda muito atreladas a conceitos fisiológicos e não avançaram muito.
A palavra psicologia deriva do grego e significa psyche (alma/mente) + logos (estudo/sentido/palavra) ou Ciência da Alma, sua definição mais antiga.
Atualmente a definição da psicologia mudou. Cabe ao psicólogo "estudar os fenômenos da mente e do comportamento do homem com o objetivo de orientar os indivíduos a enfrentar suas dificuldades emocionais e ajudá-los a encontrar o equilíbrio entre a razão e a emoção".
O objeto de estudo do psicólogo é o comportamento humano e o seu principal objetivo é compreender o homem.
Apesar desse intuito dessa compreensão não ser uma característica somente do profissional de psicologia, haja vista que a antropólogia, a sociologia e a economia buscam a mesma compreensão com ênfase nos grupos e sociedades, esta se fixa no indivíduo e sua complexidade, ou seja, o psicólogo estuda o indivíduo como a unidade do grupo social.
Diversas escolas da psicologia foram se desenvolvendo: behaviorismo, psicanálise, Gestalt, desenvolvimentista, humanismo. Cada uma dessas escolas tem uma perspectiva diferente de estudo da psicologia: para os behavioristas é o comportamento, para os psicanalistas é a alma através do inconsciente, para os Gestaltistas, é o homem por meio de sua percepção; e, para os desenvolvimentistas, a relação desenvolvimento / aprendizagem.
Cada escola aborda o “eu” conforme sua ótica, mas todas se empenham em tratar os conflitos, as angústias e o equilíbrio emocional do indivíduo.
Cabe ao psicólogo com os seus recursos técnicos, compreender aquilo que muitas vezes não compreendemos e, compreendendo-nos, desvelar e reforçar o nosso eu verdadeiro.
Todo psicólogo deve ser capaz de transmitir amor, segurança, equilíbrio utilizando-se da técnica e da riqueza de sua própria personalidade sem perder o consenso e a ética. Deve ter o coração e a mente abertos às verdades com que se depara em seus caminhos promovendo na humildade o crescimento de si mesmo e do outro.

Fontes:
Geocities - www.geocities.com.br
Portal Sáude  -  www.portalsaude.net
Portal Transparência Porto Alegre - www2.portoalegre.rs.gov.br

domingo, 19 de agosto de 2012

Auto-análise - Helena Kolody














Sob a intensa luz da cena
e na plateia em penumbra,
vivo e me observo a viver.

(De quem o amargo sorriso?
 Quem sonha uma outra vivência?)

Helena Kolody
de Tempo

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Como trabalha um psicanalista? J. D. Nasio

"É inegável que a análise produz efeitos curativos. Ou seja: a análise produz efeitos de diminuição, e até de desaparecimento do sofrimento do paciente. São efeitos que se produzem em momentos vários do tratamento, às vezes depressa demais, desde as primeiras entrevistas, às vezes tardiamente, bem depois do término do tratamento e enfim, raramente - pelo menos na minha experiência - por ocasião das últimas sessões.
Assim, devo admitir imediatamente que tais efeitos existem e são um dos resultados maiores que possamos esperar de uma análise. Até acrescento: creio firmemente que todo analista, quaisquer que sejam sua formação e sua orientação, tem uma responsabilidade, quase um dever ao qual não se pode subtrair, isto é, esperar - digo ´esperar` - uma melhora nas posições subjetivas e objetivas do seu analisando."

J. -D. Nasio - Como trabalha um psicanalista?

domingo, 12 de agosto de 2012

A Pele



O psicanalista Donald D. Winnicott é conhecido por muitos de seus conceitos, entre eles pelo estudo profundo da criatividade e da espontaneidade.
O bebê chega ao mundo e é um ser único, se a mãe consegue se identificar com ele e respeitar seus ritmos e forma de ser abre-se à possibilidade da espontaneidade. O bebê acredita que cria seu mundo. Mas nem sempre tudo corre bem, as invasões maternas e depois do meio podem “esmagar” o self (si mesmo) e este fica protegido pelo falso self, a máscara que pode ser exibida socialmente sem colocar o precioso verdadeiro si mesmo em perigo.
Infelizmente a vida da pessoa pode se transformar numa farsa para ela mesma e ela confunde-se com o próprio “personagem” que criou, mantendo dentro de si uma insatisfação, ás vezes, inexplicável para ela mesma.
É o que ocorre com a personagem Diane Arbus (Nicole Kidman) no filme A Pele (2006).
Antes de prosseguir é interessante pontuar que no inicio do filme o diretor Steven Shainberg (Secretária – 2003) avisa que se trata de uma história fictícia criada a partir da biografia da escritora Patrícia Bosworth (também produtora do filme). Tal informação provavelmente tem como intuito deixá-lo livre de possíveis cobranças de fazer um retrato fiel de Diane. Porém sua fantasiosa versão para o mundo da fotografa não agradou a crítica americana. É fácil compreender ao ver o filme que é para poucas pessoas sensíveis que podem captar o significado do aprisionamento de Diane e sua libertação.
Compreendemos através da psicanálise winnicottiana que a pessoa vive através do falso self, mas procura a realização do seu verdadeiro self. Tal busca pode se dar de diversas formas, bem como o encontro. Para Diane foi através do encontro e apaixonamento recíproco pelo vizinho Lionel (Robert Downey). Ele é portador de uma doença rara que o faz ter pêlos por todo o corpo, que crescem sem cessar.
Ambos revelam-se aos poucos, revelações profundas, é a atração é inevitável.
Lionel propicia que Diane traga á luz seu verdadeiro self. Deixa a vida anterior que tinha, de assistente de fotografia publicitária do marido e torne-se fotografa.
É ainda, para quem pode ver com os “olhos da alma”, uma linda e trágica história de amor, um amor que não pode seguir, mas deixa marcas profundas e inesquecíveis para Diane e espero para muitos que assistem ao filme.
É um exemplo de realização, de ultrapassar limites, de ter coragem apenas de viver, seja, até o limite.
Minha dica, não percam!
Para completar, quem quiser saber mais pesquise a vida de Diane Arbus (1923-1971) que se tornou uma das mais importantes fotógrafas americanas. Retratista tinha como alvo, o que a sociedade considerava fora dos padrões estéticos. Seus protagonistas viviam no gueto, á margem, e a preocupação de Diane era justamente retratar o que havia de verdadeiro por trás das máscaras, suas dores, angústias, frustrações.


Anna Amorim, 2009

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O Valor da Vida - Entrevista com Freud

Entre as preciosidades encontradas na biblioteca da Sociedade Sigmund Freud está essa entrevista. Foi concedida ao jornalista americano George Sylvester Viereck, em 1926. Deve ter sido publicada na imprensa americana da época. Acreditava-se que estivesse perdida, quando o Boletim da Sigmund Freud Haus publicou uma versão condensada, em 1976. Na verdade, o texto integral havia sido publicado no volume Psychoanalysis and the Fut número especial do “Journal of Psychology”, de Nova Iorque, em 1957. É esse texto que aqui reproduzimos, provavelmente pela primeira vez em português.

Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade.
Quem fala é o professor Sigmund Freud, o grande explorador da alma. O cenário da nossa conversa foi uma casa de verão no Semmering, uma montanha nos Alpes austríacos.
Eu havia visto o pai da psicanálise pela última vez em sua casa modesta na capital austríaca. Os poucos anos entre minha última visita e a atual multiplicaram as rugas na sua fronte. Intensificaram a sua palidez de sábio. Sua face estava tensa, como se sentisse dor. Sua mente estava alerta, seu espírito firme, sua cortesia impecável como sempre, mas um ligeiro impedimento da fala me perturbou.
Parece que um tumor maligno no maxilar superior necessitou ser operado. Desde então Freud usa uma prótese, para ele uma causa de constante irritação.

S. Freud: Detesto o meu maxilar mecânico, porque a luta com o aparelho me consome tanta energia preciosa. Mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção.
Talvez os deuses sejam gentis conosco, tornando a vida mais desagradável à medida que envelhecemos. Por fim, a morte nos parece menos intolerável do que os fardos que carregamos.
Freud se recusa a admitir que o destino lhe reserva algo especial.
- Por quê – disse calmamente – deveria eu esperar um tratamento especial? A velhice, com sua agruras chega para todos. Eu não me rebelo contra a ordem universal. Afinal, mais de setenta anos. Tive o bastante para comer. Apreciei muitas coisas – a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr do sol. Observei as plantas crescerem na primavera. De vez em quando tive uma mão amiga para apertar. Vez ou outra encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?

George Sylvester Viereck: O senhor teve a fama, disse que Sua obra influi na literatura de cada país. O homem olha a vida e a si mesmo com outros olhos, por causa do senhor. E recentemente, no seu septuagésimo aniversário, o mundo se uniu para homenageá-lo – com exceção da sua própria Universidade.
S. Freud: Se a Universidade de Viena me demonstrasse reconhecimento, eu ficaria embaraçado. Não há razão em aceitar a mim e a minha obra porque tenho setenta anos. Eu não atribuo importância insensata aos decimais.
A fama chega apenas quando morremos, e francamente, o que vem depois não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. Minha modéstia não e virtude.


George Sylvester Viereck: Não significa nada o fato de que o seu nome vai viver?
S. Freud: Absolutamente nada, mesmo que ele viva, o que não e certo. Estou bem mais preocupado com o destino de meus filhos. Espero que suas vidas não venham a ser difíceis. Não posso ajudá-los muito. A guerra praticamente liquidou com minhas posses, o que havia poupado durante a vida. Mas posso me dar por satisfeito. O trabalho é minha fortuna.

Estávamos subindo e descendo uma pequena trilha no jardim da casa. Freud acariciou ternamente um arbusto que florescia.

S. Freud: Estou muito mais interessado neste botão do que no que possa me acontecer depois que estiver morto.

George Sylvester Viereck: Então o senhor é, afinal, um profundo pessimista?
S. Freud: Não, não sou. Não permito que nenhuma reflexão filosófica estrague a minha fruição das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck: O senhor acredita na persistência da personalidade após a morte, de alguma forma que seja?
S. Freud: Não penso nisso. Tudo o que vive perece. Por que deveria o homem construir uma exceção?

George Sylvester Viereck: Gostaria de retornar em alguma forma, de ser resgatado do pó? O senhor não tem, em outras palavras, desejo de imortalidade?
S. Freud: Sinceramente não. Se a gente reconhece os motivos egoístas por trás de conduta humana, não tem o mínimo desejo de voltar a vida, movendo-se num círculo, seria ainda a mesma.
Além disso, mesmo se o eterno retorno das coisas, para usar a expressão de Nietzsche, nos dotasse novamente do nosso invólucro carnal, para que serviria, sem memória? Não haveria elo entre passado e futuro.
Pelo que me toca estou perfeitamente satisfeito em saber que o eterno aborrecimento de viver finalmente passará. Nossa vida é necessariamente uma série de compromissos, uma luta interminável entre o ego e seu ambiente. O desejo de prolongar a vida excessivamente me parece absurdo.

George Sylvester Viereck: Bernard Shaw sustenta que vivemos muito pouco, disse eu. Ele acha que o homem pode prolongar a vida se assim desejar, levando sua vontade a atuar sobre as forças da evolução. Ele crê que a humanidade pode reaver a longevidade dos patriarcas.
- É possível, respondeu Freud, que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez morramos porque desejamos morrer.
Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição.
Do mesmo modo com um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e o impulso de morte habitam lado a lado dentro de nós.
A Morte é a companheira do Amor. Juntos eles regem o mundo. Isto é o que diz o meu livro: Além do Princípio do Prazer.
No começo, a psicanálise supôs que o Amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a Morte é igualmente importante.
Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana, pela cessação da “febre chamada viver”, anseia pelo seio de Abraão. O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção.
Isto, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o auto-extermínio. Levaria logicamente ao suicídio universal imaginado por Eduard von Hartamann.
S.Freud: A humanidade não escolhe o suicídio porque a lei do seu ser desaprova a via direta para o seu fim. A vida tem que completar o seu ciclo de existência. Em todo ser normal, a pulsão de vida é forte o bastante para contrabalançar a pulsão de morte, embora no final resulte mais forte.
Podemos entreter a fantasia de que a Morte nos vem por nossa própria vontade. Seria mais possível que pudéssemos vencer a Morte, não fosse por seu aliado dentro de nós.
Neste sentido acrescentou Freud com um sorriso, pode ser justificado dizer que toda a morte é suicídio disfarçado.

Estava ficando frio no jardim.
Prosseguimos a conversa no gabinete.
Vi uma pilha de manuscritos sobre a mesa, com a caligrafia clara de Freud.

George Sylvester Viereck: Em que o senhor está trabalhando?
S. Freud: Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, da psicanálise praticada por leigos. Os doutores querem tornar a análise ilegal para os não médicos. A História, essa velha plagiadora, repete-se após cada descoberta. Os doutores combatem cada nova verdade no começo. Depois procuram monopoliza-la.

George Sylvester Viereck: O senhor teve muito apoio dos leigos?
S. Freud: Alguns dos meus melhores discípulos são leigos.

George Sylvester Viereck: O senhor está praticando muito psicanálise?
S. Freud: Certamente. Neste momento estou trabalhando num caso muito difícil, tentando desatar os conflitos psíquicos de um interessante novo paciente.
Minha filha também é psicanalista, como você vê…
Nesse ponto apareceu Miss Anna Freud acompanhada por seu paciente, um garoto de onze anos, de feições inconfundivelmente anglo-saxonicas.

George Sylvester Viereck: O senhor já analisou a si mesmo?
S. Freud: Certamente. O psicanalista deve constantemente analisar a si mesmo. Analisando a nós mesmos, ficamos mais capacitados a analisar os outros.
O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. Os outros descarregam seus pecados sobre ele. Ele deve praticar sua arte à perfeição para desvencilhar-se do fardo jogado sobre ele.

George Sylvester Viereck: Minha impressão, observei, é de que a psicanálise desperta em todos que a praticam o espírito da caridade cristão. Nada existe na vida humana que a psicanálise não possa nos fazer compreender. “Tout comprec’est tout pardonner”.
S. Freud: Pelo contrário! – bravejou Freud, suas feições assumindo a severidade de um profeta hebreu. Compreender tudo não é perdoar tudo. A análise nos ensina não apenas o que podemos suportar, mas também o que podemos evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância com o mal não e de maneira alguma um corolário do conhecimento.
Compreendi subitamente porque Freud havia litigado com os seguidores que o haviam abandonado, por que ele não perdoa a sua dissensão do caminho reto da ortodoxia psicanalítica. Seu senso do que é direito é herança dos seus ancestrais. Una herança de que ele se orgulha como se orgulha de sua raça.
Minha língua, ele me explicou, é o alemão. Minha cultura, mina realização é alemã. Eu me considero um intelectual alemão, até perceber o crescimento do preconceito anti-semita na Alemanha e na Áustria. Desde então prefiro me considerar judeu.
Fiquei algo desapontado com esta observação.
Parecia-me que o espírito de Freud deveria habitar nas alturas, além de qualquer preconceito de raças que ele deveria ser imune a qualquer rancor pessoal. No entanto, precisamente a sua indignação, a sua honesta ira, tornava o mais atraente como ser humano.
Aquiles seria intolerável, não fosse por seu calcanhar!,
Fico contente, Herr Professor, de que também o senhor tenha seus complexos, de que também o senhor demonstre que é um mortal!
Nossos complexos, replicou Freud, são a fonte de nossa fraqueza; mas com freqüência são também a fonte de nossa força.
 
Tradução de Paulo Cesar Souza – 20 de abril de 2010

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A Liberdade é Azul


Perda, dor, luto. Temas dos quais procuramos distância, mas que assaltam quando nos visitam inesperadamente.
Um acidente, uma mulher acorda no leito de um hospital. Primeira tentativa a procura da própria morte. Diante da perda da filha e do marido, mas sobrevive e terá que enfrentar a dor da ausência. Antes procura livrar-se de tudo que possa remeter a vida anterior ao acidente. Julie (Juliette Binoche) ao sair de sua convalescença decide vender as propriedades, os móveis, desprender-se das lembranças. Depara-se com um pirulito da filhinha na bolsa que engole desesperadamente na tentativa que aquele objeto desapareça, mas a dor não desaparece, acompanha.
Como apagar a lembrança do amor compartilhado, a lembrança da filha? Recordações que tecem a sua vida.
O filme trata da verdade da nossa impotência. Seja a morte ou o abandono, nos deparamos com a barreira intransponível diante da fatalidade ou do desejo do outro, mas é nesses caminhos que podemos nos re-encontrar, uma vez que sem os sustentáculos imaginários fornecidos por um outro, encontramos-nos desnudos em nossa essência.
Uma supresa revela , nem tudo em que acreditava era verdade. Enganara-se, enganara outros e fora enganada. Uma sinfonia inacabada na qual ela e o marido trabalhava antes do acidente reverberará em seus ouvidos insistentemente.
Faz sexo com o homem que sempre estivera apaixonado por ela e lhe diz: “Agora sabe sou uma mulher comum, tusso, tenho cáries." Ela busca agora a verdade.
Sozinha sente o sabor do sorvete com café, em outro momento deixa que os raios solares do inverno aqueçam seu rosto, a pele branca, pequenos prazeres, volta assim a vida lenta, real, não nega mais quem é. Volta a ser. Apenas SER.

Anna Amorim, 2010