domingo, 22 de abril de 2012

Discussões constantes entre casais X Possibilidade de aceitação : Quem ganha? Por Anna Amorim


Os casais que começam a brigar constantemente podem estar passando por uma crise gerada por mudanças que rompem com o equilíbrio que a relação mantinha anteriormente, ainda que este equilíbrio fosse questionável no sentindo de que um compensava uma dificuldade do outro.

Hoje vou tratar do assunto em termos gerais, não abordando os aspectos externos que interferem nos aspectos internos da relação, mas um dos fatores que são o motor das brigas : a não aceitação da critica do outro, seja no sentido que aponta uma limitação minha, seja no sentido que me fala de uma insatisfação que foi causada por mim, na verdade por uma atitude minha, mas a escuta é enviesada.

O que ocorre são então acusações recíprocas, impropérios, um buscando mostrar ao parceiro que ele ou ela fez ou faz algo bem pior. Há aqui uma quebra na comunicação, ambos se defendendo a partir do ataque.
Poder comunicar ao outro algo que me desagrada ou me fere é essencial para a relação quando isso nunca  ocorre ou ocorre com freqüência algo precisa ser visitado.

As brigas constantes afetam a vida do casal muitas vezes ao ponto do término da relação, deterioram o sentimento amoroso.
Mas antes de prosseguir para não fazermos uma apologia da “paz”, que seria um elogio a ausência de conflitos  impossível  já que estamos vivos, somos humanos e diferentes, temos que ter claro que há casais que nunca brigam e se separam.  São  casais onde um dos parceiros busca atender  o outro negligenciando a si mesmo a tal ponto que um dia o que temos é dois estranhos, ocorre ás vezes de ambos fazerem isso. Não se trata de uma negociação, que inclui ceder em alguns aspectos ao que sabemos pode ferir o outro e não é vital para nós, desde que o outro também o faça. Ao contrário,  ambos de certa forma param de se relacionar, já que não há esta troca, simplesmente fazem o que supõe ser sua parte, negligenciam a si para manter a relação que já deixou de ser uma relação.  Conseguen morar na mesma casa durante anos, criar seus filhos, mas um dia acordam ou um dos parceiros acorda e escolhe não mais viver desta forma, sem se conhecer e sem conhecer ao outro. Na verdade não se relacionam, se toleram, vivem juntos, cumprem a obrigação de ser um casal.

O que é necessário termos claro é que calar e tão ou mais perigoso do que falar. Falar o que não te agrada no outro, o que o outro fez que te feriu.  Guardar gera mágoa, ressentimentos e doenças físicas e emocionais. As brigas podem ser resultados justamente do que foi calado ou dito e não ouvido pelo outro. Dizer e não ser considerado ou ridicularizado fere profundamente. Remete a vivências infantis, porque toda e qualquer criança, se pode falar, pois há aquelas que não puderam, pois não tinham a permissão para isso ameaçadas pela perda do amor, em algum momento são negligenciadas pelos adultos. 

Se o outro me ama, mas não me compreende vem a pergunta: a quem ele ama? Uma imagem construída, aquele que gostaria que eu fosse?  O amor começa a ser questionado. O outro passa ainda a ser um adversário, alguém do qual devo me defender.
A questão é: quem gosta de ser criticado levante a mão? Daqui já posso ver todos os braços ao longo dos corpos. Ninguém!  Assim como a agressividade é inerente ao humano, a rejeição pela crítica vem do desejo inerente de agradar, de ser apreciado. E aqueles a quem amamos e a pessoa pela qual mais queremos ser apreciadas. Certo? Difícil, não?
Difícil aceitar que não somos de todo amáveis. Um dia desejamos ardentemente ser de todo amados, de todo aceitos, e isso não aconteceu e nem poderia ter acontecido. Os pais saudáveis  amam seus filhos incluindo seus defeitos, isso não quer dizer que amam a seus defeitos. Mas aqui falamos de pais que projetam o menos possível  nos filhos dos seus anseios e conseguem ver seus filhos como outro separado deles. Veja que é uma condição que tem que ser construída pelos pais e não é de todo fácil.
Nascemos incompletos, sem  a mínima condição de sobreviver sem um outro que cuide de nos. È primeiramente numa relação onde está posta nossa vida em jogo que aprendemos a amar.
Isso deixa suas marcas. Dependendo destas marcas estamos mais ou menos capacitados a nos relacionar de forma a trocar com o outro sem desejar submeter o outro a vossa verdade ou se submeter à verdade do outro.

A possibilidade de negociação entre os casais está intimamente ligada a possibilidade de poder ceder pelo desejo de fazê-lo, não pela necessidade ou medo.  A possibilidade de aceitar que o outro não o ama de todo, porque nem você se ama de todo. Temos defeitos em nós que aprendemos a conviver, outros que temos projetos para amenizar.
A menos que a pessoa se considere  perfeita ou ambicione a perfeição. No primeiro caso já não sofre, abriu mão de entrar em contato com o que tem de humano, com sua falta, mas não irá tolerar se relacionar ou no segundo caso sofre por perseguir o impossível e não irá tolerar que outro  diga algo que vá contra esta crença.

A maior qualidade do humano e poder se relacionar, poder trocar. È sinal de saúde emocional que se reflete não físico. È o que promove crescimento emocional, amadurecimento, entendendo por estas palavras a possibilidade de se confrontar com seus defeitos e do outro e escolher o que é passível  e desejável transformar. È ainda aceitar que às vezes o outro ficará insatisfeito, que irá te comunicar isso e você terá que viver com esta realidade, nem tudo que faz agrada, nem aquele que você ama.
Difícil, não? Mas mãos a obra porque aceitar a falta promove a andar da carruagem onde príncipes e princesas não circulam o tempo todo, mas também circulam.

Texto Autoria Própria, 2012

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