domingo, 22 de abril de 2012

Discussões constantes entre casais X Possibilidade de aceitação : Quem ganha? Por Anna Amorim


Os casais que começam a brigar constantemente podem estar passando por uma crise gerada por mudanças que rompem com o equilíbrio que a relação mantinha anteriormente, ainda que este equilíbrio fosse questionável no sentindo de que um compensava uma dificuldade do outro.

Hoje vou tratar do assunto em termos gerais, não abordando os aspectos externos que interferem nos aspectos internos da relação, mas um dos fatores que são o motor das brigas : a não aceitação da critica do outro, seja no sentido que aponta uma limitação minha, seja no sentido que me fala de uma insatisfação que foi causada por mim, na verdade por uma atitude minha, mas a escuta é enviesada.

O que ocorre são então acusações recíprocas, impropérios, um buscando mostrar ao parceiro que ele ou ela fez ou faz algo bem pior. Há aqui uma quebra na comunicação, ambos se defendendo a partir do ataque.
Poder comunicar ao outro algo que me desagrada ou me fere é essencial para a relação quando isso nunca  ocorre ou ocorre com freqüência algo precisa ser visitado.

As brigas constantes afetam a vida do casal muitas vezes ao ponto do término da relação, deterioram o sentimento amoroso.
Mas antes de prosseguir para não fazermos uma apologia da “paz”, que seria um elogio a ausência de conflitos  impossível  já que estamos vivos, somos humanos e diferentes, temos que ter claro que há casais que nunca brigam e se separam.  São  casais onde um dos parceiros busca atender  o outro negligenciando a si mesmo a tal ponto que um dia o que temos é dois estranhos, ocorre ás vezes de ambos fazerem isso. Não se trata de uma negociação, que inclui ceder em alguns aspectos ao que sabemos pode ferir o outro e não é vital para nós, desde que o outro também o faça. Ao contrário,  ambos de certa forma param de se relacionar, já que não há esta troca, simplesmente fazem o que supõe ser sua parte, negligenciam a si para manter a relação que já deixou de ser uma relação.  Conseguen morar na mesma casa durante anos, criar seus filhos, mas um dia acordam ou um dos parceiros acorda e escolhe não mais viver desta forma, sem se conhecer e sem conhecer ao outro. Na verdade não se relacionam, se toleram, vivem juntos, cumprem a obrigação de ser um casal.

O que é necessário termos claro é que calar e tão ou mais perigoso do que falar. Falar o que não te agrada no outro, o que o outro fez que te feriu.  Guardar gera mágoa, ressentimentos e doenças físicas e emocionais. As brigas podem ser resultados justamente do que foi calado ou dito e não ouvido pelo outro. Dizer e não ser considerado ou ridicularizado fere profundamente. Remete a vivências infantis, porque toda e qualquer criança, se pode falar, pois há aquelas que não puderam, pois não tinham a permissão para isso ameaçadas pela perda do amor, em algum momento são negligenciadas pelos adultos. 

Se o outro me ama, mas não me compreende vem a pergunta: a quem ele ama? Uma imagem construída, aquele que gostaria que eu fosse?  O amor começa a ser questionado. O outro passa ainda a ser um adversário, alguém do qual devo me defender.
A questão é: quem gosta de ser criticado levante a mão? Daqui já posso ver todos os braços ao longo dos corpos. Ninguém!  Assim como a agressividade é inerente ao humano, a rejeição pela crítica vem do desejo inerente de agradar, de ser apreciado. E aqueles a quem amamos e a pessoa pela qual mais queremos ser apreciadas. Certo? Difícil, não?
Difícil aceitar que não somos de todo amáveis. Um dia desejamos ardentemente ser de todo amados, de todo aceitos, e isso não aconteceu e nem poderia ter acontecido. Os pais saudáveis  amam seus filhos incluindo seus defeitos, isso não quer dizer que amam a seus defeitos. Mas aqui falamos de pais que projetam o menos possível  nos filhos dos seus anseios e conseguem ver seus filhos como outro separado deles. Veja que é uma condição que tem que ser construída pelos pais e não é de todo fácil.
Nascemos incompletos, sem  a mínima condição de sobreviver sem um outro que cuide de nos. È primeiramente numa relação onde está posta nossa vida em jogo que aprendemos a amar.
Isso deixa suas marcas. Dependendo destas marcas estamos mais ou menos capacitados a nos relacionar de forma a trocar com o outro sem desejar submeter o outro a vossa verdade ou se submeter à verdade do outro.

A possibilidade de negociação entre os casais está intimamente ligada a possibilidade de poder ceder pelo desejo de fazê-lo, não pela necessidade ou medo.  A possibilidade de aceitar que o outro não o ama de todo, porque nem você se ama de todo. Temos defeitos em nós que aprendemos a conviver, outros que temos projetos para amenizar.
A menos que a pessoa se considere  perfeita ou ambicione a perfeição. No primeiro caso já não sofre, abriu mão de entrar em contato com o que tem de humano, com sua falta, mas não irá tolerar se relacionar ou no segundo caso sofre por perseguir o impossível e não irá tolerar que outro  diga algo que vá contra esta crença.

A maior qualidade do humano e poder se relacionar, poder trocar. È sinal de saúde emocional que se reflete não físico. È o que promove crescimento emocional, amadurecimento, entendendo por estas palavras a possibilidade de se confrontar com seus defeitos e do outro e escolher o que é passível  e desejável transformar. È ainda aceitar que às vezes o outro ficará insatisfeito, que irá te comunicar isso e você terá que viver com esta realidade, nem tudo que faz agrada, nem aquele que você ama.
Difícil, não? Mas mãos a obra porque aceitar a falta promove a andar da carruagem onde príncipes e princesas não circulam o tempo todo, mas também circulam.

Texto Autoria Própria, 2012

sábado, 21 de abril de 2012

A terapia de casal ajuda a resolver conflitos?

terapiadecasal Terapia de Casal: Pode Resolver os Conflitos?


Os relacionamentos compõem os laços afetivos e são muito importantes e saudáveis para a vida das pessoas. Mas conviver com os outros e compartilhar a vida com alguém de forma harmônica se torna um desafio para muitos.

Além das divergências de opinião e daquelas “manias” que o outro insiste em manter e que acabam irritando, há também outros problemas cotidianos que acabam causando momentos de desavenças e de crise no relacionamento.

Com esses momentos de crise o casal acaba se distanciando mais e o diálogo, que é fundamental para um bom relacionamento, acaba se tornando algo tenso e difícil de ser conduzido.

Os momentos de crise não necessariamente apontam o fim do amor, da admiração ou o término do relacionamento. Eles têm a função de avisar ao casal que algo está errado e necessita de ajustes para que o relacionamento continue dando certo.

Se mediante uma situação de crise uma das partes fica com medo das consequências futuras e procura fazer as pazes com o outro sem tocar no motivo da discórdia, ou sem chegar a um entendimento sobre o ocorrido, o problema não é resolvido, ele apenas é deixado de lado. O hábito de deixar os problemas de lado sem resolvê-los se torna prejudicial ao casal, porque quando houver um novo desentendimento, as questões antigas serão trazidas à tona e a situação piorará cada vez mais.

A cada novo desentendimento as mágoas surgirão e aumentarão como uma bola de neve, até o momento em que as brigas se tornarão constantes, as mágoas se instalarão em ambos e o diálogo se tornará algo impraticável.
Se nas primeiras crises ou desentendimentos o casal procurar alguém para auxiliá-los, os problemas de convivência ou o fim do relacionamento poderão ser evitados. Outra queixa comum nos relacionamentos, é a diferença de ritmo e de apetite sexual.

Com esse quadro, o ideal é buscar ajuda com terapeutas de casal. Como funciona?
A finalidade não é a de dar palpites ou conselhos na vida das pessoas, mas sim identificar qual é o tipo de comunicação que prevalece no relacionamento, o que une o casal e principalmente como é a forma que ambos utilizam para expressar o afeto.

A terapia de casal tem como objetivos melhorar a comunicação, desenvolver habilidades para solucionar problemas, mudar padrões de comportamentos destrutivos, aliviar as dificuldades na cama e, principalmente, reavaliar as crenças sobre o relacionamento.

Porém se o seu parceiro é muito resistente e jamais irá aceitar a terapia como forma de restabelecer o relacionamento, o fato de somente uma das partes do casal procurar um profissional é capaz de surtir efeitos positivos no relacionamento.

Dessa forma, procure conversar com o seu parceiro sobre a terapia e procure o auxílio de um profissional para evitar que as questões cotidianas, o acúmulo de mágoas, a falta de diálogo e o excesso de rotina levem a um desgaste irreversível do relacionamento.

Caso tenha problemas no seu relacionamento tente fazer uma terapia antes de tomar uma decisão

por Sandra Lima

domingo, 15 de abril de 2012

Amor e Psicanálise - Jacques-Alain Miller

 



"Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo,  se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão “Quem sou eu?" (Jacques-Alain Miller)





Jacques-Alain Miller, é psicanalista e responsável pelo estabelecimento de texto dos Seminários e de outros artigos de Jacques Lacan.
Além das relações profissionais, Alain Miller casou-se com a filha de Lacan. 
Abaixo uma entrevista de Jacques-Alain Miller sobre o amor.
Entre preciosidades destaco a frase: "Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si". Bela definição do amor, assim podemos compreender que ao  amamos alguém esperamos encontrar alguma resposta sobre nós mesmos, sobre quem nós somos.

A entrevista foi publicada na Psychologies Magazine em outubro 2008. A entrevistadora é Hanna Waar. 
Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?

Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.

P.: Então, o que é amar verdadeiramente?

J-A Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".

P.: Por que alguns sabem amar e outros não?

J-A Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias. 

P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...

J-A Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

P.: Amar seria mais difícil para os homens?

J-A Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

P.: E nas mulheres?

J-A Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...

P.: Por que "cada vez mais"?

J-A Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman (1). Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?

J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?

J-A Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!

P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!

J-A Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.

P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?

J-A Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.

P.: E a fantasia masculina?

J-A Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe (2), a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.

P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!

J-A Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?

J-A Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante” (3). Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...

J-A Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.

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(1) Zygmunt Bauman, L’amour liquide, de la fragilité des liens entre les hommes (Hachette Littératures, « Pluriel », 2008)

(2) Les souffrances du jeune Werther de Goethe (LGF, « le livre de poche », 2008).

(3) Honoré de Balzac in La comédie humaine, vol. VI, « Études de mœurs : scènes de la vie parisienne » (Gallimard, 1978).

Tradução de Maria do Carmo Dias Batista.

 

Super-Homem por Paulo Becare Henrique


                                                                            



"Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver"
(Gilberto Gil - "Super-homem, a canção")


Em pleno século XXI e em tempos de homofobia, falar sobre o lado feminino do homem ainda é um tabu. Para os homofóbicos ou machistas de plantão, é quase uma confissão de homossexualidade (ou de submissão às mulheres). Nada mais distante da realidade.

Já em 1905, nos "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", Freud apontava para uma bissexualidade constitucional psíquica nos seres humanos. O que isso significa? Que todo mundo vai sair por aí transando com pessoas de ambos os sexos? Não, em absoluto. Significa que, falando numa linguagem simples e acessível, todos os seres humanos possuem traços/características do sexo oposto em sua constituição psíquica, em sua personalidade.

Jung, à sua maneira, também falou sobre isso quando postulou os conceitos de anima e animus. Luiz Paulo Grinberg, no livro "Jung, o homem criativo", afirma que, assim como alguns hormônios e características físicas femininas estão presentes no homem (e vice-versa), o mesmo ocorre com as características psicológicas: anima é o nome que Jung deu para personificar os elementos femininos inconscientes presentes no psiquismo do homem, enquanto animus personifica os aspectos masculinos inconscientes da mulher. Interessante notar que "anima" significa "alma", em latim...

Portanto, a postura machista e homofóbica, longe de tornar um homem mais homem ou mais macho, só o torna um ser incompleto e amputado. Somente aceitando e integrando seu lado feminino em sua personalidade, os homens poderão, de fato, tornar-se homens completos (ou super-homens, de acordo com a canção de Gil) e ser capazes de conviver com a alteridade, com o diferente.

Texto do amigo e psicólogo Paulo Becare Henrique
Recomendo: paulobecarehenrique.blogspot.com.br

Da neurose de ontem ao narcisismo de hoje

DÉBORAH DE PAULA SOUZA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

 
A terapia pela palavra está em pleno desenvolvimento no Brasil, na avaliação de Plinio Luiz Kouznetz Montagna, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Nesta entrevista, ele diz que o maior desafio da psicanálise, hoje, são as fobias, a síndrome do pânico e outros "transtornos narcísicos"

Folha - Como o senhor define a psicanálise hoje?
Plinio Luiz Kouznetz Montagna – Ela atua em vertentes interligadas: é tratamento clínico; método de pesquisa sobre o ser humano e teoria do funcionamento da mente que permite generalizações. Ocorre que pensar a clínica permite pensar a cultura e essa conexão com artes e filosofia se mantém. É um campo de saber em desenvolvimento, não está fechada, progride com fluxos e refluxos. Na IPA convivem 12 mil psicanalistas do mundo, de tendências diferentes. 

E muitas divergências, não?
Quando Freud era vivo, era ele quem dizia: isto é e isto não é psicanálise. Depois que morreu, ficou mais difícil. Enquanto os grandes mestres do século 20 (Winnicott, Klein, Lacan) estavam vivos, as pessoas seguiam uma linha. Hoje, a tendência é depurar as contribuições de cada autor e articular uma conversa entre eles. Não para integrar, pois as diferenças existem mesmo. Na década de 1980, tantas correntes nos fizeram questionar o que há de comum na psicanálise. Concordamos sobre três pontos: nosso objeto é o inconsciente; a importância da transferência e da contratransferência e a noção de que o passado deve ficar no passado.

Como isso se traduz no consultório?
O que diferencia a psicanálise de outras psicoterapias é o jogo transferencial. Para produzir uma mudança, o que adianta é fazer o problema emergir aqui e agora, na relação com o analista, de modo que seja possível trabalhar com ele. O analista é como uma tela em que o paciente projeta imagens. O complicador é que o analista não é uma tela em branco. Levamos em conta a contratransferência, a relação do profissional com seu paciente: inclui as dificuldades dele, pontos cegos que o impedem de escutar. O trabalho não se restringe a ouvir o relato, o analista escuta inconsciente.

O método nasceu como uma cura pela fala. Essa conversa pode ficar muito racional?
A racionalização não é análise e sim a tentativa de evitá-la. Essa defesa pode surgir tanto do paciente quanto do analista, porque o contato emocional gera turbulência. As resistências fazem parte, porém, o cerne da psicanálise é o encontro, e ele só ocorre quando se vai além das defesas. Por isso temos de saber manejá-las. 

E quanto ao passado? Muita gente acha que psicanálise é ficar falando de traumas da infância.
Psicanálise não é "falar sobre". A transferência é uma espécie de atualização do passado com o objetivo de permitir que o presente se instale. A análise permite que o passado fique no passado e a pessoa viva no presente. Essa é a libertação. 

Aqui no Brasil, a psicanálise avança ou recua?
Nos anos 50 e 60 houve implantação e expansão, depois teve um momento em que as terapias corporais e o psicodrama estavam em destaque. Por um período, os analistas se recolheram nos consultórios. A clínica continua sendo fundamental, mas hoje vivemos um florescimento para além dela, um momento de grande inserção social. Na Sociedade, há grupos ocupados com atendimento à comunidade, psicanalistas que dão suporte a uma ONG que trabalha com meninos de rua, sem falar na atuação em hospitais. Os analistas também atuam cada vez mais no setor jurídico, trabalhando como mediadores e peritos em questões de família, divórcio, guarda de filhos. E podem contribuir muito graças à visão global que têm de situações complexas como interdição, brigas, drogadição, violência doméstica etc. 

Como a técnica responde às patologias contemporâneas?
Esse é o grande desafio atual: lidar com fobias, pânico, transtorno bipolar, borderline, os chamados estados narcísicos. Todas essas patologias têm em comum o fato de serem estruturas arcaicas [criadas no início da vida, antes da linguagem e do amadurecimento da psique], ou seja: se instalam antes do mecanismo de repressão. Na neurose, a repressão já está instalada, existem os conflitos psíquicos e, nessa etapa, é possível simbolizar o sofrimento. No caso do pânico, por exemplo, não existe nem esse conflito. Imagine o medo tentando entrar na mente. Sem a parede da censura para barrá-lo, ele a invade. E, como na estrutura arcaica não há possibilidade de simbolização, o que costuma ocorrer são dores e outras manifestações corporais. Os psicanalistas hoje se debruçam sobre esses fenômenos. A Sociedade tem equipes de estudos de fibromialgia, dores crônicas, psicossomática. Há membros da Sociedade pesquisando conexões entre dor física e psíquica.

O senhor é psicanalista e psiquiatra, e há um embate entre essas áreas. O que acha da oferta de remédios que prometem alívio rápido?
O avanço da psicofarmacologia permitiu medicações mais eficientes e com menos efeitos colaterais. Por outro lado, é avassaladora a quantidade de dinheiro investido na indústria de remédios, não só no desenvolvimento científico, e sim na propaganda. A promessa de ªfelicidade químicaº surgiu na década de 80, com o Prozac. Foi questão de tempo para todos descobrirem que não existe pílula de felicidade. Aliás, a psicanálise também não traz felicidade. Nem promete. A psiquiatria clássica perdeu o contato com o ser humano, tenta encaixá-lo numa lista de sintomas pré-estabelecidos. O resultado é que muitos psiquiatras diagnosticam a tristeza como depressão. Isso é um desvio, não é o caso de se medicalizar tudo. 

É possível medir os resultados de uma análise?
A psicanálise promove transformações significativas. Existe um grupo em Boston que está pesquisando mudanças psíquicas. Esse grupo estudou pessoas que consideravam que suas análises tinham sido bem-sucedidas. Elas destacaram a vivência de uma comunicação profunda com seus analistas e "insights" que alteraram a percepção de si e das situações. Comparo os "insights" da análise ao sistema olfativo: sentir um aroma novo não significa só adicioná-lo ao repertório conhecido, e sim alterar o circuito de tal modo que, a partir daí, o próximo odor será recebido de forma diferente, porque toda a estrutura do arquivo foi modificada. 

Por que a profissão não é reconhecida pelo Ministério da Educação?
Na década de 50, foi oferecido à SBPSP a possibilidade de se oficializar a profissão e a formação, mas esse caminho não foi adotado. Na minha opinião, por um erro de cálculo, mas nem todos concordam comigo. Muitos acham que não é o Estado que tem que reconhecer nossa profissão, e sim as próprias instituições psicanalíticas. 


DÉBORAH DE PAULA SOUZA é jornalista com formação em psicanálise
fonte:http://folha.com/no981118