segunda-feira, 26 de março de 2012

Medo de Amar - Anna Amorim


"...uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de, que nos empurra para a frente".
(Clarice Lispector)
                                                        
Não estou preocupada com a possibilidade de extinção da espécie pelos meios de reprodução sexuada natural, porque as pessoas continuam fazendo filhos por este meio e temos uma superpopulação. Estou preocupada com a possibilidade da extinção da capacidade de amar. Da formação do casal persistir no tempo e fazer história.
Como psicóloga e psicanalista sei que uma das qualidades que nos torna humanos é a capacidade de amar, se colocar no lugar no outro, de doar-se ao outro, de tolerar o outro. Sem isso se perde algo precioso; sem dizer que em larga escala ocorre a perda da capacidade de nos identificar com outro humano, base do amor e da amizade o que em última conseqüência pode nos conduzir a perder a ética e nos tornar desumanos. Estou falando da violência, morte, agressão, assassinato. Em escalas menos perigosas relações superficiais, relações irreais. Estou falando dos "fakes" que criam outra personalidade e se “relacionam” com outro personagem e “realizam” fantasias virtuais sem correr os riscos inerentes a uma relação, mas correndo um risco maior: estarem desconectados da vida real. No cotidiano, trabalham, criam seus filhos, mas não amam, não se entregam, não conhecem um outro, não trocam mazelas e prazeres indescritíveis que ainda estão no âmbito do encontro de dois corpos que trocam fluídos e as suas histórias reais de vida. Quando fazemos sexo com alguém significativo nossa psique está participando com sua história e fantasia. Fantasias que se tornam movimentos, suor, suor, grito, gozo. Energia psíquica circulando, sangue acelerado pelas veias, benefícios para o corpo e a psique. Nada de moralismo. A revolução sexual que nos permitiu tantas coisas. Sexo sem envolvimento afetivo pode ser prazeroso e válido desde que ninguém esteja usando o outro, ou seja, ambos não se amam e não estão com a expectativa de ir além daquele momento que estão aproveitando do encontro dos corpos que proporciona prazer a ambos. Recomendável para períodos que estamos nos recuperando de uma relação desfeita e já conseguimos fazer sexo sem amargura. Recomendável para o início da descoberta da nossa sexualidade. Não recomendável para afirmar se somos atraentes, afirmar nosso ego. É preciso dizer: insegurança, baixa auto-estima não se cura com sexo desenfreado com pessoas desconhecidas. Mas aqui trato especificamente impossibilidade de viver a experiência de amar alguém que desejamos sexualmente devido ao medo de amar. O medo de sofrer. Medo causado pela fantasia da destruição da integridade psíquica. Mas por que isso ocorre? Uma história infeliz na infância, pais ocupados demais cada um consigo ou ambos com a relação por ser problemática que não puderam passar a mensagem para o(a) filho(a): tua existência é válida por ser única. Tua integridade a ti pertence e ninguém pode tirar ela de você. Mensagens que são passadas quando uma mãe amamenta, afaga, ri e fala com seu bebê. Quando um pai incentiva os avanços do filho em direção as pequenas descobertas do que está fora dele. Quando é permitido à criança dizer não e o amor não é condicionado ao que ela faz, mas ao que ela é. Falhas sempre ocorrem. Grandes e/ou pequenas. As maiores às vezes precisam ser revistas junto a um profissional capacitado. Algumas crianças conseguem por outros meios criar um ambiente que as tornem capazes de recriar a possibilidade de se valorizar, ganhar força e integridade e, portanto, a capacidade de se relacionar com o outro em profundidade sem o pavor de se perder. Infelizmente nossa cultura do fast-food não colabora para com a ideia que estabelecer uma relação a longo prazo possa valer à pena. É a procura do sucesso fácil, dos valores materiais subjugando os valores emocionais. Vale quem é bonito, rico, tem o último modelo caro de carro do ano. Deixamos assim nos enganar pelo consumismo como um possível escudo para a dor e o vazio e compramos cada vez mais e inclusive antidepressivos. Ganha a indústria farmacêutica. Perdemos todos nos.
Perdemos a possibilidade de troca com o outro, de conhecer o caminho de pedras e estrelas do amor. Momentos mágicos, ternura e prazeres indescritíveis.

Autoria Própria. 2010

5 comentários:

  1. Olá Anna!

    Profunda reflexão, toca no "ponto" , prazer em ler.

    abraços,
    Paulo.

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  2. Ótima reflexão, Anna. Acredito que um dos papéis sociais mais importantes da Psicanálise é justamente esse: ajudar os indivíduos (e consequentemente a coletividade) a se livrar das amarras, preconceitos e moralismos retrógrados que inibem a fruição da vida.

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  3. Paulo,

    Prazer em ter você circulando por aqui.
    Grata pelo feedback.

    Abraços,

    Anna Amorim

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  4. Ana, Muito interessante os textos selecionados por você e também sua reflexão. Gostei de lê-los. Vou aparecer por aqui de vez em quando. Bjs

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  5. Anna Amorim, o texto está maravilhoso, muito linda sua reflexão. Gostaria de convidar você para visitar meu blog: http://a-pensar-se-em-si.blogspot.com.br/.

    Grande abraço!

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