domingo, 27 de novembro de 2011

Auto-Estima: Uma possível construção



Inúmeros livros de auto-ajuda buscam ensinar o amor a si mesmo; como elevar a auto-estima. Mas será que o amor próprio é algo que se aprende?
Para a psicanálise lacaniana, o EU é constituído a partir do olhar do Outro. Quem já não presenciou o jubilo de um bebê quando tem cerca de seis meses ao descobrir sua imagem no espelho? Se quem segura este bebê, não só neste momento, mas na vida, ou seja, se a pessoa constante em seus cuidados o vê como um SER especial, dotado de virtudes singulares e com uma personalidade própria, a base para a constituição da sua auto-estima está solidificada. Nestes primórdios da vida, o olhar dos pais dota o bebê da ilusão de completude. O pequenino é dependente, não tem o controle dos esfíncteres, não anda, não fala, usa babador. E daí? É fofo, pequeno e encantador.
A questão é que nem todos recebem este olhar.
D. W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês acrescenta através de sua teoria e prática clínica que a base da segurança é passada na forma que o bebê é manejado, carregado, trocado, embalado seu dia-a-dia.
Para Winnicott, trata-se da mãe conseguir identificar-se com seu bebê e fornecer o que ele solicita quando este demanda, sem forçá-lo, respeitando seu SER. O bebê pode então acreditar na ilusão que cria o mundo, é um pequeno deus. Essa ilusão primeira é necessária, é a base da possibilidade de acreditar em si e na prosperidade. Em linguagem comum, o bebê é otimista ao extremo, para depois poder acreditar que o mundo pode oferecer coisas boas, embora nada seja perfeito, ou seja, num primeiro momento é preciso a ilusão para depois advir à desilusão.
A questão é que algumas pessoas não experimentaram  a beatitude de um bom começo. E nesses casos, a base do amor-próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes advém à melancolia, como uma dinâmica de personalidade que se pune, culpa, não acredita em si, na sua capacidade própria. O bebê começa a andar, torna-se uma criança, e tenderá a repetir situações que levam ao desamor, embora sua busca é por amor. A criança terá outras vivências na escola com amigos, parentes, vizinhos, entre estes uma pessoa poderá se destacar e oferecer um olhar valoroso. Aqui e ali a criança poderá recolher algo que a ajude a constituir sua auto-estima, mas lembremos que a base faltou e se os pais ainda não conseguiram amar seu filho como ele é, sem exigir que seja um outro, ou são indiferentes a ele, tudo ficará mais difícil.
Alguns chegam assim à vida adulta, com amores frustrados, sem conseguir amar a si mesmos. Aqui um profissional, psicólogo ou psicanalista habilidoso e não sem afeto poderá ajudar nesta empreitada.
Não acredito que se possa aprender a amar-se por um manual, mas sim através das relações com o outro, das novas e inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Para tanto, é necessário se abrir e arriscar-se ao inédito, ao não vivido. É preciso buscar força suficiente para se permitir encontros fundamentais, com o outro, com a arte, com a vida. Acreditar que nunca é tarde. Dará mais trabalho, mas adultos podemos enxergar nossos feitos e nos orgulhar, inclusive de termos transformado o negativo do início em positividade. É um ganho a mais para Eros que, segundo Freud - o pai da psicanálise - promovia tudo que diz respeito à vida, a união e a ligação.

Anna Amorim, 2009
contato:anaamorim.psy@gmail.com

sábado, 19 de novembro de 2011

Mães Adolecentes - Conflito entre prazer e responsabilidade

Participação na REVISTA CITY PENHA Edição nº 48 (09/05/2011)
Ser adolescente é estar em um período de transição entre criança e adulto. É a fase onde se reformulam novas percepções sobre si mesmo e principalmente sobre o mundo.
Para o adolescente, tudo é novo e ao mesmo tempo muito confuso. Existe muita indecisão sobre diversos assuntos relacionados à sua vida. O adolescente por dentro é uma criança, mas adulto no corpo, que esta passando por mudanças. Junto com tudo isso, vem sensações e expectativas para o futuro. O adolescente está deixando de ser criança, e começa a viver no temido, porém, esperado mundo dos adultos.
Esse “boom” de emoções se intensifica mais ainda, quando o adolescente entra em contato com sua sexualidade. “Os tempos mudam, e a cultura interfere nos desejos humanos. Porém a adolescência é, e sempre foi, uma fase das paixões. Hormônios e sonhos levam ao encontro do outro sexo”, explica a psicóloga, psicanalista e escritora Ana Maria Amorim de Farias. Nós humanos somos movidos pelo desejo, e é na adolescência que essas sensações se iniciam.
Nesta fase de conhecimento, os adolescentes querem se relacionar e entrar em contato com o outro por meio do sexo. Mesmo no mundo informatizado de hoje e com tantos métodos contraceptivos, a maioria dessas jovens não acreditam que podem realmente engravidar, e acabam não tendo o cuidado necessário na hora de ter uma relação sexual.
Mas a gravidez precoce é ocasionada por diversos motivos, não só pela “falta” de informação. Segundo a psicóloga, a adolescente acaba de descobrir que tem um poder, o de seduzir, e faz uso dele para conseguir o que quer. “Ainda há adolescentes que para segurar o namorado apelam para a estratégia da gravidez. A paixão cega. Neste momento a adolescente não pensa que irá perder a liberdade, que a vida nunca mais será a mesma. Na ânsia de reter o outro ao lado, seja de que forma for, casar, morar junto, ter a ligação que um filho demanda. Claro, que nem sempre o resultado é o desejado.” Afirma Ana Amorim.
Outra característica que a psicóloga destaca é o desejo de autoafirmação. “Uma forma de comunicar aos pais e ao mundo que são donas do próprio corpo é através da sexualidade, confirmada através da gravidez vista aos olhos de todos”.


O que muitos adolescentes não sabem, é que uma gravidez precoce pode provocar mudanças maiores do que as transformações que já vem acontecendo em sua vida de forma natural. Além dos riscos físicos, já que o corpo da adolescente ainda está em desenvolvimento, existem os conflitos psicológicos nas jovens mães, pois não estão preparadas para assumir tanta reponsabilidade antes da hora.
Os pais por não conhecer tal realidade, acabam agindo não como avós, mas sim, como pais dos netos. “Isso é pernicioso tanto para a adolescente como para a criança. Para a adolescente que continuará vivendo num conto de fadas, sem tomar responsabilidade pelos seus atos e por ter assim satisfeito um desejo inconsciente, que deveria ser barrado pelos pais. Ou seja, os pais devem fazê-la assumir o filho como seu. Ajudar não é ser mãe ou pai substituto. Para a criança que terá uma “irmã-mãe” e “pais-avós” cria-se uma dificuldade na própria vivência edípica e na construção dos limites do que é certo e errado, permitido ou proibido, a quem deve se reportar,” expõe Ana Amorim.
Quando engravida, a menina deixa de exercer somente o papel de filha e passa para o papel de mãe. Nessa hora de incerteza, muitas coisas passam pela a cabeça da jovem, mexendo com seu psicológico. Tão importante quanto os motivos externos, o psicológico e até inconsciente, pode sim levar a adolescente a querer engravidar.
Diante da subjetividade nas escolhas, cada caso é um caso, mas de maneira generalizada é fundamental destacar a importância da estruturação familiar em que vive o adolescente, pois de acordo com a psicóloga, Elizabeth dos Santos Souza, a expressão sexual do adolescente tem um modelo a seguir, o dos pais. “Podemos afirmar que os pais são os grandes responsáveis pela formação psíquica dos filhos e depende muito dessa presença amorosa dos pais, seja com informações, seja através da compreensão que não se trata mais de uma criança e sim de um adolescente (uma parte ainda criança e uma parte tentando ser adulta, que busca existir, ser dono de suas escolhas); ou seja, ainda, por meio de uma educação que promova a responsabilidade. Então, quanto maior a precariedade psíquica do adolescente, maior será a repercussão de uma gravidez precoce, já que é bem difícil para uma menina que ainda está em formação ser mãe de um bebé.”
Essa desestruturação familiar pode demandar outros fatores psíquicos para uma possível gravidez precoce, como explica à psicóloga, Ana Maria Amorim. “Construir uma casa e sair da casa dos pais, como um projeto de afirmar que podem ser diferentes e fazer algo melhor do que os mesmos. Ou pelo ambiente não saudável, seja de brigas constantes ou repressão, velada ou não. Pode haver uma coincidência no caso de uma recém-separação dos pais.”
Por achar que a família foi “destruída”, a adolescente quer mostrar que faz “melhor”, e quer construir uma “família” própria. “Isso não deve alarmar os pais e fazerem temê-los por ocasião de uma separação, apenas devem estar atentos. A comunicação aberta, sobre medos, dúvidas e a raiva que uma separação desperta nos filhos, é sempre o melhor caminho,” indica Ana Amorim.
Assim como orienta a psicóloga, o diálogo é a melhor solução. Os pais devem sempre ser abertos e estar ao lado dos filhos principalmente nessa fase de novidades e incertezas que é a adolescência. Essa falta de diálogo entre a família faz com que, as crianças iniciem cada vez mais cedo e de forma errada a vida sexual.
Muitas jovens mães tiveram um final feliz, mas com certeza elas tiveram que passar por muita coisa e adiar alguns planos também. A adolescência é uma época de se dedicar aos estudos, idealizar sonhos, traçar metas e planejar o futuro. Um filho é uma benção para qualquer mãe, mas tudo na vida tem sua hora certa para acontecer. Ser pai ou mãe exige muita dedicação, e ter um filho em uma época tão determinante, quanto à adolescência, pode causar mudanças permanentes para a vida inteira. Por isso, se prevenir ainda é o melhor remédio!

Por Talita Alencar