domingo, 14 de agosto de 2011

Sobre o Amor



O que é o amor? Onde vai dar? Porque me deixa assim?...

A música de Selma Reis abarca sutilezas de quem ama e introduz a polêmica do fim do amor romântico e do novo amor ou a descrença no amor e o culto ao individualismo.

O ser humano, quando avança, visualiza tudo que era anterior como ultrapassado, ruim, limitado. Age como um adolescente, que necessita desprezar valores passados para depois constatar que alguns podem ser reinventados. Esta tendência que é própria do ser humano, bem como dos movimentos históricos, é mais acentuada pela nossa cultura em que tudo é descartável, numa brevidade de tempo espantosa, onde o velho, de alguns meses atrás, logo se substitui pelo novo.

É isso que tem acontecido com algumas pessoas, avessas ao amor romântico. Acreditam-no estar com os dias contados ou o consideram pura invenção de uma época passada. Não negamos que a concepção do amor romântico foi criada no início do séc. XIX, com o avanço industrial, e que tem suas limitações, supervalorizando as relações em família e entre conjugues em detrimento de outras relações e podendo “alimentar” outra tendência do humano que é a simbiose, que tem seus reflexos no fazer tudo juntinhos sempre, viver em função um do outro, ou a concepção que só se é feliz quando estamos amando. Mas o que aparentemente é colocado desde um espaço exterior para um espaço interior de nós, não o é, pois se encontra um terreno fértil é porque atende a um desejo ou necessidade humana.

Passemos ao caso de duas pessoas com uma história, num momento de intimidade. Estão aconchegados em um abraço terno, de repente, passam, para a agitação do desejo, transformações no corpo, prazer, intensidade, orgasmo, e uma nova quietude.
O Amor não é invenção, nem a alegria de estar amando. Ou as decepções, dores, medos e tudo que faz querer passar longe de algo que, um dia, pareceu tão convidativo. Porque as experiências boas tornam-se, ás vezes, um tormento? Porque pode parecer mais fácil lidar com um grande círculo de amigos do que com aquele que amamos?
Porque as expectativas, de um modo geral, são menores. Cobramos menos dos amigos, projetamos menos nossos ideais e satisfações, levamos com menos intensidade para as amizades, mazelas da infância.
O amor não deve ter “obrigações” como dar o amor que não recebemos na infância, nos valorizar quando não conseguimos. Se há dores assim, há que se cuidar fora da relação.
Para a relação deve-se levar anseios, esperanças, desejos, possíveis de serem vividos, compartilhados, acolhidos. Deve-se levar amor para recebermos amor.
Para Freud, o pai da psicanálise, teríamos duas formas de escolha de objeto amoroso. Na escolha de objeto anaclítica amo aquele que me protege ou cuida. A escolha narcísica tem seu motor na identificação, ou seja, amo aquele que um dia fui, sou ou gostaria de ser. Os amores tendem mais a uma ou outra forma. A divisão aqui é didática, mas muitos amores se encontram nestas formas “puras” e, diga-se de passagem, limitadas. Se eu amo meu companheiro ou companheira tão somente pela sua função de cuidado e proteção comigo, desprezando a riqueza do seu mundo interior, quando este se vê impossibilitado de exercer “sua função” eu deixo de amar ou meu amor entra em crise. Se eu amo apenas por identificação, o outro não pode mudar, não há possibilidade de crescimento.
Um amor maduro é forte, intenso quando abriga a identificação e o desejo mútuo de troca de cuidados. Amo o outro por SER quem ele é, não pelo que me faz. Recebo de bom grado o que me faz e me dou tanto mais, mas amo pelo que é.
Há um tanto de identificação, o outro pode ser até mesmo aquele que fui, sou e gostaria de ser, num verdadeiro amálgama. Assim começa uma paixão que pode virar amor. E recorremos novamente à poética da música... O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim.

Autoria Própria, 2009

16 comentários:

  1. preciosidades. bom ler e refletir. prossigamos. ja estou seguindo. lamarque

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  2. Querida amiga

    O amor é um aprendizado
    contínuo.
    Ninguém ama por amar,
    assim como ninguém pode
    ser amado se não aprender a amar.

    Vida longa a este
    novo espaço
    de esperança.

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  3. Parabéns pelo teu novo blog. Sempre que puder aqui virei beber o néctar das tua reflexões.

    Abraço

    Runa

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  4. Querida amiga, não entendo nada de psicanálise, mesmo assim gostei do teu post. O achei didático.
    Um grande abraço. Tenhas uma linda semana.

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  5. Como dizes em certa altura...

    O amor não deve ter obrigações!

    Beijinho

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  6. Anna, querida amiga, parabéns pelo blog.
    Os temas que abordaste são muito interessantes e a tua análise/reflexão é sempre excelente.
    Beijos.

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  7. Anna, que bom receber notícias suas e um convite para vir conhecer sua nova casa!

    O blog está lindo e recheado de ótimo conteúdo! Meus sinceros parabéns! Desde o layout até os textos você realmente demonstra muito bom gosto.

    Ultimamente tenho acessado a internet com uma frequência bem menor (por isso meu blog quase sem atualizações), mas, independentemente de postar comentários ou não, passarei por aqui sempre que possível.

    A propósito, precisamos combinar aquela troca de figurinhas, hein?

    Grande abraço.

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  8. O amor é segredo do coração, sentimento que jamais poderá ser explicado,,,apenas sentido com a alma...grande beijo de bom dia pra ti querida.

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  9. Bom dia,Anna!!

    Gostei do deu texto!
    O amor rende muitas discussões, difícil de ser explicado...
    Parabéns pelo blog novo!!
    Beijos!

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  10. Lamarque,

    A reflexão é a busca do humano em alcançar a sua verdade para poder SER.

    Abraço,

    Anna Amorim

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  11. Querido amigo,

    Há algum tempo acompanho sua escrita e reconheço sua sensibilidade. Escrita que fala muito sobre o amor.
    Fico feliz em ter sua leitura sensível e cuidadosa neste novo espaço de reflexão sobre os sentimentos humanos.

    Forte abraço,

    Anna Amorim

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  12. Runa,

    Agradeço a presença e tua marca poética aqui.

    Abraço,

    Anna Amorim

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  13. Querido amigo Dilmar,

    Q bom ter esse feedback. Se o texto está didático cumpriu parte de sua função que é informar.

    Forte abraço,

    Anna Amorim

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  14. Antonio,

    Responsabilidades sim, obrigações não!

    Beijos,

    Anna Amorim

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  15. N. Barcelli,

    Querido amigo poeta sua presença sensível aqui vem a enriquecer meu espeço.
    É sempre importante ter o feedback do outro, uma leitura interativa.

    Beijos,

    Anna Amorim

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  16. Paulo,

    Adorei receber tua visita em mais este espaço. Este caracterizado pela conhecimento que nossa profissão impulsiona na clínica e na vida.

    Minha intenção e provocar uma leitura interativa, sempre que puder deixe suas impressões.

    O tempo entre o trabalho e a Universidade tem sido grande, mas espero logo tomarmos um café!

    Abraço grande,

    Anna Amorim

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