sábado, 20 de agosto de 2011

Amores possíveis em tempos de individualismo


O que seria um casal perfeito? Ou ainda, existe o casal perfeito?

No filme Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro original em 2007, acompanhamos uma adolescente às voltas, em busca de um casal que poderá ficar com seu bebê, fruto de uma gravidez não planejada. Juno descobre nos anúncios de um jornal o casal “perfeito”. Não para ela, é claro, que na visita ao casal desconfia da casa clean, da simetria obsessiva dos objetos dispostos e tem um olhar crítico para as fotos do casal expostas ao longo da escada, sempre com o mesmo fundo, mudando apenas os sorrisos e levemente as posturas por meio da disposição dos abraços. A jovem vai “bisbilhotar” o banheiro e ao sair descobre um quarto que destoa da casa. O quarto “cedido” ao marido para que ele guarde algumas de suas coisas que destoam com o restante do ambiente e que representam sonhos abandonados que não cabem na relação do casal. Começamos a descobrir com Juno que ali não há mais um casal.
Um casal deixa de existir quando um abre mão de parte de si, quando um não acompanha o outro, em seus sonhos e até mesmo devaneios. Um casal deixa de existir quando não há mais um projeto em comum. 

O que forma um casal?

Admiração, respeito, afinidades e desejo. A ordem não importa, mas são ingredientes essenciais. Sem desejo seria amizade sem os resquícios do fulgor da paixão, que houve um dia e é importante para a durabilidade da relação. Sem admiração, trata-se de um casal de amigos que optam em manter as aparências pelos mais diversos motivos. Sem algumas afinidades não há possibilidade da troca mínima necessária e no limite não há possibilidade de compreensão. Sem ternura, não há relação, mas dor, ressentimento, falta de cuidado. Mas é necessário ainda mais, é necessário respeito pelas diferenças e pela individualidade. Quando a compreensão de todo não é possível entre um casal devido a diferenças próprias entre os sexos faz-se suficiente apenas aceitar a diferença. A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência. Quando jovens, tendemos supervalorizamos fazer tudo juntos, porque tendemos a ser mais inseguros. Na maturidade, não sentimos mais a necessidade de compartilhar todos os espaços, ao contrário, queremos um espaço reservado para nós. O respeito à individualidade se faz premente. Concluindo Afinidades são bem-vindas, um projeto de vida em comum é fundamental, respeito, essencial e, parafraseando Roberto Freire, “sem tesão não há solução”. Parece difícil? Quem disse que a vida é fácil? E se relacionar dá trabalho sim. Mas traz inúmeras recompensas. Na contemporaneidade, quando a descartabilidade nas relações se intensifica, o culto ao individualismo se acentua, e vem seguido da conseqüente falta de ética nas relações humanas, o amor parece na contra-mão, como um movimento anticultural.Mas se é esse modelo que desejas, busque, siga em frente. Sabemos que se muitos ainda buscam um relacionamento, não é por acaso ou romantismo exacerbado. A combinação amor e sexo são atraentes ao humano, por unir os afagos do corpo àquele que eu sou ao acordar na manhã seguinte e nos dias vindouros!

Autoria própria, 2009

4 comentários:

  1. esse filme Juno, lembro de ter gostado bastante do roteiro (adoro filmes de excelente roteiro) se não me engano foi escrito por uma roteirista que se "chama" Diablo Cody!

    eu nunca tive um relacionamento nos padrões modernos seja classificado como normal. Aspirava por isso quando tava entrando na fase adulta, mas fui me conhecendo, e enxergando a complexidade do meu ser e das minhas ideias, comecei a passar isso pra segundo e terceiro plano! como gosto de observar pessoas e suas atitudes, tinha por uma linha de pensamento, bem o que vc escreveu nesse post.
    "A aceitação mútua das diferenças possibilita a convivência" , ja percebi muito isso, assim como a convivência minar tantos relacionamentos criando inimigos ferozes!

    obrigado por mais esse conhecimento e esclarecimento !

    bjus Artur!

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  2. Artur,

    Sim o filme é bem interessante. É uma crítica ao olhar convencional e nos remete a descoberta da sexualidade e do amor!

    Agora na pós-modernidade os relacionamento estão se dissolvendo. Penso que o resgate não de um padrão, mas da possibilidade de se relacionar é um tema urgente.

    Acredito que gostaria da leitura do livro "Amor Líquido" do sociólogo Zygmunt Bauman.

    Grata por deixar tua reflexão aqui.

    Abraços,

    Anna Amorim

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  3. hummm olha só que coincidência vc citar Bauman, eu já estava afim de ler exatamente este livro, leio matérias sobre a Liquidez Pós-Moderna nas minhas revistas de filosofia! fiz ate um pequeno post sobre um dizer de Bauman em um outro blog que tenho http://asminhasafinidadeseletivas.blogspot.com/2011/09/da-liquidez-dos-relacionamentos.html

    obrigado por me responder.

    Artur

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  4. Muito boa a proposta do "Diálogos com a Psicologia e Psicanálise"!
    Grato pela visita no "pensar-se a si-mesmo".
    Vamos ns falando e trocando experiências.
    Muita paz e um abraço carinhoso!

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