domingo, 25 de março de 2018

Eros e Tânatos: nossas porções de vida e morte por Samara Megume


Amor e ódio, sexualidade e agressividade, vida e morte, são forças que habitam o ser humano e estão presentes no cotidiano, tanto nos conflitos mais banais quanto nos mais mórbidos ou sublimes da humanidade. Tais pares de opostos estão misturados, amalgamados em tudo que o ser humano faz, pensa e sente. Por exemplo, onde há amor deve haver ódio, toda sexualidade necessita de um grau de agressividade, em proporções variadas. Essas polaridades são os cernes dos conflitos psíquicos. Em psicanálise, elas podem ser nomeadas pelos conceitos de pulsão de vida (Eros) e pulsão de morte (Tânatos).
A mitologia apresenta uma bela metáfora para compreendermos a amálgama entre as pulsões. No mito grego, Eros (cupido na mitogia romana) é o deus do amor e Tânatos, deus da morte. Eros, o mais belo dos deuses, possui arco e flecha com os quais costuma enlaçar de amor homens, mulheres e deuses. Segundo consta na mitologia, certo dia Eros adormeceu numa caverna, embriagado por Hipno (deus do sono, irmão de Tânatos). Ao sonhar e relaxar suas flechas se espalharam pela caverna, misturando-se às flechas da morte. Ao acordar, Eros sabia quantas flechas possuía. Recolheu-as, e sem querer levou algumas que pertenciam a Tânatos. (Esopo, Grécia Antiga in Meltzer, 1984). Sendo assim, Eros passou a portar flechas de amor e morte (Tanatos).
Na psicanálise o conceito de pulsão não é nada simples, visto que é uma abstração teórica necessária, que busca romper com a dicotomia mente e corpo. A pulsão seria um conceito limítrofe entre o somático e o psíquico. Algo que impele o organismo a agir em determinada direção. Diferentemente do instinto animal, a pulsão possui uma plasticidade em relação ao seu objeto. Além de um objeto (Objekt), a pulsão se caracterizaria por possui uma pressão (Drang),  uma meta (Ziel) e uma fonte (Quelle) (Freud, 1915), sendo uma representação psíquica complexa. Posteriormente Freud (1920) irá ampliar tal compreensão, passando a definir a pulsão como algo anterior a representação psíquica das estimulações somáticas, que visa o rebaixamento completo das tensões e por isso, algo que conduziria o organismo ao estado anterior à vida, ao inorgânico.
Ao longo de sua obra Freud constrói dois dualismos pulsionais. O primeiro, introduzido e desenvolvido a partir de 1910, refere-se aos pares: pulsões do eu (autoconservação, que tem a fome e a sede como protótipos) e as pulsões sexuais (não apenas as de meta sexual, mas as inibidas, derivadas e sublimadas).  Esse primeiro dualismo foi resumido por Freud (1920, 1930) pela fórmula Eros e Ananke(necessidade). O amor e a fome seriam o motor da existência humana e da humanidade.
A partir de 1920 Freud constrói um novo dualismo pulsional. As pulsões do eu (autoconservação) e sexuais passam a integrar o mesmo grupo pulsional, sendo representadas por Eros – a Pulsão de vida. Eros teria a função de amalgamar partículas fragmentadas da substância viva e criar unidades cada vez mais complexas, buscando preservar o organismo vivo e a espécie.
Fundamentado em estudos da biologia Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte (Todestrieb), que teria como representante o sadismo. Ela anuncia a tendência fundamental de todo ser vivo de retornar ao estado inorgânico, a busca pela   redução completa das tensões. Segundo Freud (1920) o “objetivo da vida é a morte, e remontando ao passado: o inanimado já existia antes do vivo” (p.161). Voltada para o interior à pulsão de morte se expressa na autodestruição, e para o exterior se manifesta como pulsão de destruição.

Freud (1923) escreve que cada grupo de pulsões corresponderia a um processo fisiológico específico. A pulsão de vida teria processos de construção e a pulsão de morte, de demolição, sendo que em toda matéria viva esses dois processos estariam atuantes. Em outras palavras, a pulsão de vida teria um funcionamento conjuntivo, agregando as substâncias vivas e criando unidades cada vez maiores, ela seria ligação. Já a pulsão de morte teria um funcionamento disjuntivo, desfazendo o que foi construído, desligando. (Freud, 1925). Nesse sentido, Garcia-Roza (1995) irá afirmar que tal dualismo não se refere à natureza da pulsão, mas a um dualismo de modos de pulsão: “se a pulsão se faz presente no aparato anímico promovendo uniões, conjunções, ela é tida como de “vida”; se ela se presentifica no aparato anímico disjuntivamente, “fazendo furo”, então é tida como de morte” (Garcia-Roza,1995, p.162).

Eros promove a ligação entre o sujeito com os elementos necessários a sua preservação. Também liga esse sujeito a suas vivências. Ligação entre seu passado e seu  futuro.  Ele possibilita a criação de sentidos. Cria, enfim, os laços entre os sujeitos e desses com o mundo. No entanto, a pulsão de vida não atua de forma isolada. Por isso a existência no ser humano de uma ambivalência em tudo que ele pensa, faz e sente. Amalgamada a Eros a pulsão de morte age de forma silenciosa. É o que Freud (1930) define como o mal-estar intrínseco a cultura: a destrutividade do ser humano, voltada para si mesmo ou para os outros -  esse algo que existe e que foge a norma e a criação de sentidos.  Como escreve Dostoiévski(1971), tememos o fato de que secretamente sabemos da existência de um demônio oculto, que habita todo homem. 

A vida é o conflito, se mostra, faz barulho. Já a morte é taciturna, quase invisível. Quando Freud (1920) constrói a hipótese da pulsão de morte ele amplia conceito de pulsão, que passa a ser compreendido como um impulso inerente à vida, algo anterior à sexualidade, anterior a representação psíquica, algo que não é visível, nem dizível.

A pulsão de morte está para além do princípio do prazer, além do aparelho psíquico e só se mostra quando amalgada a pulsão de vida. Tânatos entendido como pulsão de destruição é pura dispersão, potência dispersa. Por isso Freud (1920) irá afirmar que ela é uma pulsão por excelência. A pulsão de vida seria algo já capturado pelo psíquico, cujo objetivo também seria conduzir o organismo a morte, mas a própria morte – preservando a vida para que ela morra ao seu próprio modo. (Freud, 1920)

Trabalhando para Eros, a pulsão de morte pode ser intensamente criativa. Como escreve Garcia-Roza (1995) a partir do desarranjo causado pela pulsão de morte é que se pode ir em busca do diferente, do novo. A nossa agressividade pode e deve ser utilizada em prol da vida. Nossos desligamentos podem nos fazer crescer. É preciso que conheçamos esse “demônio oculto” e que o coloquemos para trabalhar a nosso favor.

As definições do conceito de pulsão e das teorias pulsionais que apresentei estão muito longe de fazerem juz à complexidade do conceito e suas implicações. O próprio Freud (1920) escreve que ainda há muito a que se descobrir sobre as vicissitudes do que está para além do princípio do prazer. Mas é sempre preciso colocar um ponto final, cessar algumas ligações, pois os desligamentos são importantes e necessários. Eles dão espaço a novas formações.... Talvez seja por isso que Rubem Alves (1990) escreveu certa vez que o ser humano possui um ar de despedida em tudo que faz. Como ele escreve, “as pequenas despedidas apenas acordam em nós a consciência de que a vida é uma despedida”. Saber da nossa finitude, bem como da finitude de todas as coisas nos enlaça aquilo que realmente interessa. Flechas de Tânatos e flechas de Eros nos atravessam a todo instante e como também escreve Rubem Alves (1990), ter consciência desses instantes nos possibilita fruir “da beleza única do momento que nunca mais será...” (p.11). 


*Samara Megume Rodrigues 

Samara é psicóloga clínica, mestranda em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá. Colaboradora e idealizadora da Roda de Psicanálise

Referências Bibliográficas 

  Alves, R. Tempus Fugit. São Paulo: Paulus,  1990.
  Dostoievski, F. Os Irmãos Karamázov. Rio de Janeiro: Abril Cultural, 1971. 
  Esopo, Grécia Antiga. In: Kovács, M, J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
  Freud, S. (1910). A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão.Edição Standart das Obras Completas.  Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  Freud, S. (1915). Pulsões e destinos da pulsão. In. Escritos sobre psicologia do inconsciente: obras psicológicas de Sigmund Freud, vol.I. Luiz Alberto Hanns, trás. Rio de Janeiro: Imago, 2004.
  Freud, S. (1920). Além do princípio de prazer. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.II. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
  Freud, S. (1923) O Eu e o Id. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1925). A Negativa. In: Escritos sobre Psicologia do Inconsciente, vol.III. (Luiz Alberto Hanns, trad). Rio de Janeiro: Imago, 2007.
  Freud, S.(1930) O Mal estar na Cultura. (Renato Zwick, trad). Porto Alegre: L&PM, 2011.
  Garcia-Roza. Artigos de metapsicologia, 1914-1917: narcisismo, pulsão, recalque, inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Nutrição Comportamental

A relação que as pessoas têm com a comida vem se tornando cada vez mais complexa, você já percebeu? A clássica sensação de culpa após comer e a dificuldade para manter ou reduzir o peso são apenas algumas das consequências dessa conturbada relação.
Mas você já pensou que pode existir um meio para melhorar a relação dos seus pacientes com a comida sem causar tantos impactos negativos? É o caso da nutrição comportamental, que leva em consideração não apenas a comida, mas todo o comportamento relacionado a ela.
Pensando nos benefícios proporcionados pelo método, criamos esse post para ajudar você a melhorar a relação de muitas pessoas com a alimentação. Entenda melhor a seguir:

O que é a nutrição comportamental?

Apesar da grande quantidade de informações sobre alimentos e dietas, as pessoas continuam enxergando a comida como grande inimiga. A nutrição comportamental tem como objetivo mudar essa relação, fazendo com que as pessoas sintam prazer (e não culpa) em comer.
Esse método considera os aspectos emocionais, fisiológicos e sociais da alimentação. A mudança do comportamento alimentar proposta pelo método envolve estratégias de aconselhamento nutricional, técnicas do comer intuitivo, terapia cognitivo-comportamental, entrevista motivacional e táticas para comer com atenção plena.

Como ocorre a perda de peso?

Como o foco principal da nutrição comportamental é resgatar o prazer em comer, tornando a relação com o alimento mais saudável, a perda de peso não é tão imediata como acontece com algumas dietas. No entanto, isso está longe de significar que ela seja inexistente.
Os números diminuindo na balança passam a ser uma consequência do autoconhecimento. A pessoa passa a aprender a identificar suas emoções e a não buscar consolo nos alimentos, como acontece quando o estresse e a ansiedade tomam conta da rotina. Essa atitude está diretamente ligada com a perda de peso — ou seja, ela é consequência de uma série de comportamentos.
Isso pode parecer um ponto negativo, mas a permanência desses aprendizados pode ser a peça chave para conquistar os seus pacientes. Basta mostrar que não é preciso cortar nada da alimentação, apenas fazer escolhas certas nos momentos certos, respeitando as necessidades e as reações do corpo.  

Como adotar o método?

Por não se basear em dietas, a melhor forma de utilizar essa estratégia para ajudar os pacientes é através da orientação nutricional e da comunicação. O propósito aqui é entender a relação que o paciente tem com o alimento para, a partir disso, estabelecer uma orientação que vá funcionar para ele.
Perguntar ao paciente suas principais dificuldades, as experiências e o quão preparado ele está para mudar sua relação com a comida são boas formas de começar a entender como o paciente lida com o alimento, as emoções e as diversas situações do dia a dia.
A partir das respostas obtidas, dá-se início ao trabalho por meio de dois pilares da nutrição comportamental: a prática clínica e a comunicação.

A prática clínica

Nessa prática, acontece uma abordagem defendendo a real importância de entender como se come e não o que se come. Ou seja, mostrar que o foco é entender as relações envolvidas no ato de se alimentar ao invés de apenas contar calorias. Onde se come, quando, com quem, qual o sentimento, quais as dificuldades: é esse tipo de autoconhecimento que deve ser estimulado e compreendido.
Além disso, esse é o momento para fazer a orientação nutricional, baseada em estratégias que possibilitem a mudança do comportamento e também a melhora na relação com a comida.

A comunicação

Esse será o momento de informar, estimular a aceitação da alimentação saudável e também de influenciar o seu paciente. Isso pode ser feito através de mensagens positivas e ponderadas, as quais devem ser baseadas em estratégias comportamentais para terem efeito.  

Quem pode se beneficiar com a nutrição comportamental?

Não há restrições na nutrição comportamental. Afinal, estabelecer um vínculo saudável com a comida é uma excelente forma de começar a melhorar a alimentação em qualquer faixa etária.
Tal melhora é sucedida por escolhas inteligentes feitas não por obrigação ou devido a dietas restritivas, e sim ao conhecer o próprio corpo e suas necessidades.
Pessoas que não conseguem colocar dietas em prática ou que não conseguem se organizar para estabelecer uma alimentação saudável costumam ter bons resultados com esse método, pois passam a compreender a sua relação com a comida, o que facilita a mudança. Na maioria das vezes, é apenas isso que falta para essas pessoas se tornarem mais saudáveis.

Como o método pode melhorar a relação das pessoas com a alimentação?

Cada vez mais surgem dietas ou “tendências” que colocam um ou outro alimento na posição de saudável ou não saudável. O comportamento desencadeado por essa forma de se alimentar passa a transformar a comida em vilã, já que as pessoas passam a enxergar a comida como um conjunto de calorias, conturbando a relação com o alimento.
Dessa forma, o prazer de comer desaparece e dá lugar a uma geração de pessoas que esquecem que o problema não é o alimento, mas a relação que se estabelece com ele. E é justamente esse o ponto que a nutrição comportamental destaca.
Através de técnicas que ajudam a pessoa a entender os sinais do corpo, a reconhecer a fome, a ansiedade e inúmeros outros aspectos emocionais, sociais e fisiológicos o método faz as pessoas entenderem a real função do alimento no organismo. É dessa forma que o vínculo saudável com a comida se restabelece e o prazer em comer volta a fazer parte da rotina.
Em tempos onde os alimentos são divididos em saudáveis e não saudáveis e a comida é vista como inimiga, conhecer um método como a nutrição comportamental — que restabelece uma relação benéfica e prazerosa com o alimento — é um diferencial. Afinal, a satisfação não pode ser desconsiderada de um processo tão essencial e frequente como a alimentação.
O que você achou da nutrição comportamental? Acha que vai ser útil para seus pacientes? Compartilhe o post nas suas redes sociais e ajude outras pessoas a conhecerem esse método inovador que melhora a relação das pessoas com os alimentos!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Pode ocorrer delírio e alucinação na neurose?


Nada impede que, logo após o surgimento de uma alucinação, se instale um sintoma neurótico e vice-versa. É isso precisamente que Freud diz: “As três formas de defesa e, por conseguinte, as três formas de doença a que essas defesas levam, podem estar reunidas numa mesma pessoa.” E ainda: “Não é raro que uma psicose de defesa venha episodicamente interromper o curso de uma neurose.”É espantoso que essa constatação clínica, banal no fim das contas, frequentemente assinalada por Freud e corroborada incessantemente em nossa prática, ainda não tenha conseguido extirpar definitivamente o erro de generalizar um episódio psicótico para o conjunto das realidades do sujeito. Um paciente alucina ou delira e, irremediavelmente, sem qualquer discriminação, é qualificado de psicótico; como se fosse um tique mental do clínico, determinado pela imensa importância dada à psicose. Importância enceguecedora que não nos deixa matizar nem pensar uma compatibilidade de acontecimento, em uma mesma pessoa, de realidades mistas, produzidas por recalcamento e por foraclusão. Apesar de alguns textos freudianos e lacanianos apontarem nessa direção, carecemos de uma teoria da localidade dos distúrbios e da pluralidade das realidades que tenha “pego” em nossa comunidade psicanalítica. Não é que esteja ausente, prova disso é que estamos tentando propô-la; mas essa teoria da localidade não transpôs o limiar que transforma um conceito teórico no que eu chamaria de automatismo conceitual fecundo. E não o fará enquanto outro automatismo conceitual, infecundo dessa vez, prevalecer entre os psicanalistas, aquele que consiste em apreender a castração como única e, consequentemente, prejulgar que sua foraclusão determinaria a desarticulação, não de uma realidade, insisto, mas de todas as realidades do sujeito.

(Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams)

domingo, 19 de novembro de 2017

EU IDEAL

"Inicialmente há uma relação narcísica fusional entre a criança e a mãe, não havendo, por parte da criança, distinção entre o si e o outro. Nesse momento, a criança se constitui como objeto capaz de satisfazer o desejo da mãe, identificando-se imaginariamente com o falo. Entretanto essa relação porta uma alienação fundamental para o bebê, tomado como objeto, que faz surgir a agressividade fundamental como tentativa de romper esta relação na qual o bebê se encontra capturado pelo desejo do outro. A tentativa de romper essa alienação é situada como desejo de reconhecimento. Nesse primeiro tempo, a criança está na dialética do ser ou não ser o falo, objeto do desejo para a mãe. Aí se colocam dois pontos: o eu e esse outro (imagem ideal) formada do lado de fora, aquilo com que a criança busca se identificar para satisfazer a mãe. Ora, estamos aqui no campo do Eu Ideal, em que a criança acredita que, para satisfazer a mãe, precisa identificar-se com aquilo que lhe falta: o falo. Assim todas as identificações presentes nesse momento do narcisismo primário remeterão à onipotência e à perfeição."
(Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams)

domingo, 15 de outubro de 2017

Psicanálises

Além da pulsão, da psicologia do ego, das relações de objeto, das orientações relacionais e do self, há diversas outras teorias dentro do esquema psicanalítico que afetaram nossas conceitualizações do caráter. Elas incluem (mas não se resumem a) ideias de Jung, Adler e Rank; a “personalogia” de Murray (1938); a “psicanálise moderna” de Spotnitz (1976, 1985); a “teoria do script” de Tomkins (1995); a teoria do “melhoramento do controle” de Sampson e Weiss (Weiss, 1993); os modelos biológicos evolucionistas (p. ex., Slavin e Kriegman, 1990), a teoria contemporânea de gêneros (p. ex., A. Harris, 2008) e a obra de Jacques Lacan (Fink, 1999, 2007).... Não resisto a ressaltar minha previsão, na primeira edição deste livro, de que os psicanalistas logo iriam aplicar a teoria do caos (teoria do sistema geral não linear) às questões clínicas, uma profecia que tem se cumprido (Seligman, 2005).
 Nancy McWilliams

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Medo de Viver

"Lowen (1980) estabelece uma relação entre o medo de viver e o de morrer. Se a vida é ser, por que temos tanto medo dela? No relato dos casos que menciona em seu livro, observamos um paradoxo, ou seja, quando o indivíduo está mais cheio de vida, fica mais consciente da morte e do desejo de morrer. Viver plenamente com as emoções é se arriscar. Para não sofrer, a pessoa pode se "amortecer", não sentir mais, mas também não conseguirá viver. Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo decorre de um medo da vida, um medo de se soltar, um medo de ser. Quando o sujeito vai recuperando a sua vitalidade no processo psicoterápico, abre o caminho para o estado de dor que havia suprimido. Ativa-se o caminho da sensação de morte, mas também se está a caminho da vida."

(Morte E Desenvolvimento Humano,  Maria Júlia Kovács. Casa do psicologo, São paulo, 1992, p.26.)