quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O que desperta o desejo sexual feminino?

Ida Bauer aparece nos textos de Sigmund Freud, o pai da psicanálise, sob o nome fictício de Dora. É uma moça bonita, de 15 anos, perturbada por tosses nervosas e incapacidade ocasional de falar. Chegou ao divã do médico vienense queixando-se de duas coisas: assédio sexual de um amigo da família e indisposição do pai em protegê-la. Freud aceitou os fatos, mas desenvolveu uma interpretação própria sobre eles. O nervosismo e as doenças se explicavam porque a moça se sentia sexualmente atraída pelo molestador, mas reprimia a sensação prazerosa e a transformava, histericamente, em incômodo físico. Como Ida se recusou a aceitar essa versão sobre seus sentimentos, largou o tratamento. Peter Kramer, biógrafo de Freud, diz que os sintomas só diminuíram quando ela enfrentou o pai e o molestador, tempos depois. Freud estava errado; ela, certa. Anos mais tarde, refletindo sobre a experiência, Freud escreveu uma passagem famosa: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que querem as mulheres?”.

Meredith Chivers, uma jovem pesquisadora da Universidade Queen, no Canadá, acredita que pode finalmente responder à pergunta. Sem os preconceitos e a ortodoxia de Freud, e com recursos experimentais que ele não tinha, reuniu 47 mulheres e 44 homens em laboratório e aplicou o mesmo teste a todos eles: viram oito filmes curtos sobre sexo, com temas variados, enquanto seus órgãos genitais eram monitorados por sensores capazes de medir a ereção masculina e a lubrificação feminina. Ao mesmo tempo, Meredith pediu que indicassem, num sensor eletrônico, quanto estavam excitados com cada cena projetada. Essa era a parte subjetiva do teste.

Os resultados foram sensacionais. Meredith descobriu, primeiro, que as mulheres, sejam elas hétero ou homossexuais, se estimulam com uma gama muito variada de cenas. Homem e mulher transando, mulheres transando, homens transando, quase tudo foi capaz de produzir excitação física nas mulheres. Até cenas de coito entre bonobos (os parentes menores e mais dóceis dos chimpanzés) causaram alterações genitais nas voluntárias, embora tenham deixado os homens indiferentes. Qualquer que seja a sua orientação sexual, eles parecem ser mais focados em suas preferências. Homossexuais se excitam predominantemente com cenas de sexo entre homens ou com cenas de masturbação masculina. Heterossexuais se interessam por sexo entre mulheres, sexo entre homens e mulheres e atividades que envolvam o corpo feminino, mesmo as não-sexuais. O estudo sugere que as mulheres são mais flexíveis em sua capacidade de se interessar. Seu universo sexual é mais rico.

A outra surpresa da pesquisa de Meredith, talvez sua descoberta mais importante, foi a constatação de que existe uma distância entre o que as mulheres manifestam fisicamente e o que elas declaram sentir. As cenas de sexo entre mulheres, por exemplo, foram as que causaram maior excitação física entre as mulheres heterossexuais – mas aparecem em segundo na lista de respostas sobre as imagens mais excitantes. Ocorre o mesmo com sexo entre dois homens. Os sensores vaginais mostram ser esse o terceiro tipo de cena que mais excita as mulheres, mas ele aparece na quinta posição nas declarações. O fenômeno de divergência entre corpo e mente não poupa os macacos. Meredith diz que o relato subjetivo das mulheres sobre os bonobos não é coerente com a excitação física que elas demonstram. “O que eu descobri foi que as mulheres ficaram fisicamente excitadas (com os macacos), mas não declararam se sentir dessa forma”, ela disse em entrevista a ÉPOCA. Os homens demonstram um grau de coerência mais elevado entre as medidas objetivas e subjetivas. Eles declaram gostar daquilo que fisicamente os comove, embora também se confundam com escolhas, por assim dizer, difíceis. No instrumento em que registram suas preferências, os homens heterossexuais marcaram as cenas de masturbação femininas como as mais excitantes, vencendo por pouco o sexo entre duas mulheres. Mas os sensores genitais mostraram coisa diferente: a vitória pertence claramente às cenas de sexo entre mulheres. A conclusão é que também entre os homens há uma diferença entre excitação mental e excitação física, mas ela parece ser muito menor do que entre as mulheres.

Se for excluída a hipótese de que as mulheres mentem a respeito de seus sentimentos (por que fariam isso em laboratório, protegidas pelo anonimato?), estamos de volta à perplexidade registrada por Freud no texto de 1900, com um sério agravante: não é apenas que um homem não entende as mulheres, mas elas mesmas que não sabem o que sentem. Ou não seria nada disso? “As mulheres mentem, de forma consciente e inconsciente”, diz a escritora e roteirista Fernanda Young, de 38 anos. “Elas mentem para sobreviver porque, historicamente, não têm liberdade para dizer o que pensam. Acho que a maioria das mulheres se constrange diante de alguns objetos de excitação e diz que não se excita. É uma questão de sobrevivência cultural”.

A revista dominical do jornal The New York Times publicou dias atrás uma longa reportagem em que a sexóloga Meredith, de 36 anos, discutia a sua pesquisa, publicada em 2007. O texto apresentava várias teorias e pesquisas empíricas que tentam explicar o universo sexual feminino. Curiosamente, quando combinados, os dados obtidos em laboratório parecem confirmar aquilo que Fernanda Young afirma sem amparo estatístico: por razões ainda misteriosas (históricas e culturais, provavelmente; físicas, quem sabe) as mulheres escondem (até de si mesmas) as suas preferências sexuais e operam com um nível elevado (e contraditório) de fantasias, nem todas politicamente corretas. “A sexualidade é um quarto escuro”, diz a escritora.

Desde os relatórios pioneiros de Alfred Kinsey, escritos nos anos 1940 e 1950 do século XX, o meio médico acreditava que mulheres e homens eram sexualmente assemelhados. Foi apenas em 2005 que a pesquisadora canadense Rosemary Basson sugeriu que o desejo das mulheres não segue a cronologia masculina, na qual desejo, excitação e orgasmo se sucedem, nesta ordem. De lá para cá, a ênfase dos estudos sobre sexualidade tem estado nas diferenças entre homens e mulheres. Um dos resultados práticos dessa tendência é a percepção crescente de que o sexo nas mulheres é muito mais subjetivo do que se imaginava. Nelas, os mecanismos de excitação psicológicos parecem estar em ampla medida descolados do que ocorre no corpo. Ao contrário dos homens, para quem ereção é sinônimo de disposição, a lubrificação feminina não significa prontidão para o sexo.

Se for excluída a hipótese de que as mulheres mentem a respeito de seus sentimentos (por que fariam isso em laboratório, protegidas pelo anonimato?), estamos de volta à perplexidade registrada por Freud no texto de 1900, com um sério agravante: não é apenas que um homem não entende as mulheres, mas elas mesmas que não sabem o que sentem. Ou não seria nada disso? “As mulheres mentem, de forma consciente e inconsciente”, diz a escritora e roteirista Fernanda Young, de 38 anos. “Elas mentem para sobreviver porque, historicamente, não têm liberdade para dizer o que pensam. Acho que a maioria das mulheres se constrange diante de alguns objetos de excitação e diz que não se excita. É uma questão de sobrevivência cultural”.

A revista dominical do jornal The New York Times publicou dias atrás uma longa reportagem em que a sexóloga Meredith, de 36 anos, discutia a sua pesquisa, publicada em 2007. O texto apresentava várias teorias e pesquisas empíricas que tentam explicar o universo sexual feminino. Curiosamente, quando combinados, os dados obtidos em laboratório parecem confirmar aquilo que Fernanda Young afirma sem amparo estatístico: por razões ainda misteriosas (históricas e culturais, provavelmente; físicas, quem sabe) as mulheres escondem (até de si mesmas) as suas preferências sexuais e operam com um nível elevado (e contraditório) de fantasias, nem todas politicamente corretas. “A sexualidade é um quarto escuro”, diz a escritora.

Desde os relatórios pioneiros de Alfred Kinsey, escritos nos anos 1940 e 1950 do século XX, o meio médico acreditava que mulheres e homens eram sexualmente assemelhados. Foi apenas em 2005 que a pesquisadora canadense Rosemary Basson sugeriu que o desejo das mulheres não segue a cronologia masculina, na qual desejo, excitação e orgasmo se sucedem, nesta ordem. De lá para cá, a ênfase dos estudos sobre sexualidade tem estado nas diferenças entre homens e mulheres. Um dos resultados práticos dessa tendência é a percepção crescente de que o sexo nas mulheres é muito mais subjetivo do que se imaginava. Nelas, os mecanismos de excitação psicológicos parecem estar em ampla medida descolados do que ocorre no corpo. Ao contrário dos homens, para quem ereção é sinônimo de disposição, a lubrificação feminina não significa prontidão para o sexo.

Isso explica por que ainda não existe um Viagra feminino: ele seria inútil, já que a libido das mulheres não é vascular. Meredith vai mais longe. Ela especula que a lubrificação vaginal talvez seja apenas um artefato evolutivo “para reduzir o desconforto e a possibilidade de ferimentos” durante a penetração. Não teria nada a ver com prazer e satisfação sexual, muito menos seria sinônimo de sinal verde. “Eu vivo repetindo a meus alunos que estar molhada não significa ter consentido em fazer sexo”, diz ela.

A lubrificação vaginal talvez seja um artifício evolutivo para impedir que a mulher se machuque. Esse tipo de generalização extraída do laboratório reflete a realidade das mulheres? Eis uma pergunta que o psicólogo Ítor Finotelli Júnior, terapeuta sexual na cidade de Campinas, em São Paulo, acha difícil responder. Ele examinou o estudo de Meredith a pedido de ÉPOCA e faz uma ressalva: a amostragem limitada. “O número de voluntários não é razoável. Você precisa de umas 200 ou 300 pessoas para extrair conclusões confiá­veis”, diz ele. Meredith trabalhou com 47 mulheres. Outra complicação é a ausência de informação sobre as voluntárias. Qual a idade, qual a classe social, qual a etnia ou a cultura das mulheres estudadas por Meredith? Ele dá um exemplo prático da limitação dessas investigações. Seu grupo de trabalho acaba de concluir um estudo de 200 pacientes (homens e mulheres) sobre fantasias autoeróticas. Descobriu que as mulheres se excitam recordando cenas de sexo com os parceiros, enquanto os homens recorrem a fantasias com “mulheres atraentes”. “Mas isso é válido apenas para pessoas de classe média alta, com curso universitário, que moram em São Paulo e procuram auxílio psicológico”, diz ele.

Um dos indicadores de que a pesquisa de Meredith chegou perto do alvo é que a sua conclusão mais espetacular – a separação entre o corpo e a mente sexual das mulheres – não surpreende tanto assim os especialistas, sobretudo as mulheres que conhecem a intimidade das outras mulheres. “Os homens sabem o que têm de sentir; as mulheres, não”, diz a psicanalista Diana Corso, de Porto Alegre.

“As mulheres querem ser queridas, desejadas, aceitas. Elas se confundem quando têm de explicar o seu próprio desejo.” Essa percepção sobre a relativa passividade do desejo feminino, da sua dependência, está cada vez mais presente na literatura sobre sexualidade. Meredith Chivers fala do “poder de ser desejada” como um dos componentes mais fortes do desejo das mulheres, uma área que ela deseja estudar no futuro. Outra pesquisadora citada na reportagem do New York Times, Marta Meana, da Universidade de Nevada, sustenta que o desejo feminino depende diretamente da urgência demonstrada pelo homem. “Para as mulheres, ser desejada é o orgasmo”, diz ela. É por isso, afirma, que relações estáveis, duradouras e… mornas, tendem a “esfriar” as mulheres.

O desejo feminino parece depender diretamente da urgência demonstrada pelo homem em copular. Como ocorre com muitos elementos da vasta e contraditória psique humana, há consequências perversas na opção sexual das mulheres pelo prazer do outro. Uma delas é a divergência entre o que o corpo diz e o que a mente ouve, capturada no estudo de Meredith. A outra, perturbadora, é a fantasia do estupro. Os especialistas pisam em ovos ao falar sobre isso, mas o fato é que as mulheres têm fantasias recorrentes de serem submetidas pela força. Por trás disso, encontra-se, aparentemente, a ilusão narcisista (e excitante) de ser tão atraente, tão irresistível, que os homens seriam incapazes de conter sua luxúria. “As fantasias de estupro são muito mais recorrentes do que as pessoas imaginam”, diz o terapeuta Finotelli. Isso quer dizer que essas mulheres gostariam de ser estupradas? Não. Não. E, mais uma vez, não. Trata-se de uma fantasia íntima que dispara desejos sexuais. Ela não esconde a vontade oculta de sofrer a violência sórdida de um estupro. “As mulheres querem ser encostadas no muro, mas não colocadas em perigo”, diz Marta Meana. “Elas querem um homem das cavernas atencioso”. Quem seria capaz de cumprir tal papel? “Denzel Washington”, responde a pesquisadora. “Ele transmite esse tipo de poder e é um bom homem”. O.k., vai.

Ao preconizar a divisão radical da libido das mulheres entre mente e corpo, os novos estudos de sexualidade criam um dilema. Se essa divisão expressa a natureza profunda das mulheres, então há nas fêmeas da espécie humana um duplo comando sexual. De um lado, o corpo, capaz de demonstrar excitação até mesmo durante um estupro, como forma de proteção. Do outro, a mente, dividida entre fantasias de prazer arriscado e a necessidade emocional de intimidade e proteção. Se essa duplicidade corpo-mente for de fato a realidade feminina, há simplesmente de entendê-la e adaptar-se a ela. Uma tarefa para homens e mulheres. Mas existe a possibilidade de que essas constatações reflitam apenas o passivo cultural e psicológico das fêmeas da linhagem humana. Elas são submetidas ao controle sexual dos machos desde o Paleolítico (há dois milhões de anos) e apenas nas últimas três ou quatro décadas foram emancipadas, parcialmente. “A terrível realidade dos estudos psicológicos é que você não consegue separar o que é cultural do que é biológico”, diz Meredith. Ainda bem, já que a nossa vida se passa simultaneamente nas esferas biológica e cultural.

Mas, o que fazer diante do dilema? Carmita Abdo, professora da Universidade de São Paulo e médica do Hospital das Clínicas de São Paulo, uma das mais respeitadas especialistas brasileiras em sexualidade humana, prefere trabalhar com a hipótese terapêutica. Ela sugere, por exemplo, que a mulher fique atenta aos sinais genitais, como uma forma de intensificar seu próprio desejo. As pesquisas mostram que as mulheres têm muito mais dificuldade que os homens em perceber as próprias alterações. Finotelli exemplifica com um fato singelo: diz  que é muito comum que as mulheres mais inibidas expliquem o eventual intumescimento dos mamilos como “frio”, mesmo quando a temperatura ambiental e subjetiva está muito elevada. É apenas natural que essas mulheres não reconheçam os sinais de excitação genital e nem se deixem carregar por eles, como fazem os homens. Esse é o terreno em que a informação pode ter uso terapêutico, no qual as pesquisas podem servir como guia. Essa é a especialidade de pessoas como Carmita. Quanto à atávica dificuldade em explicar o que querem, afinal, as mulheres, ela dá de ombros. “A quem interessa responder essa pergunta?”, diz a médica. “A dúvida é que mantém o interesse por elas”. Touché.

Título: O que desperta o desejo sexual feminino
Autores: Ivan Martins e Francine Lima
Palavras-Chave: desejo sexual; feminino; pesquisa científica; lubrificação; fantasias sexuais; libido; prazer sexual; sexo; sexualidade humana
Categoria: Trabalhos técnicos: Entrevista para Revista Época

domingo, 16 de outubro de 2016

Transtorno Bipolar e Psicanálise

Não há evidências no campo da psiquiatria de que os desencadeamentos sejam atribuídos às razões subjetivas. No entanto, na experiência clínica, são inúmeros os casos em que frustrações subjetivas sevem de gatilho para deflagrar a crise. A crise de mania ou de melancolia não pode ser reduzida a uma crise de urticária ou de gota. Ela está em íntima relação com a demanda e com o desejo do sujeito
(...)
Se, por um lado, tanto a melancolia quanto a mania foram concebidas pela psiquiatria clássica e pela atual como uma resposta corporal, biológica ou, quando muito, existencial, ao campo dos afetos – portanto, uma como inibição e outra como exaltação do humor – por outro, a psicanálise tem trabalhado com a tese de que essa clínica se apresenta de respostas do sujeito à língua desencadeada em sua relação mortífera com o Outro. Essa tese propõe pelo lado da mania que o sujeito superou a perda do objeto. A superação da perda do objeto acarreta uma quota de energia disponível, não mais investida no objeto perdido. Sendo assim, essa energia livre é utilizada para fundir o eu ideal com o ideal do eu. Do lado da melancolia, o sujeito se depara com a face opaca da linguagem, na qual a sombra do objeto recai sobre o eu, identificando-o com o objeto indigno de pura perda. Em ambas as fases, há um retorno do real de maneira devastadora, índice de forclusão. 
(...)
A melancolia se manifesta com tristeza profunda, limitação da vida ativa e profusão de auto-recriminações ou autocensuras e uma invasão sufocante de culpabilidade, segundo a psicanálise. Em contrapartida, a mania se destaca pela exaltação do humor, com tonalidade de alegria excessiva e incontrolada. Há também uma aceleração do curso do pensamento e desestruturação do discurso, o que levou Freud a compará-la com as formas sociais de exaltações festivas, com as liberações das inibições, com a abolição do controle superegóico, e do incremento das transgressões da vida social. Se na melancolia temos uma aniquilação da vida social, na mania temos uma transgressão da mesma. 
(...)
Nos dois pólos, há sempre uma vacilação, desestabilização ou mesmo anulação da relação que sustenta a posição de sujeito ao objeto na fantasia, em suas diferentes versões da existência. Aliás, na melancolia, o sentimento de vazio e de perda de não mais ser querido, de perder qualquer outro objeto de valor e de perder o ideal, leva o sujeito a se identificar, com a face opaca do objeto. Essa identificação vai custar ao sujeito o desprendimento do laço libidinal dos objetos e o retorno da libido para o eu que se dará sob a modalidade do imperativo de culpa, auto-acusações e desinteresse por qualquer projeto da existência. O tempo pára e o sujeito se petrifica num delírio de indignidade, na qual há um esmaecimento do afeto para com a família, amigos e trabalho. 

de Campos, Sérgio. "CONSIDERAÇÕES ACERCA DO TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR."

sábado, 20 de agosto de 2016

Evoluções da Psicanálise - Movimento relacional

"Da perspectiva do diagnóstico psicológico, talvez uma das mais importantes contribuições de análise do movimento relacional seja a sensibilidade dessa teoria em relação a experiência não formulada (D. B. Stern, 1997, 2009), construção social de sentido (Hoffman, 1998), múltiplos estados do self (Bromberg, 1991, 1998) e a dissociação (Davies e Frawley, 1994); todas elas abarcam modos de pensar sobre a experiência do self que implicam mais fluidez e abertura do que conseguiu reconhecer a teoria tradicional."

(Diagnostico Psicanalítico: Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico. Nancy MacWilliams)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

adoecer como linguagem


“A doença não é algo que vem de fora e se superpõe ao homem, e sim um modo peculiar da pessoa se expressar em circunstâncias adversas. É, pois, como suas outras manifestações, um modo de existir, ou de coexistir, já que o homem não existe, coexiste. E como o ser humano não é um sistema fechado, todo o seu ser se comunica com o ambiente, com o mundo, e mesmo quando, aparentemente não existe comunicação, isto já é uma forma de comunicação, como o silêncio, às vezes, é mais eloquente do que a palavra”. (PERESTRELLO, 1982).

"As pessoas adoecem devido à maneira desarmônica de se relacionar com o mundo. Devemos buscar no universo subjetivo, na intimidade de cada um, as respostas; não no mundo concreto e objetivo dos fatos e acontecimentos." (BALLONE, 2001)

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Pulsações



"Antes de reduzir o desejo à lógica da castração e a arte a um quadro nosológico, é bom que se diga desde já: desejo não é festa. Não é enigmático, tampouco impossível, busca de um objeto perdido numa infância longínqua.
(...)
Dito de outra forma: o desejo não é linear!

Seus múltiplos direcionamentos, pluralidade constitutiva, permitem reconhecer tantos anseios de dureza, de territórios conhecidos, quanto a existência de linhas de fuga, de repertórios inusitados que façam a vida se expandir em novas direções.

Fala-se, então, de um desejo como máquina construtiva das variações que os encontros entre os corpos acionam, fazendo-os variar de infindáveis maneiras.
Não há desejo que não peça mais conexões, mais agenciamentos.
Retirar-se, entretanto, o desejo do reino circunspeto da falta não é o mesmo que afirmá-lo espontaneísta. Transgressor, talvez em suas linhas de fuga, mas isso já é diferente! É que em termos de desejo não há interioridade, há coletivos.
Agenciamentos constitutivos do desejo que se conectam a mais coletivos. Daí podermos dizer que não temos desejos (eles não vêm de fábrica, com acessórios infantis!); fazêmo-los e, com eles, nos fazemos singulares e construímos mundos que nos são próprios"
Das armadilhas desejantes: capturas e rupturas institucionais. Simone Paulon. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

O Urso-polar e a Baleia por Christian Ingo Lenz Dunker

As divergências entre a psicanálise e a psiquiatria estão mal focadas. Ficamos tristes porque há menos serotonina, ou há menos serotonina porque ficamos tristes?

Freud dizia que a relação entre a psicanálise e a psiquiatria seria semelhante à que encontramos entre o urso-polar e a baleia. Como vivem em ambientes diferentes, a comunicação e colaboração entre ambos seria improvável ou impossível. Freud mostrou-se um péssimo climatologista. Não previu que os buracos na camada de ozônio derreteriam as geleiras e que, em meio ao desastre ecológico, finalmente ursos-polares e baleias poderiam vir a fazer parte do mesmo ambiente. Assim está nossa paisagem clínica hoje, com muitos pacientes da psicanálise tomando antidepressivos e muitos pacientes psiquiátricos aspirando à escuta de seu sofrimento. Quanto a quem será o urso e quem será a baleia, resta a controvérsia.

Divergências entre psicanálise e psiquiatria estão mal focadas. Não há nada de contrapsicanalítico na tese de que a depressão é um desequilíbrio dos mecanismos de produção e recaptação de neurotransmissores como serotonina ou dopamina. Não há nada de avesso à psicanálise no argumento de que a depressão não é tristeza e que ela constitui uma "doença" em sentido lato ou estrito. Considero atitude de principiante acusar a psicanálise de fazer apologia da depressão, ou dizer que ela trabalha na moral da culpa e da "falta de vontade". As diferenças relevantes começam quando examinamos de perto certas suposições sobre as quais há de fato consenso genérico entre psicanálise e psiquiatria.

Dizer que existe uma cocorrência entre desequilíbrio neuroquímico e depressão não autoriza atribuir a esse desequilíbrio uma função causal. Ou seja, ficamos tristes porque há menos serotonina, ou há menos serotonina porque ficamos tristes? O que causa a depressão é realmente a diminuição da recaptação de serotonina no interior dos neurônios, ou esta é apenas uma descrição do processo?

Descobertas sobre neuroplasticidade cerebral, estudos com métodos derivados da neuroimagem e pesquisas comparativas sobre a eficácia de tratamentos psicoterápicos insistem no caráter reversível da equação depressiva. O problema não está em mostrar que a depressão é reversível por meio de intervenções no cérebro, mas em mostrar por que ela também é reversível por meio de inúmeras outras práticas não químicas (psicoterapêuticas, narrativas, experienciais). Hipóteses serotoninérgicas e similares são descritivas, não causais ou etiológicas.

Distinção ética

Dizer que a depressão é uma doença tratável não implica endossar a disciplina higienista, a medicalização massiva e a recusa do detalhamento diagnóstico. A depressão pode ser comparada com a febre. Acontece em vários quadros e significa coisas distintas em situações clínicas distintas. Assim como a febre pode ser contida por antitérmico, a depressão pode ser contida por antidepressivo. É uma temeridade pensar que, se a depressão é um transtorno ou uma doença, então ela deve ser erradicada, pois é algo supérfluo que pode ser tirado sem consequências.

Assim como não se pode continuar a dizer que o sofrimento salva e redime, não se pode dizer que uma vida sem sofrimento seria uma vida feliz e que o sofrimento exprime um tipo de fracasso moral ou déficit químico que temos de eliminar. Há uma distinção ética a fazer entre sofrimento (como categoria moral, que contém uma história, que forma vínculos que unem ou separam pessoas), mal-estar (como posição existencial sobre a condição trágica e cômica de nossos assuntos humanos) e sintoma (como privação de liberdade e realização simbólica de um desejo recalcado).

Dimensões que se cruzam, mas não creio que seja a mesma reflexão ética em cada caso, logo não deveriam exprimir a mesma ambição clínica. Quando perdemos a linha divisória entre sintoma e sofrimento, ou entre sofrimento e mal-estar, acabamos como Simão Bacamarte, o personagem de Machado de Assis (O Alienista) que termina internando toda a cidade no asilo do qual só ele tinha a chave.

Todo sintoma exprime um trabalho subjetivo. Além de um problema, exprime uma forma de "solução" criada pelo paciente. Suprimir isso pode ter consequências. Todo medicamento só é eficaz porque realiza "por outras vias" um trabalho ou função que o organismo ou o sujeito pode fazer em condições normais. Ao introduzir o medicamento sem fornecer meios para que o sujeito recupere a possibilidade de realizar esse trabalho, produzimos uma espécie de "efeito colateral", uma "atrofia" das já debilitadas funções psicológicas requeridas para realizar tanto o trabalho positivo da depressão (como força de reparação e integração) como o trabalho negativo da depressão (distanciamento da experiência e redução da capacidade de satisfação).

Desacordo diagnóstico

Entre psicanálise e psiquiatria há um desacordo diagnóstico e um relativo consenso semiológico sobre a depressão. Por isso a psicanálise não distingue a depressão apenas por sua apresentação típica ou atípica, grave ou moderada, como uma patologia ou transtorno localizado do humor. Todavia, assim como a psiquiatria, a psicanálise considera três grupos distintos de depressão: aquelas que parecem reagir a uma experiência isolável, aquelas que atuam de forma crônica em vínculos intersubjetivos de reconhecimento e aquelas que afetam uma condição ou posição básica e permanente da subjetividade.

Há depressões cujo modelo de formação é o luto patológico. Nelas o sujeito exagera, intensifica ou prolonga a resposta esperada para a perda, ausência ou indisponibilidade de algo ou alguém. Encontramos aqui os mesmos sinais do luto: tristeza, idealização da perda, lentificação da fala, culpa por ter sobrevivido, dificuldade de começar de novo, memória ruminante sobre a perda, indignação, impaciência e irritabilidade contra aqueles que não estão no mesmo "momento pessimista". O traço fundamental aqui é a dor de existir. Vivida no corpo, no impedimento do sono e da alimentação, essa dor tira a "graça da vida".

Há depressões cujo modelo é a crise narcísica. Nelas ocorre uma pane do sistema sociossimbólico de reconhecimento subjetivo do desejo. Ao não reconhecer seu próprio desejo, o sujeito não sabe mais se está indo a favor ou contra seus propósitos. Ele interpreta adversidades como sinal e permissão para a desistência. Os triunfos são sentidos como derrotas e as realizações, como sinais de insuficiência (perfeccionismo). Isso pode fazer com que o deprimido desista de fazer seu desejo reconhecido. Isso ocorre de forma circular. A falta de dedicação aos sonhos e projetos leva a decepções que confirmam a insuficiência e a impotência, reduzindo a autoestima.

O terceiro tipo de depressão refere-se à capacidade psíquica de reconstituir objetos e reparar laços. Em alguns casos essa posição fracassa sistematicamente e então não estamos mais diante de um sintoma ou um diagnóstico de segunda, mas de um quadro clínico dotado de maior autonomia diagnóstica. Fala-se aqui, com restrições, em depressão estrutural. Ela estaria ligada a certas experiências primárias marcadas pela antecipação. No conjunto a depressão não deve ser confundida com a síndrome composta por tais signos, pois ela não é só luto e nem apenas crise narcísica ou impossibilidade de posição, mas exageração, intensificação e prolongamento de um funcionamento psíquico.

Podemos aproximar o modelo psicanalítico da depressão baseada no luto patológico da depressão episódica ou reativa; a depressão narcísica poderia traduzir-se no transtorno distímico e no episódio depressivo maior; finalmente, a depressão estrutural evocaria a depressão melancólica e o transtorno bipolar. Mas o problema não é só de ajuste de nomenclaturas. As boas descrições, psiquiátricas ou psicanalíticas, são feitas tendo em vista estratégias de intervenção e transformação. Elas não são o neutro reflexo das coisas como tais, mas descrições ajustadas e intencionadas conforme fins terapêuticos que lhes são próprios. 

Antidepressivos e inexistência da cura

Isso põe em questão o conceito de cura atinente à depressão. Se entendermos por cura a completa erradicação do mal, sua exclusão permanente e indelével, em todos os tipos e modalidades, espero sinceramente que nunca encontremos a cura para a depressão. Poderíamos nos tornar mais saudáveis, mas seríamos certamente menos interessantes. Se restringirmos a noção de cura ao controle do exagero, à recuperação da autonomia e à melhor orientação na vida desejante, posso dizer que a depressão tem cura. A depressão deve ser tratada com todos os recursos de que dispomos: psicoterápicos, psicanalíticos, farmacológicos, laborterápicos, nutricionais, e assim por diante.

Quanto ao uso da medicação, há algum tempo firmou-se o consenso de que o melhor tratamento para a depressão, excluindo-se o tipo bipolar, é a estratégia combinada de antidepressivos, psicoterapia e atividades complementares. A modalidade mais indicada seria a psicoterapia cognitivo-comportamental (TCC). Contudo, um estudo recente mostrou que a psicanálise apresenta resultados mais consistentes e mais persistentes.

Na verdade, não se trata apenas de um estudo isolado que mostrou isso, mas um tipo de pesquisa conhecido como meta-análise, uma análise de centenas ou milhares de pesquisas tomadas em conjunto comparativo (Leichsenring, F.; Rabung, S. Effectiveness of Long-term Psychodynamic Psychoterapy. Journal of American Medical Association, October, 1, v. 300, n. 13, 2008).

É possível que o antigo consenso apontasse para a maior aptidão da psicoterapia cognitivo-comportamental em conjugar-se ao método psiquiátrico de verificação de resultados. Essa mesma meta-análise trouxe um resultado difícil de interpretar. Em alguns tipos de depressão mais leves a psicanálise, sem uso de medicação, apresenta melhor resultado do que a psicanálise associada com medicação.

O consenso merece ser reformulado para: a utilização de medicamentos é necessária, benéfica e deve ser acompanhada pela participação ativa e continuada do paciente na decisão de recorrer ao tratamento, nas alterações de dosagens, no controle dos efeitos colaterais, no programa de descontinuação, na elaboração da estratégia geral de tratamento. Tal participação não é apenas necessária para maior aderência ao tratamento (evitando os casos, infelizmente cada vez mais comuns, de supermedicalização e emprego continuado de antidepressivos, por décadas, sem supervisão, geralmente em subdoses ou com mediações inadequadas), mas também para evitar a "medicalização selvagem" (por não psiquiatras) e a automedicação.

Vilões da história?

Não gostaria de situar os medicamentos como vilões da história. Tivemos a fase da "pílula da felicidade". Chegamos agora ao momento mais sóbrio, e mais "administrado", por meio do qual o antidepressivo tornou-se banal. Menos do que nos levar ao céu, ele apenas nos afasta do inferno. Uma versão desse debate vale para a eletroconvulsoterapia, que pode ser útil para casos específicos envolvendo catatonia, não responsividade a nenhum medicamento e paralisação geral do contato com o outro.

Ela é simplesmente inadmissível como uso "popular" e "barato" para contornar a inépcia diagnóstica e a ausência de empenho terapêutico. É assustador verificar o retorno dessa técnica sem que se tenha desenvolvido qualquer teoria consistente sobre seu meio de ação, sobre as razões de sua eficácia ou suas consequências iatrogênicas (permanentes em termos de lesões no cérebro e funções psicológicas associadas).

É indignante constatar que os incrementos técnicos na eficácia da ciência médica tenham gerado uma espécie de efeito colateral, a "autoridade biossecuritária", que induz estados de docilidade e passividade não só no paciente, mas nos familiares e responsáveis, diante de técnicas brutais como essa. Infelizmente há muito disso atravessando as políticas de saúde mental.

Ou seja, o medicamento traz efeitos colaterais ruins, mas uma relação ruim com o medicamento traz efeitos ainda piores. Assim como qualquer tecnologia, o que está em juízo é a maneira como nós a empregamos, interpretamos e incluímos em nossa vida. Em alguns casos de depressão, de tipo mais grave, há um difícil dilema clínico. Ao tomar a medicação, o sujeito melhora, mas sente que a vida "perdeu o sabor". Tudo tem "gosto de papelão", a boca seca, o encontro sexual piora, a pessoa sente que está "funcionando bem", mas os picos e oscilações que dão "tempero" à existência desaparecem. Muitas vezes não é uma troca do tipo 3 por 10, mas uma troca do tipo 3 por 5. Entre o urso-polar e a baleia, a única coisa certa é que a água está subindo para todos.

Texto gentilmente cedido e originalmente publicado em Revista Cult